Fora das Quadras

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

  Nota da autora: Elenquei a música tema do casal. Beggin – Maneskin tudo a ver. Depois me conta nos comentários se concorda.


Capítulo 2

  Dentre todos os seus talentos, Pedro Dornas tinha um que não aparecia nas estatísticas: ele conseguia chegar atrasado sem parecer atrasado. Era quase uma habilidade profissional.
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  Naquela manhã, entrou no ginásio faltando seis minutos para o início do treino, mochila pendurada em um ombro, cabelo ainda úmido e uma expressão tranquila demais para alguém que deveria estar se desculpando.
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  Rafael olhou para o relógio, depois para Pedro.
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  — Bom dia, Dornas!
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  — Bom dia, professor.
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  — Dormiu bem?
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  — Muito.
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  — Que bom.
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  Pedro continuou andando.
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  — Porque eu não dormi.
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  Ele parou e notou o tom que o treinador carregava.
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  — Por quê?
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  — Estava esperando você chegar. — Rafael falou sarcástico e bufou em seguida dizendo: — As conversas e orientações pré-treino, já fazem parte do treino, Dornas. Quando vai aprender?
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  Alguns jogadores riram do outro lado da quadra, haviam acabado de sair do círculo inicial de diálogo com o treinador.
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  Rafael não era muito mais velho do que os jogadores, na realidade, estavam quase na mesma idade, e era isso que o fazia pensar que, possivelmente, Pedro não enxergava a hierarquia necessária em alguns momentos.
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  Pedro apontou para o técnico.
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  — Isso aí é perseguição, Rafa!
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  — Vai trocar de roupa. É treinador, quando estamos aqui. Sabe disso.
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  — Já estou indo. — Pedro suspirou dando um joinha com a mão e saindo de cabeça baixa sem esperar outras represálias.
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  — Pedro…
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  — Estou indo.
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  — Dornas!
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  — Meu Deus, eu estou indo!
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  Marina assistia à cena e deu um sorrisinho, sem tirar os olhos das atitudes de Pedro enquanto organizava alguns materiais na sala de fisioterapia. Embora, ainda que não estivesse olhando, ela saberia que ele estava fazendo graça. Conhecia aquela voz e aquele jeito de responder. Conhecia, principalmente, a capacidade que Pedro tinha de transformar uma bronca em conversa.
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  — Você está incentivando esse comportamento dele ao ficar assistindo — Rafael disse para ela, ao aparecer na porta.
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  — Eu? — Marina arregalou os olhos para o amigo.
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  — Ele só faz isso porque você ri.
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  — Eu não ri.
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  — Acabou de sorrir.
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  — Problema seu se você está reparando na minha boca às sete da manhã.
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  Rafael fez uma careta.
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  — Credo… Não fala desse jeito. Se alguém ouvir vai até pensar que eu te acho bonita.
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  Marina riu.
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  — Vai trabalhar, Rafa! Para de me encher o saco!
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  — Você também.
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  — Eu já estou trabalhando.
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  — Sei… Assistindo a rebeldia do nosso estrelinha.
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  Ele saiu e Marina voltou para a mesa. Poucos segundos depois, ouviu passos no corredor e seu nome sendo gritado antes mesmo de alguém surgir na porta.
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  — Nina!
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  Ela não levantou os olhos.
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  — Não. — falou de volta, mais alto.
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  — Eu nem pedi nada. — Pedro apareceu na porta e já estava com o uniforme de treino.
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  — Você ia pedir.
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  — Como você sabe?
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  — Te conheço há três anos.
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  — Justo.
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  Ele entrou na sala sorrindo cafajeste e começou a olhar sem tocar, nas coisas dela.
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  — Você tem fita? De quinesis.
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  — Tenho, para quê? — olhou para ele de cima abaixo como se com um olhar fosse achar o ponto de dor.
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  — Preciso para meu pulso.
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  Marina finalmente voltou-se para o jogador e pegou em seu punho.
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  — É punho, não pulso. Já ensinei. Mas, o que aconteceu?
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  — Nada não, relaxa…
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  — Dornas!
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  — Tá, tá… Estou sentindo um negócio… — suspirou abrindo um pouco a mão e mostrando a palma para ela.
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  — Onde?
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  Ele apontou para a base do polegar. Ela fez um gesto para que ele se sentasse.
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  — Desde quando?
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  — Ontem.
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  — Por que não falou ontem?
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  — Porque não estava doendo, oras.
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  — E agora está doendo em uma escala de quanto? — Marina perguntava tudo enquanto o examinava.
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  Pedro pensou.
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  — Quatro.
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  — De zero a dez?
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  — Sim.
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  Marina puxou o polegar de Pedro para trás e então ele gritou de dor.
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  — Me parece uma tendinite. E você estava planejando treinar assim?
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  — Estava.
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  Marina respirou fundo.
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  — Você tem algum compromisso com a própria integridade física que eu desconheça?
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  — Tenho. Estou comprometido com ela, por isso vim aqui assim que cheguei… Ué, eu não sentia nada ontem, e preciso treinar então… Você queria que eu faltasse ao treino? O seu amiguinho iria comer meu fígado cru!
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  — Não vou contestar isso. Vou te receitar antinflamatório e a vamos colocar a tala.
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  Ela segurou o braço dele e começou a examinar o punho com mais cuidado. Pedro ficou quieto. Era uma das poucas situações em que conseguia ficar quieto perto dela.
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  Marina fazia perguntas enquanto avaliava o movimento, pressionava alguns pontos, pedia que ele girasse o punho.
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  — Também dói aqui?
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  — Não.
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  — Aqui?
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  — Um pouco.
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  — E aqui?
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  — Aí.
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  Ela soltou a mão dele.
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  — Não é grave. É mesmo uma LER.
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  Pedro abriu um sorriso.
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  — Então posso treinar!
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  — Eu não disse isso!
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  O sorriso diminuiu.
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  — Mas você acabou de falar que não parece grave.
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  — Não é grave, mas uma lesão por esforço repetitivo exige repouso! Esse polegar tem que ficar imóvel por um tempo. Não vai poder manejar a bola com essa mão.
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  — Tá, eu posso treinar com a outra. Sou bom usando as duas mãos, mas também sei me sair bem com uma, Nina. — Ele respondeu em um tom ambíguo, sorrindo e piscando.
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  — Pedro… Na boa… — Nina suspirou — Tá.
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  Ela pegou uma faixa.
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  — Vou colocar uma contenção leve. Hoje você vai evitar exercícios que sobrecarreguem o punho. Se piorar, me avisa.
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  — Sim, senhora.
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  — E não esconda outra dor de mim.
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  — Eu nunca escondo dor de você.
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  Marina levantou uma sobrancelha. Pedro sustentou o olhar por dois segundos.
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  — Quase nunca.
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  — Melhorou.
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  Ele sorriu.
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  — Você vai estar na quadra?
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  — Vou.
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  — Então eu te vejo lá.
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  — Infelizmente, não é Dornas?
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  — Você gosta de mim que eu sei! — Ele brincou.
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  — Não espalha.
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  Pedro saiu rindo e Marina terminou de guardar as coisas e só então percebeu que também estava sorrindo.
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  A relação entre os dois tinha se construído assim, sem grandes acontecimentos. Uma conversa aqui, uma carona ali, um café tomado no meio de um treino, uma viagem em que os dois estavam lado a lado no ônibus da equipe e até, durante uma discussão por motivos bobos ou sérios.
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  Quando perceberam, já havia uma familiaridade que não precisava ser explicada. Pedro conhecia o humor de Marina, sabia quando ela estava realmente irritada e quando estava apenas fingindo. Sabia que, se ela colocasse o cabelo preso daquele jeito específico, provavelmente teria passado a manhã inteira resolvendo problemas. Sabia que ela não gostava de café forte e que reclamava de café de hotel, embora sempre tomasse. Marina, por sua vez, sabia que Pedro ficava mais quieto antes de jogos importantes. Sabia que ele não gostava de entrevistas depois de derrotas e que, quando estava muito animado, falava rápido demais. E sabia que ele tinha o hábito irritante de dizer que estava bem antes mesmo de alguém perguntar.
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  Era uma amizade confortável. Daquelas que se encaixam na vida sem pedir espaço.
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  No treino daquela manhã, Pedro estava particularmente inspirado! Acertou três arremessos seguidos e Rafael mandou marcar mais forte, então Pedro acertou outro.
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  — Está se achando, Pedrinho! — Um dos companheiros comentou.
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  — Sempre.
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  — Humildade passou longe… — Outro amigo riu caminhando pela quadra.
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  — Eu tenho outras qualidades para compensar!
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  Marina, sentada no banco ao lado da quadra, ouviu.
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  — Podemos saber quais? — O tom de ironia na voz dela era jocoso.
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  Pedro virou para ela, um pouco desafiador.
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  — Você está do lado deles agora? Qual é, Nina!?
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  — Só estou fazendo uma pesquisa.
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  — Sobre?
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  — Quantas qualidades você consegue inventar antes de acabar o treino.
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  Alguns jogadores riram, e Pedro levou a mão ao peito.
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  — Cruel.
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  — Qualidade minha, ok.
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  Ele apontou para si mesmo, começando a elencar para ela:
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  — Sou bonito.
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  — Isso é opinião.
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  — Sou engraçado.
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  — Às vezes.
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  — Sou inteligente.
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  — Questionável.
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  — Sou um ótimo jogador.
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  Marina deu de ombros.
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  — Essa eu concedo.
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  Ele abriu um sorriso satisfeito.
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  — Sabia.
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  — Mas não se acostuma.
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  — Tarde demais.
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  Rafael apitou, gritando na direção dele:
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  — Chega de conversa, Dornas!
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  Pedro voltou para o exercício e Marina abaixou os olhos para a prancheta, tentando não rir.
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  Depois do treino, o ginásio começou a esvaziar. Alguns jogadores foram direto para o vestiário. Outros ficaram conversando. A comissão técnica se reuniu para discutir o próximo jogo.
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  Marina terminou os atendimentos e estava guardando uma caixa de materiais quando Pedro apareceu novamente.
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  — Você vai almoçar, Nina?
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  Ela olhou para o relógio.
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  — Vou sim.
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  — Onde?
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  — Ainda não sei.
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  — Vamos naquele restaurante perto daqui.
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  — Você não enjoa? — Ela perguntou rindo de lado, terminando de pegar suas coisas.
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  — Não. A comida de lá é incrível!
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  — Você foi três vezes essa semana.
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  — E?
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  — Pelo visto, vai fechar a semana tendo me arrastado para lá em duas de quatro idas!
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  Ele pegou a mochila dela, sorrindo e batendo as palmas esfregando uma na outra:
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  — Yess! Então vamos! Hoje é dia de lasanha de espinafre com queijo!
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  Marina o encarou.
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  — Minha nossa… Você tem um gosto…
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  — Para que quando você comer Nina, vai ver que é uma delícia.
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  — Dornas… — Marina riu olhando descrente enquanto caminhavam lado a lado — Aquela lasanha é verde e… Queijuda!
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  — Parece comida de filme de terror, mas te garanto que é ó… — Ele fez um sinal segurando o lóbulo da orelha — Uma delícia!
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  Ela suspirou.
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  — Ok, hoje eu vou sucumbir a experimentar essa lasanha exótica!
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  Pedro sorriu. Era comum que os dois almoçassem juntos. Às vezes com outros jogadores, mas às vezes apenas eles e não havia nada de estranho nisso. Pelo menos para eles.
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  O restaurante já conhecia os dois, e o garçom sabia o pedido de Pedro. Marina dizia que aquilo era falta de variedade, Pedro dizia que era eficiência. Naquela tarde, falaram sobre coisas que não tinham nenhuma relação com basquete. Marina contou uma história sobre a mãe, Pedro falou sobre o irmão mais novo. Depois eles discutiram sobre uma série que os dois acompanhavam. E inevitavelmente, acabaram falando do próximo jogo.
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  — Você está nervoso? — Marina perguntou.
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  — Não.
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  Ela continuou olhando para ele.
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  — Tem certeza?
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  — Por quê? Parece que estou mentindo? — Ele perguntou cruzando os braços e apoiando-os na mesa olhando diretamente nos olhos de Nina.
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  — Você está fazendo aquela cara, Dornas…
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  — Que cara?
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  — A cara de quem está nervoso e não quer admitir.
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  Pedro tomou um gole de água.
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  — Eu não estou nervoso. Só…
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  — Está pensando demais, não é?
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  — Isso é diferente.
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  — Não para você! Jogos como esse você tira de letra.
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  Ele riu.
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  — Você me conhece demais.
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  Marina não respondeu imediatamente. A frase pareceu estranhamente íntima quando ele disse, não pelo que significava, mas pelo jeito como soou.
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  Ela pegou o copo.
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  — Três anos convivendo com vocês. Alguma coisa tinha que ficar.
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  Pedro sorriu.
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  — Ainda bem.
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  Ela levantou os olhos e ele já estava olhando para ela. Foi só um segundo, talvez menos. Marina desviou primeiro.
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  — Por quê é diferente?
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  — Nina… Sei lá… Eu acho que é um pressentimento.
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  — Tira isso da sua cabeça, Dornas. — Ela falou visivelmente preocupada e olhando pra ele com o cenho franzido, fazia muito pouco aquilo — Quer saber? Come sua lasanha. Vai esfriar.
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  Pedro obedeceu.
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  E nenhum dos dois comentou o pequeno silêncio que veio depois.
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  Ainda na noite daquele dia, após um longo expediente e sem tirar aquela fala de Pedro de sua cabeça durante toda a tarde, Marina chegou em casa cansada. Tomou banho e colocou uma roupa confortável. Então preparou alguma coisa para comer, depois se jogou no sofá.
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  O celular vibrou.
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Pedro: Chegou bem?
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  Ela respondeu:

Nina: Cheguei. E você?
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  A resposta veio quase imediatamente.

Pedro: Ótimo. Tô de boa. Cansado só. Ah! A contenção ajudou, valeu.
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Nina:Não é pra relaxar, mantenha ela amanhã e continua passando a pomada massageadora.
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  Ela digitou e apagou uma outra frase. Até Pedro responder primeiro:

Pedro: Deixa comigo, Nina. Não vou desobedecer a minha fisio, ainda mais perto do jogo.
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  Marina deixou o celular sobre a mesa, pouco depois, vibrou novamente.

Pedro: Você vai assistir ao jogo antigo comigo amanhã?
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  Ela riu.

Nina: Você sabe que eu tenho trabalho.
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Pedro: Depois do trabalho.
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Nina: Por quê?
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  Demorou alguns segundos.

Pedro: Porque eu quero saber onde errei.
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  Marina ficou olhando para a mensagem. Era muito “Pedro”. Até quando não precisava, ele procurava o próprio erro.
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  Ela digitou:
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Nina: Você não errou tanto assim.
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  A resposta demorou mais.

Pedro: Você acha?
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  Ela sequer pensou antes de responder.

Nina: Acho. Na verdade, eu vi o jogo ao vivo. Então eu sei.
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  Dessa vez, nenhuma resposta veio. Marina colocou o celular virado para baixo. Não pensou mais naquilo, ou tentou não pensar.
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  Nos dias seguintes, tudo voltaria ao normal: treino, fisioterapia, reunião, almoço, viagem, jogo. A temporada seguiria seu curso. Pedro continuaria entrando em quadra com a mesma confiança e Marina continuaria observando da lateral. Rafael continuaria gritando com os jogadores. E o Aurora continuaria tentando vencer.
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  Era uma rotina. Justamente por isso era tão fácil de ignorar quando a atmosfera parecia querer mudar. E algumas mudanças não chegam fazendo barulho, elas aparecem devagar, escondidas dentro de coisas que sempre estiveram ali. Chegam em uma conversa que dura alguns minutos a mais, um olhar que permanece um segundo além do necessário ou uma mensagem que poderia não ter sido enviada. Um cuidado que começ
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a a parecer diferente… Nenhum dos dois tinha chegado a esse ponto.
  Ainda.
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  Por enquanto, Pedro era apenas Pedro. Marina era apenas Nina.
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  E a temporada estava só começando.
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