Capítulo Onze • %Harper%
As manhãs nem sempre eram fáceis. Agora, uma segunda-feira de manhã no café da universidade é um teste de resistência física e mental.
Eu não estava reclamando. Consegui meu emprego no
Trojan Brew de volta. Mas %Evan% me manteve acordada até às três da manhã, e o cansaço de um fim de semana inteiro, agora cobrava seu preço. Toda vez que eu tentava me virar para o lado e finalmente apagar, ele me puxava de volta para o peito dele, murmurando coisas sem sentido contra o meu pescoço. Eu não reclamei, óbvio, mas agora, diante de uma fila de estudantes impacientes e o barulho incessante da máquina de moer grãos, sinto cada minuto de sono perdido.
Estou de cabeça baixa, organizando alguns itens do balcão, quando o sino da porta toca. Me levanto para fazer mais um atendimento. Só que para a minha surpresa, Greg está parado bem na minha frente, com os braços cruzados. Ele não parecia ter interesse em algum produto da cafeteria. Ele só me encara com aquele olhar de superioridade, os olhos fixos nos meus como se estivesse me lendo.
— Imagina a minha surpresa quando descobri que %Harper% %Hayes% está trabalhando. Parece até uma piada sabendo de onde você vem. — Ele solta uma risada curta, sem um pingo de humor, e se inclina um pouco mais para frente.
Sinto minhas mãos começarem a tremer, eu queria poder socá-lo ali mesmo, mas não podia arriscar perder meu emprego novamente. Greg estava me perseguindo desde o dia do jogo, e isso começou a me irritar.
— O que você quer, Greg? Eu estou trabalhando, tem gente na fila.
— Andei perguntando por aí, parece que você e %Evan% estão ficando sério. — Ele se inclina para frente, tentando deixar o seu rosto mais próximo do meu. — O capitão sabe que você é uma mentirosa profissional ou ele ainda acredita naquela carinha de anjo que você faz quando está na cama? Ou essa cara foi apenas reservada para mim?
— Vai embora, Greg. Agora. — Minha voz sai ríspida.
— Eu vou. Mas o aviso está dado. Se você não sumir da vida dele por conta própria, eu mesmo mostro para o %Evan% quem você é de verdade. — Ele bate com a mão no bolso da calça, onde o volume do celular é evidente. — Eu tenho tudo aqui, %Harper%. Cada detalhe daquela noite. Imagina o que os olheiros da NFL vão achar de um capitão envolvido em um escândalo desse tamanho? O futuro dele vale tanto quanto o seu silêncio.
— Você é um doente. — sussurro, sentindo minha garganta fechar.
— Eu sou o cara que tem o seu futuro e o dele nas mãos. Pensa bem se vale a pena arrastar %Evan% para o buraco com você.
Ele se afasta do balcão com um movimento lento e sai da cafeteria sem olhar para trás. Eu fico ali, paralisada. Meu coração bate tão forte que dói. Eu preciso de ar. Eu preciso falar com alguém antes que eu desabe no meio do expediente.
Pego meu celular escondido sob o balcão e meus dedos voam pelo teclado. E ligo pra Clover.
— Merda, Clover! Greg veio aqui no café. — eu digo assim que ela atende, minha voz falhando tanto que quase não sai. — Eu estou muito fodida. Preciso que você me encontre na biblioteca.
O trajeto até a biblioteca foi um borrão. Eu mal lembro de ter batido o ponto ou de ter caminhado pelo campus; minha mente estava presa naquela situação. Quando finalmente desabo na cadeira ao lado da janela, no fundo da biblioteca, o lugar não me trás paz.
Clover e Maya já estão lá. A tensão no meu rosto deve estar óbvia, porque Clover fecha o livro dela com um estalo que ecoa pelo corredor.
— Desembucha, %Harper%. — Clover exige, sussurrando com urgência.
Eu me inclino sobre a mesa, escondendo o rosto entre as mãos por um segundo antes de encará-las.
— Merda, pensei que tinha dado um jeito nele antes de sair de Boston, mas o filho da puta tem as fotos, as gravações... tudo.
— %Harper%, pelo amor de Deus, você precisa denunciar essa merda agora! — Clover fala, batendo a mão na mesa, chamando a atenção de algumas pessoas que estavam ao nosso redor. — Isso é perseguição! É crime!
— Porra! Não tem como eu denunciar essa merda. Meu pai vai me matar. Mas o negócio não sou eu. É %Evan%. Quando fizemos a aposta isso não estava nos planos, eu queria acabar com o ego dele, não colocar ele no meio de um escândalo. — rebato, sentindo o pânico subir pela garganta de novo.
— Ele ameaçou acabar com ele? — Maya segura minha mão. — E o que é tão ruim assim que poderia ferrar com ele?
— Drogas... — Sussurro. — Aquela merda de vídeo é comprometedora demais.
— Sim... Eu tenho que resolver essa merda, de jeito nenhum vou deixar ele se ferrar. — Tento pensar em todas as alternativas que eu tinha para isso acabar de vez, porém a única alternativa viável era a que eu menos queria ter que lidar.
— Então o que você vai fazer? Deixar Greg atormentar você pelo resto da sua vida? — Clover pergunta, indignada.
— Ele vai cansar em algum momento. Ele só quer sentir que ainda manda em mim. Eu preciso pensar no que fazer. — Olho para o lado, não querendo encará-las.
As duas trocam um olhar preocupado, mas acabam concordando. Meu celular vibra sobre a mesa, me dando um susto. É uma mensagem do %Evan%.
Cansada? Fiz o almoço. Vem logo que eu tô com saudade. Eu sorri para a tela tentando ignorar toda a merda que estava acontecendo.
Saio da biblioteca sentindo o vento frio do campus bater no meu rosto, mas nem isso é suficiente para limpar a sensação de sufoco que as palavras do Greg deixaram. A conversa com a Clover e Maya não trouxe o alívio que eu esperava; só serviu para eu entender que precisaria de uma ajuda maior, uma ajuda que eu não estava a fim de pedir.
Caminho em direção à casa dos meninos revisando mentalmente o que eu vou ter que fazer para acabar com isso sem deixar que %Evan% perceba o que está acontecendo. Se ele fosse até Greg, minha aposta com as meninas estava acabada. %Evan% jamais iria querer ter qualquer coisa comigo depois que soubesse das coisas que aconteceram em Boston e então eu teria que desembolsar seiscentos dólares.
Assim que abro a porta da frente, o cheiro de carne grelhada invade minhas narinas. E um som do rock alternativo vem da cozinha. Acredito que %Evan% era a única pessoa em casa naquele momento, porque ele jamais faria um almoço para mim com seus amigos aqui.
%Evan% está de costas para a porta, terminando de montar dois pratos sobre o balcão da ilha. Ele está sem camisa, apenas com um calção de moletom preto. É uma cena tão doméstica, que me faz querer que isso fosse real.
— Demorou, hein? — ele diz, virando-se com um sorriso de canto que morre aos poucos assim que ele foca no meu rosto.
Ele solta o pegador de carne sobre o balcão e caminha na minha direção. O olhar de %Evan% é como um raio-X; ele lê as entrelinhas como ninguém.
— O que foi? O turno hoje te esgotou?
— Só cansaço, %Evan%. O movimento no café foi bizarro e eu ainda tive que passar na biblioteca para resolver umas coisas com as meninas. Minha cabeça está explodindo. — minto, deixando minha bolsa de lado e tentando desviar do olhar inquisidor dele.
Ele não aceita a desculpa tão fácil. Ele segura meu rosto com as duas mãos, me obrigando a olhar para ele. Os polegares dele acariciam minhas bochechas com uma delicadeza que quase me faz desabar ali mesmo.
— Tem certeza? Se algum daqueles babacas do campus mexeu com você, eu juro que...
— Ninguém mexeu comigo. — interrompo, forçando uma risada curta. — Eu só preciso de comida e trocar de roupa para as aulas. Queria ter tempo pra dormir um pouco.
Ele me observa por mais alguns segundos, os olhos cerrados, buscando qualquer rastro da verdade que eu estou tentando enterrar.
— Tá legal. O almoço está pronto. Senta aí.
Eu me acomodo no banco alto do balcão e ele coloca o prato na minha frente. Macarrão com tiras de carne, exatamente do jeito que eu gosto. O cara sabia cozinhar muito bem.
— Joshua e Finn foram para o treino mais cedo. — ele comenta, sentando-se ao meu lado. — Pensei que a gente pudesse aproveitar o resto da tarde antes de eu ter que ir para a academia.
— Eu adoraria, mas tenho aula hoje, %Evan%. — digo, sem olhar para ele, concentrada demais no meu prato.
Sinto o clima mudar. %Evan% para de comer e encosta as costas no banco, cruzando os braços sobre o peito largo.
— %Harper%, olha para mim.
Eu levanto os olhos, devagar, sentindo meu pulso acelerar.
— Você está estranha. Parece que viu um fantasma. — Ele inclina o corpo, diminuindo a distância entre nós até eu conseguir ver as fagulhas de preocupação nos olhos dele. — Greg falou com você? Ele te mandou alguma coisa?
Meu coração dá um solavanco.
— Não. Por que ele falaria comigo?
— Porque ele me mandou uma mensagem no sábado. No meio da festa…
Eu travo com o garfo no ar. O sangue foge das minhas mãos. O fato de ele ter tido a audácia de mandar uma mensagem para %Evan% me deixa completamente irritada.
— O que... o que exatamente ele disse?
%Evan% solta um suspiro pesado e passa a mão pelo cabelo, visivelmente frustrado.
— Merda de provocação. Falando para eu não confiar em você, que você era mentirosa. Coisa de ex-namorado que não aceita o fim.
Engulo em seco, sentindo o nó na garganta apertar.
— Greg é assim, insistente. E eu odeio que ele esteja tentando estragar o que a gente tem. — Eu forço um sorriso pequeno, tentando desarmar a tensão. Me inclino para frente e coloco a mão sobre o braço dele. — Não deixa ele entrar na sua cabeça, tá? Greg adora o caos. É só isso que ele quer.
%Evan% me observa por um longo segundo. A expressão dele amolece, ele segura minha mão e a aperta de leve, levando-a até os lábios para um beijo rápido nos meus nós dos dedos.
— Ele não vai entrar na minha cabeça, %Harper%. Pode ficar tranquila.
— Eu só preciso desligar um pouco disso tudo. — digo, levantando-me do banco e encurtando a distância entre nós.
Eu não espero ele responder. Seguro o rosto dele com as duas mãos, enterrando meus dedos na base do cabelo dele, e o puxo para baixo, encostando meus lábios nos dele. Acho que %Evan% sente meu desespero por mais, porque ele intensifica o beijo. Mordo o lábio inferior dele com força, sentindo um arrepio absurdo quando ele solta um rosnado baixo contra a minha boca. %Evan% me puxa para mais perto, acabando com qualquer espaço entre as nossas banquetas, e o impacto do peito dele contra o meu é o único lugar onde eu me sinto inteira agora.
As mãos dele sobem pelas minhas costas, as mãos apertando o tecido da minha blusa até os dedos encontrarem a minha pele nua. O toque me dá um choque elétrico na espinha, e por um momento eu esqueço até como se respira. É uma excitação que sobe rápido, um borbulho no estômago que me deixa tonta.
Eu me afasto só o suficiente para encostar minha testa na dele, sentindo o hálito quente dele contra o meu rosto e seu coração batendo acelerado...
— Vou subir para tomar um banho e pegar minhas coisas para a aula. Vem comigo? — Sussurro, ainda com os dedos trêmulos emaranhados nos fios escuros dele.
%Evan% solta uma risada rouca, e me dá um selinho estalado que faz meus lábios formigarem.
— Você sabe que eu não consigo dizer não para você. Só vou colocar esses pratos na pia e já subo.
Eu sorrio para ele e subo as escadas. O som dos meus passos no degrau de madeira parece ecoar o descompasso do meu coração. Quando entro no quarto, eu caminho direto para a mochila para colocar os materiais que usaria hoje, e paro.
Olho para a cama bagunçada, se eu pudesse ignorar tudo, ficaria a tarde toda com %Evan% nessa cama, mas a realidade do mundo me chama. %Evan% aparece na porta poucos segundos depois, tirando o calção de moletom enquanto caminha em direção ao banheiro, a pele bronzeada contrastando com os azulejos claros.
— %Harper%? — Ele para na porta do box, me observando ainda parada perto da cama. — Você vem ou vai ficar aí?
Eu sorri, jogando a mochila de lado e caminhando até ele.
— Já vou. Só estou tentando arrumar as coisas pra depois.
Entro no banheiro e o vapor da água quente já começa a embaçar o espelho. %Evan% me puxa para debaixo do chuveiro, o corpo dele bloqueando o resto do mundo. O toque dele é firme, as mãos grandes ensaboando meus ombros com uma calma que eu definitivamente não possuo. Eu fecho os olhos, deixando a água levar meu problemas temporariamente. Mas era inevitável.
Só existe um jeito de acabar com isso e tirar o poder das mãos de Greg. E eu teria que voltar para Boston para resolver isso. Vou encarar o rosto do meu pai pela primeira vez em muito tempo e admitir cada erro que cometi naquela noite, porque só assim Greg irá perder a munição que tem.
Eu vou limpar a minha própria bagunça para que nada, nem ninguém, consiga encostar no %Evan%. Porque quando comecei com essa merda de aposta, meu objetivo era acabar com o ego dele, não com a sua carreira.
N/a: Oiii gente, demorou um pouco mais saiu. Na realidade eu já tenho a história escrita até o capítulo 19, mas ultimamente as coisas estão bem corridas e não consegui mandar a att. Espero que tenham gostado, e preparem os corações, fortes emoções virão.