A Jogada Perfeita


Escrita porAddie
Revisada/Editada por Natashia Kitamura


Capítulo Um • %Harper%

  O barulho do vaporizador de leite era o único som que conseguia abafar os meus próprios pensamentos, e honestamente, eu agradecia por isso. Trabalhar no Trojan Brew às sete da manhã desta terça-feira era como estar nas trincheiras, só que em vez de lama, eu estava coberta por uma camada fina de xarope e pó de café.
  Ajustei o prendedor no meu cabelo, sentindo alguns fios soltos grudarem na nuca por causa do calor da máquina. Eu estava no meu terceiro café duplo do dia e ainda sentia que poderia dormir em cima do balcão se ficasse parada por mais de dez segundos.
  — Próximo! — chamei, tentando manter a voz minimamente profissional, embora minhas cordas vocais estivessem pedindo arrego.
  Uma garota com o uniforme da equipe de torcida se aproximou, digitando furiosamente no celular enquanto estendia um cartão de crédito sem nem olhar para mim.
  — Latte de soja, extra quente, com dois shots de baunilha. E não esquece de anotar o nome no copo, da última vez vocês trocaram o meu com o da Brittany.
  — Nome? — perguntei, já com a caneta sobre o plástico.
  — Madison. Com "y". Mady.
  Anotei um "Mady" apressado e passei o cartão. Eu não tinha energia para explicar que a diferença entre o latte dela e o da tal Brittany era provavelmente inexistente. Eu só precisava chegar ao fim do turno. Minha conta bancária era um campo minado e o vencimento do meu alojamento na USC era a bomba-relógio que eu tentava ignorar. Meus pais não falavam comigo há três meses, desde que o caos com a minha irmã explodiu, e a sensação de estar flutuando sem rede de segurança era o que me fazia levantar da cama todos os dias.
  Eu estava prestes a chamar o próximo quando o ar do café pareceu mudar. Sabe aquele silêncio repentino que acontece quando alguém importante entra em um lugar? Foi exatamente assim.
  Eu não precisei olhar para a porta para saber quem era. O burburinho nas mesas de canto, onde o pessoal do primeiro ano costumava fofocar, morreu na hora.
  %Evan% %Vance% não andava como se fosse o dono do lugar; ele andava como se o lugar tivesse sido construído apenas para ele passar. Ele estava usando a jaqueta do time, os ombros largos parecendo ocupar um espaço que não pertencia a mais ninguém. O rosto dele era limpo, bem cuidado, mas tinha uma expressão que eu só conseguia descrever como... desértica. Não havia nada ali. Nem alegria, nem tédio, nem pressa.
  Ele passou direto pela fila. Simplesmente ignorou as seis pessoas que esperavam pacientemente e parou bem na minha frente.
  O cheiro dele me atingiu antes de qualquer palavra. Era um perfume caro, algo que lembrava pinheiros e couro novo, misturado com o frescor de quem acabou de sair de um bom banho.
  — Um americano. Grande. — ele disse.
  A voz era baixa, mas tinha uma vibração que eu senti na boca do estômago. Ele não olhou para mim. Ele olhava para o menu acima da minha cabeça, mas era óbvio que não estava lendo nada. Ele estava apenas esperando ser servido.
  Eu segurei o copo com tanta força que meus dedos ficaram brancos.
  — A fila termina lá atrás, atrás do cara de moletom verde. — eu disse, num tom de voz que fez o Mike, meu gerente, parar de organizar os muffins no balcão ao lado.
  %Evan% finalmente baixou o olhar. Os olhos dele eram de um cinza muito claro, quase como a cor do céu de Los Angeles antes de uma tempestade. Ele me encarou com uma curiosidade fria, como se eu fosse um inseto que tivesse acabado de aprender a falar.
  — Eu estou com pressa. — ele respondeu. Sem grosseria, apenas um fato, como se a pressa dele fosse uma lei da física que eu deveria conhecer.
  — Todo mundo aqui está, %Vance%. — retruquei, sustentando o olhar. — Você não é especial. Fila. Agora.
  Eu vi o momento exato em que a máscara dele vacilou. Foi um milésimo de segundo. Uma contração mínima no canto do olho direito. Ele deu um passo para frente, inclinando-se sobre o balcão de madeira. O espaço entre nós desapareceu, e o balcão parecia uma barreira patética.
  — Você sabe quem eu sou? — ele perguntou, tão baixo que só eu podia ouvir por cima do barulho da máquina de gelo.
  — Sei. Você é o cara que está atrasando o café de todo mundo.
  Ele inclinou a cabeça milimetricamente para o lado, me estudando. O olhar dele desceu até o meu crachá de metal, fixando-se no meu sobrenome gravado em letras pretas: %HAYES%.
  — Você tem um senso de justiça bem caro, %Hayes%. — ele disse, a voz desprovida de qualquer tom de ameaça óbvia, o que era muito mais assustador. — Espero que ele valha a pena.
  Ele não foi para o fim da fila. Ele deu meia-volta e saiu. A porta de vidro balançou devagar atrás dele, e o ar na cafeteria pareceu finalmente voltar a circular.
  Eu tentei focar no próximo pedido. Tentei ignorar o modo como minhas mãos tremiam levemente enquanto eu colocava o copo na máquina. Mas o silêncio que o %Evan% deixou para trás era pior do que o burburinho de antes. Era como se todo mundo no Trojan Brew estivesse esperando o impacto das minhas palavras.
  — Você perdeu o juízo, %Hayes%? — Mike se aproximou, a voz num sussurro sibilante. Ele não estava organizando os muffins; ele estava me encarando como se eu fosse uma bomba-relógio.
  — Ele furou a fila, Mike. Eu só fiz o meu trabalho.
  — O seu trabalho é garantir que as pessoas saiam daqui satisfeitas, especialmente as que podem comprar este prédio inteiro. — ele retrucou, o rosto vermelho de ansiedade. — Aquele é o filho do Marcus %Vance%. Você tem ideia de quanto aquele homem investe na USC todo ano?
  Eu não respondi. Entreguei o latte da Madison com um movimento brusco e voltei para a limpeza. Eu sabia como o mundo funcionava, especialmente em uma universidade onde o sobrenome muitas vezes valia mais do que o currículo. Mas eu vinha de uma casa onde o controle era exercido através do silêncio e da perfeição. No momento em que ajudei minha irmã a fugir e fui chutada para fora com duas malas e um grito de liberdade, fiz uma promessa: ninguém mais me faria sentir pequena.
  O turno se arrastou por mais uma hora de olhares tortos até que o telefone fixo tocou. Mike atendeu e a cor sumiu do seu rosto em tempo real.
  — Sim, senhor. Entendo perfeitamente. Sinto muito... sim, a conduta dela foi inaceitável.
  Ele desligou o aparelho devagar. O olhar que ele me deu não era mais de raiva. Era uma pena que me enojou.
  — %Harper%, pegue suas coisas. Marcus %Vance% ligou pessoalmente para o dono da franquia. Reclamação de comportamento hostil. O dono quer você fora.
  Saí pelos fundos da cafeteria sentindo o estômago dar voltas. O frio de Los Angeles estava de cortar, o barulho do trânsito parecendo uma trilha sonora para o meu fracasso. Eu tinha exatamente duzentos dólares na conta e um aviso de despejo mental batendo na porta do meu quarto.
  Fui até o alojamento para me trocar e esperei o horário da minha aula. Uma das vantagens de morar em um alojamento próximo a faculdade, era que eu não precisava sair correndo para chegar no horário.
  Caminhei em direção ao prédio de fisioterapia para a minha próxima aula, tentando manter a cabeça no lugar, mas o desespero é um bicho barulhento. Quando entrei na sala, minhas duas únicas amigas na USC, Maya e Clover, já estavam lá. Elas leram minha cara no segundo em que me sentei.
  — %Harp%? O que aconteceu? — Maya sussurrou, fechando o MacBook.
  — Fui demitida. %Evan% %Vance% resolveu que eu era um problema para o ego dele e o pai dele resolveu o problema com uma ligação. — falei, jogando a mochila no chão. — Eu estou ferrada. Sem emprego, eu não tenho como pagar o alojamento na sexta. Eu não tenho para onde ir, meninas.
  — Aquele cara é um desgraçado. — Clover sibilou, os olhos brilhando de indignação. — Todo mundo fala como se ele fosse um deus, mas ele é só... um cara mimado.
  — Ele se acha intocável. — Maya completou, olhando para o fundo da sala onde um grupo de atletas conversava. — Sabe, o pessoal da fraternidade dele vive dizendo que ele é todo sem sentimentos, que tem uma garota diferente na cama todos os dias. Ele é um babaca por isso.
  Eu olhei para as minhas mãos. A raiva que estava sufocada pela preocupação financeira de repente encontrou um canal de saída. %Evan% %Vance% tinha me tirado o sustento por um capricho. Ele achava que podia mover as pessoas como peças de um tabuleiro.
  — Quer saber? Quero vingança. — eu disse, a voz subindo de tom, atraindo alguns olhares. — Vocês acham que ele não é capaz de se apaixonar por alguém?
  — Do que você está falando, %Harp%? — Maya arqueou uma sobrancelha.
  — Vamos fazer uma aposta. — eu disse, sentindo a adrenalina finalmente silenciar o medo. — Trezentos dólares de cada uma de vocês se eu fizer o %Evan% %Vance% perder a cabeça por mim. Eu vou quebrar esse cara. E quando ele estiver rastejando aos meus pés, eu vou ser a pessoa que vai dar o fora nele na frente da USC inteira.
  As duas trocaram um olhar de choque.
  — %Harp%, isso é loucura. Você nem gosta dele. — Clover sussurrou.
  — Exatamente. É por isso que eu vou vencer.
  — Tudo bem... Mas %Harp%, onde você vai ficar até lá? — Jenny perguntou, preocupada. — Se você for expulsa do alojamento na sexta...
  — Eu vou dar um jeito. — respondi, meu olhar fixo em nada, enquanto o professor começava a rabiscar o quadro branco.
  Abri meu caderno, mas não para anotar o que ele dizia. Senti o peso do olhar de Maya e Clover sobre mim, esperando uma fraqueza que eu não podia me dar ao luxo de mostrar.
  — Aposta fechada? — perguntei, sem desviar os olhos da frente.
  Maya hesitou por um segundo, trocando um olhar rápido com Clover, antes de confirmar com um aceno de cabeça quase imperceptível.
  — De pé, %Harper%. Se você conseguir... o dinheiro é seu.
  — Eu vou conseguir. — afirmei, finalmente encostando a caneta no papel.
  Escrevi o nome dele no topo da página em branco, circulando as letras com uma força que quase rasgou o papel: %EVAN% %VANCE%.
  Ele achava que tinha vencido porque conseguiu me tirar do serviço. Ele achava que eu era apenas um detalhe irrelevante na sua manhã impecável. O que ele não sabia era que, ao me deixar sem teto e sem opções, ele tinha acabado de me transformar no seu pior pesadelo.

Capítulo Um
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