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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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De volta pra casa

Escrita porNathara Sant'anna
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo Oito

“Lidar com o passado muitas vezes dói mais do que lidar com o presente.”

  Passei a noite anterior em claro.
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  Minha mente ansiosa estava em um loop infinito. À medida que fechava meus olhos, a cena em que eu contava sobre a perda do bebê para o Kai era revivida. Falar sobre o passado com ele foi mais como um mecanismo de defesa. Escutá-lo proteger minha família e me atacar, sem saber o que realmente aconteceu, me jogou ao limite.
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  Tirar o band-aid foi necessário para que Kai entendesse que a realidade era totalmente diferente do que imaginava, mas eu não tinha ideia de que, depois de dez anos, ainda doeria tanto.
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  Em mim, e aparentemente nele.
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  Escrevo uma mensagem rápida para a minha terapeuta, perguntando se ela seria capaz de me atender sem horário marcado. Tínhamos um combinado, duas consultas no mês eram o suficiente, mas desde que voltei para Isla Syrena, não entrei em contato com ela.
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  Eu: Sei que você não costuma atender sem hora marcada, mas acho que estou em uma emergência.
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  Dois minutos depois, meu celular apita. Era uma mensagem dela pedindo para eu fazer uma chamada de vídeo.
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  — Olá, Hailey! Como tem passado?
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  — É possível eu estar bem e mal ao mesmo tempo? — Mudo minha postura para ficar mais confortável na cadeira.
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  — Depende do seu ponto de vista, o que tem acontecido?
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  — Bom… Além de ser demitida do meu emprego, descobrir que meu ex noivo estava me traindo, que meu ex namorado tem um filho e que, além da minha família, todo mundo que mora nessa vila me odeia, acho que estou bem.
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  O cansaço toma conta do meu corpo. Eu precisava encontrar um meio termo para me sentir bem de novo, mas parecia que ultimamente eu só estava levando porrada na cara.
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  — Hailey, você está em um dilema. Esse misto de sentimentos pode parecer novo, mas, se levar em conta, eles só estavam guardados a sete chaves no seu subconsciente.
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  Ela me observa com atenção.
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  — E por que parece doer tanto?
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  — Porque você está encarando dez anos de sentimentos guardados. — Dra. Helen se inclina para frente. — Me deixe perguntar uma coisa, quando você era mais nova e morou nesse mesmo lugar, qual era a sensação?
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  — Hum… Apesar dos meus amigos, eu me sentia abandonada. E só queria ir embora daqui.
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  Soltei uma risada sem graça.
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  — Mas antes desse sentimento surgir, como era sua vida? — Ela continua. — Teve momentos bons?
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  — Deixa eu ver… — Passei a língua nos meus lábios, mordendo o cantinho em seguida. — Eu passava boa parte do meu tempo na praia com meus amigos, ou na casa deles.
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  — E isso te deixava feliz?
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  — Um pouco.
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  — E o que mais? — Helen instiga.
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  — Eu tinha um bom relacionamento com meu ex namorado, e passava muito tempo trancada na casa do Theo. Costumava brincar com ele, dizendo que sua mãe era a minha mãe.
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  Suspiro.
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  Era um sentimento estranho.
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  Nunca senti que pertencia à minha família. Diferente de quando eu estava com Theo e seus pais, eles me tratavam da mesma forma que tratavam o filho, e isso sempre me deixou com um peso na consciência.
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  Amar uma família que não era minha parecia tão errado.
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  — Então você se apaixonou pelo Theo em algum momento?
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  Faço uma careta.
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  — Jamais! Ele sempre foi meu melhor amigo, e a família dele foi o mais perto que cheguei de ter uma realmente.
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  — Mas você tem uma irmã...
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  — Quinn? — Faço um barulho com a boca. — Sou dois anos mais velha que ela, mas sinceramente? Sempre pareceu que minha irmã era filha única.
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  — Você fala pouco desse seu ex namorado. Estou curiosa, como sua mãe reagiu na época?
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  — Bom… Quando assumimos o nosso relacionamento, minha mãe fez da minha vida um inferno. Ela sempre gostou dele, mas nunca me viu como uma pessoa suficiente.
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  — Me deixe adivinhar, ela queria que Quinn e ele tivessem ficado juntos?
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  Aceno com a cabeça, minha mente viajando para o passado.
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  “Você nunca será o suficiente para o Kai.”
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   “Escreva o que estou te dizendo, você será a ruína dele.”
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   “Era melhor quando eram apenas amigos, agora quando você quebrar o coração dele, teremos que engolir a desaprovação da ilha toda por sua culpa.”
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  — Acho que foi aí que tive a certeza de que não poderia ficar na ilha se quisesse crescer.
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  — E, por conta disso tudo, você deixou as coisas boas serem anuladas? — Seu tom era preciso.
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  — Talvez…
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  Cutuco minha unha debaixo da mesa.
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  Falar sobre o passado me deixava incomodada. Normalmente eu não tocaria nesse assunto. Fiz muito bem o papel de enterrá-lo no fundo do meu coração, mas, infelizmente, esses sentimentos vieram à tona.
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  — Vamos fazer um exercício, ok? Use o tempo que você irá ficar na ilha para ressignificar esses sentimentos. O passado dói, mas precisamos aprender a deixá-lo ir.
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  — Aí é que está! Eu não tenho ideia de por onde começar.
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  — Comece não fugindo. — Ela respondeu de forma bem simples. — Encare seus demônios. Retome o controle da sua vida.
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  Fico encarando a tela do meu computador por alguns minutos depois que terminamos a chamada de vídeo. Como diabos eu retomarei esse controle, se nem eu mesma sabia do que precisava no momento?
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  As palavras dela martelavam na minha cabeça quando escuto uma batida na porta do meu quarto.
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  Me levanto apreensiva, acreditando que poderia ser o Theo e que ele tinha escutado toda a minha conversa.
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  — Kai? — Boquiaberta, seguro a porta do meu quarto com mais firmeza. — O que você está fazendo aqui?
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  — Te assustei, não é mesmo? — Ele parecia um pouco estranho. — Desculpe, Hailey! Não tenho costume de bater na porta quando Theo está na cidade.
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  — Juro! Não consigo entender esse costume de portas abertas. — Solto um suspiro. — Theo não está, ele foi para o centro.
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  — É com você que eu queria falar, Hailey…
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  Kai coloca as mãos dentro do bolso da bermuda que usava.
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  — Se for pelo que conversamos ontem, você pode dar meia volta e sair daqui. — Cruzo meus braços.
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  A última coisa que eu queria, ou que me ajudaria, era um olhar de pena vindo dele.
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  — Engraçado você falar isso… Eu não dormi a noite inteira.
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  — Kai, não vamos falar sobre isso. — Bato o pé, impaciente.
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  — Hailey... — Ele insiste.
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  — Tudo bem, quer falar sobre isso? Vamos lá.
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  Decido pôr em prática o que a dra. Helen falou.
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  — Deve ter sido muito difícil para você passar por tudo aquilo sozinha.
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  — Foi sim. — Olho para ele. Kai parecia devastado.
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  — Eu fui um idiota desde que voltou para casa. Sinto muito. — Fecho meus olhos, engolindo o que eu realmente queria dizer.
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  — Ok. — Entro para dentro do quarto, me sentando na beira da cama. — Você diz que sente muito, mas só sente porque descobriu a verdade…
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  — Eu sei. — Reviro meus olhos, pelo menos ele entendia.
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  — O que você quer de verdade, Kai? — Pergunto.
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  Eu estava me colocando em uma posição extremamente desconfortável, mas se fosse para encerrar finalmente esse ciclo, teria que passar por isso. A conversa com ele era inevitável. Eu conhecia Kai a minha vida inteira; o cara não era o tipo de pessoa que virava as costas e deixava o assunto para trás.
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  — Preciso fazer o nosso ritual…
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  O encarei, surpresa. Não tinha visto isso chegando.
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  — Fiz isso em Goldenport. — Dou um sorriso amarelo.
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  — Tudo bem! Eu entendo que tenha feito isso, mas eu não fiz. Meus ancestrais chutariam minha bunda se eu não viesse até aqui para fazermos isso juntos.
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  — Não acha que está me pedindo muito? — Pergunto, olhando dentro dos seus olhos.
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  Ele estava respeitando o limite. Não tinha entrado no quarto. Estava parado na porta como se pedisse permissão.
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  — Eu não estava lá, por favor…
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  Suspiro.
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  Eu estava numa enrascada. Não queria dar mais combustível para as pessoas falarem de mim, e, caso eles vissem essa homenagem iriam presumir o pior. Eu novamente seria colocada como vilã de uma história da qual era vítima.
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  — Prometo que não vamos fazer na praia principal.
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  Mordo meu lábio, tentando conter um sorriso involuntário.
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  — Kai, você já quebrou muitas promessas, como eu poderia confiar?
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  Sim, mesmo depois de dez anos me sinto magoada por ele ter prometido ir embora comigo, apenas para quebrar essa promessa no dia da minha partida.
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  — Deve ser difícil para você acreditar, mas planejei tudo na praia do Tritão. O pessoal não costuma frequentá-la.
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  O olho, desconfiada.
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  — Acha que isso é uma boa ideia? — Tento achar qualquer desculpa para não reviver esse momento, mas por mais que tivesse um pouco de raiva acumulada dele, Kai tinha razão, seus ancestrais chutariam sua bunda.
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  — Deve ser difícil para você. — Ops, parece que ele estava lendo minha mente. — Mas, se levarmos em consideração, no coração da ilha, nosso bebê não teve uma despedida. Não queremos que ele fique preso, certo?
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  Desvio meus olhos.
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  Quando Kai coloca dessa forma, ele tem um pouco de razão.
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  Cresci aqui, sei bem os costumes, e fiz o que pude para ter uma despedida mais próxima daquilo que me ensinaram. Porém, escutando as palavras dele, talvez, só talvez, Kai tenha razão.
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  Não seria tão ruim fazer uma nova despedida, não é mesmo? Apesar de doer, não é mais uma dor que me tira o fôlego. E nosso bebê merecia isso.
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  Era o que eu queria há dez anos atrás. Ter Kai ao meu lado para esse momento.
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  — Ok! Vamos fazer isso. Me dê um minuto. Vou trocar de roupa. — Murmurei, me levantando. Bato a porta na cara dele, voltando para o quarto.
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  Da casa do Theo até a praia do Tritão seriam mais ou menos uns vinte e cinco minutos de trilha. Eu precisava estar confortável e também preparada.
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  Pego meu biquíni na gaveta e vou até o banheiro para me trocar. Passo um pouco de protetor solar e pego uma bolsa de praia, jogando algumas coisas essenciais ali dentro.
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  Paro na frente do espelho e respirei fundo, colocando um sorriso nos lábios antes de sair do meu quarto.
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  Não seria tão fácil.
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  Kai estava me esperando na sala; não levava nada com ele, o que me deixou um pouco apreensiva.
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  Como ele queria fazer uma despedida ancestral, se não estava levando nada?
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  A caminhada pela trilha foi exatamente o que eu tinha imaginado. Vinte e cinco minutos. Acho que poderíamos ter feito em menos tempo se a trilha não estivesse tão abandonada. Dava para ver que os moradores não vinham muito para este lado da ilha.
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  Beleza! Esse lado de mar era aberto, e a água era um pouco mais agitada do que o trecho que os locais e turistas costumavam frequentar. Mas ainda sim não deixava de ser linda.
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  Pouco me importava se era uma praia de tombo, ou se as ondas quebravam um pouco mais fortes. No final das contas a vista era maravilhosa e o mar aqui era ainda mais azul.
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  Há quem diga que aquela praia é própria para o surfe. Outros pedem respeito para a Deusa Syrena, criadora dos quatro cantos da ilha. Mas poucos sabem que a imensidão daquele mar é capaz de acalmar as mentes mais turbulentas.
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  — Não vai ter surfistas no local? — Aproveito para dar uma paradinha e recuperar o fôlego.
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  — Temporada de pesca. A praia está fechada para o surfe. — Abro minha boca, surpresa.
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  Era engraçado ver que, na prática, os moradores continuavam aplicando o que foi passado de geração para geração. Tinha esquecido completamente que, durante a safra de peixes, as praias ficam fechadas para o surfe.
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  Mais cinco minutinhos e era possível ver o final da trilha. Ela funcionava como um portal, sem brincadeiras, que se encaixava perfeitamente com o mar mais à frente. Não tinha como explicar, só quem via sabia o quão lindo aquela imagem era.
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  — Com o que exatamente iremos fazer o ritual? — Pergunto.
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  — Eu trouxe as coisas antes de buscar você.
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  Meus olhos varrem toda a extensão de areia, até encontrar uma canga estendida no chão, com um guarda-sol em cima dela, protegendo os itens que estavam ali.
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  Kai estava falando sério ao dizer que queria fazer o ritual.
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  — Então você preparou tudo sozinho?
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  Andamos lado a lado até o local.
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  — Não sabia se você aceitaria vir comigo, por isso preferi deixar tudo pronto. — Kai se agacha.
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  — Ficou bonito.
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  Elogio o barquinho feito da folha de bananeira que estava em suas mãos.
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  — Ele não ficou cem por cento como nossos avós ensinaram, mas foi feito com muito carinho. — Prendo a respiração, sem palavras. — Aqui, coloque as rosas.
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  Kai abre a bolsa térmica, revelando sete rosas brancas. Faço exatamente o que ele pediu.
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  — O que mais você trouxe? — Pergunto.
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  — Um pouco de camomila. — Ele guiou minha mão até o bolso da frente, para que eu pegasse o item.
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  — Obrigada. — Tento soltar minha mão, mas ele continua segurando.
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  — Hailey… Sei que o passado não vai mudar, mas precisamos fazer isso. Ok?
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  Ele afaga minhas costas.
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  Olhei para Kai por cima do ombro. Eu não tinha palavras para expressar aquele momento, então me levantei.
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  — Acho que está na hora, não é mesmo?
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  Estranhamente, as ondas do mar ficaram mais calmas. Quase como se sentissem o que seria feito.
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  Essa era uma das coisas mais bonitas da ilha, a conexão que o mar tinha com os moradores.
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  Kai se levanta com o barquinho pronto, apoiando sua mão livre nas minhas costas. Era ele quem deveria conduzir a despedida e, apesar daquele momento também ser meu, era Kai que precisava de um fechamento.
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  Caminhamos em direção ao mar.
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  Fecho meus olhos e deixo meu corpo guiar este momento. Esse ritual era algo ensinado de geração a geração para que, quando ocorresse um falecimento, todos soubessem como agir.
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  A água gelada entra em contato com meus pés, me fazendo dar um leve pulo. Mas não paramos.
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  Sigo em frente, pedindo licença enquanto passávamos as primeiras sete ondas. Ir até o fundo não era obrigatório, a não ser que você tivesse uma prancha, mas esse era outro ritual. Então paramos de andar no momento que a água atingiu minha cintura.
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  Eu conhecia aquelas águas e, principalmente, sabíamos o momento certo para soltar o barquinho e entregá-lo nas mãos daquela que protegia os mares, os pescadores, e os moradores.
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  — Você ainda se lembra do ritual? — Kai me perguntou enquanto observamos o barquinho ser tomado pelas ondas e engolido pelo mar.
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  — Sim…
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  Fecho levemente meus olhos e repito com ele.
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  — Levo comigo a sua paz e deixo nas suas ondas um pedido de proteção. Que você possa guiá-lo através das águas e que ele encontre conforto nos braços daqueles que já se foram. Da água viemos, e para água voltaremos.
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  Abro meus olhos sentindo uma sensação inexplicável.
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  Não era mais possível ver nenhum vestígio das flores, ou do barquinho de folha de bananeira. Nosso ritual foi concluído e bem aceito.
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  Não falamos nada. Apenas caminhamos de costas na água, mantendo os olhos fixos no mar até nossos pés pisarem na areia seca.
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  Exatamente como nos ensinaram.
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  Kai parou na minha frente passando a mão pelo rosto, tentando disfarçar os olhos vermelhos.
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  — Eu sei que isso não apaga os dez anos que você passou sozinha. — Sua voz falha. — Eu tenho uma dívida com você, Hailey. Uma dívida que eu nem sei como começar a pagar.
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  Encarei seu rosto.
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  — É um processo doloroso, mas um dia você se perdoa. Não existe dívidas entre nós, Kai. Passado é passado.
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  — E onde isso nos coloca exatamente? — Ele me pergunta.
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  — Nós temos nossas próprias vidas. O que fizemos hoje foi um encerramento necessário, mas não acho que exista um nós em uma mesma frase depois de tudo.
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  — O que você quer dizer?
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  A expressão dele mudou.
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  — Em breve eu vou embora; você vai continuar aqui. O que tivemos no passado foi importante para eu me tornar a mulher que me tornei, mas não vejo nada além desse momento para nós.
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  — Hailey…
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  — Kai, eu passei anos na terapia e só agora eu entendi o significado de muita coisa. Tenho certeza de que você vai chegar lá também.
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  Kai tentou dar um passo à frente, abrindo a boca como se quisesse protestar, mas as palavras simplesmente não foram pronunciadas. Ele sabia. No fundo, ele sabia que eu estava certa.
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  — Eu vou voltar para a casa do Theo. — Murmurei. — Você vem?
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  Kai ficou parado por alguns segundos, encarando o horizonte.
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  — Pode ir na frente. — A voz dele saiu baixa, quase engolida pelo som das ondas. — Preciso de um minuto.
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  Assenti em silêncio e saí sem olhar para trás.
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  A doutora Helen estava certa. Encarar os demônios não significava mudar o passado, significava tirar o poder que ele tinha sobre o meu presente.
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  N/A: Esse sem sombras de dúvidas foi um dos capítulos mais sentimentais que já escrevi. Para vocês terem noção ele foi reescrito umas duas vezes porque não estava na intensidade que eu queria.
  Espero que tenham gostado, nos vemos em breve!
  Beijos.

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