Fora das Quadras

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

  Nota da autora: Elenquei a música tema do casal. Beggin – Maneskin tudo a ver. Depois me conta nos comentários se concorda.


Capítulo 5

  O diagnóstico chegou duas horas depois. Ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito. Eles já estavam no setor médico do clube, sentado na cama hospitalar, Pedro ficou olhando para o laudo por alguns segundos, embora já soubesse o que significava tudo aquilo que estava escrito.
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  — Quanto tempo mais?
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  O médico respirou antes de responder.
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  — Para voltar a jogar, se tudo correr bem, entre nove e doze meses. Mas isso depende da cirurgia, da recuperação, da resposta do seu corpo...
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  Pedro parou de ouvir. Nove meses. Doze. Uma temporada inteira, talvez mais.
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  Ele passou a mão pelo rosto.
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  — Eu não posso ficar um ano fora.
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  Ninguém respondeu. Marina estava de pé ao lado do médico, assim como Rafael. Aquela expressão no rosto do atleta era a mesma que tinham visto na primeira lesão, só que agora não havia como dizer que seriam alguns dias. Não havia uma ressonância que pudesse trazer uma boa notícia. Não havia uma previsão confortável. Havia uma longa recuperação pela frente.
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  Pedro se mexeu, tentando levantar.
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  — Calma aí Pedro, foram pegar uma cadeira de rodas. — Marina interveio impedindo. E ele a encarou como se ela tivesse dito a pior coisa do mundo.
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  — Quando eu posso operar?
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  O médico explicou os próximos passos, os exames, a preparação para a cirurgia. Pedro fez perguntas objetivas, anotou algumas coisas no celular e parecia estranhamente tranquilo. Rafael sabia que aquilo não era tranquilidade, era choque.
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  — Pedro. — O treinador bufou ao dizer — Não vai adiantar tentar evitar lidar com isso agora. Marina e eu concordamos que você precisa de um acompanhamento psicológico para lidar com tudo isso, mas não vai ser o Suárez, ok?
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  — Eu só preciso da Ninca comigo. — Pedro declarou abertamente na frente de todo mundo, e aquilo fez a fisioterapeuta ruborizar, então, ele olhou para Valença e sacudiu a cabeça de modo positivo: — Mas, faz o que achar melhor Rafel. Você é o técnico.
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  — Pedro… — O médico ortopedista novamente comentou — Nós iremos te remover diretamente para o hospital autorizado do clube, antes você pode ir para casa, mas… Solicitei sua internação ainda para hoje, quanto antes os cirurgiões avaliarem seu caso, melhor.
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  — Eu posso te acompanhar. — Marina falou sincera, tocando na mão dele. — Você quer que eu te leve para casa?
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  Ele negou com a cabeça.
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  — Não.
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  — Tem certeza?
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  — Tenho. Você precisa descansar, também.
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  Ela ficou ao lado dele.
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  — Pedro...
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  — Eu estou bem, Nina. — o atleta interrompeu e ela não insistiu. Só ficou ali. Depois de alguns segundos, ele perguntou: — Você vai continuar comigo?
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  Marina franziu a testa.
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  — Na fisioterapia?
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  Ele olhou para ela.
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  — Em tudo.
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  Ela demorou um pouco para responder. Além da surpresa pela intensidade da voz e olhar dele, Marina ficou um tanto constrangida pela presença de outras pessoas ali. Ela sentiu que havia intimidade demais na frase de Pedro. Mordeu os lábios, se aproximou tocando a mão dele e apenas o encarando respondeu:
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  — Enquanto você quiser que eu esteja do seu lado, eu estarei.
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  Pedro assentiu. Era tudo o que precisava ouvir.
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  — Bem, a gente vai preparar algumas coisas… — O médico falou tocando no braço de Valença que parecia hipnotizado com os dois em sua frente — Treinador, vamos?
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  — Ah! Claro! Pedro, eu te deixo em casa! — Rafael comentou pigarrando — Assim a Nina vai descansar. Ok?
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  — Obrigado Rafa. Ela tem mesmo que ir pra casa, porque vamos ter longos dias no hospital, e dessa vez… Ela vai estar lá mais como amiga, do que fisio, não é?
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  Marina sorriu assentindo e os dois ficaram sozinhos logo em seguida. Marina segurava a mão dele, avermelhada, e ele sorriu.
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  — Você ficou com vergonha de alguma coisa que eu disse?
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  — Pedro… — Marina mordeu o lábio inferior sorrindo — Você tem alguma coisa para me dizer que, ainda não tenha dito?
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  — Acho que eu já disse tudo, por palavras e ações, não é? — Pedro comentou olhando-a profundamente — Quero você do meu lado, o tempo todo. Mas não quero ser um peso pra você e nem atrapalhar a sua vida. Sei que você não tem um namorado para implicar com isso, e sua família tá longe, mas… Nina, se eu estiver passando do ponto, então, agora é o momento em que eu preciso saber…
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  — Eu quero estar com você! — Marina respondeu o interrompendo e tocando no rosto dele. — O tempo todo também.
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  Quando a mão dela fez um carinho em sua bochecha e ela parecia tomar coragem de se aproximar, a voz de Rafael rompeu o momento. Eles sorriam um para o outro, e Rafael não notou que por muito pouco, ali naquele quarto de ambulatório, poderia acontecer o primeiro beijo.
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  A cirurgia aconteceu um dia depois e a recuperação começou. Dessa vez, não havia pressa que Marina pudesse controlar, Pedro sabia que não existia atalho. Mesmo assim, os primeiros dias foram difíceis. Ele passou a odiar o próprio apartamento, o sofá, as muletas. De novo.
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  Odiava o silêncio e o celular cheio de mensagens perguntando como estava. As notícias falando sobre sua temporada encerrada, odiava ainda mais, assim como não se sentia confortável até com as pessoas dizendo que ele voltaria mais forte. Ele detestava aquela frase. Não queria precisar voltar mais forte.
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  Uma tarde, Marina chegou em seu apartamento para uma sessão e encontrou Pedro sentado no chão da sala, encostado no sofá.
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  — O que aconteceu?
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  — Nada.
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  — Você está no chão. Cadê a Inês?
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  — Eu sei que estou no chão. Liberei ela mais cedo, você já estava chegando.
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  — Por quê está no chão?
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  — Porque eu queria sentar no chão.
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  — E por quê liberou a Inês? Como vai ficar sem a sua ajudante?
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  Ela largou a bolsa sobre o sofá se agachando, o encarando sem entender a situação.
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  — Eu liberei porque você está aqui. Fica comigo, hoje?
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  Marina arregalou ainda mais os olhos, confusa.
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  — Está com dor?
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  — Não.
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  — Então?
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  Pedro ficou alguns segundos em silêncio.
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  — Eu não sei o que fazer.
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  Marina se sentou ao lado dele.
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  — Tá falando exatamente do que, Dornas?
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  — Eu não sei o que fazer com a minha vida. Quem eu vou ser em quase um ano parado? Ou mais…
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  Ela não respondeu imediatamente. Pedro apoiou a cabeça no sofá.
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  — Eu passei a vida inteira tentando chegar aqui, Nina.
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  — Eu sei, Pedro… — Marina suspirou e pegou a mão dele apertando forte.
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  — E agora acabou.
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  — A temporada acabou, a sua trajetória não!
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  — Para mim, parece a mesma coisa.
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  Marina virou o rosto para ele.
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  — Não é. Para de falar assim!
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  — Como você sabe que eu ainda tenho chance?
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  — Porque eu conheço você! E na boa Pedro, um rompimento de ligamento é algo mais comum do que andar pra frente na maioria dos esportes de alto rendimento. Você vai voltar a jogar, principalmente porque é teimoso!
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  Pedro soltou uma risada fraca.
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  — Me conhece tanto assim?
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  — Conheço! Como a palma da minha mão.
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  — Então me diz quem eu sou sem o basquete.
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  Marina ficou em silêncio. Dessa vez, não tinha uma resposta pronta.
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  Pedro olhou para ela.
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  — Viu?
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  — Eu não disse que seria fácil.
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  Ele passou a mão pelo rosto.
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  — Eu só queria saber se ainda tem alguma coisa aqui quando eu não estou jogando.
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  Marina olhou para ele.
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  — Tem. Claro que tem. E se a gente não percebeu, vamos descobrir aos poucos. O basquete ocupou muito a sua vida, então, fora das quadras… É a sua chance de descobrir o Pedro, além do Pedro Dornas. — Ela respirou fundo. — Você tem muita coisa para conhecer de si, Pedro. E eu também.
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  Pedro não respondeu. A distância entre os dois pareceu diminuir sem que nenhum deles tivesse se mexido. Marina desviou os olhos primeiro.
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  — Vamos fazer o exercício.
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  Pedro sorriu de leve.
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  — Você estraga todos os momentos. — Ele riu e mordeu os lábios — Quando não é você, é o Rafael.
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  — Alguém precisa focar no trabalho. Estou com meu uniforme de fisioterapeuta, não vê? Logo, estou trabalhando.
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  — Inês foi pra casa, a Judith já fez faxina hoje, minha mãe foi embora com muito custo e eu ainda não tenho uma namorada para cuidar de mim. Então… Ao fim do seu expediente, quero a minha musa aqui.
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  — Você deveria me perguntar se eu posso, sabe? — Marina ajudou ele a se levantar, com certo custo — E nada de ficar sentando no chão! Você sabe o quanto pesa?
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  — Por que não poderia? Tem alguém que precise mais de você do que eu? — Pedro perguntou apoiando-se no ombro dela, encarando bem de perto o seu rosto.
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  — Eu vou ter que ir em casa. Não vim preparada para ser babá de um jogador de basquete no fim do expediente.
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  — Vou te esperar na minha cama. — Pedro zombou ao pé do ouvido dela.
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  Marina deu um tapinha nele, bronqueando. Eles sorriram e focaram na sessão de fisioterapia.
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  As semanas passaram, Marina continuou aparecendo no apartamento dele, algumas vezes para a fisioterapia. Outras para levar alguma coisa para ele comer. Às vezes, simplesmente para ficar. Pedro também mudou. Começou a falar mais sobre o medo, a carreira, sobre o que faria se não conseguisse voltar. Sobre coisas que nunca contava aos outros, e Marina ouvia. Não tentava consertá-lo e não dizia que tudo ficaria bem. Ela só ficava ao lado dele.
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  Até que, certa noite, depois de uma sessão particularmente difícil, Pedro estava sentado no banco da sala enquanto Marina guardava alguns equipamentos.
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  — Nina.
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  — Hum?
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  — Posso te perguntar uma coisa?
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  — Pode.
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  — Por que você fica?
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  Ela parou.
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  — Como assim?
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  — Você poderia ir embora depois do trabalho. Não precisa ficar comigo até tarde, mas você fica. Mesmo que sejamos amigos, até a Inês me criticou outro dia. Disse que eu estava abusando da sua boa vontade… Só que, eu não vejo dessa forma.
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  — Eu sei.
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  — Então por quê você fica?
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  Marina fechou sua maleta.
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  — Porque você é meu amigo. Um, muito especial.
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  Pedro abaixou os olhos.
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  — Só isso? O que eu sou de verdade pra você?
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  Havia um tom de nervosismo na voz dele, e o silêncio da ausência da resposta da Marina o deixou ainda mais constrangido. Então, Pedro levantou o rosto.
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  — Desculpa… Desculpa, Nina, pela pergunta.
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  Marina se aproximou e ficou parada diante dele, agora abaixada à sua altura já que ele estava sentado no banco.
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  — Não precisa pedir desculpa.
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  Ela queria dizer mais, dizer que não era “só amizade”, ou que não se importava de ficar mais tempo com ele porque o flerte bobo que acontecia entre eles, mexia com ela há muito tempo, mas Pedro não deu tempo. Olhando-a nos olhos, silenciosa, o jogador enxergou incerteza nela.
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  Então Pedro se levantou devagar. Ainda havia cuidado em cada movimento, e os dois ficaram frente a frente.
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  — Você sabe que eu confio em você, não sabe?
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  — Claro que sei, Pedro… — Marina estava de pé, segurando as duas mãos dele, sem saber como iniciar as várias respostas que poderia dar a ela.
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  — Confio mais do que deveria, Nina.
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  — Isso é uma coisa boa.
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  — É. — Ele respirou fundo. — E eu acho que não é nenhuma surpresa se eu afirmar, com palavras agora, que estou gostando de você de um jeito que acho que, talvez, não devia.
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  Marina continuou imóvel.
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  — Pedro...
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  — Eu sei! Nós trabalhamos juntos.
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  — Eu sou sua fisioterapeuta…
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  — Eu sei.
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  — E você está se recuperando de uma lesão séria.
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  — Eu sei disso também.
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  Ela baixou os olhos.
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  — Então não torna isso mais complicado.
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  Pedro deu um passo para trás. O corpo inteiro dele murchou. Eles estavam brincando de sentir um pelo outro algo inominado há tanto tempo, que encarar os fatos agora, parecia um pecado.
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  — Desculpa, Nina.
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  Marina fechou os olhos por um instante, e suspirou tomando coragem:
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  — Eu não disse que não sinto o mesmo por você!
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  Pedro ergueu a cabeça, olhou para ela.
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  — O quê?
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  Ela respirou fundo.
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  — Eu sei que não devia. Mas, foi natural… Eu, também quero te beijar desde o dia no hospital, talvez, até antes.
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  O silêncio tomou conta da sala, Pedro se aproximou outra vez. Devagar. E dessa vez, Marina não se afastou. O beijo aconteceu sem pressa. Quase como se os dois ainda estivessem tentando entender se aquilo realmente estava acontecendo.
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  Quando se separaram, Pedro ficou olhando para ela.
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  — Isso foi uma péssima ideia.
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  Marina riu, nervosa.
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  — Foi.
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  — A gente não pode contar para ninguém.
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  — Concordo!
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  — Nem para o Rafa.
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  Ela fez uma careta.
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  — Principalmente para o Rafa.
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  Pedro sorriu.
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  — Ele vai perceber.
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  — O Rafa percebe quando alguém troca o cadarço do tênis.
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  — Então estamos ferrados, minha musa!
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  Marina riu.
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  Por alguns segundos, os dois esqueceram o joelho, a cirurgia, a temporada perdida e tudo o que ainda precisariam enfrentar, mas aquilo não duraria para sempre. Porque, naquela mesma semana, alguém os viu saindo juntos do ginásio, bem mais tarde e abraçados.
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  E, no dia seguinte, uma fotografia apareceu em uma página esportiva. Não era uma foto do joelho de Pedro, nem do jogador em recuperação. Era uma foto dele ao lado de Marina.
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  A legenda dizia:
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“Pedro Dornas encontrou uma nova companhia durante a recuperação?”

  Marina leu a publicação duas vezes, depois olhou para Pedro. Ele ficou em silêncio cheio de culpa e preocupação por ela. A temporada ainda nem tinha terminado para o Aurora, mas a vida dos dois acabava de entrar em outro jogo.
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