Capítulo 10
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%Pietra% Alonso Perroni
Eu seguia sentada naquela maldita mesa e agora não conseguiria mais olhá-la da mesma forma.
Merda! %Matteo% tinha saído há uns bons 20 minutos, e eu seguia ali, julgando a mim mesma por não ter conseguido me controlar, eu era patética. Afastei as pernas e abri a gaveta bem abaixo de mim, tirando uma garrafa de vodka, tirei a tampa e dei um gole generoso direto do gargalo. Engoli o líquido, que desceu queimando minha garganta, fiz uma careta e finalmente tomei coragem para sair dali de cima.
Caminhei até a grande janela e olhei lá para baixo, me distraí com o movimento das pessoas, levei os olhos até o bar e vi Vincenzo fazendo algum drink maravilhoso, sabia que era, porque meu amigo sabia o que fazia atrás daquele balcão. Assim como o %Matteo% sabia o que fazia com a língua, puta merda. Virei mais um gole da vodka e tentei abstrair meus pensamentos. No entanto, era quase impossível, se eu fechasse os olhos ainda sentia as mãos dele no meu corpo e as mordidas... Passei a mão pelo meu pescoço, desci para o meu seio, onde apertei fechando os olhos, minha respiração saiu quente pelos meus lábios e continuei descendo lentamente, sentindo os arrepios correrem pelos meus braços, passei pela minha barriga e alcancei meu topo de vênus, logo pressionei meu clitóris, aproveitando a sensação de alívio imediato pelo tesão que ainda ondulava pelo meu corpo.
— Vincenzo — virei tirando rapidamente minha mão do meu corpo, assustada com a voz de Giovanna e o barulho da porta abrindo — mandou um martini para você. — A loira foi deixar em cima da minha mesa, mas me olhou com linhas em sua testa. — Passou um furacão por aqui?
— Eu e %Matteo% brigamos… — Era uma meia verdade que serviria no momento.
— Novidade. — Ela revirou os olhos e os voltou para mim novamente. — Por isso tá agarrada na garrafa de vodka de emergência? — Olhei para baixo e levantei a garrafa sorrindo sem graça.
— É… por aí. — Dei alguns passos até a mesa, coloquei a tampa na garrafa e guardei ela na gaveta novamente. — Fecha a boate hoje para mim? — Coloquei os sapatos e dei um gole no Martini.
[...]
A eu do passado teria pena da eu do futuro se ela pudesse prever acontecimentos, sinceramente, eu não vi esse caminhão vindo em minha direção, ele só passou por cima me deixando completamente desorientada. Pela expressão de %Matteo% eu sabia que era algo do meu pai, e foi só ele falar as primeiras palavras para as minhas suspeitas estarem certas. O que porra o papai estava pensando? Assim que %Matteo% deixou a mesa, eu e minhas irmãs nos entreolhamos tentando entender.
— Papai, me diga que não é o que estou pensando… — Giu foi a primeira a falar.
— Seu irmão precisa de herdeiros, princesa, só isso…
— E eu preciso de um ar. — Beatrice se levantou irritada e deixou a sala de jantar.
Como se minha vida já não estivesse uma bagunça, mais essa agora, eu só podia ter jogado pedra na cruz e vim nessa família para pagar meus pecados. Levantei da mesa avisando que precisava trabalhar, peguei minha bolsa no hall de entrada e saí de casa, eu precisava parar de me sentir claustrofóbica.
Vi meu carro estacionado no lugar em que costumava deixar, alguém deveria ter levado ele para casa. Olhei para os lados e vi Austin se aproximar e me entregar a chave, agradeci e entrei na minha BMW. Dirigi por alguns minutos, dei voltas na cidade tentando espairecer, dirigir me dava uma liberdade que nada mais me dava.
Estacionei e entrei na boate, eu sabia que naquela hora apenas Giovanna estaria ali. Era um dia comum, não havia bebidas para repor ou copos para limpar, já que agora tínhamos uma pessoa própria para isso. Sentei na banqueta do balcão do bar e Giovanna tirou os olhos do notebook para me encarar.
— Traz a garrafa, Coppola. — Ela levantou, pegou a garrafa e dois copos, e os colocou em cima do balcão.
— O que houve? — Ela serviu nossos copos com doses de whisky, brindamos e viramos.
— Além de a minha família ser uma bagunça por completo? — falei com um amargor tomando minha boca.
— Não exagera, %Pietra%… — Ela torceu os lábios.
— Meu pai enfiou uma mulher estranha dentro da nossa casa.
— Ele está namorando de novo?
— Antes fosse… — Ela me olhou esperando eu terminar, dei um gole na nova dose e concluí: — A mulher é a futura noiva do idiota, segundo meu pai.
— O quê?! — Gio arregalou os olhos. — O %Matteo% vai casar?
— Dá para imaginar? — Bufei revirando os olhos. — Talvez ele tenha engravidado a coitada e agora esteja sendo ameaçado de morte para casar com ela.
— Por que você parece tão chateada com tudo isso? — Ela franziu o cenho.
— Por que você acha? Tem uma mulher que nunca vi na vida querendo tomar meu lugar… — Acabei me exaltando, aquilo estava me deixando fora de mim.
— Seu lugar? — Ela franziu o cenho, estranhando minha afirmação.
— Na
Vincere, Giovanna! — Bati a mão no balcão. — Tá dormindo,
cazzo?!
— Desculpa, fiquei confusa por um momento. — Ela voltou os seus olhos para o notebook e continuou digitando, deveria estar organizando algo administrativo.
— Eu sou a primogênita, sempre fui, antes do %Matteo% aparecer do nada! Até pensei que podíamos unir forças, mas… — Olhei para frente e Giovanna me encarou interrogativa.
— Achei que odiasse seu irmão.
— Meio irmão. — Virei a dose e quando fui colocar mais, tinha acabado. — Merda.
— Não, eu vou, está ocupada. — Levantei da banqueta e caminhei até o depósito nos fundos da boate.
Aquele whisky era o meu favorito, quase nunca vendíamos já que era caro demais para muitos pagarem, um dos whiskys mais caros do mundo e a garrafa era minúscula. Quem usufruía dele na maior parte do tempo era eu mesma, ou até Giovanna, sempre disse que ela podia beber o que quisesse daquele bar. Abri o armário mais ao fundo, onde havia algumas garrafas do Dalmore, bebida mais deliciosa que essa não existia. Sempre procurei beber pouco whisky, afinal, é uma bebida forte para se estar bebendo toda hora, mas quando tinha algum problema que me tirava da razão, era a ele que eu recorria.
Assim que saí do depósito, dei de cara com o novato sem camiseta. Céus, as costas do homem era só músculo, tinha algumas cicatrizes e uma tatuagem enorme de um lobo. Entreabri os lábios, chocada com o tamanho do homem, tão chocada que nem sequer percebi que eu umedeci minha boca com a ponta da língua. Tentações demais na minha boate, porém, eu deveria estar focada no problema e não pensando em sexo, o que agrada bastante a minha mente conturbada pelas memórias da última aventura sexual que me meti. Juan se virou para mim ao fechar a porta do armário, arregalando os olhos assim que me viu.
— Desculpe, senhorita %Pietra%… — Ele pegou a camiseta do uniforme e colocou rapidamente enquanto falava. — Quer dizer, %Pietra%.
— Bela tatuagem, Juan. — Curvei o canto dos meus lábios, pisquei o olho direito e continuei meu caminho até o balcão do bar, onde Giovanna ainda estava compenetrada no que estava fazendo. Sentei, tirei o lacre da garrafa e servi uma dose para ela e outra para mim, parecia que minha intuição sempre me levava a colocar homem gostoso na minha vida, olhei para baixo, era tentação que Deus colocava no meu caminho para ver se eu continuava pura, eu tinha certeza. — O novato tá aí. — Contudo, depois de beijar %Matteo% eu tinha certeza que a pureza nunca fez parte de mim.
— Ah, sim, pedi para ele vir mais cedo, queria ajuda para trocar algumas luzes e trocar o lustre do banheiro — ela explicou.
— E o Vincenzo? Não é ele que faz isso?
— Hoje ele ia ver a mãe — Gio falou com compaixão.
Respirei fundo, deveria ser aniversário de morte da tia Martina. Vincenzo perdeu a mãe quando tinha acabado de fazer 18 anos, ela tinha uma doença rara chamada Doença de Gaucher, e aquela merda era hereditária, todo ano Pelegrini fazia exames para saber se algo havia mudado em seu corpo. Eu e Giovanna sempre ficávamos preocupadas quando ele passava mal ou não se sentia bem. Meu pai ajudou no tratamento da mãe dele contratando os melhores médicos, mas quando foi descoberta a doença, ela já estava muito fraca e não aguentou. Todo ano, no dia em que tia Martina morreu, Vincenzo ia visitá-la no cemitério.
— Eu não sei como ele lida com isso, eu não conseguiria ir até o túmulo todo ano.
— Vincenzo sempre foi muito ligado à mãe dele — falei, pensativa. — Queria saber como é ter uma mãe como tia Martina foi para o Vince.
— %Tita%… — Giovanna olhou para mim com aquele ar de sensibilidade e condolência.
— Não, não me olhe assim. — Soltei o ar, virei minha dose e levantei. — Não tenho tempo para autopiedade, Coppola. Vamos ao trabalho, sim? — Subi para o meu escritório e lá eu fiquei, até a boate fechar.
[...]
Cheguei na sala de jantar vendo todos sentados à mesa para almoçar, inclusive a não solicitada da família. Carolyn estava sentada ao lado de %Matteo%. Senti meu maxilar tencionar de forma involuntária; definitivamente, se houvesse um Deus, eu tinha irritado ele profundamente. Eu estava passando mais tempo fora de casa do que de costume, o evento de Halloween da boate era no fim de semana e eu estava resolvendo tudo, mas eu conseguia ver o quanto %Matteo% estava se esforçando para se dar bem com a primeira buceta que meu pai arrumou para ele. Sentei à mesa e sorri de maneira forçada, o idiota me encarou por segundos e eu revirei meus olhos.
Desde aquele maldito dia que ele me agarrou como se me reinvindicasse como dele, não tínhamos trocado palavras, ele mesmo tinha falado para não ignorarmos aquilo e ele foi o primeiro a fazê-lo. Talvez eu devesse apenas controlar meu maldito corpo e manter distância dele de uma vez por todas, sair de casa estava fora de questão, meu pai não deixaria, porém, a mansão era grande o suficiente para eu evitá-lo. Só o que eu não esperava era Luna ser tão solícita a ponto de convidar Carolyn para o nosso dia de compras. E isso não sendo o suficiente para acabar com o meu dia com as minhas irmãs, %Matteo% resolveu nos acompanhar. Achei que esse dia nunca chegaria, mas parece que eu vivi para ver ele ir com a gente às compras.
Só não sabia o motivo…
ainda.
Andávamos pelo centro olhando as vitrines das lojas, eu sempre gostava de comprar uma fantasia que fizesse sentido para mim, Halloween era uma festa importante na Espanha, porém, na nossa boate, como sempre tinha muitos turistas, optávamos pela festa americanizada, onde qualquer fantasia era aceita. Eu amava me fantasiar, era uma das minhas festas favoritas do ano, então eu e minhas irmãs fazíamos compras anualmente para esse evento e definitivamente em nenhum deles eu imaginei ter uma intrusa, ou o %Matteo%.
Bufei audivelmente e Giulia me olhou de canto de olho.
— Tá tudo bem? — perguntou levantando a sobrancelha esquerda.
— Só… divagando na minha mente.
— Pode compartilhar? — Ela deu um sorriso exagerado e eu dei uma risada.
— Você não acha estranho o %Matteo% ter vindo?
— Acho mais estranho ainda essa novidade matrimonial. — Ela cruzou os braços e sacudiu a cabeça em negativo. — Achei que era mais fácil eu casar do que o %Teo%.
— Você acha? — perguntei olhando meu meio-irmão conversando com a francesa mais à frente.
— Por que o interesse repentino na vida amorosa do nosso irmão? — Virei o rosto para o lado com os olhos levemente arregalados, eu tinha sido traída pelos meus pensamentos?
Isso era para ter sido só minha voz mental; cacete.
— Não estou. — Soltei o ar pela boca e revirei os olhos, em total descaso. — Olha, vou entrar e perguntar quanto é… podem ir na frente. — Entrei em uma loja que tinha várias fantasias de bruxa na vitrine e deixei os outros irem na frente.
Aparentemente eu precisava controlar a minha boca também.
Falei com a mulher que atendia na loja e perguntei sobre as fantasias, escolhi algumas para experimentar e fui até o provador. Coloquei o primeiro vestido e achei preto demais, pano demais, parecia que eu tinha saído de um filme do Tim Burton. Tirei aquilo correndo, peguei outro que era vermelho e, céus, Carrie a estranha em seus dias, definitivamente aquele vestido um dia já foi branco. Tirei novamente e me virei para pegar a última fantasia, olhei ela no cabide e tive a sensação de que era aquela, um vestido preto simples, com um corpete até o quadril, onde o tecido era mais fluido e ia até o meio das minhas coxas e atrás era mais longo, dando um charme a mais. Vi meu reflexo e adorei, peguei o chapéu que estava pendurado no gancho do provador e coloquei na cabeça, sorri para mim mesma, era perfeito.
— Diria que foi feito para você.
— Ah! — dei um grito e me virei assustada, vendo %Matteo% apoiado em um dos lados da cabine me olhando com uma cara de depravado.
— Está tudo bem, senhorita? — a mulher perguntou do lado de fora.
— É… — Os olhos negros não paravam de me despir e eu senti o nervosismo me tomando, engoli em seco quando ele começou a andar até mim como se eu fosse sua presa. — Sim, acho que fiquei feliz com esse que acabei de experimentar.
— Fico feliz, posso trazer mais alguma opção para a senhorita?
Ele deu mais um passo em minha direção sem deixar de me olhar nos olhos, com toda aquela imponência que só ele conseguia emanar em apenas existir. Eu me senti encurralada naquele espaço minúsculo, %Matteo% era grande, muito mais alto que eu, seu terno preto exalava um poder que eu não conseguiria descrever. Era extasiante como ele me olhava, os olhos negros cheios de luxúria me deixavam ainda mais ansiosa, aguardando o que viria e aquela sensação me preenchia de uma expectativa tão errada.
— N-não… — gaguejei e me praguejei em minha mente no mesmo momento. — Estou bem, vou terminar de ver os outros.
— Fique à vontade. — Ouvi os saltos da atendente se distanciarem.
— Posso ajudar você a tirar? — %Matteo% deu mais dois passos até eu sentir a parede atrás de mim.
Peguei o resquício da razão que me acometeu naquele momento e perguntei ríspida:
Ele me puxou pela cintura e tomou minha boca, ele me apertou contra a parede, a língua dele rodeando meus lábios antes de explorar minha boca com urgência. Minhas pernas simplesmente desistiram de fazer o trabalho que tinham sido feitas para fazer e me derreti em seus braços. Ele beijou meu pescoço e me deixei levar, fechei os olhos aproveitando suas palmas apertando minha cintura e logo depois descer para minha bunda, sua boca não deixou minha pele, senti a mordida no meu maxilar e soltei um suspiro quente pelos lábios.
Ele levantou minha coxa e senti seus dedos afastarem minha calcinha, a gente ia mesmo fazer aquilo?
— %Matteo%, não pode… — Não consegui terminar a frase quando seus dedos pressionaram meu ponto inchado. — Céus…
Mordi o lábio com força e me segurei nas paredes da cabine ao sentir seus dedos me dedilhando de maneira certeira. Senti minhas pernas tremerem e minha boceta implorar por um orgasmo, e ele parecia ser tão bom no que fazia que por um momento eu me perdi no prazer ondulando em meu baixo ventre e ignorei qualquer razão que pudesse passar por minha mente. Seus lábios seguiram desfilando pelo meu pescoço e logo senti os dentes dele em meu lóbulo.
— Está tão molhada,
cariño… — Sua voz saiu rouca, embriagada de tesão e me deixando ainda mais entregue. — Achei que me odiasse… — sussurrou em meu ouvido.
— E… o-odeio… — Tentei falar com raiva por um milésimo de segundo, mas foi impossível não me perder novamente no prazer que dominava meu corpo inteiro.
— Não está sendo muito convincente… — Seus dedos continuaram a circular o meu clitóris e eu esmaeci cada vez mais em seus braços.
— Mas odeio e mu-muito… — gemi sôfrego.
Meus olhos arregalaram por estar no limite em tão pouco tempo, foi ali que me perdi nas sensações, no desejo e no querer sem pensar nas consequências. Seus dedos me invadiram, fazendo eu suprimir um gemido que quase escapou, senti o aperto na carne do meu quadril e encarei seus olhos atentos às minhas reações e o sorriso no canto dos lábios denunciava o quanto ele estava se divertindo comigo.
—
Santa madre! — gritei sussurrado e fechei os olhos, entregue à eletricidade que corria pela minha pele. Joguei a cabeça para trás, olhando aquela luz fluorescente do provador, ainda tentando recuperar meu fôlego, e foi naquele momento em que caiu a ficha do que tinha feito. — %Matteo%… nós…
cazzo. — Fechei os olhos, os apertando, culpada e extasiada ao mesmo tempo.
%Matteo% segurou meu pescoço, fazendo com que eu abrisse os olhos para encará-lo e seu rosto estava tão perto do meu que eu senti sua respiração tocar minha pele. Os olhos negros me olhavam com um desejo latente, senti aquele aperto gostoso na minha garganta e abri levemente a boca. Ele não tinha nenhum rastro de arrependimento, foi fácil ler em sua expressão que nem mesmo a culpa passou pela sua mente, ele lambeu os lábios e sorriu satisfeito.
— Espero que tenha sido memorável a ponto de não esquecer — ele colou os lábios no meu ouvido e falou baixinho —, e o mais importante, querer repetir. — Fechei os olhos sentindo aquele arrepio cruzar meu estômago e então ele me deu mais um beijo afogueado segurando firme meu cabelo na altura da nuca, deixando-me completamente desnorteada. Assim que abri os olhos, vi ele deixando a cabine.
— Puta que pariu… — Escorreguei pela parede do provador até atingir o chão. — O que foi que eu fiz? O que nós fizemos… — Soltei o ar que nem sabia que tinha prendido e falei: — Nunca gozei tão rápido desse jeito…
Figlio de puttana![...]
Eu não podia acreditar que eu estava ali, sentada naquele café, com minhas irmãs, a invasora de lares e %Matteo%, que me olhava como se nada tivesse acontecido; cínico, um cretino. O pior de tudo: eu tinha tido o melhor orgasmo dos últimos tempos e nem foi em uma cama, eu queria esmurrar a cara dele. Soltei o ar pelo nariz com força, eu queria tanto um cigarro para acalmar os nervos e quando vi %Matteo% acender um enquanto sua atenção estava atenta às palavras da sua futura corna, quer dizer, esposa. Levantei e estiquei meu corpo por cima da mesa para pegá-lo da mão de %Matteo%, que me olhou com as sobrancelhas juntas. Sorri simpática dando de ombros e sentei novamente, dando um trago generoso e fechei os olhos para aproveitar a nicotina correndo pelo meu organismo.
A garçonete chegou com os nossos pedidos e então vi meu café gelado na minha frente e fiz uma careta.
— Pensando melhor, querida… — chamei a garçonete, que me olhou atenta para anotar o que eu iria pedir. — Traz um dry martini, com duas azeitonas.
— %Pietra% — Giulia me chamou e olhei para a direita —, são nem 16 horas da tarde.
Giu não bebia álcool e tentava converter todo mundo, e claro, julgava aqueles que o faziam em momentos em que não havia estrelas no céu. Franzi o cenho e antes mesmo que pudesse responder, %Matteo% se pronunciou:
— Ela deve estar precisando por causa do calor, maninha. — Olhei para ele e mostrei o dedo do meio. — Posso te acompanhar — sorriu de maneira libidinosa me deixando nervosa por um momento — na bebida… sabe, também estou com muito calor.
%Matteo% estava flertando descaradamente comigo na frente de todos e eu nem sabia por que estava nervosa, afinal, nem em mil anos minhas irmãs iam imaginar o que acabamos de fazer naquele provador, nem se estivéssemos fodendo em cima dessa mesa elas acreditariam.
— Você não tinha mais nada para fazer hoje, %Matteo%? — perguntei irritada.
— Sair para passear no centro me pareceu a melhor coisa a se fazer hoje… — Ele sorriu, me olhando com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Esqueci que você ama fazer compras, não é mesmo? — perguntei irônica. — Por isso que todos os anos vem com a gente.
— Nunca fui convidado, me sentia tão excluído… — ele fez uma expressão fingida de tristeza.
—
Mascherato… (Dissimulado). — Cuspi o ar e revirei os olhos.
— Mostrem hospitalidade para a nossa convidada, por favor — Luna ralhou com a gente e eu cruzei os braços torcendo os lábios, no mesmo momento que a garçonete chegou com o meu drink.
Agradeci a garçonete e continuei:
— Por favor, pode trazer outro. — Bebi em um gole só e ergui a taça em direção a Giulia, como se estivesse brindando a ela.
— Eu vou acompanhá-la. — O idiota apontou para mim. — Quais whiskys você tem? — perguntou para a garçonete.
Eu estava achando tudo aquilo insuportável, principalmente por aquela mulher não parar de se fazer de apaixonada por ele. Puxei a fumaça e apaguei o cigarro no cinzeiro, levantei com minha bolsa no ombro e fui até o banheiro. Retoquei meu batom, ajeitei meu cabelo, lavei as mãos e quando me virei, dei de cara com a expressão de irritação de Beatrice.
— O que tá acontecendo? — As mãos na cintura e a expressão de descontentamento estampada em seu rosto era um sinal de alerta.
— Não sei do que está falando… — Fiz pouco caso pegando toalhas de papel e comecei a secar minhas mãos.
— Você e %Matteo% estão se atacando mais do que o normal, e olha, para eu falar isso, algo aconteceu.
— Nada aconteceu, Beatrice, cuide do seu "compromisso" — fiz aspas com os dedos — que eu cuido da minha vida e da minha relação conturbada com o idiota que eu tenho que chamar de irmão.
Saí do banheiro, passei na mesa apenas para pegar a sacola com o vestido e fui embora sem nem mesmo olhar para trás. Vi Ettore e Austin perto da fonte da praça e pedi para que eles me levassem para casa, já que fui de carona com as minhas irmãs. Que ideia idiota ir fazer compras com aquela mulher, Luna não podia ver alguém em uma situação difícil que queria agradá-la. Ela não era da família, não era da
Vincere e jamais seria, nem que eu precisasse
garantir isso. Cheguei em casa e dei de cara com meu pai, ele estava para entrar no carro com o motorista, mas quando me viu, ele voltou e perguntou:
— Aconteceu alguma coisa, princesa? — Otelo deu alguns passos em minha direção e eu respirei fundo.
— Nada que valha sua preocupação, papai.
— Eu sei que foi uma novidade e tanto, mas tente entender. — Sua mão acariciou meu ombro e eu suspirei, derrotada.
— Não consigo, pai. — Balancei a cabeça em negativo. — Trazer uma estranha para dentro da nossa casa foi passar dos limites.
— Seu irmão prometeu se esforçar para conhecê-la, filha, tente ser boazinha com a garota.
Pensar que %Matteo% concordou com aquela loucura trouxe à tona a minha raiva. Era isso mesmo que ele queria? Casar por um acordo, pagar uma estranha para ter seus filhos e nunca ser amado por ninguém? Acabar como o nosso pai, sozinho, infeliz e dependente do trabalho para se sentir importante.
— Ela vai ser que nem a minha mãe ou mais como Aurora, pai? — A alfinetada saiu com mais remorso e desgosto do que eu gostaria, aquilo ainda me machucava e eu nem sabia o quanto. Sempre enterrei isso dentro de mim, mas não queria ver a história se repetir, porque dessa vez eu estaria ali para evitar a desgraça na vida de outra criança.
Otelo me olhou pensativo e me abraçou, deixando-me confusa com a reação dele.
— Jamais pediria que seu irmão pagasse alguém como eu fiz. — Ele se afastou e seus olhos eram pura sinceridade. — Se pudesse voltar no tempo, não o faria novamente, mas aí eu penso que não teria vocês quatro, os tesouros da minha vida.
— Isso deveria bastar para você não querer empurrar ninguém para %Matteo%.
— Por que está tão preocupada com ele? — As linhas em sua testa me alertavam de que eu estava expondo algo que não deveria. — Sempre teve apenas ódio pelo seu irmão.
— Apesar de tudo, ele é isso, não é? — Senti o amargor na minha garganta e a culpa me corroendo por dentro, meu pai me olhou de um jeito esquisito, como se suspeitasse de algo, mas não quisesse vociferar.
— Senhor Perroni, precisamos estar lá em 15 minutos — Rico, o segurança direto do meu pai, alertou.
— Preciso ir. — Ele beijou a minha testa e entrou no carro, que eu assisti deixar os portões da mansão.
Subi e me tranquei no meu quarto, parei por um instante e encarei a janela, pensando em absolutamente nada. Fui até o closet e joguei o vestido no canto com vontade de atear fogo nele, como iria me ver no espelho usando aquilo sem lembrar que…
— Ah! — gritei me jogando na cama, eu estava parecendo uma louca, sinceramente.
Eu nem sabia o porquê estava com tanta raiva, mas meu corpo estava quente como o inferno e algo me dizia que era para me lembrar que quando morresse, faria parte dele.