Capítulo 6
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%Matteo% Perroni
Não obter resposta de %Pietra% depois de uma provocação era a mesma probabilidade de chover canivete.
Mandei mais uma mensagem dizendo:
Não conseguiu cuidar nem do seu hamster aos 12 anos. Segui sem resposta, tinha algo errado. Avisei meus soldados que iria subir para falar com %Pietra%, e que se eu não desse sinal verde em 10 minutos, eles subissem. Quando cheguei no corredor, não vi os seguranças que deveriam estar antes da escada conferindo quem sobe para o escritório. Caminhei a passos mais rápidos do que gostaria, bati na porta e ao ouvir ela gritando socorro um turbilhão de pensamentos atingiu minha mente.
Tentei abrir a porta e ela estava trancada, meu sangue ferveu e comecei a tentar derrubar a porta batendo com o ombro. Sem sucesso, fui para trás e chutei com toda a minha força, assim que a vi abrir, peguei a arma do meu coldre enquanto entrava na sala e nem pensei duas vezes; dei dois tiros no homem que estava do lado esquerdo, que caiu morto, vi %Pietra% se apavorar e só de ver aquele terror no rosto dela me quebrou em pedaços. Tentei estudar minhas alternativas, mas eu não podia atirar no que estava encapuzado, apesar da minha mira ser muito boa, ele estava muito perto de %Pietra%, não arriscaria desse jeito.
Fui para cima dele e lutamos corpo a corpo, mas estava difícil, ele estava com arma branca, eu tentava tirar ele de perto de %Pietra%, porém ele parecia entender o que eu estava tentando fazer e sempre recuava. Em um momento que desviei da faca, vi ela ficar branca, seus lábios estavam perdendo a cor e seu corpo parecia perder o equilíbrio. Vê-la daquele jeito me preocupou e foi com a minha distração que o canalha fugiu. Corri até ela e a peguei antes que fosse de encontro ao chão.
Passei a mão pela sua bochecha, estava gelada, o que me deixou ainda mais preocupado, o que eu não esperava era que ela me abraçasse e agradecesse. Aquilo me deixou sem ação, no entanto, quando ela desmaiou em meus braços a minha vontade assassina voltou, minha raiva subiu em níveis estratosféricos, o que eu queria era achar o
figlio di puttana que a machucou. Vi meus homens chegarem correndo e eu continuava de joelhos, com ela desmaiada em meus braços.
— Achamos os seguranças em uma das cabines do banheiro, chefe — um dos meus soldados avisou e eu olhei para ele.
— Achem o desgraçado e tragam para mim… vivo. — Travei os dentes, irritado.
— Limpem isso aqui… — Indiquei com o queixo o homem morto, caído a poucos metros.
Voltei a olhar para %Pietra%, o corte próximo às costelas era fundo, ela estava perdendo muito sangue. Peguei ela no colo e a deitei no sofá, tirei minha gravata e pressionei no corte para estancar o sangue. Tirei meu celular do bolso e liguei para o nosso médico de emergência e ele me instruiu a ir rapidamente ao hospital. Peguei uma toalha no banheiro adjacente ao escritório de %Pietra% e pressionei o ferimento, coloquei ela no meu colo e a levei. Saí pela porta secreta que dava na rua lateral da boate com a ajuda dos soldados e partimos para o hospital que ficava sob a nossa jurisdição, digamos assim.
Entrei pela porta mais discreta, que sempre usávamos no hospital, afinal, era um hospital comum, apenas comandamos o local. O Doutor Andrea já nos esperava com a sala pronta e esterilizada.
— Deite-a aqui, senhor Perroni. — O médico apontou a maca, eu coloquei %Pietra% deitada e ele foi logo examinando-a.
— O quão grave é, doutor?
— A hemorragia foi controlada, então acredito que não tenha perfurado nenhum órgão. Vamos fazer alguns exames para averiguar melhor.
Doutor Andrea fez os exames necessários e confirmou que nenhum órgão tinha sido perfurado, apesar da quantidade de sangue, o doutor disse que ela teria desmaiado de exaustão. Ele fez os curativos necessários, inclusive deu pontos no corte da costela, além dos remédios intravenosos, ele também me deu receita para alguns remédios em comprimido para ela tomar em casa. Eu respirava aliviado que não tinha sido algo mais grave, caso contrário, meu pai surtaria.
— Assim que a bolsa de soro terminar ela receberá alta, Senhor Perroni.
— Ótimo, não vejo a hora de sair desse hospital. — Eu estava irritado, não tinha sinal de que meus homens tinham conseguido pegar o cretino e %Pietra% estava apagada na cama de hospital.
— Boa noite e que a senhorita Perroni se recupere bem, pode me ligar caso precise de algo mais.
— Faço apenas meu trabalho. — Ele acenou em sinal de respeito e saiu do quarto.
Passei a mão pelo meu rosto e cabelo, inquieto, eu queria que ela tivesse me escutado. Nossa relação sempre foi difícil, eu sabia, mais por culpa minha do que dela, mas eu cuidava da segurança da
famiglia e qualquer coisa que acontecia, eu me sentia culpado. Era %Pietra% ali, desmaiada e ferida, e eu não fui capaz de protegê-la, mesmo estando dentro da merda da boate. Eu ia encher aquele lugar de segurança, ela querendo ou não, nem que eu tivesse que cuidar dela pessoalmente 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Não ia deixar ninguém a machucar novamente.
Cheguei próximo dela passando a mão por seu rosto, tirando alguns fios vermelhos do caminho e beijei sua testa. Eu iria caçar esse filho da puta no inferno e torturá-lo da pior maneira possível, não iria permitir que ninguém machucasse alguém da
famiglia e saísse impune.
[...]
— %Matteo%? — Escutei meu nome ao longe e abri meus olhos devagar, situando-me onde estava. — %Matteo%… — Ouvi de novo e sentei no sofá, massageando meu pescoço. Olhei para o lado e vi %Pietra% deitada em sua cama.
— Você está bem? — Cocei os olhos e bocejei, lembrando que eu tinha colocado ela na cama de madrugada e fiquei ali para o caso de ela acordar assustada.
— Acho que… — ela tentou sentar — ai… Minha barriga dói.
— O corte foi fundo, mas não atingiu nenhum órgão. — Olhei o celular vendo que já tinha passado da hora do almoço e levantei, indo até a beira da cama. — Posso trazer algo para você?
— Eu… — Vi ela respirar fundo e acariciar as próprias mãos. — Parece que você tinha razão…
— %Tita%, não pense nisso agora… — Comecei a andar em direção à porta. — Eu vou pedir para a Marta preparar algo para você.
— %Matteo%… — ela me chamou e então me virei. — Eu não… consegui matá-los, eu tive a chance, mas não pude. — Respirei fundo e voltei até ela, que parecia ter lágrimas prestes a sair de seus olhos, sentei na beirada da cama.
— Você não é assim… — Acariciei seu rosto e olhei bem nos olhos verdes, que me encaravam surpresos, talvez pelo gesto de carinho, mas eu estava tão abalado quanto ela com tudo que aconteceu. — Deixe esse trabalho sujo para mim — disse sorrindo de leve, fazendo menção ao que ela já dissera muitas vezes para mim.
— Eu nunca quis dizer que… — Ela se exaltou e fez careta, segurando a barriga, então voltou a me olhar. — Desculpa.
— Não precisa, estou feliz que esteja bem, mas quase perdi você, %Pietra%. Deve voltar a treinar. — Dei um beijo no topo da cabeça dela e levantei do colchão. — Quando se recuperar, começamos, tudo bem?
— Você vai me treinar? — ela falou espantada e eu apenas continuei andando até a porta.
— Sim, serei sua sombra a partir de agora até aceitar os malditos soldados na boate.
— Pode colocar quantos quiser… — olhei para ela surpreso de que ela aceitou tão rapidamente —, mas aceito o seu treinamento. — Sorri e pisquei o olho direito para ela, concordando antes de sair do quarto e soltar o ar com força.
Desci a escada com um peso em meu peito, tudo pelo que passamos, todas as brigas, provocações,
não valia a pena. Meu pai podia estar certo quanto a manter as garotas longe dessa parte da máfia, mas elas já eram adultas e sabiam de tudo. %Pietra% era a mais próxima da parte ilegal que poderia ser descoberta pela polícia, isso não a incomodava, mas a violência sim.
Não posso mantê-la longe de mim por mais nem um dia, quase a perdi e eu me culparia para o resto da vida por não ter sido capaz de protegê-la ou ter sido alguém que ela não queria ter por perto. Tudo que fiz foi tentar proteger ela de mim, do monstro que me tornei desde que entrei para a
Vincere, porém, talvez eu estivesse enganado.
Não era de mim que ela precisava ser protegida, era eu que precisava proteger ela do mundo. Continuei caminhando em direção à cozinha. Naquela hora todos já deviam ter almoçado, esperava que meu pai não estivesse presente. Quando ele não estava, cada um almoçava em uma hora diferente, e ninguém percebia a falta de ninguém, era com isso que eu estava contando.
— Cadê a %Tita%? — Virei e vi Giulia parada no meio do hall de entrada.
— O que foi aquilo ontem? — Arregalei os olhos e a puxei para um canto.
— Eu vi as câmeras, %Matteo%! — Giu ralhou comigo e eu bem que merecia, não avisei ninguém do que aconteceu, parecia conveniente todos estarem dormindo na hora que chegamos. — %Pietra% saiu desacordada e ensanguentada da boate pela porta secreta.
— Nada passa despercebido por você, hein, maninha? — Ela deu de ombros. — Giu, deixe isso entre nós.
— Como assim, %Matteo%?! — Ela se exaltou.
— Nosso pai está com os nervos à flor da pele por causa dos negócios e dos Delantera terem ressurgido — expliquei. — Se ele descobrir, fará uma besteira. — Vi ela bufar e cruzar os braços. — Mas pode me ajudar a descobrir quem foi…
—
Dimmelo, lo ucciderò… (Me diga, vou matá-lo) — disse, com o ódio nítido em seus olhos.
— Não vai sujar suas mãos. — Franzi o cenho e ela colocou as mãos na cintura.
— Giu! — falei repreendendo-a e minha irmã revirou os olhos. — Só invada as câmeras de segurança públicas e tente achá-lo, ele estava de capuz, saiu da boate por volta da 1:34. Nas câmeras da boate não conseguimos ver o rosto…
— Acharei esse verme nem que seja a última coisa que eu faça!
%Pietra% Alonso Perroni
%Matteo% saiu do quarto me deixando completamente perdida. O que tinha acontecido para ele mudar da água para o vinho em um dia?
Eu franzi o cenho pensando na quantidade de vezes em que %Matteo% se comportou de forma carinhosa comigo e eu podia contar nos dedos de uma só mão. Respirei fundo e olhei meus machucados, curativos nos braços e quando levantei a blusa que eu estava, vi o curativo maior na costela. Percebi também que estava com a mesma calcinha e o mesmo sutiã do dia anterior, então talvez tenha sido %Matteo% a trocar minha roupa.
Joguei a cabeça nos travesseiros e encarei o teto, eu ainda tentava entender se eu ter sido atacada tinha causado tanto efeito assim nele, eu era realmente importante pra ele? Quando foi que… ele disse que quase me perdeu? Aquilo estava fora de cogitação, %Matteo% estava drogado e não sabia o que falava. Eu sabia que éramos
famiglia, mas ele ficar tão mexido assim era bem esquisito.
Céus, já podia sentir a dor de cabeça de tanto tentar desmistificar esse enigma. Levei a mão até a testa e me afundei nos travesseiros. Eu tinha acordado em um mundo paralelo onde meu meio-irmão não era um completo idiota; sorte a minha,
eu acho.
Marta trouxe meu almoço, e eu comi tudo rapidamente pois estava faminta. Aproveitei para pegar meu celular e estava planejando com Giovanna sobre ela cuidar da Fascino pra mim por alguns dias, quando escutei batidas na porta. Assim que liberei a entrada, Giulia passou pelo arco da porta e correu até mim para me abraçar, sorri e a envolvi com meus braços, correspondendo ao seu carinho.
— Fiquei com tanto medo,
sorella… — falou abafado, com o rosto enfiado em meu ombro.
— Tá tudo bem, Giu, eu estou bem. — Ela se afastou, enxugando as lágrimas. — %Matteo% chegou na hora certa.
— Ele pediu para não comentar com ninguém… — ela falou como se fosse absurdo.
— Entendo o pensamento dele. — Dei de ombros. — Papai ficaria louco, Giu, acabaria metendo os pés pelas mãos.
—
Mio Dio, vocês pensam igual!
— Estamos longe disso, mas nessa concordo com ele. — Soltei o ar com força. — Ele disse que preciso voltar a treinar…
— Agora sou eu que vou ter que concordar. — Minha irmã levantou e colocou as mãos na cintura. — Você poderia ter morrido, %Pietra%!
— Assim que se recuperar, chame Clara e volte aos treinos.
— %Matteo% disse que me treinaria.
— E você aceitou?! — Ela arregalou os olhos como se eu tivesse dito o maior dos absurdos.
Tudo bem, eu e %Matteo% não éramos as duas pessoas que mais se davam bem nesse mundo, porém, acho que conseguiríamos treinar juntos.
— Sim, %Matteo% foi o mais bem treinado de nós, acho que ele não vai ser tão mau assim… — Dei de ombros.
— Sabe que não é por isso que estou surpresa…
Batidas na porta puderam ser ouvidas e logo %Matteo% a abriu, perguntando se poderia entrar, eu assenti. Ele me deu alguns remédios e um copo d'água, tomei todos e agradeci. Ele estava cuidando de mim naquele momento como ele não cuidou durante todos esses anos, acreditava que ele tinha olhado por mim muitas vezes, porém, mais como segurança da família do que como um irmão. Não nos considerávamos assim, nenhum laço fraternal foi criado e esse também foi um dos motivos que nos manteve afastados.
Éramos dois estranhos que moravam sob o mesmo teto, sempre foi assim, e eu não sabia se estava pronta para uma mudança tão drástica.
[...]
— Mais forte! — Soquei o saco de areia mais uma vez. — Vamos, %Tita%, já faz 2 semanas que estamos treinando…
— E eu estou pior do que o primeiro dia? — Franzi a sobrancelha enquanto desferi alguns socos.
— Não, mas pode melhorar.
— Ah, %Matteo%, vai se foder… — Revirei os olhos e tentei acertar um soco nele, mas ele me pegou pelo braço e, em segundos, eu estava no chão com %Matteo% de joelhos ao lado da minha cintura, ainda segurando meu braço.
Minha respiração estava ofegante pelo susto de ter sido girada no ar e mal ter visto o que ele fez para eu parar no chão.
— Que boquinha suja... — Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu travesso. — Vou ter que te ensinar bons modos depois de adulta?
— Os treinos são para você apanhar, %Matteo%? — perguntei, rindo de forma ácida.
— Você acha mesmo que consegue? — Ele riu, debochado.
— Quer testar a sorte? — Levantei ambas as sobrancelhas para dar ênfase.
Como a guarda dele estava baixa, dobrei meu joelho e o empurrei, fazendo ele cair no chão, deitado, subi em cima dele e então agarrei seu pescoço, forçando-o contra o tatame, ele deu um risinho convencido e me girou, colocando-me no chão novamente. Seu joelho prendia meu braço direito, assim como sua mão segurava meu pulso. Seus olhos focados nos meus, com aquele sorrisinho convencido nos lábios, que sempre me irritava, porém percebi que naquele momento, foi mais motivacional do que irritante; chegava até a ser…
— Então, quer desistir? — perguntou, cortando o silêncio e me trazendo de volta à situação.
— Só por cima do meu cadáver.
Ele realmente levou a sério minha provocação e desferiu um soco na direção do meu rosto, porém, consegui me defender com o antebraço esquerdo, levando seu pulso até minha mão direita, prendendo-o. Impulsionei meu quadril para cima ao mesmo tempo que empurrei ele com toda a minha força pelo cotovelo, conseguindo tirá-lo de cima de mim. Voltei a estar em cima dele, dessa vez, segurando seu braço. Seu olhar em mim estava diferente, eu podia sentir os olhos negros fixos sobre mim, mas o que passava pela cabeça de %Matteo% era indecifrável.
Eu não podia deixar de notar que fazia alguns dias que o idiota estava despertando em mim algo além da raiva rotineira, o que era uma grande novidade, entretanto, ainda não sabia definir bem o que era. Talvez a ligação que devíamos ter criado há anos estivesse sendo construída agora, pedrinha por pedrinha, o que me deixava um pouco receosa era se viria uma tempestade para derrubá-las.
— Estou orgulhoso… — disse, cheio de si.
— Idiota… — Saí de cima dele e me joguei no tatame, respirando fundo, encarando o teto da academia que nós tínhamos na mansão.
— Preciso ir… — ele disse, ainda deitado do mesmo jeito que eu.
— Não estou te segurando, Perroni…
— Não mais... — %Matteo% falou com um sorrisinho provocativo no rosto, levantou e me olhou de cima. — Amanhã às 8 horas. — Ele seguiu para a porta.
— Sim, treinador — respondi com ironia.
— Gosto quando me obedece. — A porta se fechou e eu levantei meu tronco, ficando sentada, com a boca entreaberta.
[...]
Como em todos os anos, eu e minhas irmãs temos o dia todo de esquenta e arrumações para a festa do papai. A gente se tranca no nosso Spa, faz várias máscaras no rosto, hidratação nos cabelos, chamamos algumas manicures para fazer nossas unhas e, finalmente, maquiadoras para nos deixar prontas para o grande baile. Tínhamos feito nossas unhas antes do almoço e, no momento, já fazíamos uma máscara de argila rosa para acalmar a pele. Todas nós bebíamos champanhe e conversávamos sobre banalidades. Era tão bom ficar com as minhas irmãs, eu sentia falta das festas do pijama que fazíamos há alguns anos, na adolescência.
Nossos assuntos favoritos eram os meninos da escola, as séries que a gente assistia juntas ou então sobre como seria nossa vida adulta e, pelo que conversávamos naquela época, posso dizer que nada foi como imaginávamos. Além das últimas 3 semanas terem sido conturbadas com os preparativos finais da festa de aniversário de Otelo, eu e %Matteo% estávamos treinando juntos e por incrível que pareça, a gente ainda não tinha se matado nesse meio tempo.
Quando contei sobre tudo para Beatrice e Luna, elas ficaram irritadas e disseram que eu devia engolir meu orgulho e concordar com %Matteo%. Isso foi antes de eu dizer que tinha aceitado os seguranças na boate e que ele me treinaria, depois daí foi só ladeira abaixo. Elas ficaram chocadas por eu ter aceitado tudo de bom grado, o que não era tão verdade assim, apenas entendi que ele estava certo, por mais que eu nunca fosse admitir isso em voz alta.
— Faz semanas que estão treinando e ninguém saiu de casa ainda? — Beatrice perguntou, impressionada.
— Estamos fazendo progresso… — Giu comentou.
— Animador… — disse eu, rolando os olhos. — Não faça tempestade em copo d'água.
— Quem? Eu? — Giulia colocou a mão no peito como se estivesse ultrajada. — Imagina, %Tita%, super comum você e o %Matteo% se dando bem.
— Meninas, não exagerem… — Luna começou, então sorri confiante, achando que a minha irmã sensata iria ficar do meu lado. Ledo engano. — Nos primeiros 6 meses que %Matteo% chegou, foi ótimo.
— Nossa, Lu, obrigada. — Elas começaram a rir e eu levantei, indo em direção à porta.
— Ei, estamos brincando, onde vai? — A ruiva ainda ria ao me perguntar.
— Colocar meu vestido e terminar de me arrumar, é o melhor que faço. — Saí do banheiro bufando.
Coloquei o vestido rosé que tinha escolhido para a ocasião, ele tinha um corpete estruturado tomara que caia, algumas pedrarias enfeitavam meu busto e o tecido fluido descia até meus pés, com uma fenda profunda do lado esquerdo. Coloquei um scarpin nude e a maquiadora fez uma maquiagem leve, iluminada e um delineado preto nas pálpebras, além de um batom vermelho vinho belíssimo. Olhei meu reflexo e gostei do que vi. Eu estava bem bonita com meu cabelo solto, que descia até o meio das minhas costas, havia colocado apenas uma presilha do lado direito.
Saí do meu quarto e vi que a porta do nosso banheiro estava aberta e o andar inteiro estava silencioso, talvez eu tivesse demorado demais. Ouvi a música ambiente e o som das conversas no andar de baixo, caminhei firme sobre meus saltos e desci a escada notando a casa cheia. Um garçom parou na minha frente assim que atingi o último degrau, oferecendo-me champanhe, peguei uma das taças e agradeci. Dei um gole no líquido e fechei os olhos, sentindo cada sensação que as bolhas causavam em minha língua, depois garganta e por fim um certo frescor que acentuava em minha boca.
Caminhei cumprimentando os nossos capitães que não trabalhavam diretamente com o alto posto da família, ou seja: papai, %Matteo%, eu e minhas irmãs. Sorri para os associados, esses não fazem parte direta da máfia, mas ajudam de alguma forma, seja com sua influência ou poder na sociedade. Vi Giulia perto da porta de vidro que ia para o jardim, soltei minha taça já vazia na bandeja de um garçom que passou por mim e fui caminhando até ela, no entanto, um homem bem bonito me parou no caminho.
— Olá… — Sorri simpática.
— Meu nome é Simon, é um prazer conhecê-la. — Ele pegou minha mão, depositando um beijo no dorso.
— Pensei em… — Ele colocou a mão em minha cintura para falar próximo do meu ouvido devido à música alta. — Conversarmos enquanto bebemos algo…
Não tive tempo nem de pensar o que responder, senti uma mão possessiva do outro lado da minha cintura e aquela presença imponente que eu conhecia. Simon recuou dois passos e olhou mais para cima, então virei meu rosto para o lado e vi o idiota.
— Achei que era a hora para a nossa dança… — Ele sorriu de forma sedutora. Como nunca reparei nisso? Ou será que essa foi a primeira vez? Eu estou perdendo a cabeça, sinceramente. — Com licença, Simon. — Ele me puxou até o meio da pista de dança e juntou nossos corpos. — Faz alguns anos que você evita a dança dos herdeiros.
— Não se matem… — Beatrice falou ao passar ao nosso lado dançando com meu pai, que sorriu feliz por nos ver próximos sem estarmos discutindo.
Respirei fundo e aceitei que não teria escapatória naquele ano. %Matteo% me afastou segurando minha mão e seus olhos me mediram de baixo para cima, aquele mesmo olhar novamente. Voltei rodopiando, enrolando seu braço em minha cintura até meu quadril encostar em sua perna. Virei o rosto para a esquerda, levando meus olhos até os dele e engoli em seco, que merda estava acontecendo ali? Senti um arrepio em meu corpo assim que ele me girou de novo e senti a ponta de seus dedos nas minhas costas desnudas quando ficamos cara a cara.
— Parece estar aproveitando. — %Matteo% sorriu e senti um de seus dedos descer devagar pela minha pele, até onde a parte de trás do meu vestido permitia. Seus lábios grudaram em meu ouvido e ele ousou dizer as seguintes palavras: — Está muito bonita,
cariño. Arrisco a dizer que está mais sexy do que quando te vi em meio às bolhas na banheira. — Meus olhos arregalaram na mesma proporção que meu corpo esquentou de um jeito que eu não esperava.
Ele se afastou, dando-me a visão dos olhos negros mais uma vez e então soltei o ar, que eu nem reparei ter prendido, sem deixar nosso contato visual, contudo, fiz uma besteira de forma involuntária; olhei para boca dele e umedeci meus lábios. Senti sua mão apertar minha cintura e aquilo me deixou ainda mais desorientada.
Eu só podia estar ficando louca!
— Preciso… falar com a Lu. — Saí quase correndo dos braços de %Matteo%.
Cheguei às portas da varanda completamente desorientada, olhei para os lados sentindo minha respiração descompassada, eu sentia minhas pernas perdendo as forças. Olhei para o lado de fora e vi Nero fumando um cigarro próximo à piscina, tudo que eu precisava naquele momento. Dei passos cuidadosos para meu salto não fincar na grama e eu cair, pedi um cigarro ao capitão de confiança de meu pai e sorri agradecendo.
— Caralho… — murmurei assim que me vi sozinha no jardim. Coloquei a mão em meu peito e meu coração batia rápido. Na minha cabeça não tinha explicação para o que tinha acabado de acontecer.
Não quando tudo que eu deveria sentir por %Matteo% era o mais puro ódio.