×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

De volta pra casa

Escrita porNathara Sant'anna
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo Seis

  Ok! A fofoca nessa ilha corre solta, e quando falo solta, é de ponta a ponta.
  Não existia uma pessoa que não tivesse comentado sobre o fato de o Theo ser pai. Juro! Mack conseguiu fazê-lo virar o centro das atenções facilmente com apenas uma palavra.
  E como sei disso? Simples, saí mais cedo que o normal para chegar à padaria e pegar alguns pães quentinhos, quando sem querer escutei as duas atendentes falando sobre o assunto. Era engraçado, mas por outro lado Theo estava puto com a situação. Também, a mãe dele apareceu no final do dia, com o rosto que parecia um pimentão, pois tinha escutado a fofoca da senhora Melinda que escutou do senhor Thomas.

  Sério! As pessoas eram muito linguarudas.
0
Comente!x

  — Você devia ter me levado a sério quando te contei que aqui nada passa despercebido. — Coloco a garrafa de café na mesa.
  — Ok! Eu subestimei os moradores só um pouquinho. Jamais imaginaria a repercussão disso. — Mack dá de ombros, divertida.
0
Comente!x

  — Olhe bem para mim, sou a prova viva disso. — Aponto para mim mesma. — Já faz dez anos que fui embora e mesmo assim eles se lembram.
  — Pense no lado bom, eu dei algum assunto para os fofoqueiros de plantão. — Ela serve um pouco de café para nós.
  — Às custas do Theo… — Suspiro. — Sério! Se mais uma pessoa ligar pra ele o parabenizando, ele nos expulsará daqui.
  — Rhodes precisa de um pouco de emoção na vida dele. — Ela dá ombros. — O que nos leva a um assunto muito importante…
  — Ok! Arranque logo o band-aid.
  — Tenho uma reunião muito importante em Goldenport na terça. — Abro a boca para falar, mas ela me impede. — Mas eu volto. Não vou ficar aqui, é óbvio. Então comece a procurar algo para morarmos juntas.
  — Mack, você sabe que não precisa voltar.
  — Você é minha melhor amiga, Hailey. Iria até o inferno por você. — Reviro os olhos pelo seu drama. — Precisamos procurar um lugar para ficar até seu projeto acabar. Como falei, não tem como eu ficar aqui sem Theo e eu nos matarmos.
  — Verdade. — Solto uma risada. — Sabe… Vocês dois são os únicos que estão me apoiando. Acho que não sei nem como começar a agradecer.
  — Me agradeça chutando a bunda de todo mundo e voltando pra Goldenport.
  — Você é engraçada. — Fico séria de repente.
  — O que aconteceu?
  — Bem… É só esse lugar, ele tira o pior de mim. — Dou um sorriso amarelo. — Faz alguns dias desde que minha irmã chegou, e não escutei nada sobre ela.
  — Quinn só pensa nela mesmo. — Mack parecia irritada. — Não entendo sua mãe. Ela te odeia por ter ido embora, mas sua irmã fez o mesmo.
  — A diferença, Mack, é que minha mãe ama a Quinn e nada do que ela faça soa errado.
  Eu cresci dessa forma, já estava acostumada, mas era algo que no passado me machucava. Mamãe e papai nunca olharam para mim como olhavam para Quinn. Apesar de eu ser a mais velha, a atenção sempre esteve nela. Meus pais não davam a mínima para o que eu fazia, eu passava mais tempo na casa do Theo, da Akemi e do Kai do que na minha própria casa. Papai e mamãe pareciam não se importar muito com isso. Pelo contrário, eles ficavam extremamente felizes quando eu saía de casa e os deixava a sós com a minha irmãzinha.
  — Terra chamando! Seja lá pra onde sua mente viajou, volte.
  Disperso esses pensamentos. Eu precisava ligar para minha terapeuta e agendar uma consulta online com ela. Não sabia quanto tempo conseguiria ficar aqui sem me sentir melancólica ou me autossabotar.
  — Desculpe, fui longe.
  — Hailey, você tem ao menos dormido?
  — Claro que sim. — Resmungo antes de dar um gole no meu café, que já estava meio frio.
  — Dormindo sozinha, ou tomando os remédios?
  Merda, nada passava despercebido.
  — Às vezes eu tomo um comprimido para dormir…
  — Voltou a ter algum ataque de pânico, ou ansiedade?
  — Tudo sob controle, você mesma me viu.
  Por mais que eu amasse a Mack, eu não queria compartilhar o fardo dos meus sentimentos com ela.
  — Ok! Mas antes de sair, irei conversar com o Theo…
  — Não precisa. — A interrompo. — É sério, Mack! Estou ótima.
  — Eu te amo, Hailey. Só me preocupo porque quando você fica ansiosa, a tendência é se afastar dos outros. — Suspiro.
  — Prometo pra você, nada nessa ilha vai me abalar.
  — Tem certeza? Porque eu sei muito bem o que meus olhos viram…
  As palavras dela me levam para o dia em que Mack chegou na casa do Theo.
  — Aconteceu, mas não vai se repetir.— Afirmo.
  — Olha, as coisas entre vocês não terminaram bem. Só não tenha uma recaída, você terminou um relacionamento e está frágil. Não confunda as coisas.
  Concordo. Mack tinha razão, claro. Mas no momento em que beijei o Kai não liguei para isso, eu só queria me sentir um pouquinho vingada pelas coisas que meu ex disse, apesar de ter sido uma atitude muito imatura da minha parte.
  — Não vou confundir. — Coloco minha caneca em cima da mesa. — Esse barco já partiu faz muito tempo.
  — Assim esperamos, porque eu lembro muito bem da garota quebrada que conheci.
  Desvio o olhar. Mack me conheceu no pior estado e esteve lá para mim quando mais precisei. Sua preocupação era válida.
  — Merda! — Me lembro do que tinha que fazer e me levanto rapidamente. — Esqueci que tinha que pegar uns documentos sobre demarcação de terra.
  Theo iria me matar se ele aparecesse em casa e eu não estivesse com isso em mãos. Meu amigo tinha dado tudo de si para convencer o seu Horácio a me entregar essa documentação.
  — Quer que eu vá com você? — Mack pergunta.
  — Não precisa, é rápido. Além do mais, você precisa arrumar suas coisas. — Faço um beicinho enquanto aceno para ela, saindo da cozinha.
  Saio de casa rapidamente. O tempo estava virando, então eu precisaria ser rápida se não quisesse pegar chuva, ou pior, ter que parar em algum comércio e ser expulsa de lá.
  O vento estava um pouco mais forte que o normal, e o cheiro de chuva começava a surgir. Aperto o passo assim que avisto o barracão no final da rua; ele continua exatamente como dez anos atrás, exceto que as madeiras estão mais desgastadas por causa do tempo.
  Entro apressada e encontro seu Horácio guardando alguns itens dentro de um armário.
  — Boa tarde, seu Horácio. — Limpo a garganta.
  O senhor de cabelos brancos se vira para mim, me avaliando de cima a baixo. Eu já devia estar acostumada com isso, mas a encarada que recebi foi um pouco intimidadora.
  — Você cresceu, Hailey. — Ele sorri por um instante. — Ainda bem que apareceu, eu já estava guardando as coisas para ir embora. O tempo está fechado e preciso ajudar minha esposa a tirar a roupa do varal. Os documentos estão ali.
  Ele resmunga apontando para um armário de ferro que estava mais pra lá do que pra cá.
  — Prometo que serei rápida, o senhor pode me mostrar onde estão os documentos, eu os pego e assim o libero.
  Ouço sua risada invadir o local.
  — Querida, você pode muito bem fechar o barracão. Deixe as chaves com o Kai.
  Abro minha boca para falar que não era necessário, mas Horácio já estava me deixando sozinha.
  — Tudo bem. — Falo para mim mesma.
  Se não fosse o barulho do vento, eu estaria imersa em um completo silêncio. Vou até a estante de metal, tomando todo cuidado do mundo para não me cortar e possivelmente pegar tétano, já fazia uns dez anos desde a última vacina, então não queria arriscar.
  Começo a procurar os documentos de que preciso, praguejando pela falta de organização. Esses documentos deveriam estar na prefeitura, guardados e catalogados por ano, não em um barracão de pescadores.
  Um estrondo sacode o local. Quase derrubo uma das pastas que estava na minha mão com o susto. Mas nada, nada me prepararia para o que aconteceu em seguida.
  O vento estava tão forte, que a porta da frente simplesmente fechou. Assustada, vou até ela e tento abri-la, mas nada acontece. Parecia que a porta emperrou.
  Descrente com a minha situação, solto uma risada. Até a porta parecia me odiar nesse lugar, puta que pariu. Tiro meu celular do bolso. Sem sinal. Sério, por que essas coisas tinham que acontecer justamente comigo?
  Com raiva, dou um chute na porta. Foda-se.
  — Não adianta fazer isso.
  Arregalo meus olhos. Eu não estava sozinha.
  — O quê…?
  — Quando isso acontece, só dá pra abri-la por fora.
  A voz de Kai preenche o espaço. Ótimo, tudo o que eu precisava para terminar de ferrar com meu dia.
  Quando me viro, percebo que ele estava encostado na parede de braços cruzados.
  — Há quanto tempo você está aqui? — Pergunto, guardando meu celular no bolso.
  Era possível escutar os primeiros pingos de chuva caindo sobre o telhado.
  — Desde o começo? Horácio disse para você deixar a chave comigo. — Ele sorri de lado.
  — Pensei que era para deixar no seu restaurante.
  — Pensou errado, Hailey.
  Com um movimento, ele desencosta da parede e vem em minha direção.
  — Minha desculpa é pegar alguns documentos, e a sua? — Pergunto.
  — Cobrir os documentos antigos da associação antes que molhassem. — Kai acende a lanterna do celular.
  — Ótimo. — Falo para mim mesma. — Meu celular está sem sinal, e o seu?
  — Se você acha que vou pedir pra alguém sair na chuva apenas para abrir a porta, está bem enganada.
  — Então? Eu e você vamos ficar aqui até ela passar?
  Outro estrondo, dessa vez mais forte que me faz dar um pulo.
  — Tipo isso. — Kai estava relaxado.
  — Ok.
  Tento ignorá-lo, acendo a lanterna do meu celular e o mordo para poder continuar minha procura. Eu queria manter meu foco e objetivo no que realmente importava, mas Kai ficava o tempo todo bufando e isso estava começando a me distrair.
  — Uma ajudinha seria legal, em vez de você ficar me encarando o tempo todo. — Minha voz sai um pouco abafada.
  — Por que eu te ajudaria? — Ele me pergunta. — Já disse que não concordamos com a construção. — Kai parecia calmo.
  Tiro o celular da boca, respirando fundo antes de me virar para falar com ele.
  — Kai, escute bem o que eu vou te falar. — Coloco a mão na cintura. — A construção irá acontecer, independente do que você ache. Não seria interessante largar essa teimosia e trabalhar em prol de um benefício para todos?
  — Benefício onde? No bolso de quem nem vive aqui?
  — Eu já te disse, isso vai gerar emprego…
  — Foda-se você e a sua opinião. É ridículo você vir até aqui com o pensamento de gerar emprego sendo que você também foi embora!
  — Merda, Kai. Não vamos voltar a isso. — Eu estava me segurando.
  — Para o que exatamente? Que você foi embora? Que não se importou com ninguém…
  — Puta que pariu, Kai! Você se esquece que também iria embora, não é mesmo? — Largo tudo o que estava fazendo, irritada.
  — A conversa não é essa…
  — Não é? Todo momento você fica jogando na minha cara o fato de eu ter ido embora, mas o quê? Se esquece que ia fazer o mesmo? Mas na última hora desistiu e tentou me convencer a ficar? – O encaro.
  — Minha mãe precisava de mim.
  — Claro, sempre existe alguém que precisa de você. E depois? Por que você não foi para Goldenport? Por que simplesmente me mandou uma mensagem falando que estava tudo acabado? Por que continuou deixando as pessoas falando mal de mim, julgando minhas escolhas, sendo que você iria fazer o mesmo?
  Meu corpo todo estava quente. E começo a sentir que eu estou hiperventilando.
  — Não fode, Hailey.
  — Não fode é o caralho, Kai. — Minha voz praticamente some diante do barulho da chuva intensa.
  — É sério! Você não sabe do que está falando. — Ele dá um passo para frente, enquanto eu dava um para trás. — Minha mãe precisava de mim.
  Kai continuava falando, mas a voz dele começa a soar distante, bem distante.
  Parecia que o barracão começou a diminuir, e de repente fica mais difícil de respirar. Sinto um aperto no meu peito, uma pressão desigual, como se tudo estivesse fechando ao meu redor.
  — Hailey? — Kai parecia confuso ao me chamar.
  Tento puxar o ar, mas ainda sentia dificuldades. Minhas mãos começam a formigar e fecho meus olhos, não acreditando que isso estava acontecendo.
  — Sério, Hailey! O que está acontecendo? — Ele se aproxima de mim, e me apoio nele. Eu podia sentir que vacilaria a qualquer momento.
  Meus olhos se enchem de lágrimas. Minha mente viaja para um dos piores dias da minha vida. E eu não consigo sair.
  — Olha pra mim, olha pra mim. — Kai parecia apavorado.Ele estende as mãos, mas hesita por um segundo, com medo de me tocar, antes de segurar meus ombros com firmeza. — Hailey, repete comigo. Cheire a florzinha e apague a velinha.
  Eu queria rir disso. Dizer que não era mais criança, mas faço exatamente o que ele pede. Puxo o ar com força, imitando o gesto dele de forma desajeitada e trêmula e solto o ar bem devagar, soprando a tal velinha imaginária.
  Me sento no chão e ele desliza junto comigo, me amparando.
  — Isso, de novo. Cheira a flor... sopra a vela. — Ele ainda parecia desesperado.
  Repito mais uma vez e outra. O aperto no meu peito começa a aliviar e eu já consigo respirar um pouco. Minhas mãos ainda tremem contra os braços dele, onde acabei me segurando.
  Fecho os olhos por alguns segundos, deixando a cabeça pender para trás contra a madeira fria da parede, enquanto sinto o ritmo do meu coração desacelerar aos poucos. O barulho da chuva contra o telhado de zinco volta a ficar nítido, preenchendo o silêncio constrangedor que se instala entre nós.
  Quando abro os olhos, dou de cara com o Kai me encarando. Ele ainda segura meus ombros com firmeza, mas a expressão no rosto dele é uma mistura de alívio. Ele engole em seco, a boca meio aberta como se quisesse se desculpar pela briga, mas nenhuma palavra sai.
  — Já passou. — Murmuro com a voz rouca, afastando minhas mãos do peito dele sem jeito e limpando o rastro de lágrima no meu rosto com as costas da mão. — Eu estou bem. Pode me soltar.
  Kai hesita por um instante, antes de finalmente se afastar e passar a mão pelo cabelo, visivelmente mexido com o que acabou de acontecer.
  E merda, eu iria me culpar por isso pelo resto da minha vida, porque eu tinha mostrado pra ele a minha maior fraqueza.


  N/a: Hello! Hello!
  Att dupla para vocês e juro, todo esse drama vai compensar muito lá na frente. Espero que estejam gostando.
  Beijos

5 1 voto
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

1 Comentário
mais antigos
mais recentes Mais votado
Natashia Kitamura

Achei esse capítulo 6 muito necessário para a história! Mostrar um lado que ninguém tinha visto antes. A gente sabe que tem um passado mal enterrado aí, mas já está na hora dela começar a parar de ficar calada e se posicionar! Esse povo dessa vila fica julgando a única pessoa que teve coragem o suficiente para enfrentar uma coisa totalmente inevitável, que é a mudança.
Acho todo mundo, principalmente os pais dela, um bando de covardes por não apoiarem uma pessoa que tem sonhos e ambições. O Kai também é outro que só me faz passar nervoso, terá que se esforçar muito para me reconquistar hahahaha tudo bem ele se sentir traído por ela ter ido embora, que foi o que pareceu no começo. Mas pelo que vi, não foi bem assim a história. Típico homenzinho. Tomara que tenha que sofrer muito pra reconquistar a pp, isso se ela quiser, né. Porque ele está sendo um atraso de vida dela! Ele parou no tempo junto com o resto das pessoas da vila, enquanto ela cresceu e amadureceu. Aaaaaaa quero ver essa humilhada sendo exaltada logoooo!!!

Todos os comentários (1)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

1
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x