Capítulo Três • %Harper%
O vento seco cortava o campus e fazia meu rosto arder por debaixo do capuz do moletom. O céu estava de um cinza feio e as árvores balançavam de um jeito que parecia que o inverno tinha finalmente chegado em Los Angeles. Puxei as mangas do casaco para cobrir as pontas dos dedos e apertei o passo, tentando ignorar o frio que passava direto pelo tecido.
Minha cabeça ainda latejava. Eu não tinha dormido quase nada, remoendo cada segundo do que aconteceu ontem. O rosto de %Evan% %Vance%, aquela expressão vazia enquanto ele me olhava de cima a baixo no café, não saía da minha mente. Por causa daquele capricho dele, eu agora era a garota com fama de ter um
comportamento hostil. Eu tinha perdido o emprego e, em questão de dias, perderia meu quarto no alojamento.
Caminhei em direção ao pátio da Bio. O movimento dos alunos indo para as aulas de anatomia me dava uma pontada de inveja. Eles tinham para onde voltar depois que o sinal batesse. Eu estava contando os minutos para o e-mail oficial de despejo aparecer no meu celular.
Parei perto de um banco de concreto, longe do barulho da fonte. Meus dedos estavam meio travados pelo frio quando peguei o celular.
Eu: Tô chegando. Trouxe o que você pediu.
Cole: Banco de concreto, perto da estátua.
Avistei ele de longe. Ele estava inquieto, batendo o pé no chão e olhando para os lados. Cole era um cara legal, mas infelizmente ele era amigo de nada mais nada menos que o fodido %Evan% %Vance%. Ele fazia Nutrição e, como eu era da Fisioterapia, a gente acabava se esbarrando nas aulas de Farmacologia. Ele tinha perdido a primeira prova por causa de uma viagem com o time e agora estava em pânico com a segunda chamada. Fármaco era o terror dele: decorar como cada nutriente reagia com os remédios era algo que ele simplesmente não conseguia enfiar na cabeça.
— Oi. — falei quando parei na frente dele. Minha voz saiu meio rouca por causa do ar seco.
— %Hayes%. Achei que você não ia aparecer depois do rolo de ontem. — ele disse enquanto levantava rápido. Ele parecia tenso. — Trouxe mesmo?
Abri a mochila com calma e tirei as folhas com o gabarito que eu tinha montado com base nas questões das provas anteriores do mesmo professor. Passei a madrugada inteira resolvendo tudo, tentando focar em qualquer coisa que não fosse o saldo da minha conta bancária.
— Está tudo aqui. Se você seguir a lógica que eu anotei nas margens, você passa nessa segunda chamada com folga. — entreguei os papeis, mas segurei a ponta da folha por um segundo. — É um favor grande, Cole. Eu realmente tive que me esforçar para terminar isso hoje, com tudo o que está acontecendo.
Ele pegou as folhas com um alívio visível.
— Eu sei. Você me salvou de verdade. O treinador avisou que quem tiver nota baixa não entra em campo no sábado, e como é minha última chance na segunda chamada, eu estava frito.
Ele guardou as folhas na pasta e me olhou por um tempo. O olhar dele parou no meu moletom surrado e no jeito que eu estava encolhida por causa do vento.
— Soube do que o pai do %Vance% fez ontem. — ele começou falando mais baixo. — Foi sacanagem. %Vance% não fala muito sobre isso, mas a gente sabe que o velho dele não aceita que ninguém discuta com o filho.
— Eu perdi o emprego, Cole. — falei e senti um nó na garganta que tentei engolir na marra. — E o alojamento. Se eu não arrumar um serviço logo, vou acabar tendo que trancar o curso.
Cole coçou a nuca e olhou para o chão, parecendo pensar em algo. Ele parecia realmente preocupado, ou talvez estivesse apenas tentando retribuir o favor do gabarito.
— Olha, a gente tem um quarto sobrando lá em casa. — ele disse de repente. — O cara que morava lá se formou no semestre passado e o quarto está vazio. Se você me ajudar com as próximas provas e com os exercícios pro meu joelho que o fisio do time passou, eu falo com os caras. Você teria um teto até se ajeitar.
Meu coração deu um pulo. Eu não estava esperando por aquilo, mas a ideia se encaixou perfeitamente na aposta que eu tinha feito com as meninas. Se eu estivesse morando na mesma casa que o %Evan%, ganhar o dinheiro e fazer ele perder a cabeça seria muito mais fácil.
— Na casa do %Evan%? — perguntei, tentando esconder a animação e fingindo preocupação. — Ele acabou de me ferrar, Cole. Ele vai surtar se me vir lá.
— Ele não manda na casa sozinho. Somos seis lá dentro. Se eu e os caras concordarmos, ele tem que aceitar. Além do mais, a casa é grande. Você ficaria no quarto do térreo, perto da lavanderia. Ele fica no andar de cima o tempo todo. Vocês nem precisam se cruzar.
Fiquei em silêncio por um momento, fingindo que estava avaliando os riscos.
— Tudo bem. — aceitei enquanto sentia o frio entrar nos pulmões. — Mas eu não vou ter como pagar aluguel até conseguir outro trabalho.
— A gente se acerta com as aulas. Vamos, eu te levo no alojamento para você pegar suas coisas antes que o tempo piore.
O caminho até o alojamento foi rápido, mas o silêncio dentro do carro do Cole era denso. Eu olhava pela janela, observando o vento seco balançando os galhos das árvores, tentando processar que eu estava a poucos minutos de me infiltrar na casa do meu maior problema.
— Quer que eu suba? — ele perguntou quando parou na frente do prédio de tijolos vermelhos.
— Não precisa. É pouca coisa. Me espera aqui. — respondi, abrindo a porta e sentindo o frio bater no rosto.
Subi as escadas em vez de pegar o elevador; eu não queria o risco de encontrar nenhuma monitora agora. No meu quarto, o vazio já incomodava. Comecei a enfiar o essencial na mochila e em uma bolsa de lona: meus livros, dois pares de tênis, meu notebook e o porta-retrato da minha irmã. Fechei o zíper com força, sem tempo para nostalgia.
Desci carregando o peso nos ombros e joguei tudo no banco de trás do carro. Cole deu partida rápido, parecendo ansioso.
A casa não era de luxo, mas era espaçosa, com uma varanda de madeira de pintura gasta. Cole estacionou na subida da garagem e pegou minha bolsa.
— Entra por aqui, é mais perto. — ele indicou uma porta lateral que dava direto na cozinha.
Entramos. O lugar estava mergulhado em um silêncio. A pia estava cheia de copos de plástico e pratos sujos, e o balcão tinha marcas de café antigas. Atravessamos o cômodo e ele parou diante de uma porta de madeira compensada, logo depois da área da lavanderia.
— É aqui. O quarto é pequeno, mas serve. — ele abriu a porta.
O quarto era quase todo ocupado por uma cama de casal imensa, com um edredom bordô amassado. Tinha uma escrivaninha de madeira num canto e uma cômoda combinando, ambas com algumas marcas de uso, mas firmes. Joguei minha mochila na cama, sentindo o zumbido da máquina de lavar vizinha vibrar na parede.
— Serve perfeitamente. — falei.
Cole soltou um suspiro de alívio e ia dizer algo, mas o som da porta da frente sendo escancarada interrompeu tudo. O estrondo ecoou pelo corredor de madeira.
—
Honey, I'm home! — A voz do Joshua ressoou, carregada de energia.
Ouvi o baque de uma mochila sendo jogada no sofá e o som de mais passos conforme eles entravam.
— Cole! Cadê você? — Joshua gritou, aproximando-se da cozinha.
Cole me olhou com os olhos arregalados. Logo atrás do Joshua, ouvi outros passos. Mais lentos. Mais pesado. Ele sai para a cozinha, e eu acabo o seguindo.
— Que porra ela está fazendo aqui?
CONTINUA...
N/a: Oie gente, irei tentar mandar sempre dois capítulos por atualização, pra que vocês tenham os dois POV’s. Até a próxima.