Fora das Quadras

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

  Nota da autora: Elenquei a música tema do casal. Beggin – Maneskin tudo a ver. Depois me conta nos comentários se concorda.


Capítulo 4

  Na manhã seguinte, Pedro chegou ao ginásio de muletas e com uma expressão que deixava claro que preferia estar em qualquer outro lugar. Marina estava na quadra acompanhando o aquecimento dos outros jogadores quando o viu entrando.
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  — Bom dia, estrelinha.
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  Pedro parou na frente dela.
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  — Não começa.
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  — Eu nem falei nada.
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  — Falou “estrelinha”.
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  — E você respondeu. Então está tudo bem.
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  Ele revirou os olhos.
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  — Meu tornozelo está doendo. Pra caralho.
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  — Fez alguma coisa fora do recomendado durante a noite? — Marina olhou para o pé dele e subiu os olhos até ele de um jeito sarcástico.
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  — Queria ter feito muita coisa, acredite.
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  — Eu sei. — Ela deu uma risadinha.
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  — Ele não poderia mesmo, Nina. — Lucas, o jogador que estava recebendo uma massagem eletroestimulante de Nina no ombro e que até então não havia se metido na conversa deles, comentou: — Pedrão foi chutado há duas semanas.
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  — Cala a boca Lucas. — Dornas suspirou.
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  — Oh… Eu nem sabia que ele estava namorando! — Marina comentou surpresa.
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  — Não era namoro. Era só uma garota… Aleatória. Não teve importância.
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  — É. Ele não conseguiu segurar a mina, sabe? — Lucas comentava com maldade — Diz a Priscila, que tem outra mulher na cabeça do Pedro.
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  — Hum… — Marina comentou vendo Pedro dar um soco no outro braço de Lucas e mandando ele calar a boca — Então a tal Priscila fez bem. Ninguém merece passar por isso de uma pessoa que já tem outra na cabeça.
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  — Eu estou com fome, Nina. Deixa o Lucas aí, esse boca de sacola e vamos tomar café comigo?
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  Marina finalmente olhou para ele.
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  — Isso não é sintoma da entorse, não tenho que te acompanhar.
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  — Para mim é.
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  — Além disso, estou atendendo o Lucas. — Marina respondeu.
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  Imediatamente Lucas se levantou da cadeira e sorriu para os dois, especialmente para Nina dizendo:
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  — Acha mesmo que eu gosto de ficar tomando esse choquinho né? E você não tomou café da manhã ainda, então vai lá com o esse chorão.
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  — Eu não acabei a sessão, querido. Sou eu que decido quando parar.
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  — Nina, você tá me eletrocutando há sete dias. E eu já estou bem melhor, então, dá um desconto vai! Eu quero entrar no treino!
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  — Lucas, Nina! — Rafael gritou do meio da quadra para eles — Já está liberado, Nina?
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  Marina fez sinal de “ok” para Valença e voltando-se ao Lucas ordenou:
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  — Vai lá, mas aquece antes.
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  Dornas riu e fez sinal para que ela o acompanhasse, assim que Lucas saiu.
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  — Parecia até que estava fugindo de tomar café comigo.
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  — Não é isso, mas precisa saber que eu não estou aqui apenas para te atender, ok?
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  — Só estava tentando ajudar meu colega, esses seus aparelhinhos de tortura, sabe…
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  — Falando em tortura, preciso contar para você sobre os resultados de imagem.
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  Pedro parou de caminhar e encarou ela preocupado, então Marina passou a mão no braço dele o estimulando a continuar caminhando. Claro, no ritmo dele, com a ajuda de muleta.
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  — O resultado da avaliação confirmou uma entorse lateral de grau moderado, com a pequena lesão muscular que eu havia identificado na noite anterior. Não é nada que coloca a temporada em risco, mas é o suficiente para tirá-lo das quadras por algumas semanas.
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  E Pedro odiava cada palavra daquela frase.
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  — Droga. Aquele maldito pressentimento… — Dornas bufou assim que ouviu tudo — Nina, eu sei que vem merda por aí. A mídia vai…
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  — Para com isso. Deixa de pessimismo. A gente vai tomar café e pensar só na sua recuperação. Ok?
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  Eles entraram no refeitório e Pedro tentou não se abalar com os fantasmas que surgiam em sua cabeça.
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  Nas primeiras sessões, ele descobriu que fazer fisioterapia era muito menos interessante quando não podia escolher o exercício, a intensidade ou a hora de terminar.
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  — Mais dez segundos.
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  — Você disse isso há dez segundos, Nina!
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  — Então faltam vinte.
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  — Nina...
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  — Pedro!
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  Ele respirou fundo e continuou o exercício de equilíbrio.
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  — Isso é humilhante.
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  — Você só está em cima de uma perna no busu, o que tem de humilhante nisso?
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  — Exatamente. Tô igual um saci-pererê só que com menos agilidade do que ele!
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  — Você é jogador profissional de basquete, Dornas.
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  — Justamente por isso.
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  Marina segurou o riso.
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  — Dornas, você não está fazendo fisioterapia para provar que é bom. Está fazendo para voltar a jogar sem transformar uma entorse em um problema maior.
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  — Eu sei, mas é ridículo.
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  — Então para de tentar negociar comigo, e concentra. Estabilidade nesse joelho, vamos.
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  — Você nunca negocia.
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  — Porque eu tenho razão e sei mais o que estou fazendo do que você.
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  Ele ficou alguns segundos em silêncio.
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  — Isso é irritante.
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  — E você é muito chorão, mesmo.
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  A rotina começou a se estabelecer.
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  Pedro chegava mais cedo, fazia o tratamento, acompanhava parte do treino sentado no banco e depois passava mais algum tempo com Marina. Ela cuidava do tornozelo, acompanhava os exercícios, ajustava a carga e, principalmente, tentava impedir que ele inventasse maneiras de acelerar o processo.
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  Fora dali, os dois continuavam conversando como sempre. Só que agora Pedro tinha muito mais tempo para conversar com ela. Mandava mensagens reclamando do treino que assistira do banco, perguntava o resultado dos outros jogos da rodada e, algumas vezes, aparecia na sala dela simplesmente porque estava entediado.
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  — Você não tem o que fazer? — Marina perguntou certa tarde.
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  — Tenho.
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  — O quê?
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  — Te perturbar.
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  — Ah. Então está ocupado.
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  Pedro sorriu.
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  — Bastante.
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  Naquela semana, o Aurora venceu sem ele. Pedro comemorou com os companheiros, mas a vitória teve um gosto estranho. Assistiu ao jogo inteiro do banco, vibrando a cada cesta e reclamando de cada erro como se estivesse em quadra.
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  Quando o segundo jogo terminou, ele ficou alguns minutos sozinho no vestiário e Marina apareceu na porta.
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  — Ei, você está bem?
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  — Estou… Eu acho.
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  Ela entrou.
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  — Essa resposta normalmente significa que você não está.
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  Pedro soltou uma risada curta.
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  — Eu só odeio ficar olhando.
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  — Você acha que todo mundo vai esquecer que você existe porque ficou duas partidas fora?
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  Ele levantou os olhos.
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  — Não é isso.
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  — Então o que é?
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  Pedro demorou a responder.
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  — Eu estava jogando bem.
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  Marina sentou ao lado dele.
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  — Estava.
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  — E agora estou aqui… Parado e sem treinar.
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  — Por enquanto, Pedro.
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  — Você sempre fala “por enquanto”.
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  — Porque você ainda não me ensinou a prever o futuro, e mesmo assim, estamos indo muito bem para a projeção que eu fiz do seu tempo de tratamento.
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  Ele sorriu de leve.
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  — Chata.
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  — Teimoso.
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  — Isso foi uma ofensa, Nina? — Pedro a encarou mais atencioso, observando o rosto dela com cautela. Marina apoiava o peso do corpo nos braços atrás de si, olhando-o com expressão sacana.
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  — Foi uma constatação.
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  Pedro balançou a cabeça, mas o sorriso permaneceu. Era inclusive, um sorriso diferente. Ele não se lembrava de observar que Marina tinha algumas sardas no rosto sobre o nariz e bochechas. Aquilo deixava-a mais bonita do que ele já havia notado.
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  Na segunda-feira seguinte, ele voltou ao ginásio andando sem muletas, uma vitória que Marina observou de longe, e sorrindo convencida quando ele chegou perto dela. Na noite anterior, por mensagem, ele havia dito pra ela que estava melhor. E mesmo ela tendo falado que era para ele sair da muleta aos poucos, há três dias, Pedro, em casa, não usava aquelas “malditas bengalas” — como ele dizia — desde então.
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  — Melhorou mesmo… — Nina comentou ao vê-lo se aproximar sem o apoio.
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  — Eu falei pra você!
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  — Isso não significa que está liberado para jogar, Dornas.
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  — Eu sei.
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  — Então por que está com essa cara de quem voltou a ativa?
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  Pedro apontou para si mesmo.
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  — Porque eu pareço um ser humano novamente. Sem aquelas bengalas!
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  — Você sempre pareceu um ser humano. Senta aí, quero ver de perto.
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  — Discordo. — Ele deu de ombros se sentando na cadeira.
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  Ela se aproximou e examinou o tornozelo.
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  — Ainda tem sensibilidade aqui.
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  — Pouca.
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  — Pouca ainda é sensibilidade.
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  — Você não pode simplesmente fingir que não viu?
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  — Posso. Mas aí eu deixo de ser uma boa fisioterapeuta.
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  — Chata!
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  — Você já usou essa, precisa de uma ofensa nova.
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  — Estou repetindo porque continua funcionando.
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  Ele riu. Naquele momento, nenhum dos dois percebeu que aquelas conversas tinham começado a ocupar um espaço diferente na rotina. Marina estava acostumada a cuidar dos jogadores e Pedro estava acostumado a ser, especialmente, cuidado por ela. E agora havia também os cafés depois do treino, as mensagens durante o dia, as discussões sobre filmes ruins que os dois assistiam e até as ligações rápidas quando algum deles tinha alguma coisa para contar.
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  Era fácil, natural como uma amizade que se afunila conforme a convivência e era por isso que ninguém questionava a relação dos dois, nem mesmo eles. Até que a imprensa começou a questionar.
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  Naquela semana, uma matéria esportiva chamou atenção entre os jogadores do Aurora.
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“Pedro Dornas faz falta? Aurora vence, mas ausência reacende discussão sobre desempenho da principal estrela do time.”

  Pedro leu no celular ainda no vestiário. Depois abriu outra.
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“Lesão de Pedro Dornas expõe dependência do Aurora em seu principal jogador. Apesar dos resultados favoráveis, nota-se que o desfalque do ala central da equipe não foi superado mesmo com as substituições de outros jogadores na posição.”

  E uma terceira:

“Quanto tempo o Aurora consegue esperar por Pedro Dornas?”

  Ele ficou olhando para a tela por alguns segundos. Rafael entrou no vestiário e percebeu a expressão dele.
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  — Não lê.
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  Pedro bloqueou o celular.
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  — Já li.
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  — Então para por aí. Essas porcarias não estão afetando o time, pode acreditar.
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  — Eles estão falando como se eu tivesse escolhido me machucar.
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  — Jornalista precisa de manchete.
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  — E eu preciso jogar, Valença. Calar a porra da boca deles! Isso é injusto comigo, com o Gabriel que está jogando pra caralho na posição! Isso é… Sujo!
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  Rafael ficou em silêncio e Pedro guardou o celular no bolso.
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  — Quando eu voltar, eles vão esperar que eu resolva tudo.
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  — Você sabe que não funciona assim, Pedro. E já sabíamos que uma hora eles iriam começar a falar da sua ausência.
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  — Sei.
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  — O que importa é que o time não depende de você, quero dizer… A gente está fazendo um ótimo trabalho! Eles só estão focados em te atacar, tem clubes rivais pressionando pra mostrar interesse no seu passe, e… Você tem que manter a sua cabeça aqui. No Aurora! Nos seus colegas de time e no seu retorno.
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  — Sei, sei. Os caras já conversaram comigo. Ninguém está tão afetado quanto eu.
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  — Exatamente! Então confia na gente, e confie em você. Sabe que estamos juntos não é?
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  — Sei.
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  Mas não parecia saber. Do outro lado do corredor, Marina acabava de sair da sala de fisioterapia quando viu Pedro parado com Rafael. Não perguntou o que tinha acontecido. Ela conhecia aquela expressão. E, pela primeira vez desde a lesão, percebeu que o problema de Pedro talvez não estivesse mais apenas no tornozelo.
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  Na semana seguinte, Pedro já conseguia caminhar sem mancar. Para qualquer outra pessoa, aquilo seria uma ótima notícia, mas para ele, significava que estava pronto para voltar.
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  — Não, Pedro. — Marina nem levantou os olhos da ficha.
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  — Você nem olhou para mim.
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  — Não preciso, já sei o que você pretende.
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  — Nina.
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  — Pedro, não.
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  Ele cruzou os braços.
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  — Eu estou andando normalmente!
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  — Ótimo.
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  — Sem dor, você sabe!
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  — Melhor ainda.
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  — Então posso treinar.
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  Marina finalmente olhou para ele.
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  — Parcialmente, já disse. Não começa a querer me pressionar para te liberar ao Fred!
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  — Quanto é “parcialmente”? O Fred é preparador da equipe há anos e ele disse que por ele, eu posso voltar a treinar como antes!
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  — Parcialmente é o suficiente para você não entrar em quadra e tentar ganhar um jogo sozinho.
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  — Eu nunca faço isso.
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  Ela ergueu uma sobrancelha.
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  — Além disso, quem sabe quando vocês podem voltar a treinar ou não, sou eu! O Fred é excelente no trabalho dele, quando os atletas estão saudáveis! Lesionados, são o meu departamento.
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  Pedro pensou por dois segundos.
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  — Tá. Eu não vou insistir.
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  — Hoje você vai fazer os exercícios que eu passei, depois vai para a musculação e nada de mudança de direção, salto ou corrida em alta velocidade.
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  — Isso não é treino, ou seja, você continua fazendo fisioterapia comigo.
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  — É recuperação e treino sim.
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  — Parece punição para mim…
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  — Porque você está com pressa e agindo com imaturidade demais para um jogador profissional, sabia?
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  Ele pegou a garrafa de água e notou que Marina já havia ficado impaciente. Mas, ela estava correta. Ele também sabia disso.
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  — Estou com saudade da quadra.
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  Marina não respondeu. Aquela, pelo menos, ela entendia, embora não iria alimentar as reclamações dele. Pedro não estava apenas entediado. Estava desconfortável com a sensação de estar perdendo espaço enquanto o time seguia sem ele.
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  O Aurora tinha vencido os três jogos em que ele ficara fora. Isso deveria ser bom, mas para Pedro, havia alguma coisa incômoda naquilo. Ele queria voltar antes que alguém se acostumasse com sua ausência.
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  E Marina percebeu.
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  Nos dias seguintes, passou a vigiar um pouco mais de perto. Pedro fazia os exercícios corretamente quando ela estava olhando. Quando ela se afastava, porém, aumentava a carga. Uma tarde, ela voltou à sala e encontrou o jogador fazendo saltos que ainda não estavam liberados.
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  — Dornas. — Marina chamou-o, séria e com expressão de raiva.
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  Ele parou.
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  — Nina, eu posso explicar.
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  — Comece, então. Por que eu estou a ponto de jogar minha prancheta em você.
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  — Eu só estava testando meu tornozelo.
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  Marina colocou as mãos na cintura.
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  — E ele passou no teste?
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  — Acho que sim.
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  — Que bom. Porque você quase reprovou no meu.
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  — Não aconteceu nada, relaxa, Nina!
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  — Esse é o problema. Você está esperando alguma coisa acontecer para começar a respeitar a recuperação! Além disso, está sendo completamente desrespeitoso com o meu trabalho!
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  — Eu estou bem.
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  — Você ainda não está pronto.
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  — Mas estou melhor.
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  — Está! Graças ao meu trabalho! Graças às minhas orientações! Ou acha que eu te mantive esse tempo todo de molho só porque eu queria passar tempo com você? — Ela se aproximou e avaliou o tornozelo. — Me deixa ver.
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  Pedro sorriu.
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  — Queria passar tempo comigo?
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  — Cala a boca Dornas, não foi o que eu disse! Estou irritada de verdade com você! — Marina ralhou olhando-o cortante.
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  — Nina, eu te respeito e não quis te ofender, mas eu realmente estou muito melhor! Viu?
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  — Não se empolga. A ressonância de ontem apontou uma recuperação na ruptura tendínea do tornozelo, mas a precaução e o retorno gradual não tem a ver só com a lesão, Pedro! É preciso pensar nas outras estruturas musculares!
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  — Você acabou de falar que estou melhor, porque eu não posso simplesmente retornar como antes?
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  — Também falei que o retorno deve ser gradual! Você está pensando em treinar como o Dornas que treinava antes da lesão! Três semanas pode parecer um tempo longo para você, mas não é, Pedro! Não estou te impedindo de treinar, só que não é do seu jeito!
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  Ele suspirou.
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  — Você é impossível.
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  — E você continua capaz de voltar a jogar graças a isso! — Marina bufou e contou: — Eu acabei de entregar para o Fred o seu plano de tratamento, montamos juntos o seu treino de retorno e quando eu volto você está saltando como um inconsequente!
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  Ele sorriu de novo.
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  — Ainda bem que eu sou muito foda no meu trabalho, não é Dornas? Se depender de você, não chegaria no final da temporada.
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  — Convencida.
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  — Realista.
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  Marina deu as costas para ele, e Pedro se aproximou tocando o ombro dela e a puxando para um abraço amigável, porém, um pouco mais apertado do que geralmetne era.
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  — Obrigado. Você é especial demais para mim e seu trabalho é incrível. Mas confia em mim, Nina. Eu também conheço o meu corpo.
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  — Lavei minhas mãos. Você é um problema do Fred por enquanto.
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  E assim, a recuperação avançava. Primeiro vieram os exercícios de força. Depois, equilíbrio, propriocepção, corrida leve, tudo com o acompanhamento do preparador técnico, e supervisão médica da Marina. Quando ela finalmente permitiu ao Fred, que ele executasse alguns movimentos específicos da modalidade, Pedro saiu da sala com uma expressão que ela não via havia semanas.
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  Ele estava feliz.
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  Naquele dia, depois do treino, os dois ficaram sentados na arquibancada vazia.
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  — Faz quanto tempo que você trabalha aqui mesmo? — Pedro perguntou.
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  — Três anos.
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  — Parece mais.
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  — Isso é bom ou ruim?
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  — Bom.
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  Marina olhou para ele.
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  — Por quê?
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  Pedro deu de ombros.
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  — Não sei. Parece que você sempre esteve aqui.
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  Ela sorriu.
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  — E você sempre foi folgado assim!
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  — Desde o primeiro dia.
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  — Eu lembro bem… — Marina comentou revirando os olhos e virando seu copo de chá gelado.
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  — Qual é… Você gostou de mim!
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  — Eu te tolerava, Dornas… Aprendi a te suportar.
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  — Mentira. — Ele reclamou e os dois gargalharam.
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  — Um pouco… — Marina olhou para ele com mais sentimento de carinho do que já havia feito: — Ok, preciso confessar que você… É bem divertido.
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  Pedro riu. Ficaram em silêncio por alguns segundos. A quadra estava vazia. Sem torcida, sem música, sem gritos. Apenas as luzes do ginásio e o eco distante de uma bola quicando em outra parte do prédio.
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  — Você acha que eu volto quando? — ele perguntou.
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  — Quando estiver pronto. E não depende mais de mim.
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  — Você sabe que eu odeio essa resposta.
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  — Eu sei.
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  — Então podia mentir.
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  — Mas eu não minto para meus atletas.
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  Ele olhou para ela e sorriu.
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  — Ainda bem.
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  Naquela mesma semana, o nome de Pedro voltou a aparecer nas notícias. Dessa vez, não por causa da lesão.
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“Aurora mantém boa campanha sem Pedro Dornas. Retorno da estrela será necessário para mudar o time? Dornas ainda tem espaço nesta equipe?”

  Outra matéria comparava os números do jogador antes da lesão com os resultados obtidos pelo Aurora durante sua ausência. Pedro leu as duas e depois fechou o celular.
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  — Você está fazendo aquela cara — Marina comentou.
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  Eles estavam no refeitório.
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  — Que cara?
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  — A de quem está pensando demais.
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  — Estou pensando normal.
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  — Não existe “pensar normal” para você.
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  Ele soltou uma risada sem humor.
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  — Eles ainda estão dizendo que o time está melhor sem mim.
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  Marina apoiou os talheres sobre a mesa.
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  — Não acredito que está de novo, entrando na pilha da imprensa, Pedro.
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  Marina ficou alguns segundos observando-o.
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  — Você não precisa provar nada para uma manchete.
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  — Eu sei.
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  — Não parece, Pedro. Sinceramente! Não era nem para perder seu tempo lendo essas coisas...
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  — Eu sei, Nina.
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  Ela conhecia aquele tom, ele não estava convencido de que tudo o que a imprensa falava era provocação.
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  — Você vai retornar daqui há uma semana. — Marina então contou — Mas pelo amor de Deus! Isso é segredo de estado, Rafael e Fred nem podem sonhar que eu te contei!
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  Na mesma hora a expressão de Dornas mudou. Ele pegou a mão de Nina e deixou um beijo e um aperto firme ali, voltando a comer sorridente e largando de vez o telefone.
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  — Vou focar, minha musa! Você vai ver!
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  Marina sorriu, estava feliz por ele, mas uma única expressão a congelou totalmente: “minha musa”. O que raios significava aquilo?
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  A volta aconteceu pouco depois.
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  Pedro não voltou como titular absoluto nem recebeu os minutos que queria. Rafael e Marina combinaram uma progressão cuidadosa: poucos minutos, controle de carga, observação durante e depois dos jogos.
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  No primeiro jogo, Pedro entrou no segundo quarto. A torcida gritou seu nome, e ele sorria como criança em piscina de bolinhas. Naquela noite, Pedro Dornas marcou oito pontos, o que não era nada espetacular. Para ele, foi suficiente. No segundo jogo, jogou um pouco mais e no terceiro, voltou à rotação principal. A cada partida, parecia recuperar um pedaço da confiança que havia perdido.
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  E a imprensa percebeu seu esforço crescente, apesar de manter a mão pesada de críticas:
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“Pedro Dornas ainda não recuperou o ritmo.”
“Estrela do Aurora volta, mas produção está abaixo do esperado.”
“Pedro precisa provar que continua sendo o principal nome do Aurora.”

  Ele continuava fingindo não se importar, e Rafael e Marina sabiam que era mentira.
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  — Você está lendo fofocas de novo? — Rafael perguntou quando o encontrou no corredor do ginásio, afundado com a cara na tela do celular.
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  — Não.
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  — O celular está na sua mão, Pedro. — Marina completou — E a sua cara é a mesma que denuncia quando alguém te critica e você não gosta.
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  Pedro olhou para a própria mão.
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  — É… Tá meio difícil não chegar até mim as notícias.
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  — Você é péssimo mentindo. — Marina falou tocando o ombro dele, e Rafael a encarou cúmplice.
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  — Olha só, Pedro. Você voltou para as quadras. Se livrou da fisioterapia dolorosa com a Marina, então… Esquece essas porras, tá? — Valença aconselhava — Além do mais, você não tem ido conversar com o Suárez como eu te pedi.
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  — Rafael, na boa… O doutor Suárez é um porre. Tudo o que ele tem a dizer é o quanto a gente precisa ter mentalidade forte.
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  — É, Rafa. — Marina apoiou ao Pedro: — Eu já te falei que o trabalho do Suárez é contestável. Odeio ser antiética, mas… Neste caso, não tem meias-verdades. Os garotos me fazem mais de psicóloga do que ao próprio profissional que tem disponível para eles!
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  — E a Marina nem deveria ficar com a nossa carga emocional na mão. — Pedro suspirou e tocou a mão dela que ainda estava em seu ombro — Aliás, desculpa por te fazer de confidente e te deixar preocupada, Nina.
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  — Que isso, Pedro. Somos amigos, e eu… De certo modo, isso faz parte do meu trabalho também, só que… Equipe multifuncional, né Valença?! — Marina de novo criticou, em direção ao treinador.
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  — Vocês tem razão. Vou conversar com o Suárez primeiro… — Rafael bufou e olhou para Pedro e Marina lado a lado e sorriu de ladinho, um pouco zombeteiro — Quer dizer que vocês são… Confidentes um do outro, é?
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  — Não exatamente. — Marina disse rápido.
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  — É, ela é mais minha confidente do que eu dela. Desculpa por te preocupar tanto, minha musa… — Pedro sorriu maldoso e passou um braço em torno do ombro dela a abraçando de lado.
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  — Pe-Pedro… — gaguejou de novo com a surpresa da proximidade e aquela expressão de novo: “minha musa…” — Você não me deixa preocupada.
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  — Ele é péssimo mentindo, e você é péssima fingindo que não se preocupa. — Rafael falou piscando para os dois e saiu dizendo: — Não sei o que está rolando entre vocês, mas eu apoio, e acreditem que o time todo também.
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  Marina ficou quieta, Pedro também. Nenhum dos dois comentou a frase. Naquele momento, ainda parecia apenas uma conversa entre amigos que se conheciam bem demais.
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  Duas semanas depois, o tornozelo de Pedro Dornas deixou de ser assunto. O ala recuperou os minutos em quadra e voltou a jogar perto do nível que apresentava antes da lesão. A cobrança, porém, não diminuiu. Aumentou.
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  Agora ele precisava mostrar que tinha voltado. Precisava justificar o salário, o protagonismo, a expectativa da torcida, os comentários dos jornalistas. Precisava provar que continuava sendo Pedro Dornas. E ele estava determinado a provar.
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  O jogo daquela noite era importante para a classificação do time para as próximas etapas. O ginásio estava lotado, Pedro estava bem desde o primeiro quarto. No terceiro, acertou uma sequência de arremessos e colocou o Aurora novamente na frente.
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  Marina acompanhava tudo da lateral da quadra, sempre atenta a todos da equipe, mas principalmente, ao Dornas. Ela já tinha visto Pedro jogar centenas de vezes, conhecia a velocidade dele, os movimentos, a forma como ele preparava o corpo antes de uma mudança de direção e por isso percebeu quando ele começou a forçar.
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  — Dornas! — gritou quando ele voltou para a defesa.
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  Pedro olhou rapidamente para ela. Marina apontou para ele, depois para o banco. A fisioterapeuta já estava ao lado do técnico Rafael. Ele balançou a cabeça negativamente e sibilou: “Ainda não”.
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  — Rafa, o Pedro tá forçando. — Marina comentou preocupada.
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  — O quê? — Rafael então prestou atenção no jogador e perguntou para Marina ainda olhando para aquadra — O tornozelo?
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  — Não tenho certeza, mas ele não está se movimentando normalmente.
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  Rafael pediu uma substituição alguns minutos depois. Pedro saiu, bebeu água e ouviu as orientações.
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  — Está tudo bem? — Marina perguntou quando passou por ele.
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  — Estou.
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  — Cansado?
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  — Um pouco.
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  Ela observou o rosto dele.
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  — Se sentir alguma coisa, me fala.
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  — Eu falo. — Pedro voltou para a quadra evitando Marina.
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  E ela notou, e o Valença também. Quando Pedro voltou para a quadra, o treinador comentou ao lado da fisioterapeuta:
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  — Ele está te evitando. Não é?
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  — Rafa, o Pedro tá sentindo e escondendo!
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  O jogo estava nos minutos finais quando aconteceu o novo drama. Dornas recebeu a bola no lado direito, o marcador veio rápido e Pedro tentou escapar. Um passo. Dois. Mudança de direção. Ele apoiou o pé esquerdo para frear e girou o corpo.
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  Foi tudo muito rápido. O joelho direito não acompanhou e Pedro sentiu uma espécie de estalo. Não foi como o tornozelo. Não houve tempo para pensar. A perna simplesmente cedeu.
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  Ele caiu. A bola escapou de suas mãos e quicou para longe.
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  Dessa vez, Marina não esperou ninguém chamá-la, a fisioterapeuta correu para a quadra apressada, junto com outros auxiliares médicos. Pedro estava deitado, segurando a própria perna, urrando de dor.
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  — Pedro!
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  Ele abriu os olhos.
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  — Nina… Nina, por favor! — Ele implorava chorando.
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  Ela se ajoelhou ao lado dele.
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  — Não mexe. Fica calmo!
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  — Meu joelho… Nina, tá doendo muito! — Pedro levantou a camisa tampando o rosto com muita dor.
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  — Eu sei, eu sei! Mas fica parado!
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  Pedro respirava rápido. Marina segurou o ombro dele enquanto avaliava a situação.
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  — Olha para mim, Dornas! — Ele olhou. — Respira!
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  — Não consigo, Nina! Deu merda, não é?
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  — Consegue! Respira junto comigo!
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  Marina imobilizava a perna dele, tendo completa ciência do que havia acontecido só de olhar para o joelho dele.
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  Ele tentou.
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  Marina verificou a perna, fez perguntas rápidas, avaliou sensibilidade e circulação, sem tentar movimentar o joelho além do necessário.
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  Ela tocava a região com cuidado e Pedro fechou os olhos.
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  — Merda! — Pedro chorava controlando-se para não debater de dor.
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  Marina sentiu o estômago apertar, mas manteve a expressão profissional.
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  — Pedro, olha para mim. — Ele abriu os olhos novamente, e encarou a confiança e o carinho nos olhos dela — Eu estou aqui. A gente vai te remover na maca, e você precisa ficar calmo, ok?
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  Foi só isso. Mas alguma coisa no rosto dele mudou. A tensão diminuiu por um segundo, Pedro segurou a mão dela, forte como havia feito naquela primeira noite, quando caminhavam pelo estacionamento.
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  Só que agora era diferente. Ele estava assustado, de verdade.
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  — Não vai embora, Nina. Fica comigo… — ele disse baixo.
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  Marina apertou a mão dele.
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  — Não vou! Eu estou com você!
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  Ao redor deles, o ginásio havia ficado em silêncio. Os jogadores do Aurora observavam e Rafael estava de pé à beira da quadra, aguardando ansioso. A equipe médica removeu o jogador da quadra, o árbitro deu autorização para tempo técnico. E durante todo esse momento, Pedro continuava olhando apenas para Marina. Os flashes das câmeras em cima dele só não tornavam o momento pior, porque Dornas não tirava os olhos de Marina, e nem ela desfez o contato visual com ele, em nenhum momento.
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  — Nina...
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  — Calma, vai ficar tudo bem.
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  Ele engoliu em seco.
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  — Eu acho que aconteceu alguma coisa séria, não é?
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  Marina respirou fundo.
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  — A gente vai descobrir.
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  Ele apertou a mão dela outra vez. Quem estava de fora, conseguia entender o drama. E era fácil perceber que Pedro não parecia estar olhando para Marina como a fisioterapeuta do Aurora. Estava olhando para ela como a única pessoa que queria por perto naquele momento.
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