Capítulo Dez • %Evan%
As duas semanas seguintes são um teste de resistência que nenhum treino da faculdade me preparou para passar. Viver com a %Harper% é um tipo de tortura que eu estou começando a gostar, mas que me deixa no limite o tempo todo. Eu vejo ela de manhã na cozinha, usando uma das minhas camisetas velhas da USC que fica enorme nela e termina no meio das coxas. O jeito que aquele tecido cinza encosta na pele macia dela é um soco no meu estômago toda vez que eu desço a escada.
O cheiro de baunilha dela está em todo lugar. Nos meus lençóis, nas minhas roupas, no ar dessa casa barulhenta. Eu passo por ela no corredor e finjo que não sinto vontade de prender ela contra a parede toda vez que ela diz meu nome com aquela voz rouca de quem acabou de acordar.
Hoje é sábado e a gente está de folga. A casa é um caos. O cheiro de bacon queimado se mistura com o som alto de um jogo de basquete na TV. Eu entro na cozinha e vejo a %Harper% inclinada sobre o balcão, pegando uma caneca.
— Alguém viu o controle dessa porcaria? — O Joshua grita da sala, jogado no sofá com o Cole.
— Está debaixo da pilha de caixas de pizza, seu imbecil! — Eu respondo, sem tirar os olhos da %Harper%.
Ela se vira e me dá um sorriso pequeno. Aquele sorriso que faz meu peito apertar de um jeito que eu não sei explicar.
— Bom dia, %Evan%. — Ela diz, com o cabelo todo bagunçado em um coque frouxo.
— Bom dia. — Minha voz sai mais grossa do que eu queria.
Eu chego perto para pegar café e sinto uma vibração vindo dela. Cole entra na cozinha logo atrás, pegando suco direto da geladeira. Ele olha para mim, olha para a %Harper% usando minha roupa e solta aquele risinho de quem sabe muito bem o que está rolando.
— E aí, %Harper%? Dormiu bem ou o %Evan% ficou ocupando o espaço todo da cama? — Cole provoca, encostando no balcão com os braços cruzados.
Eu travo a mandíbula na hora.
— Ele não ocupa tanto espaço assim, Cole. — %Harper% responde, ficando vermelha, o que deixa ela ainda mais linda.
— Ah, entendi. Então as noites estão sendo boas. — Joshua aparece na porta, rindo. — Cara, você está agindo como um segurança particular, %Evan%. Relaxa um pouco.
— Por que você não vai cuidar da sua vida, Joshua? — Eu dou um passo na direção dele, sentindo o sangue esquentar.
— Calma, capitão. Só estamos dizendo que você mudou. Antes você vivia nos bares, agora não sai de perto da %Harper%. — O Joshua dá de ombros. — O pessoal do time está até estranhando esse seu lado caseiro.
Eu odeio que eles fiquem comentando. Odeio que fiquem olhando para ela. Eu quero que eles saiam dali para eu poder puxar a %Harper% para mim e esquecer que tem mais cinco caras morando com a gente.
— Saiam daqui. Agora. — Eu falo baixo, mas com aquele tom que eles sabem que não é brincadeira.
Os dois saem rindo, empurrando um ao outro, e finalmente ficamos sozinhos. %Harper% coloca a caneca no balcão e chega mais perto, tocando meu braço. O contato da mão dela faz meus pelos arrepiarem na hora.
— Você está muito tenso, %Evan%. — Ela sussurra, deslizando a mão pelo meu músculo. — Eles estão só brincando, eles gostam de ver a gente assim.
— Eu não gosto de ninguém se metendo. — Eu puxo ela pela cintura, colando nossos corpos. — Eu não gosto do jeito que eles te olham.
— Eles são seus melhores amigos. — Ela ri baixo, passando os braços pelo meu pescoço. — E eu estou aqui com você, não estou?
Eu não respondo com palavras. Eu só puxo ela para um beijo faminto, sentindo o gosto do café e a maciez da boca dela. Minha mão desce pela cintura dela. Eu estou viciado nessa garota. O problema é que quanto mais eu me envolvo, mais eu sinto que qualquer coisa pode estragar o que a gente tem.
Meu celular vibra no bolso com uma mensagem do meu pai e me afasto a %Harper% para poder ver o que era.
Eu solto um suspiro pesado e guardo o celular no bolso depois de ler as mensagens e respondê-lo. Ele sabe sobre a %Harper%, só não faz ideia de que ela está morando conosco. Se ele soubesse, o discurso de f
oco total na NFL viraria um interrogatório.
— Tudo bem? — %Harper% pergunta, secando as mãos num pano de prato e vindo na minha direção novamente.
— Sim. Só meu pai perguntando sobre o próximo treino. — minto, sentindo um peso leve no peito por não contar a verdade, mas prefiro manter o clima bom.
Joshua entra na cozinha nesse momento, tropeçando nos próprios pés e roubando uma fatia de bacon do prato.
— Ei, %Evan%! Vamos fazer um churrasco aqui no quintal. Os caras acabaram de sair para comprar as coisas. Chamamos algumas pessoas. Vai ser animal.
Eu olho para a %Harper%. Ela parece animada, o que já é motivo suficiente para eu concordar.
— Acho que vai ser legal — eu falo, vendo o brilho nos olhos dela. — Por que você não chama a Clover e a Maya? Pelo menos assim você não fica sozinha no meio de um bando de gente. As festas aqui em casa costumam ser um pouco intensas.
— Sério? Posso mesmo? — ela pergunta, abrindo um sorriso que me desarma completamente.
— Claro que pode. A casa também é sua, %Harper%. — Joshua dá um tapa no meu ombro e sai gritando para Finn começar a arrumar as coisas no quintal.
Eu me aproximo dela, prendendo ela entre meus braços e o balcão.
— Suas amigas são bem-vindas, mas eu vou ficar de olho em você o tempo todo. — sussurro, roçando meu nariz no dela. — Quando falei que as coisas costumavam ser um pouco insanas por aqui, eu realmente quis dizer isso.
— Ciumento, %Evan%? — ela brinca, passando as mãos pelos meus ombros.
— Territorial. — corrijo, antes de dar um selinho demorado nela.
A manhã passa voando. E a casa começa a virar um formigueiro humano em um determinado momento. Cole e Joshua estão lá fora rindo alto, o som de invade a sala e o cheiro de carne assada toma conta de tudo. Quando Clover e a Maya chegam, %Harper% parece finalmente relaxar de vez.
Eu fico perto da churrasqueira conversando com Cole sobre o próximo adversário, mas meus olhos não saem dela. Ela está rindo de alguma coisa no canto do quintal, segurando um copo vermelho, e o meu moletom nela ainda é a melhor visão que eu já tive na vida. É bizarro como ela se encaixa aqui, como se sempre devesse ter feito parte dessa bagunça.
— Cara, você está agindo como um segurança. — o Cole resmunga, virando um bife na grelha. — Relaxa. Todo mundo aqui sabe que ela é sua.
— Só estou garantindo que continue assim. — respondo, abrindo uma cerveja gelada.
O clima está perfeito, a música está boa, mas sinto meu celular vibrar no bolso. Olho rápido, esperando ser meu pai de novo, mas é um número que eu não conheço.
"Vi as fotos do jogo. E principalmente suas fotos com ela. Não deixe que ela te engane. %Harper% é %Harper%, independente de onde ela esteja."
Sinto meu sangue gelando na hora. O soco no estádio não foi o suficiente para o Greg entender que ele não deveria mexer no que é meu.
Olho para a %Harper% do outro lado do quintal. Ela está tão feliz, tão radiante conversando com as amigas. Eu não vou deixar esse idiota estragar o dia dela. Enfio o celular de volta no bolso e caminho até ela, passando o braço pelo seu pescoço e puxando ela para perto de mim na frente de todo mundo, marcando meu espaço.
— Tudo bem, %Evan%? — ela pergunta, olhando para cima com aquele olhar curioso.
— Tudo ótimo. Só queria ficar perto de você. — respondo, beijando o topo da cabeça dela e lançando um olhar de aviso para Joshua, que estava vindo para zoar a gente.
Hoje eu estava sem paciência.
O churrasco era só um pretexto para festa e agora a cozinha é um cemitério de caixas de pizza vazias e latas amassadas. A música na sala deu um salto de volume, e o que era para ser uma reunião tranquila virou uma festa de verdade, daquelas que fazem o chão da casa vibrar.
Eu estou encostado no batente da porta da cozinha, observando o movimento e tentando ignorar a mensagem do Greg. %Harper% está por perto, rindo de alguma coisa com a Maya.
— Cadê o Joshua? — Cole pergunta, chegando perto de mim com uma garrafa de cerveja na mão e a cara de quem já passou do ponto. — O cara sumiu faz uns vinte minutos.
— Deve estar jogado em algum canto tentando impressionar alguma caloura. — respondo, dando de ombros. — Vou lá dentro buscar mais gelo e já vejo se encontro ele.
Deixo %Harper% com a Maya e entro no corredor que dá para a lavanderia. Está meio escuro, mas ouço uns sussurros e um barulho de risada abafada vindo de trás da porta entreaberta. Penso em passar direto, mas a curiosidade fala mais alto.
Empurro a porta devagar e travo na hora.
Joshua está prensado contra a máquina de lavar, e a Clover está com as mãos enterradas no cabelo dele, dando um beijo que parece que vai tirar o fôlego dos dois. Joshua, que sempre se acha o mestre da sedução, está com uma cara de quem não sabe se reza ou se agradece.
Eu não aguento. Solto uma risada curta e cruzo os braços, encostando no batente.
— Mas que porra é essa, Joshua? — falo, tentando não rir alto demais.
Os dois dão um pulo para trás como se tivessem levado um choque. Joshua tenta arrumar a camisa, vermelho como um pimentão, e a Clover limpa o batom do canto da boca com uma agilidade impressionante.
— %Evan%! Cara, que susto! — Joshua gagueja, tentando recuperar a pose. — A gente só estava... conversando.
— Conversando, sei. Parecia que você estava tentando engolir a Clover. — rebato, rindo e balançando a cabeça. — Eu esperava muita coisa dessa noite, mas ver o "galã" da casa sendo dominado pela amiga da %Harper% no meio da lavanderia? Essa é nova.
Clover dá um sorriso de lado, nada envergonhada, e olha para o Joshua como se ele fosse um lanche.
— Ele fala demais, %Evan%. Tive que calar a boca dele de algum jeito. — ela diz, piscando para mim antes de passar por mim e voltar para a sala como se nada tivesse acontecido.
Joshua fica ali parado, olhando para a porta por onde ela saiu, com uma cara de idiota completo.
— Ela é... intensa. — ele murmura, passando a mão no pescoço.
— Ela é areia demais para o seu caminhãozinho, Joshua. Agora volta para a sala antes que o Cole beba a sua parte de tudo. — dou um tapa no ombro dele, ainda rindo.
Volto para a sala me sentindo muito mais leve. Ver Joshua naquela situação patética limpou a nuvem ruim que a mensagem do Greg tinha deixado na minha cabeça. Encontro %Harper% perto do sofá e puxo ela pela cintura, colando as costas dela no meu peito.
— Você não acredita no que eu acabei de ver na lavanderia. — sussurro no ouvido dela.
— O que foi? — ela pergunta, virando o rosto para me olhar.
— Digamos que a Clover e o Joshua encontraram um jeito bem interessante de passar o tempo.
%Harper% arregala os olhos e solta uma gargalhada alta, se jogando contra mim.
— Não brinca! A Clover? Com o Joshua? Meu Deus, eu preciso falar com ela agora!
— Deixa os dois. — eu rio, apertando o abraço. — Vamos aproveitar que o foco não está na gente por um segundo.
A festa continua rolando, mas eu só consigo prestar atenção no jeito que a %Harper% se encaixa perfeitamente no meu abraço.
A música na sala está tão alta que sinto a batida no meu peito. Depois de um tempo, %Harper% foi até as amigas, me deixando sozinho.
Cole e o Joshua se aproximam de mim, fugindo um pouco do barulho da pista improvisada que virou o tapete da sala. Joshua ainda está meio vermelho depois do flagra na lavanderia, mas agora o assunto é outro.
— Ela parece bem melhor hoje, %Evan%. — o Cole comenta, dando um gole na bebida dele e olhando para a %Harper%. — No dia do jogo, ela parecia que ia quebrar a qualquer momento.
— Greg é um lixo. — Joshua completa, falando baixo perto do meu ouvido para ninguém mais ouvir. — Aquele soco que você deu nele foi pouco.
Eu aperto a garrafa de água na minha mão, sentindo a raiva borbulhar de novo.
— Ele mandou mensagem hoje. — confesso, mantendo a voz no limite do audível. — O cara é um doente. Acha que ainda tem algum direito sobre ela.
Os dois trocam um olhar sério. Cole se inclina um pouco mais na minha direção, baixando ainda mais o tom de voz.
— E a aposta, %Evan%? — ele pergunta, sem o deboche de antes. — O prazo de seis meses ainda está correndo no grupo do time, mas a gente sabe que o negócio mudou. Você vai levar isso até o fim ou vai abrir o jogo?
Eu olho para a %Harper% de novo. Ela está rodopiando na sala, rindo de alguma piada da Clover. O pensamento de que tudo isso começou por causa de um desafio idiota de vestiário me faz sentir um lixo.
— Eu queria conversar com vocês sobre isso. — eu começo, olhando fixamente para o rótulo da cerveja. — Eu não quero mais essa merda de aposta. Eu preciso dar um jeito de sair dessa sem que ela...
Antes que eu possa terminar a frase, %Harper% se aproxima de mim e enlaça seus braços no meu pescoço.
— O que os três mosqueteiros estão cochichando aqui no canto? — ela pergunta, a voz levemente arrastada e divertida.
— Coisa de jogo, %Harper%. — Joshua mente rápido, dando um sorriso amarelo para ela.
— Chega de jogo! — ela exclama, me puxando pelo braço com uma força que eu não sabia que ela tinha naquele estado. — %Evan%, você está muito sério. Vem dançar comigo. Agora.
Eu olho para Cole e para Joshua, que dão de ombros, claramente aliviados por terem sido interrompidos. Eu não tenho escolha. Deixo a água no balcão e me deixo levar por ela até o meio da sala.
%Harper% cola o corpo no meu, passando os braços pelos meus ombros. Ela está quente, um pouco instável por causa da bebida, mas o jeito que ela me olha me faz esquecer até do meu próprio nome.
— Você é muito rabugento às vezes, sabia? — ela sussurra, encostando a testa no meu peito.
— Eu só penso demais. — respondo, segurando a cintura dela com firmeza, sentindo a maciez do seu corpo.
— Pare com isso, você vai ser escolhido para um bom time. — ela diz, fechando os olhos e deitando a cabeça no meu peito.
Eu fecho os olhos também, sentindo o perfume dela e o movimento suave dos nossos corpos. Mas o peso da aposta continua ali, martelando na minha nuca, eu preciso sair dessa o quanto antes.
O som da música na sala finalmente começa a baixar, mas o caos ainda está longe de acabar. Eu guio %Harper% escada acima, com o braço firme na cintura dela para garantir que ela não desabe. Ela está naquela fase da bebida em que o corpo parece feito de gelatina e a língua não tem filtro nenhum.
Quando passamos pelo topo da escada, olhamos para baixo e o flagra é inevitável. Joshua está totalmente atracado com a Clover no sofá da sala, as mãos perdidas naquele cabelo loiro dela. Do outro lado, vejo o Finn, outro cara do time, num canto com Maya, o que explica por que a casa ficou silenciosa de repente.
%Harper% para de andar, se apoia no corrimão e solta uma risada alta, apontando para o sofá.
— Ei, Josh! — ela grita, a voz arrastada e divertida. — Boa sorte, viu? A Clover é um furacão na cama, esteja preparado!
Joshua se afasta da Clover por um segundo, enquanto Clover só dá um tchauzinho cínico antes de puxar ele de volta pelo colarinho.
— Como você sabe disso, %Harper%? — Joshua consegue gritar de volta, com um sorriso de choque no rosto.
— Digamos que eu e ela dividimos muito mais do que só segredos, Josh! Um ménage bem feito a gente não esquece! — ela rebate, rindo alto e me puxando para o quarto antes que eu consiga processar a informação.
Eu travo por um segundo, fechando a porta do meu quarto e encostando nela.
— Ménage, %Harper%? Sério? — pergunto, tentando não rir da cara de idiota que o Joshua deve estar agora.
— Você não faz ideia do que a gente aprontava em Boston, %Evan%. — ela murmura, rindo baixinho enquanto se joga na minha cama, os braços abertos sobre o edredom.
Desde que o pessoal da casa descobriu que a gente está junto, ela praticamente se mudou para o meu quarto. Ter ela aqui, no meu espaço, é a única coisa que me mantém sã. Eu me aproximo e ajudo a tirar os tênis dela. Ela está com o rosto corado e os olhos pesados, lutando para ficar acordada. Me deito logo em seguida e ela se encaixa no meu peito automaticamente, as pernas se entrelaçando nas minhas.
Eu a puxo para mais perto, sentindo o calor da pele dela e o ritmo calmo da respiração. Passo a mão pelo cabelo dela, sentindo um nó na garganta. O pensamento de perder isso por causa daquela maldita aposta dos caras me assombra.
— %Evan%... — ela sussurra, a voz sumindo enquanto o sono vence.
Fico ali parado, no escuro, ouvindo o som da respiração dela ficar profunda. Ela apagou. Eu deveria fazer o mesmo, mas o celular vibra na mesa de cabeceira. A luz da tela corta a escuridão e eu vejo uma notificação de um número desconhecido.
Sinto meu sangue gelando conforme leio as palavras na tela.
Não confia nessa cadela, %Vance%. Ela é uma mentirosa do caralho e vai foder com você do mesmo jeito que fez comigo. Eu te disse, %Harper% é %Harper%.
Minha mão aperta o aparelho com tanta força que os nós dos dedos estalam. Olho para a %Harper%, dormindo o sono mais tranquilo do mundo nos meus braços, e aquela pulga atrás da orelha começa a coçar. Greg é um lixo, eu sei disso, mas o que ela não me contou? O que ela poderia ter feito de tão ruim para ele ficar repetindo que %Harper% é %Harper%?
Eu bloqueio a tela e jogo o celular longe. Olho para o teto, sentindo o coração acelerado no peito. Eu quero acreditar nela, eu preciso acreditar nela, mas a semente da dúvida foi plantada. E agora, cada vez que eu olhar para ela, vou me perguntar se estou abraçando a garota dos meus sonhos ou o meu maior erro.