Fora das Quadras

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

  Nota da autora: Elenquei a música tema do casal. Beggin – Maneskin tudo a ver. Depois me conta nos comentários se concorda.


Capítulo 1

  Marina Santos tinha aprendido que não era uma boa ideia discutir com atletas antes das oito da manhã. Não porque eles fossem especialmente mal-humorados naquele horário, mas porquê alguns ainda estavam sonolentos demais para perceber que estavam sendo contrariados.
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  — Você vai fazer o exame hoje.  — Ela disse.
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  O jogador sentado diante dela continuou amarrando o cadarço.
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  — Hoje?
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  — Hoje.
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  — Mas eu estou bem, Nina.
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  Marina levantou os olhos da prancheta.
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  — Você está mancando, Cauê.
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  Ele olhou para o próprio pé como se só então tivesse percebido.
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  — Estou?
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  — Está.
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  — Talvez seja impressão… — Ele deu de ombros tentando disfarçar.
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  — Está dizendo que a sua fisioterapeuta está tendo só uma “impressão errada do seu pé”, jura?
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  Ele sorriu.
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  — Você está ficando sarcástica, Nina.
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  — Aprendi com vocês...
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  O jogador soltou uma risada e finalmente levantou.
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  — Tá bom. Eu faço o exame.
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  — Ótimo. Você faria querendo ou não.
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  — Você é muito mandona!
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  — E você continua jogando basquete mesmo quando está machucado. Acho que estamos quites.
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  Cauê saiu da sala reclamando qualquer coisa sobre fisioterapeutas que não tinham coração, e Marina voltou para a prancheta.
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  Do corredor, ouviu:
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  — Nina! — Era Cauê de novo.
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  — O quê?
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  — Você viu meu celular?
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  Ela fechou os olhos por um segundo.
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  — Está no seu bolso, cara…
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  Silêncio. Depois:
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  — Ah!
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  Marina sorriu sozinha.
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  Era assim quase todos os dias. Ela já não sabia dizer em que momento o Aurora Basquete tinha deixado de ser apenas seu local de trabalho e virado uma parte tão grande da sua vida, tão íntima como uma família. Pode ser que tenha acontecido na primeira viagem em que ela percebeu que conseguia dormir em qualquer ônibus, mesmo rodeada de vários homens. Ou, talvez na primeira vez em que um jogador voltou para a quadra depois de uma lesão e foi abraçá-la antes mesmo de cumprimentar o técnico.
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  Na verdade… O mais certo era que tivesse acontecido muito antes, quando Rafael Valença telefonou numa terça-feira à noite e fez uma proposta que mudaria completamente a trajetória profissional dela.
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  Na época, Marina ainda não era “a Nina”.  Pelo menos não para aquelas pessoas.
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  — Rafa? Você está me ligando por quê?
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  — Porque eu preciso de você.
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  Marina apoiou o telefone no ombro enquanto procurava alguma coisa na geladeira.
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  — Isso parece grave. Um pouco assustador, até… Logo você dizendo com esse tom urgente.
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  — É.
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  — Você fez alguma merda?
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  — Ainda não. Mas sem você do meu lado, com certeza, uma hora eu vou fazer.
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  Ela encontrou uma garrafa de água.
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  — Então é grave mesmo.
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  Rafael riu.
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  Eles tinham esse tipo de amizade. Uma intimidade construída ao longo de anos, suficiente para que Marina pudesse atender uma ligação dele à noite e começar a conversa perguntando se ele tinha feito alguma besteira. Naquele momento, Rafael estava prestes a assumir seu primeiro trabalho como técnico principal de uma equipe do NBB. O Aurora havia apostado nele. E ele queria que Marina fosse com ele.
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  — Quero você na minha comissão.
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  Ela ficou alguns segundos em silêncio.
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  — Você está falando sério?
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  — Estou.
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  — Rafael, eu não trabalho em uma equipe desse tamanho.
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  — Ainda.
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  — Isso não é resposta.
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  — É exatamente a resposta.
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  Marina encostou na pia.
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  Aquela oportunidade era grande demais para ser tratada como uma gentileza entre amigos. Ela sabia disso. Rafael também.
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  — Por que eu?
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  — Porque você é boa.
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  A resposta veio sem hesitação.
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  — E porque eu confio em você.
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  Foi essa segunda parte que a fez considerar. Marina não precisava que Rafael dissesse que ela era boa. Sabia que era. Tinha estudado e trabalhado para aquilo. Tinha passado anos atendendo atletas, estudando lesões, acompanhando recuperação e aprendendo muitas vezes na prática, que tratar um corpo de atleta profissional exigia muito mais do que conhecimento técnico.
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  Confiança era diferente. Rafael não estava oferecendo apenas um emprego, ele estava dizendo que colocaria o trabalho dela sob o próprio nome!
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  — Quando eu teria que começar?
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  — Segunda.
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  — Você já tinha decidido por mim, não é seu pilantra?
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  — Eu conheço você.
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  Marina riu e Rafael também.
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  — Isso não significa que você pode decidir por mim.
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  — Mas você vai aceitar.
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  — Rafa… Preciso pensar. Te ligo na segunda, ok?
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  — Te encontro às sete e meia na portaria do ginásio do Aurora. Te mandei o endereço no whatsapp já.
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  Ele desligou sem esperar que Marina ainda o respondesse, e ela, na segunda-feira, apareceu no Aurora às sete e quinze da manhã. Rafael estava esperando na porta.
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  — Eu sabia.
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  — Não fala nada, Rafa. Tô apavorada, você sabe! Bom dia.
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  — Bom dia para você também, lindona! E se você está apavorada, imagine eu!
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  Ela sorriu.
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  — Bem-vinda ao time, Nina.
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  E ela ainda não sabia que aquele apelido ficaria.
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  Três anos depois, ninguém mais chamava Marina de doutora, senhora, professora ou qualquer outra coisa que pudesse lembrar alguma formalidade. Era Nina.
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  Nina na fisioterapia, no banco de reservas, no aeroporto às cinco da manhã. Nina no grupo de mensagens do time, o qual ela estava até mesmo no grupo das zoações. Nina que aparecia com uma faixa elástica na mão e fazia metade do elenco desaparecer misteriosamente. Nina que sabia quem estava sentindo dor antes mesmo de o jogador admitir.
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  O trabalho tinha lhe dado uma espécie de autoridade que não vinha do cargo, vinha do tempo, da experiência e dos resultados. Os jogadores sabiam que, quando Marina dizia que alguém precisava ficar fora de um treino, não era uma opinião, era uma decisão baseada em lógica e competência.
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  Rafael sabia disso também. Às vezes eles discordavam, às vezes discutiam, mas nunca diante dos atletas. E, quando a porta da sala dele se fechava, a amizade voltava a existir no meio da conversa profissional.
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  — Você está me dizendo que eu não posso colocar o cara em quadra?
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  — Estou.
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  — Mesmo se ele disser que está bem?
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  — Principalmente se ele disser que está bem.
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  — Você sabe que eu preciso dele.
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  — E eu sei que você precisa dele saudável.
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  Rafael passava a mão pelo rosto.
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  — Um dia você vai ser minha ruína, Nina.
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  — Um dia você vai me agradecer. — Ela respondeu com os braços cruzados e sua expressão de quem não perderia a discussão.
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  — Eu já agradeço… Apesar de me colocar em sinucas táticas.
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  — Não parece, Rafa. Você sempre reclama com esse seu dramalhão.
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  — É que você é muito exigente, Marina! Ele poderia aguentar uns dez minutos de quadra, sabe?
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  — Sou exigente e foi você que me contratou. Ou seja… Colocou seu nome no fogo pelo meu, e tenho certeza que sabia da minha “exigência”. — respondeu fazendo aspas com os dedos na última palavra.
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  Rafal não tinha resposta para aquilo.
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  No entanto, fora do ginásio, Marina era bem menos organizada do que os jogadores imaginavam. O apartamento vivia razoavelmente arrumado, mas a cadeira do quarto tinha uma coleção permanente de roupas que ainda não eram sujas o suficiente para lavar e já não estavam limpas o bastante para guardar.
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  Ela comprava livros como quem comprava comida. Começava séries em horários absurdos. Ligava para a mãe durante o caminho para casa e tinha uma relação complicada com aplicativos de entrega, especialmente depois de semanas de viagens.
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  Não era uma pessoa que gostasse de falar muito sobre a própria vida, aliás. Preferia ouvir, e com certeza por isso era tão boa no trabalho. Marina prestava atenção. Percebia quando alguém estava diferente, quando um jogador chegava mais quieto ou quando outro estava irritado. Ela sabia ler quando um sorriso vinha acompanhado de alguma coisa que não estava sendo dita.
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  No Aurora, essa característica fazia dela uma espécie de ponto de equilíbrio. Ela conhecia o corpo dos jogadores e com o tempo, passou a conhecer também os silêncios, os comportamentos. E havia um jogador cujo silêncio ela conhecia particularmente bem: Pedro Dornas.
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  Pedro tinha aprendido cedo que talento sozinho, não era suficiente. Na infância, bastava ser o garoto que acertava mais arremessos. Na base, já não. Era preciso treinar mais, ser mais disciplinado, focado e o talento era só uma mínima parcela de muito trabalho. Depois vieram os campeonatos, os olheiros, as primeiras entrevistas e a sensação estranha de perceber que outras pessoas começavam a ter expectativas sobre aquilo que ele fazia.
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  Pedro gostava da expectativa. Gostava de ser cobrado, da sensação de entrar em uma quadra sabendo que havia gente esperando alguma coisa dele. Talvez tivesse gostado até demais…
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  Quando chegou ao Aurora, ainda era jovem o bastante para ouvir que precisava amadurecer e orgulhoso demais para admitir que fosse verdade. Três temporadas depois, ele já não era uma promessa. Era uma das referências da equipe e isso tinha mudado a maneira como as pessoas olhavam para ele. Pedro Dornas era o jogador que precisava decidir.
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  O jogador que deveria pontuar, que aparecia nos melhores momentos, o jogador cuja fotografia começava a aparecer nas matérias sobre a temporada. E ele tinha aprendido a conviver com isso, ou pelo menos era o que dizia. Porque, depois dos jogos, ainda assistia aos próprios vídeos e ficava irritado quando perdia um arremesso fácil. Ainda lembrava durante dias de uma assistência que poderia ter feito melhor e ainda odiava a pergunta:
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  — Pedro, você está satisfeito com sua atuação?
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  Quase nunca estava. Não porque jogasse mal, mas porque, na cabeça dele, sempre poderia existir uma versão melhor daquela partida…  Uma cesta a mais, um erro a menos, uma decisão diferente.
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  Pedro morava sozinho em um apartamento que parecia grande demais para uma pessoa que passava metade do mês viajando. E ele gostava de cozinhar quando tinha tempo. Ligava para os pais aos domingos, tinha amigos que conhecia desde antes de o basquete virar profissão e fazia questão de encontrá-los sempre que conseguia.
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  A fama ainda não tinha transformado completamente sua vida. Ele conseguia andar na rua, ia ao mercado, saía para jantar… Mas já começava a perceber que algumas pessoas não olhavam para ele como antes. Reconheciam seu rosto, pediam fotografias e comentavam sobre os jogos. Perguntavam sobre a seleção, sobre propostas e o futuro. Pedro respondia, sorria, e até fazia piada porque sempre foi alto-astral.
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  Depois ia para casa e pensava em tudo o que tinha dito.
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  A carreira estava crescendo. E, com ela, crescia também uma inquietação que ele não sabia nomear: Pedro queria ganhar, chegar mais longe. Queria provar que merecia cada oportunidade! Só não sabia ainda, quanto aquela vontade custaria.
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  Naquela temporada, o Aurora estava vivendo um bom momento, o elenco se conhecia muito bem, sendo o mesmo há quase três anos. Sem grandes alterações de jogadores entrando ou saindo. E Rafael tinha conseguido montar uma equipe competitiva. A comissão técnica funcionava muito bem também, e a torcida comparecia. Aliás… A torcida crescia! E Pedro estava jogando o melhor basquete de sua carreira.
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  Marina via isso de perto, não porque estivesse prestando atenção nele mais do que nos outros. Pelo menos era isso que dizia a si mesma.
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  Pedro também não prestava atenção especial nela, pelo menos era isso que ele também dizia a si mesmo.
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  Para os dois, naquele momento, aquilo ainda era simples: ela era Nina e ele era Pedro. Ou melhor, era o “Dornas”. E havia entre os dois uma amizade construída ao longo de três temporadas, feita de café roubado, discussões sobre treino, viagens, piadas ruins e uma familiaridade que nenhum dos dois tinha parado para examinar.
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  Naquele ponto da história, Marina não fazia ideia de que Pedro Dornas se tornaria uma das pessoas mais importantes da sua vida. Pedro também não sabia que o fato seria recíproco.
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