Capítulo Dois • %Evan%
O silêncio às cinco da manhã era a única coisa que eu realmente admirava. O resto do dia pertencia ao treinador, aos patrocinadores da universidade, às aulas que eu era obrigado a frequentar e, principalmente, ao meu pai. Mas esse pequeno espaço de tempo que eu tinha entre o final da madrugada e o início da manhã me pertenciam.
Sentei na beira da cama e encarei a parede vazia do quarto. Eu não precisava de despertador. Meu corpo já estava acostumado a acordar antes do sol, um reflexo de anos sendo treinado para nunca ser pego de surpresa. Levantei e caminhei até a janela, observando o céu ainda mergulhado em sombras.
Eu deveria estar pensando na estratégia de defesa para o jogo de sábado. Mas a imagem daquela garota no café não saía da minha cabeça.
%Harper% %Hayes%. Eu ainda sentia o rastro da irritação que ela causou. Não era apenas o fato de ela ter me mandado para o fim da fila; era o modo como ela me olhou. Como se eu fosse
nada.
—
Você não é especial. — murmurei para o meu próprio reflexo no espelho do banheiro, sentindo a mandíbula travar enquanto jogava água gelada no rosto.
Desci para a cozinha. O lugar era imenso, projetado para atletas, mas naquela hora parecia apenas um local gigante com restos de suplementos de quem não tinha tempo para limpar nada. Fui direto para a bancada, começando a preparar o meu café da manhã, eu precisava pesar tudo o que eu iria comer para não ultrapassar as calorias que eu podia consumir.
Eu estava no meio do processo quando o som de passos ecoou no corredor. Joshua apareceu na entrada da cozinha, com o rosto amassado e o cabelo parecendo um ninho de ratos. Ele se jogou em uma das cadeiras, me observando enquanto eu pesava a aveia.
— Já de pé, %Vance%? — A voz dele saiu rouca, carregada de sono. — Às vezes parece que você não é humano.
— O treino começa cedo, Joshua. Você deveria estar se preparando também. — respondi, sem tirar os olhos da balança.
— Eu estou me preparando. Mentalmente. — Ele soltou uma risada seca e pegou uma maçã na fruteira. — Soube que o seu velho resolveu o
incidente do café. Uma ligação e a tal %Hayes% foi pro olho da rua.
Parei por um segundo, com a colher suspensa no ar. O fato de o meu pai ter interferido tão rápido não me surpreendeu, mas ouvir Joshua falar aquilo em voz alta deixava um gosto amargo.
— Ela foi hostil com um cliente. Eu só relatei o que aconteceu.
— É, claro.
Relatou. — Joshua inclinou a cabeça para o lado, com um sorriso de canto. — O problema é que, do jeito que aquela garota te encarou ontem... eu duvido que ela vá aceitar essa situação sem fazer barulho. Eu vi o olhar dela, %Evan%. Ela não tem medo de você.
Apertei o cabo da caneca com força.
— Ela é só mais uma garota que não conhece o próprio lugar.
— Sei. — Joshua se levantou e caminhou até a geladeira, pegando uma garrafa de água. — Só que tem gente que, quando perde o lugar, decide que o melhor jeito de se vingar é ocupando o seu. Toma cuidado.
Ele deu um gole na água e saiu da cozinha, me deixando sozinho com o barulho baixo da geladeira. Eu tinha uma temporada inteira pela frente. Milhares de dólares em jogo…
Fiquei encarando a porta por onde Joshua tinha acabado de sair. O silêncio da cozinha era a única coisa que eu tinha, mas agora parecia que algo estava fora do lugar. Voltei os olhos para a balança digital. Quarenta gramas de aveia. Nem um grão a mais, nem um a menos. Era assim que eu funcionava. Era assim que eu lidava com a pressão do meu pai.
Peguei o celular que estava jogado no balcão. Havia uma nova mensagem, enviada há dez minutos.
“Mantenha o foco, %Evan%. Não podemos permitir distrações nesta fase da temporada.” As palavras do meu pai não eram um conselho. Era uma cobrança. Joguei o aparelho de volta na bancada, sentindo um gosto amargo na boca.
Eu me sentia muito irritado novamente. %Harper% não tinha apenas me mandado para o fim da fila. Ela tinha me feito perder a paciência na frente de todo mundo. Terminei de comer sem sentir o gosto de nada. Lavei a louça, sequei tudo e guardei nos lugares certos. A organização era a única coisa que eu conseguia controlar.
Subi as escadas, peguei minha bolsa de treino e a jaqueta do time. O peso do logotipo da USC no meu peito parecia maior hoje. Antes de sair, parei em frente ao espelho do corredor e ajustei meu moletom.
— É só uma garota. — repeti para mim mesmo, a voz baixa e dura.
Mas enquanto eu trancava a porta da frente e caminhava em direção ao meu carro, o ar de Los Angeles parecia mais pesado. Eu sabia que o jogo de sábado era importante, mas a sensação estranha no estômago me dizia que o problema não seria dentro do campo.
Entrei no Mustang. Eu precisava de foco. Precisava ser perfeito.
Só que, ao manobrar para sair da garagem, meus olhos buscaram o caminho que levava aos alojamentos. Joshua estava errado. %Harper% %Hayes% não viria atrás de mim. Pessoas como ela costumam aceitar a derrota e sumir.
Pelo menos, era nisso que eu tentava acreditar enquanto acelerava em direção ao campus.
O trajeto foi rápido. O Mustang parecia mais lento do que o normal e eu não conseguia parar de olhar pelo retrovisor, como se esperasse ver %Harper% %Hayes% em alguma bicicleta velha. Era ridículo. Eu não sabia nada sobre a vida daquela garota, mas o jeito que ela se vestia e aquele emprego de merda no café diziam o suficiente. Ela não tinha as conexões que eu tinha. Ponto.
Estacionei na minha vaga, perto do prédio de educação física, e desliguei o carro. Fiquei um segundo em silêncio, apertando o volante com força. Eu precisava limpar minha mente. Se eu entrasse no treino com essa irritação, o treinador ia notar se o relatório ia direto para o meu pai.
Saí do carro e bati a porta. O sol já estava começando a esquentar um pouco aquele ar gélido e o movimento de alunos indo para as aulas era constante. Caminhei em direção aos vestiários, tentando focar só nas jogadas de sábado.
Entrei no prédio e fui direto para o meu armário, querendo colocar o uniforme logo. Eu precisava que o mundo voltasse a ser só números e tática.
O vestiário estava barulhento, com o som de chuteiras batendo no chão e armários batendo. Cole estava sentado no banco de madeira. Ele era um dos cinco caras que moravam comigo, mas tinha saído de casa antes de eu descer para a cozinha.
— O treinador está cobrando os vídeos da última partida. — Cole disse, sem levantar a cabeça. — Ele quer os ajustes prontos.
— Eu já revisei os meus. — respondi, jogando a mochila no banco.
— Ótimo. Porque ele parece que não dormiu nada. Se alguém errar alguma coisa hoje, vai ouvir até o final da semana.
Abri o meu armário e comecei a me trocar. Cole continuou focado no equipamento dele, conferindo cada detalhe. O vestiário era o único lugar onde eu não precisava ser o filho do
Marcus %Vance%, eu era apenas o quarterback.
Pouco depois, Joshua entrou no vestiário. Ele ainda parecia sonolento, mas já estava com a camisa de treino nas mãos. Ele passou por mim e pelo Cole, indo direto para o armário dele no fim do corredor, sem dizer uma palavra sobre o que tínhamos conversado na cozinha.
— Vamos logo, %Vance%. — Cole se levantou, batendo nas proteções dos ombros. — O olheiro da NFL vai estar lá fora hoje.
Fechei o cadeado do meu armário e peguei o capacete.
— Eu estou pronto. — falei, mais para mim mesmo do que para ele.
Saímos pelo túnel em direção ao campo. O sol bateu direto no meu rosto e o som dos apitos já cortava o ar. Eu respirei fundo, tentando deixar qualquer pensamento sobre aquela garota trancado dentro daquele armário de metal.
O sol ainda estava baixo, uma linha laranja pálida rasgando o horizonte, mas o campo de treino já estava em plena atividade. O cheiro de grama, cortada e ainda úmida do orvalho, era o que me mantinha focado.
Eu estava no centro do
huddle. Minha respiração era um ritmo constante, ignorando o vapor que saía da boca dos outros caras.
Recebi o
snap e recuei. Meus olhos escanearam a secundária da defesa antes mesmo do meu pé de apoio tocar o chão. Cole fez a rota em "L", exatamente como desenhado no
playbook. Soltei a bola. Ela viajou em uma espiral tão fechada que mal parecia girar, encontrando as mãos dele no ponto futuro, sem que ele precisasse desviar um centímetro da trajetória.
O treinador não gritou. Ele apenas apitou, sinalizando a próxima jogada, e trocou um olhar rápido e monossilábico com o olheiro da NFL que estava parado à margem, de braços cruzados. O olheiro rabiscou algo na prancheta sem mudar a expressão.
— De novo, %Vance%. Mesma formação, busca o
slot. — o treinador ordenou, a voz seca e autoritária.
O treino seguiu por mais uma hora de pura execução técnica. Quando o apito final soou, caminhamos em silêncio para o prédio de educação física, o som das travas de metal batendo no cimento do corredor ecoando como uma marcha.
No vestiário, o vapor dos chuveiros começava a subir. Sentei no banco de madeira, desamarrando as chuteiras com calma. Cole estava ao meu lado, tirando o capacete com um suspiro pesado.
— O olheiro vai querer os seus dados hoje. — Cole disse, a voz baixa para que os outros não ouvissem. — O treinador quer que você passe na sala dele antes da aula.
— Já esperava. — respondi, abrindo meu armário.
— É sempre o mesmo roteiro, não é? — Joshua interveio, vindo do fundo do vestiário. Ele se sentou no banco à minha frente, me encarando com aquele sorriso de quem está prestes a quebrar o protocolo. — No campo você é intocável, %Vance%. O cara que nunca perde a linha.
— Sei. — Joshua cruzou os braços. — Você é a
promessa, o quarterback que faz tudo o que o velho manda. Mas eu duvido que você consiga ser o dono do jogo fora do campo.
Alguns caras do time pararam de se trocar. O silêncio no vestiário se tornou denso, competitivo.
— Onde você quer chegar? — perguntei, encarando-o de volta.
— Uma aposta. Trezentos dólares de cada um de nós contra você. — Joshua propôs, o desafio brilhando nos olhos. — Você tem até o final do semestre para fazer a %Harper% %Hayes% admitir publicamente que está na sua mão. Se não... você me entrega as chaves do Mustang por um mês.
Olhei para o Cole, que observava em silêncio, e depois para o grupo ao redor. Eu precisava de algo que não fosse o Marcus ditando as regras. Precisava de um jogo onde ele não tivesse acesso.
— Fechado. — falei, minha voz clara e definitiva. — Mas guardem o dinheiro. Vocês vão precisar dele para o Uber, porque ninguém aqui vai encostar no meu carro.