Capítulo 13
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%Pietra% Alonso Perroni
Definitivamente a ressaca moral era pior do que a dor de cabeça que eu estava sentindo. O que merda eu fiz ontem? Subi em cima do balcão do bar, lambi o abdômen do meu funcionário na frente de toda a boate, briguei com a Luna a troco de nada e não lembrava como tinha chegado em casa. Olhei para o lado e gritei, caindo da cama, levantei do chão e espiei pela beirada do colchão.
— Giovanna… — Coloquei a mão no peito agradecendo mentalmente por ser ela, já estava pensando que tinha cometido alguma loucura.
— Que horas são? — ela perguntou e eu peguei o celular na mesa de cabeceira e olhei no visor.
— Maravilhoso dormir até as 15 da tarde. — Ela se espreguiçou na cama. — E seu colchão é muito melhor que o meu…
— Como chegamos? — Levantei do chão e sentei na cama novamente. — Depois do show que eu dei, não lembro de nada.
— Seu show nos rendeu muita gente bêbada, muita droga vendida e muito mais dinheiro para o nosso caixa. — Ela sorriu e se ajeitou, sentando na cama e pegando seu celular. — Ettore e Austin me ajudaram a colocar você no carro e nos trouxeram.
— E você me trocou? — Olhei para baixo percebendo o pijama.
— Eu dei banho em você, %Tita%. — Ela riu. — Nunca vi você bêbada daquele jeito, você estava irredutível dizendo que precisava se arrumar pra guerra, eu não entendi nada.
Automaticamente lembrei dos olhos de %Matteo% em mim na noite anterior, era tudo que vinha à minha mente, aqueles olhos soturnos, me encarando com um ódio diferente do usual de quando irrito ele por algo que ele acha ser inconsequência minha.
— Poderia me explicar? Agora que está sóbria… — Ela me tirou dos meus pensamentos.
— Não faço a mínima ideia. — Levantei e fui para o banheiro, quando voltei a loira seguia mexendo no celular. — Ei, quer que eu peça pra Marta trazer o almoço?
— Podemos? — Ela me olhou como uma criança que vai ganhar um presente e eu ri, pegando meu robe de cetim e o vestindo.
— Eu já volto, vou trazer água e uma aspirina antes que eu prefira pular da varanda do que enfrentar essa dor de cabeça. — Abri a porta do quarto e a fechei antes de sair.
Caminhei pelo corredor e, através das grandes janelas de vidro, vi as minhas irmãs na piscina, parei por alguns segundos e suspirei. Precisava me acertar com Luna, não foi justo o jeito que falei com ela e acredito que ela esteja certa, nós três sempre estamos ocupadas demais. Desci os degraus e fui até a cozinha, pedi para Marta levar algo pra eu e Giovanna almoçarmos enquanto pegava uma jarra de água gelada e um pote de aspirina. Pedi também um suco de melancia, sabia que iria ajudar na ressaca.
— Bom dia. — Olhei de canto de olho, já sabendo a quem aquela voz pertencia. — Está com raiva de mim?
Ele se fez de bom moço na frente dos empregados, claro, típico. Virei para ele e dei um sorriso falso.
— Bom dia, %Matteo% — falei antes de sair da cozinha e ir em direção à boa paz do meu quarto.
— %Tita%… — Ouvi sua voz quando já estava no meio da escada, fechei os olhos soltando o ar pelo nariz e virei. — Precisamos conversar.
— Não lembro de ter nenhuma pendência com você. — Olhei pra cima fingindo pensar em algo.
— Estava interessada em ter alguns dias atrás… — %Matteo% me comeu com os olhos e senti meu corpo esquentar de uma hora pra outra.
— %Matteo%… — Ouvi a voz abusada, que piorou o estado da minha dor de cabeça, e sorri debochada para ele. — Nosso lanche está pronto na piscina. — Carolyn chegou próximo dele se agarrando em seu braço. Patética. — Boa tarde, %Pietra%. — Meneei a cabeça e subi o restante dos degraus, entrei no quarto e Giovanna virou, me encarando enquanto colocava uma camiseta minha.
— Tá tudo bem? — Ela franziu o cenho e eu nem sabia que expressão eu estava fazendo, mas sabia que seja lá o calor que me acometeu antes se tornou automaticamente de raiva, tentei disfarçar curvando os lábios.
— Está. — Caminhei até o aparador no canto do quarto e larguei a jarra, peguei dois copos, que já ficavam ali, servi a água e tomei uma aspirina. — Marta disse que em 15 minutos a comida estará aqui. — Dei outro copo a Coppola e um comprimido.
— Obrigada, %Tita%. — Ela pegou o copo e tomou o remédio, dei a volta na cama e deitei novamente em meu lugar, pegando meu telefone em seguida. — Eu vou precisar ir embora depois de almoçar…
— Aconteceu alguma coisa?
— O Vince mandou mensagem… — Ela abaixou os olhos e isso já me deixou ansiosa esperando o que ela iria dizer. — Ele pediu para eu ir até o hospital.
— Giovanna — mordi o lábio em nervosismo e a abracei —, não vai ser nada. Ele deve receber alta do hospital e quer sua ajuda.
— Espero que esteja certa.
[...]
E o que a gente mais temia aconteceu, Vincenzo tinha despertado a doença de Gaucher e Giovanna tinha ido ficar com ele no hospital, eu dei licença para os dois, o tratamento era difícil e seria bom ele ter Coppola do lado. Depois de saber do diagnóstico, me tranquei no escritório da boate, mal parava em casa, trabalhava até a exaustão, estava bebendo mais do que o normal – que já era muito –, e tentando não surtar com meu melhor amigo no hospital, minha melhor amiga triste e um casamento arranjado na família de brinde. Apoiei meus cotovelos na mesa e respirei fundo passando a mão pelo rosto, eu estava exausta, estressada e preocupada, o melhor combo para a ansiedade.
Decidi sair daquele escritório, ele começou a me parecer sufocante, sentei no banco alto pedindo para Cristian preparar um martini para mim. Sentia falta dos meus melhores amigos, sentia falta de me sentir bem e feliz com a minha vida.
— Certo, eu sei que parece loucura, mas sinto que precisa de ajuda por aqui…
Escutei aquela voz conhecida quando dava um gole em meu drink e virei a cabeça devagar, com minha taça ainda no ar, vendo Beatrice parada na entrada da boate. Franzi as sobrancelhas e ela caminhou até mim, sentando no banco ao meu lado.
— Outro desse aqui, ruivinho.
— Pode deixar, ruiva. — Garcia piscou para ela e se virou para preparar a bebida.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, confusa com a presença dela, e coloquei minha taça no balcão.
— Eu te ajudei no começo, posso te ajudar agora. — Ela sorriu empinando o nariz. — Ainda lembro dos velhos tempos que a gente comandava isso aqui… até, claro, a Giovanna roubar meu lugar. — Beatrice torceu os lábios me recriminando.
— Beatrice, não fode, a Giovanna é formada em gestão e você em química. — Estalei a língua e dei mais um gole em meu drink. — Não fazia o menor sentido você continuar aqui…
— Eu estou brincando, %Tita%, credo! — Ela revirou os olhos e eu virei o resto do líquido, pedindo mudo para Cristian fazer mais um. — Eu sabia que você não estava bem… — Olhei para ela de canto de olho. — Estou preocupada, %Tita%, todas nós estamos.
— Achei que eu fosse só uma filha da puta tentando preencher o vazio trepando com meus barmans… — falei com amargor, e Cristian me olhou piscando os olhos várias vezes, surpreso, enquanto colocava as duas taças no balcão. Apenas balancei a cabeça em negativo, para ele relevar aquilo e o ruivo virou para continuar seu trabalho.
— %Pietra%… — Beatrice suspirou e continuou: — A gente te ama, você sabe disso. Está evitando ficar em casa por causa das gêmeas?
— Não, Beatrice, só não estou com cabeça para lidar com o drama matrimonial na nossa família enquanto meu melhor amigo está internado.
— A gente sabe sobre o Vincenzo. Por favor, venha para casa hoje. — Minha irmã me encarou com aqueles olhos brilhando, cheios de honestidade, e eu respirei fundo.
Beatrice sempre foi a mais explosiva de nós, mas também era a que mais nos unia, a que mais nos protegia na escola. Por mais que eu fosse a mais velha, sempre fui muito na minha, sempre fui a que evitava discussões, até %Matteo% chegar na mansão. Ele me tirava do sério de um jeito que ninguém mais conseguia, as minhas irmãs ficaram chocadas quando eu discuti a primeira vez com ele. Claro, eu era centrada, sempre fui, porém, ele conseguiu despertar o monstro que vivia no fundo de mim, algo que eu guardava e nem sabia. Acreditava que a raiva que eu sentia de ter sido abandonada pela minha mãe sempre tivesse ficado contida, no entanto, o idiota fez questão de trazer isso à tona.
%Matteo% me chamou de órfã, que meu pai tinha me comprado, e aquilo doeu, doeu como o inferno. Eu parti para cima dele, rolamos no chão trocando socos e chutes, e quando papai viu aquilo, foi definitivo. Ouvi os gritos de %Matteo% à noite, não sabia o que Otelo tinha feito com ele, mas no dia seguinte eu vi as marcas em seus pulsos, algo que só um cinto ou algo pior poderia ser capaz de fazer. Me lembro da sensação que tive naquele momento, senti pena dele, mas foi a única vez, éramos apenas adolescentes e ele tinha sido tirado da mãe dele, que foi quem o criou, não imagino o tamanho do sofrimento que ele sentiu com tudo aquilo, mas isso não era desculpa para ser babaca.
— A gente precisa conversar e se entender, somos família, %Pietra%. — Levei os olhos, que estavam fixos na azeitona fincada pelo palito que eu mexia entre meus dedos, até ela e assenti concordando. — Vou voltar para a
Fascino para ajudar você.
— De verdade, Bea, não precisa… eu dou conta.
— Eu sei que dá, mas eu quero. Cansei de ficar trancafiada no laboratório. — Ela virou o drink e levantou. — Te espero em casa às 19.
— Pela sua cara será uma longa noite… — Juan se aproximou quando minha irmã foi embora, trocando a minha taça vazia por uma cheia.
— Você não imagina o quanto. — Murchei os ombros. — Eu amo minhas irmãs, mas o drama que ronda nossa família me deixa exausta.
— Toda família tem questões difíceis, %Pietra%.
— A minha parece um buraco negro deles… — Suspirei dando um gole na bebida. — E por mais que você tente se manter longe, eles te sugam para o centro do problema.
— Caso precise se distrair, conheço algumas formas…
— E que formas seriam essas? — Sorri libidinosa e ele me encarou sugestivo, abaixou lentamente, se debruçando no balcão, mas antes que ele pudesse responder, Cristian surgiu novamente, fazendo com que eu levantasse e ergue-se a taça em agradecimento, indo para o escritório.
Saí da boate por volta das 19:45, eu sabia, eu estava atrasada, já tinha recebido 4 ligações de Beatrice e ignorado todas. Porra, eu tava indo pra casa, custava esperar? Desci do carro e inclinei meu corpo para pegar minha bolsa que estava no banco do passageiro, quando meu braço foi puxado. Arregalei os olhos virando com rapidez para ver quem era e relaxei.
— Caralho, Beatrice, quer me matar do coração? — falei mais alto, soltando o ar com força pela boca.
— Eu sei, precisei deixar tudo funcionando na boate, deixei o Cristian para supervisionar e não sei se isso foi uma boa ideia. — Peguei a bolsa, fechei a porta do carro e acionei o alarme.
— Não confia nele? — Caminhamos para dentro de casa, larguei minha bolsa e olhei para ela suspirando.
— Confio, claro que confio. — Segui até o bar da sala de jantar e preparei um martini. — Estou receosa e nervosa, deve ser a falta da Giovanna.
— Amanhã eu estarei lá. — Ela sorriu, animada e me guiou até a área da piscina..
— Não achei que estaria tão… — Olhei as gêmeas sentadas na grande mesa de madeira, tinha várias comidas em cima dela, velas e pisca-pisca por todo lado. Sorri com as lembranças que me invadiram, quando fazíamos aquilo na adolescência e ficávamos horas conversando e nosso pai gritava do segundo andar para irmos dormir. — Não acredito que fizeram isso.
— Desculpa, %Tita%. — Luna foi a primeira a me abraçar.
— Eu que devo desculpas,
sorella, agi com uma
stronzo. — Beijei o topo da cabeça dela e afastei-me para olhá-la nos olhos. — Deveríamos nos reunir mais vezes. Você está certa, estamos tão focadas no trabalho que esquecemos o que realmente importa no fim do dia. — Olhei para Giu e Beatrice, que sorriam. — Venham cá! — Abri os braços e nós quatro nos abraçamos. — Vamos ter ao menos um dia da semana em que vamos fazer isso… Como nos velhos tempos. — Elas sorriram concordando.
A gente precisava mesmo daquela noite. Com tudo resolvido eu me sentia um pouco mais eu novamente, um pouco mais parte dessa família e feliz por ter minhas irmãs mais unidas de novo. Luna, Giu e Beatrice são meu mundo, são as melhores pessoas nele e eu jamais queria perdê-las ou ficar brigada por uma coisa tão estúpida. Eu estava fora de mim no dia da festa, o estresse em arrumar tudo, a pressão toda nas minhas costas e aquela mulher candidata a esposa perfeita me irritava.
Realmente as responsabilidades e preocupações podem fazer a gente se comportar de formas esquisitas e eu sentia que aquela noite com elas tinha melhorado não só o meu dia, mas meu mês. Elas eram o melhor de mim, eu tinha certeza disso. Sorri enquanto colocava o roupão atoalhado após sair do meu banho, caminhei pelo quarto, iluminado apenas pela luz do closet, até a mesa de cabeceira, abri a gaveta e tirei uma carteira de cigarro que ficava ali para emergências. Peguei o isqueiro e abri as portas duplas da minha varanda, acendi o cigarro e me debrucei no guarda corpo aproveitando a brisa fresca que arrepiava meu corpo.
Respirei fundo aproveitando o momento e olhei para o céu, pedia ao hipotético Deus que tirasse Vincenzo dessa, que ele conseguisse viver com essa maldita doença até os 100 anos, eu e Giovanna não podíamos perdê-lo. Éramos um trio desde a escola, não aceitaria que a morte o tirasse de mim.
Ouvi risadas e franzi o cenho, olhei para a esquerda, onde tínhamos uma piscina menor com hidromassagem, vi três silhuetas, já que a piscina era iluminada apenas pelas luzes internas dela. Arregalei os olhos quando vi os três se pegando de um jeito bem sensual, não podia deixar a minha curiosidade ganhar a discussão que estava em minha mente naquele momento: ir lá embaixo ver quem eram as pessoas. Terminei o cigarro e entrei no quarto fechando as portas atrás de mim, mordi o lábio e olhei para cima, se eu fosse pegar água na cozinha e por acaso eu passasse pela piscina dos fundos?
— Quando foi que me tornei uma pessoa a ter 0 autocontrole, porra.
Caminhei a passos lentos pelo corredor, sentindo que eu estava fazendo uma coisa muita errada, desci a escada e fui direto até a cozinha, servi água em um copo e fiquei andando de um lado para o outro dando pequenos goles na água e pensando no quanto eu estava sendo enxerida. Era melhor eu só voltar ao meu quarto. Dei alguns passos em direção à escada principal, mas ouvi vozes que eu conhecia bem: aquela indevida que se instalou na minha propriedade e o idiota. Acabei fazendo a volta e saindo pelos fundos, soltei o ar aliviada por não ter que esbarrar com aqueles dois de madrugada, seria péssimo. Naquele momento me vi muito perto da piscina.
— %Pietra%, se controla, você consegue… — Fechei os olhos e fui em direção à escada dos fundos sem espiar pelas janelas, mas o que eu não esperava era escutar um nome.
— Ah, Luna… — Abri os olhos em espanto ao ouvir o gemido, voltei alguns passos e me aproximei do vidro, tirando a cortina da frente e minha boca se abriu em absoluto choque.
[...]
Eu sentia o olhar de %Matteo% em mim mesmo não olhando para ele, a porra da mulher que ele vai casar tá sentada do lado dele, mas Carolyn está muito iludida ou caída de quatro pelo idiota pra notar qualquer coisa. No entanto, isso não vinha ao caso, estava ansiosa e bem mais preocupada em contar pra Beatrice o que eu tinha visto, fazia 2 dias que guardava em minha mente aquilo, não podia mais, tinha chegado no meu limite.
Luna era a mais inocente de nós, pelo menos era isso que eu pensava, ela estava mesmo transando não com um, mas com dois dos nossos soldados. Eu não queria ter que participar dessa confusão caso o nosso pai descobrisse, céus, ele mata os dois e pendura na fonte da frente de casa para servir de exemplo para os outros soldados. Era um segredo muito sombrio pra guardar só pra mim.
— Beatrice, vamos? — Sorri simpática tentando disfarçar minha urgência em ficar a sós com minha irmã, agradeci quando ela apenas assentiu. — Tenha um ótimo dia, papai. — Otelo beijou minha testa e logo depois a de Beatrice.
— Tenham um ótimo dia, princesas.
Como já estávamos de costas, Beatrice fez careta, ela odiava que ele nos chamasse assim, comecei a rir e a puxei pela mão. Sussurrei que precisava contar uma coisa, mas não sem um drink antes, seria necessário. Entramos no carro e dirigi para a
Fascino com certa pressa. Entrei já pedindo para Juan fazer dois martinis, ele tinha aprendido rápido, Cristian estava ensinando os drinks que mais saíam da casa para ele poder ajudá-lo enquanto Vincenzo não estava de volta. Nós duas sentamos nas banquetas e a ruiva me analisava interrogativa. Assim que os drinks estavam à nossa frente, dei um gole e olhei para ela.
— Não vai beber? — perguntei.
— Credo… — Aproximei-me dela e cochichei. — Vi a Luna aos beijos com Ettore e Austin.
— O QUÊ?! — ela gritou e mantinha os olhos arregalados.
— E antes fossem só beijos. — Dei mais um gole generoso do líquido e vi ela virar o drink dela inteiro.
Agora sim, a reação que eu esperava, ainda bem que eu sabia que o álcool seria necessário, antes ou depois da informação.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos e então finalmente falou:
— Acho que ninguém precisou, Beatrice. — Levantei a taça vazia olhando para Juan e ele assentiu. — Ela é adulta. — Olhei para a ruiva, que continuava em absoluto choque, estava pior do que eu que vi ao vivo.
— Eu sei. Foi a primeira coisa que pensei, eu gosto deles e gostaria de manter os meus seguranças. — Massageei a têmpora buscando uma solução para resolver aquele impasse. Juan trouxe mais duas taças cheias e pegou as vazias. — Obrigada, Alvarez.
— Disponha, chefe. — Ele sorriu e piscou para mim, então me distraí olhando as costas largas, lembrando daquele lobo imenso tatuado, os músculos deixavam o desenho ainda mais bonito.
— Eu quero conversar com a Lu a respeito. — Sacudi levemente a cabeça e voltei à conversa antes que me perdesse em pensamentos depravados com meu novo barman. — Se for só diversão, ela precisa parar imediatamente se não quiser que os dois tenham as suas cabeças expostas na fonte de casa…
— E elas não vão estar juntas do corpo — Bea complementou.
— Definitivamente, não. — Suspirei, estava aliviada de ter falado para alguém ou ia explodir em ansiedade, assim que vi Cristian surgir pelo arco da porta dos fundos me calei.
— Boa tarde. — A voz grossa soou.
— Oi, Cris, boa tarde! — Sorri para ele.
— Que bom que está aqui embaixo %Pietra%, preciso falar com você.
— Minha irmã… Ela quer voltar a dançar aqui. — Beatrice se engasgou e eu olhei pra ela franzindo a testa sem entender, ela sorriu sem graça se limpando com um guardanapo.
— Ela que resolveu me abandonar, Cristian, e agora quer voltar? — Voltei a olhar para ele e cruzei os braços bufando.
Anita era uma das minhas melhores dançarinas e do nada ela pediu para sair da boate, eu não entendi o porquê e nem muito menos ela me explicou. Aquilo tinha sido completamente inusitado, ela ganhava tanta gorjeta que tirava mais que o seu salário em si, a loira mandava bem e faturava uma grana, pois sabia rebolar aquela bunda gostosa muito bem. Nunca me envolvi com nenhuma das dançarinas, mas eu abriria exceção pela Anita, porém, já tinha deitado e rolado com o irmão dela algumas vezes, acho que seria no mínimo estranho.
— Só peço que converse com ela, por favor? — O ruivo, me olhando com aqueles olhos verdes, conseguia me deixar mole, que merda.
— Tudo bem, mande ela vir. — Levantei do banco e peguei minha bolsa. — Hoje, Cristian.
— Sim, chefe. — Ele fez continência e eu revirei os olhos, voltei-me para Beatrice, que tinha uma expressão esquisita no rosto.
— O que houve? Viu um fantasma?
— Quê? — Ela pareceu ter voltado a si naquele momento e eu estranhei toda a reação dela.
— Ah, não sei, acho que o álcool não me desceu bem depois do almoço.
Cerrei os olhos e abri levemente a boca. Desde quando Beatrice tem problema para beber em qualquer momento do dia? Aquilo estava estranho. Olhei para Cristian, que apenas deu de ombros, tão no escuro quanto eu. Esse era mais um mistério da minha irmã do meio para desvendar e eu com certeza iria. Estava cansada de ter a minha vida tão escancarada para todos e a Bea conseguir manter tudo em sigilo absoluto.
— Vamos subir, temos muito o que resolver.