Fora das Quadras

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

  Nota da autora: Elenquei a música tema do casal. Beggin – Maneskin tudo a ver. Depois me conta nos comentários se concorda.


Capítulo 3

  O ginásio estava cheio muito antes de a bola subir. Marina percebeu isso assim que entrou no corredor que levava aos vestiários. O som da torcida atravessava as paredes, misturado à música que tocava nas caixas de som e às vozes dos funcionários correndo de um lado para o outro. Dia de jogo tinha uma energia própria. Não era necessariamente mais barulhento, era diferente. Até os jogadores pareciam ocupar mais espaço.
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  — Nina!
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  Ela se virou. Um dos preparadores físicos vinha na direção dela com uma prancheta na mão.
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  — O que foi?
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  — O Dornas está perguntando por você.
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  Marina franziu a testa.
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  — Por quê?
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  — Não faço ideia.
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  — Ele está machucado?
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  — Não.
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  — Então ele está inventando alguma coisa.
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  O preparador riu.
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  — Provavelmente.
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  Marina continuou andando, e encontrou Pedro sentado no banco do vestiário, já uniformizado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e os olhos fixos no próprio tênis.
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  — Dornas… Você me chamou?
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  Ele levantou o rosto.
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  — Chamei, Nina.
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  — O que aconteceu?
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  — Nada.
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  — Então por que me chamou?
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  Pedro apontou para o próprio joelho.
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  — Você acha que essa bermuda está estranha?
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  Marina ficou olhando para ele.
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  — Você me fez atravessar o vestiário para perguntar isso?
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  — Estou nervoso.
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  Ela sorriu.
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  — Eu sei.
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  Pedro passou a mão pelo cabelo, e deu um sorrisinho de lado.
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  — Dá para perceber?
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  — Para mim, sempre.
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  Ele ficou alguns segundos em silêncio.
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  — Nina… — interrompeu o breve silêncio abandonando o tom risonho e dando espaço para uma voz carregada de preocupação: — Você acha que eu vou jogar bem hoje?
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  Marina encostou no armário à frente dele.
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  — Você quer a resposta profissional ou a resposta de amiga?
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  — As duas.
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  — Profissionalmente, você treinou bem durante a semana.
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  — E como amiga?
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  — Você vai fazer merda em algum momento.
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  Pedro riu.
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  — Obrigado… Grande jeito de me acalmar. — A ironia era um traço coerente entre aqueles dois.
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  — Todo mundo faz merda em algum momento importante da carreira Pedro.
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  — Você podia ter dito que eu vou jogar muito.
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  — Você já sabe que eu acho que você joga muito. Você é o melhor do time, e sabe disso.
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  Ele levantou, suspirando e travestindo-se de um pouco mais de coragem.
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  — Então está bom!
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  — Era só isso?
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  — Era.
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  Pedro passou por ela, e Marina segurou o braço dele.
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  — Ei. Tem certeza que é só nervosismo? Você não está sentindo nada? Como está o punho?
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  — Relaxa, Nina. Eu só estou com aquele… Pressentimento. — Pedro falou segurando na mão dela, como um apoio mútuo de atleta x fisioterapeuta.
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  Ele se virou para sair.
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  — Respira, Dornas. Você é bom no que faz!
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  Pedro assentiu.
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  — Eu sei.
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  — Sei que sabe! Vai arrasar! — Ela soltou o braço dele — Vai lá.
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  — Depois você me conta se eu fui bem.
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  — Não vai ser preciso. Os gritos de felicidade dos torcedores irão dizer.
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  Ele saiu sorrindo e Marina balançou a cabeça, um pouco preocupada. Tinha alguma coisa diferente naquela atmosfera.
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  O jogo começou às vinte horas.
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  Pedro acertou a primeira cesta, depois a segunda. Na terceira, sofreu uma falta. Na arquibancada, alguém gritou o nome dele e ele sorriu.
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  Era exatamente o tipo de noite que Pedro Dornas gostava. A partida era equilibrada, mas o Aurora começou a abrir vantagem ainda no primeiro quarto. Pedro estava rápido. Muito rápido. Encontrava espaços, criava jogadas. Chamava a responsabilidade quando precisava. No banco, Marina acompanhava tudo com atenção profissional.
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  O primeiro quarto terminou com o Aurora na frente. No segundo, o adversário reagiu. No terceiro, Pedro voltou a colocar o time no jogo. Quando o cronômetro marcava pouco mais de três minutos para o fim da partida, o placar estava empatado.
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  Rafael pediu tempo e os jogadores se reuniram.
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  — Últimos minutos! — Valença, o treinador, disse. — Cabeça no lugar, pessoal!
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  Pedro respirou fundo e Marina observava do outro lado, da área da equipe técnica. Ele encontrou o olhar dela e ela fez um gesto pequeno com a cabeça: “Vai, arrasa”. Era o que aquele gesto significava, e bastava aquilo para Pedro sorrir mais confiante.
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  Voltando para a quadra, a fatídica jogada aconteceu rápido. Tão rápido que, depois, Pedro não conseguiria explicar direito.
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  Ele recebeu a bola na lateral, um marcador veio para cima. Pedro acelerou e mudou de direção, entrou no garrafão e saltou. O defensor também, a bola saiu da mão de Pedro e então… Cesta! A torcida explodiu.
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  E então ele caiu.
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  O pé direito aterrissou sobre o pé do adversário, o tornozelo virou para fora, Pedro sentiu a dor antes mesmo de tocar o chão. Foi uma fisgada aguda, imediata. Ele caiu de lado e por alguns segundos, ficou parado.
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  A bola continuou rolando pela quadra até que o árbitro apitou. A torcida silenciou de maneira quase instantânea, e Marina já estava de pé.
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  — Nina! — alguém chamou.
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  Ela não respondeu, já estava entrando em quadra. Pedro tentou se levantar.
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  — Não! Não levanta! — A voz dela saiu firme.
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  Ele olhou para ela, teimoso, mas sem conseguir esconder a expressão de dor:
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  — Eu consigo, Nina.
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  — Dornas! Fica parado.
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  — Nina...
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  — Pedro, fica parado, é uma ordem!
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  Ele obedeceu. Marina se ajoelhou ao lado dele.
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  — Foi o tornozelo, não é?
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  — Sim. — Ele apontou o local exato do maléolo — Aqui.
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  Ela examinou rapidamente, o rosto dele estava tenso.
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  — Consegue mexer os dedos?
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  — Sim. — Pedro mexeu.
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  — Sentiu alguma coisa aqui?
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  Ela tocou alguns pontos.
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  — Não.
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  — Aqui?
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  — Aí. Ai, ai, Nina!
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  Marina olhou para o tornozelo, o inchaço começava a aparecer e não era bonito. Mas também não parecia, naquele primeiro momento, uma lesão catastrófica.
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  — Vamos tirar você daqui.
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  Pedro olhou para o placar.
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  — Quanto falta?
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  Marina encarou-o.
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  — Você está falando sério?
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  — Quanto?
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  — Dois minutos e quarenta e sete segundos.
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  Ele tentou se apoiar.
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  — Dá para voltar.
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  — Não, Pedro. Não vou arriscar uma lesão pior!
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  — Nina.
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  — Não!
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  — Mas eu consigo!
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  — Você acabou de ter uma entorse de tornozelo e está tentando ficar de pé porque faltam dois minutos e quarenta e sete segundos? Não me faça me estressar com você!
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  Pedro respirou fundo.
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  — O jogo está apertado, Nina!
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  — E vai continuar apertado sem você.
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  — Você não pode saber!
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  — Posso saber que você não vai voltar agora. E ponto.
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  Ele fechou os olhos por um instante. Marina viu a frustração chegar antes mesmo de ele dizer qualquer coisa, era sempre assim. Pedro podia sentir dor, podia aceitar tratamento e fazer fisioterapia, mas ficar fora de um jogo era outra coisa.
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  — Vamos — ela disse.
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  Dessa vez, ele não discutiu. E naquele jogo, o Aurora venceu por três pontos. Pedro assistiu aos minutos finais sentado no banco, com o tornozelo já imobilizado provisoriamente e uma bolsa de gelo apoiada sobre a região.
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  Quando a buzina final tocou, os jogadores correram para a quadra, mas Pedro ficou. Marina estava ao lado dele observando-o e tentando mantê-lo calmo.
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  — Parabéns pelo jogo que você fez e pela vitória do time, Dornas. — ela disse.
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  Ele continuou olhando para a quadra.
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  — Eu devia estar lá, Nina.
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  Ela não respondeu imediatamente.
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  — Você vai estar de novo.
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  Pedro olhou para ela.
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  — Tem certeza? Essa lesão não te preocuparia se tivesse me deixado voltar.
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  — Isso é precaução, Pedro. Se você quer jogar outros jogos, então vai se recuperar dessa entorse primeiro. Assim que o jogo acabar, a gente vai fazer a ressonância e iniciar a recuperação.
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  — Mesmo?
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  — Mesmo.
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  Ele respirou fundo.
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  — Então está bom. Confio em você.
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  No vestiário, a vitória não tinha o mesmo gosto para Pedro. Os companheiros comemoravam, havia música, gritos e toalhas jogadas para o alto. Rafael entrou, recebeu abraços e tentou manter a comemoração sob controle.
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  Pedro estava sentado em um canto, e Marina apareceu na porta depois de Valença afirmar que ela poderia entrar.
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  — Vamos, Pedro. — Marina chamou-o e ele levantou os olhos para o treinador.
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  — Agora, Nina?
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  — Agora.
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  — Só para eu saber o quanto você está preocupada, para onde exatamente vamos?
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  — Fazer uma avaliação melhor, na ala médica do clube mesmo. Não pira. — Marina comentou sorrindo e Rafael apertou o ombro dela como se estivesse entendendo o quanto ela teria que lidar com a ansiedade de Pedro Dornas.
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  Pedro olhou para os companheiros, todos o incentivando a ficar menos carrancudo, que um entorse era algo comum e simples para as mãos experientes de Nina. Depois ele olhou para ela.
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  — Eu não posso ir junto com o time?
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  — Pode. Mas, eu não quero. Quero dar uma avaliada nisso logo!
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  Ele continuou sentado e Marina sorriu de leve.
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  — Vamos, Dornas. Tá com medo de mim?
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  Ele pegou a mochila enquanto os outros colegas gargalhavam da piada da fisioterapeuta.
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  — Pra quem conhece o peso dessas suas mãozinhas, Nina, a gente entende o Pedro estar de corpo mole. — Gabriel, um dos alas, brincou.
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  Horas depois, no consultório do ginásio, o barulho da comemoração que os rapazes faziam na área de lazer parecia distante. Marina refez a avaliação com mais calma: movimento, palpação, estabilidade, dor, inchaço… Enquanto esperava o resultado da ressonância magnética ser mandado para ela, ela fazia perguntas, anotava respostas e comparava os dois lados.
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  Pedro observava o teto.
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  — Você acha que é grave?
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  — Não parece.
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  — “Não parece” não é muito tranquilizador.
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  — É o que eu posso dizer agora, Pedro. Não devia estar tão assustado… Não é a primeira vez que você vê isso acontecendo.
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  — Quanto tempo?
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  — Pedro…
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  — Quanto tempo fora, Nina?
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  Marina parou de escrever e bufou.
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  — Ainda não sei. Mas você não deveria estar reagindo desse jeito, está parecendo um moleque da base.
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  — Alguns dias?
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  — Provavelmente.
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  — Semanas?
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  — Talvez. Não posso declarar sem ver a ressonância antes.
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  Ele virou o rosto.
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  — Eu odeio essa palavra.
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  — Qual?
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  — Talvez.
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  Ela sorriu e largou tudo se aproximando dele:
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  — Eu sei que odeia, mas sinceramente, Dornas… O que tá se passando na sua cabeça? Por que essa aflição em ficar alguns dias de repouso? Já sofreu lesões antes, sabe como é que funciona!
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  — Exatamente por saber que eu não queria nada disso agora, Marina. — Pedro falou sério — Estou no meu melhor momento. Isso nunca me afetou antes, porque eu não era o atleta profissional que eu sou hoje.
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  Pedro ficou em silêncio. Depois perguntou:
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  — Você vai estar amanhã, na fisioterapia? Ou… Vai ser o Marcelo?
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  — Vou estar. Rafael me pediu que ficasse com vocês por toda a temporada, já que o Marcelo está voltando da licença paternidade.
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  — Mesmo sendo domingo? Tem certeza que não vai folgar?
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  — O time tem treino, e como eu falei… — Ela suspirou — Meus horários acompanham o de vocês.
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  — Você não precisa vir! Como é isso, de ficar sem a sua folga? — Pedro comentou de um jeito um pouco preocupado e revoltado.
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  — Eu estou recebendo a mais por isso, e folgo junto com o restante da equipe. Não se preocupe.
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  Ele olhou para ela.
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  — Então vou estar nas suas mãos amanhã?
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  Marina guardou a caneta.
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  — Pode ficar tranquilo que sim. — Nina falou e sorriu: — Ou não.
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  Pedro assentiu. Não disse mais nada.
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  Mais tarde, quando o ginásio já estava quase vazio, Marina saiu pela porta lateral de seu consultório com o resultado do exame de imagem em suas mãos, foi em direção à sala de Valença. Rafael estava esperando.
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  — E então? O que houve com o Pedro?
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  — Entorse. Preciso avaliar melhor amanhã durante os exercícios, não parece grave, mas…
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  Rafael Valença soltou um suspiro e perguntou com medo:
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  — Mas?
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  — Identifiquei uma microruptura de tecido muscular. Ou seja… Muita cautela, repouso e cuidado nos exercícios. Vou precisar deixar o Pedro de molho por mais tempo do que eu pretendia, confesso.
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  Ele soltou o ar.
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  — Ok, não é tão ruim assim.
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  Marina cruzou os braços.
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  — Não tão rápido, Rafa.
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  — O quê?
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  — Você conhece o Pedro. O problema é lidar com ele. Está com fome de cestas! Vou precisar da sua ajuda para manter ele… Repousando.
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  Rafael deu uma risada curta.
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  — Infelizmente.
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  — Ele vai querer voltar antes da hora.
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  — Eu sei.
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  — Então você vai precisar segurá-lo.
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  Rafael olhou para o corredor por onde Pedro tinha saído.
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  — Você também vai precisar ser dura com ele.
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  — Eu vou! Quando é que eu dei mole para esses garotos?
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  — Eu sei. — Rafael deu um sorrisinho ladino e comentou: — Só que eu também sei que o Pedro, faz um certo charme pra você.
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  — Isso é coisa da sua cabeça! Sou profissional com todos eles.
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  — Eu não disse que não era. — Valença sorriu um pouco mais, observando a amiga e eles ficaram em silêncio por alguns segundos.
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  Rafael colocou as mãos nos bolsos, notando a expressão de Nina que olhava para o exame de imagem sobre a mesa dele.
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  — Você ficou preocupada.
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  Marina o encarou.
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  — Sou fisioterapeuta do time. Sei exatamente o que eles sentem quando preciso colocá-los de molho, e o Dornas está no auge da temporada, da carreira… Me preocupa a saúde mental dele e como isso pode resvalar na equipe.
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  — É… Compreendo sua preocupação. Ele parece mais disposto a se abrir com você, do que com o Suárez.
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  — Já te falei o que penso do Suárez! Como psicológo esportivo ele é bastante retrógrado. Você deveria parar de ter medo e levar isso pra direção.
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  Rafael sorriu.
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  — Boa noite, Nina. Não vamos procurar uma briga com os chefões agora, não é?
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  — Uma hora, a briga tem que partir do técnico se quiser o título. Mas, não vamos discutir. Boa noite, Rafa.
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  Ela saiu da sala do amigo, pegou suas coisas em seu consultório depois de guardar o exame de Dornas na pasta médica dele, e quando chegou ao estacionamento, Pedro estava esperando do lado de fora. Sentado no banco próximo à entrada, a mochila aos pés.
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  — Você ainda está aqui?
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  — Estou esperando você.
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  Marina parou.
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  — Por quê?
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  — Meu carro está no estacionamento.
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  — E?
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  — Não posso ir sozinho, não é óbvio?
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  Ela olhou para ele.
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  — E ninguém do time podia te dar uma carona? Ou você não poderia pedir um uber?
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  Pedro deu de ombros:
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  — Poderia, mas recusei voltar com o Cauê, e pensei que você podia me levar hoje.
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  Marina respirou fundo.
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  — Você é muito folgado, Pedro!
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  — Você pode dizer não. — Ele riu para a amiga.
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  Ela olhou para o tornozelo dele, depois para o rosto.
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  — Vamos, estrelinha…
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  Pedro sorriu.
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  — Sabia que você não me deixaria pegar um carro desconhecido!
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  — Não fala nada.
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  — Ah qual é, Nina! Você sabe que eu te adoro.
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  Eles começaram a caminhar devagar pelo estacionamento até o carro dela. Pedro apoiava o peso com cuidado na muleta que havia sido dada a ele e Marina acompanhava o passo dele. Por alguns metros, não conversaram, até que ele a chamou:
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  — Nina?
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  — Hum?
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  — Obrigado.
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  Ela olhou para ele.
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  — Pelo quê?
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  — Por não deixar eu voltar pro jogo.
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  Marina sorriu.
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  — Você teria voltado em outra circunstância?
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  — Teria. Se fosse o Marcelo, eu iria teimar e ele ia perguntar se eu aguentava, e me deixaria voltar.
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  — Eu sei, Pedro. Você é um atleta que exige muito pulso firme, sabia?
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  Pedro olhou para a frente, sorrindo ladino.
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  — Ainda bem que você estava lá. Sou muito melhor quando estou nas suas mãos.
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  Marina não respondeu, apenas continuou andando ao lado dele.
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  Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Pedro não saiu do ginásio como jogador. Saiu como alguém que precisava ser cuidado, e, embora nenhum dos dois soubesse ainda, aquele seria o começo de uma temporada muito diferente da que haviam imaginado.
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