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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

De volta pra casa

Escrita porNathara Sant'anna
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo Três

“Palavras machucam mais do que pensamos.”

  O som alto de um galo cantando perto da minha janela me arranca do sono antes das seis da manhã! Abro meus olhos assustada, encarando o teto coberto de estrelas fluorescentes, demorando um pouco para me lembrar de onde estou.
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  Não era meu apartamento, tão pouco minha cama.
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  Eu estava em Isla Syrena.
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  Pensei que tinha sido um sonho, mas a realidade era mais dura do que eu imaginava. Rolo para o lado, sentindo a frustração tomando conta do meu corpo. O calor era insano, logo nas primeiras horas da manhã. Jogo o cobertor fino que usei na noite passada para me tampar e levanto, sentindo o assoalho estalar sob meus pés. Pretendia sair de casa antes mesmo que meus pais acordassem, por isso tomei um banho rápido, praguejando o fato do chuveiro estar sem pressão, segurando a vontade de chorar antes mesmo do meu dia começar.
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  Volto para o quarto, secando meu cabelo e tentando lembrar se eu tinha trago alguma roupa fresca. Estava tão acostumada em usar roupas mais formais que o simples fato de colocar um short jeans me causava arrepios. Por isso opto por um conjunto de academia. Aproveito para ligar meu celular. A bateria dele tinha acabado e não fiz questão de ligá-lo até o momento.
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  Vinte ligações.
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  Merda, algumas pessoas deveriam estar atrás de mim.

  Mack: Droga, Hailey! Onde você está?
  Mack: Puta que pariu, se você não me responder, vou até a delegacia.

  Fecho meus olhos.
  Não duvidava que Mack realmente faria isso caso eu a ignorasse.
  Por isso respondo.
  Passo meus olhos pelas outras mensagens que recebi. Era demais para mim. Olhar para aquilo era o mesmo que tacar sal nas minhas feridas, bloqueio a tela com força. Engolindo a humilhação que estava sentindo.
  Terminei de me arrumar e saí do quarto de fininho. Mas meus planos desmoronam quando vejo minha mãe na sala, tomando seu café silenciosamente.

  — Já vai sair?
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  Ela nem sequer vira para me olhar.
  — Vou sair para correr.
  Paro na escada, ponderando o que faria a seguir.
  Minha mãe se virou para me olhar, tomando um gole de café, me encarando dos pés à cabeça.
  — Vista outra coisa. — Sua voz é fria.
  — Pelo amor de Deus! — Eu não queria me irritar tão cedo, mas era impossível. — Isso é roupa de academia.
  Apontei para o que estava vestindo.
  — Não me importa. Não quero causar constrangimento entre os vizinhos.
  Bufo.
  Sua postura no sofá era exatamente a mesma de tantos anos atrás, e o olhar que ela me dá é um misto de irritação, como se minha presença a incomodasse.
  — Olha, mudar minhas roupas está fora de cogitação. — Coloco a mão na cintura.
  — Você é um caso perdido mesmo. — A ouço bufar. — A propósito, sua irmã está vindo amanhã. Então preciso do quarto livre.
  Arregalo meus olhos, não era para ela estar vindo tão cedo. Eu tinha pelo menos mais três semanas antes de sair dessa casa.
  — Quinn está vindo? Amanhã?
  Sinto uma fisgada familiar no meu peito.
  A menção ao nome da minha irmã mais nova sempre vem com aquela sensação de estar invadindo algo.
  — Sim. E você sabe que ela irá precisar do quarto para dormir. Então preciso que você desocupe ele até o fim da noite.
  Fecho meus olhos com força.
  — Posso fazer uma cama no meu antigo quarto…
  — Sem chances disso acontecer. Aurora irá ficar naquele quarto. Seu pai está vindo mais cedo com alguns colegas para tirar minhas coisas lá de dentro.
  Engulo em seco, fechando minha mão.
  — Mãe…
  — Não está atrasada para sua corrida matinal? — Ela me corta.
  — Você tem razão. — Tento sorrir. Escondendo minhas emoções.
  — Não se esqueça, até o fim da noite preciso do quarto livre. E por favor, sem dramas. Ninguém precisa das suas crises em um dos dias mais importantes para mim.
  Aquelas palavras saem da sua boca sem nenhum tipo de remorso. Sem falar qualquer coisa, saio de casa batendo a porta. O ar quente daquela manhã atinge meu rosto assim que saio de dentro de casa.
  Não tinha ideia de que estava tão quente assim, e fico surpresa por isso.
  Começo a correr sem perder tempo, seguindo o trajeto que me levaria até a praia e consequentemente até o centrinho. Eu precisava extravasar toda a frustração que estava sentido ao ouvir as palavras da minha mãe.
  Merda, fazia muito tempo desde que tive esse tipo de sentimento.
  Por isso odiava essa ilha, ela revelava o pior de mim.
  Olho para ambos os lados para atravessar a rua, eu precisava de um café, e para tê-lo teria que novamente sentir os olhares curiosos dos moradores.
  Algumas pessoas diminuíram os passos apenas para me ver passar, me encarando de cima a baixo. Um julgamento pesado e nada discreto. Certeza que minha mãe fez um trabalho impecável nos últimos anos ao me difamar para os moradores daqui, porque só isso justifica os olhares que eu estava recebendo.
  Ignoro todos, apesar de machucar um pouco e paro em uma pequena cafeteria que tinha ali. Eu só precisava de um café expresso para me sentir completamente despertada e pensar para onde eu iria essa noite.
  Caminho até o balcão de atendimento. Uma garota mais nova que eu me encarava de braços cruzados.
  — Bom dia. — Apoio minhas mãos no balcão de madeira tentando ser o mais simpática possível. — Um café expresso, por favor.
  — Não temos. — Ela franze o nariz.
  — Como assim? A máquina está bem atrás de você.
  Aponto para a máquina ligada.
  — Não atendemos pessoas como você aqui. Se quiser, vá para o centro. Tenho certeza de que terá o que procura.
  A encaro boquiaberta. Dou um passo para trás.
  — Desculpe, mas sou cliente.
  — Sua fama procede. — A garota me encara com desdém. — Se achando superior?
  — Como é que é? — Pergunto.
  — Vá embora, Hailey.
  Fico surpresa ao ouvir meu nome saindo de sua boca. Ela devia ser uma criança quando fui embora. Não tinha como essa garota me conhecer.
  — Só para constatar, você não me conhece. — Bato com a mão levemente na bancada, me preparando para sair daquele lugar.
  — Sei exatamente quem você é, e principalmente o que você fez com a sua mãe. Não sente vergonha de fazer sua família quase perder a casa?
  Paro, curiosa. Que história de perder a casa era essa que eu estava ouvindo só agora.
  As pessoas ao meu redor pareciam cochichar, fazendo com que minhas bochechas começassem a arder. Eu estava sendo o centro das atenções, e não de uma forma positiva.
  — Helena… Não fale coisas sem sentido.
  Me viro e dou de cara com Theo. Ele estava vestindo roupas leves, e usando um óculos de sol escuro. Me sinto aliviada por ver um rosto conhecido e sorri para ele, mas relaxada.
  — Theo, você não devia se meter com…
  — Se você continuar com isso, Helena, irei contar para sua mãe o que você anda fazendo.
  Helena desfaz os braços cruzados na mesma hora, dando um olhar feio para ele.
  — Apenas saia. — Ela me olha. — Sua presença aqui não é bem-vinda.
  Eu podia contar nos dedos quantas pessoas em um curto período de tempo falaram que eu não era bem-vinda nesse lugar.
  — Eu avisei. — Theo dá leves batidinhas na bancada. — Vem, Hals.
  Ele segura meu braço suavemente, me guiando para fora daquele lugar. Sinto meus olhos arderem, eu não merecia estar sendo humilhada por pessoas que nem me conheciam, quer dizer, eu não merecia ser humilhada por ninguém ali.
  Paramos em frente ao Jeep que ele costumava dirigir quando éramos adolescentes e Theo abre a porta do carona para mim. Em meio ao transe que eu me encontrava, entro no carro sem perguntar para onde iriamos.
  Depois de se certificar que eu estava com o cinto de segurança, Theo dá uma volta rápida e assume o volante, nós tirando dali o mais rápido possível.
  — Ei… Sei que deve estar sendo difícil, mas respire. — Ele parecia genuinamente preocupado comigo.
  — Isso é uma droga! Essa ilha é uma droga!
  Resmunguei.
  — Aqui, beba um pouco. — Theo me estende uma garrafa de água. — O que foi aquilo?
  — Não faço ideia, Theo! — Jogo minha cabeça para trás. — O que minha mãe anda falando de mim?
  — Você sabe que meus pais odeiam fofoca, então sei tanto quanto você.
  — Porra! Aquela garota falou que eles quase perderam a casa por minha causa. Tipo? — Conto. — Meus pais nunca falaram sobre isso.
  Theo aperta o volante.
  Eu estava cansada de ser tratada como um monstro por pessoas que teoricamente me conhecem a vida inteira.
  — Juro! Que raiva. — Solto um grunhido.
  — Você sabe como o pessoal daqui é. Qualquer fofoca para eles vira um evento.
  — Sei disso.
  — Então pare de pensar.
  Ele sorri para mim.
  — É difícil não pensar, desde sempre minha mãe me crucificou para todo mundo.
  Respiro.
  — Prometo que vou tentar descobrir o que está acontecendo, mas não é só isso, né? — Theo me olha por um momento.
  — Não. — Balanço a cabeça. — Quinn resolveu vir mais cedo, minha mãe quer que eu libere o quarto hoje à noite.
  — Puta que pariu. — Solto uma risada ao ouvi-lo praguejar.— Ficamos brevemente em silêncio.— Você sabe que não vai ficar na rua, né? — O carro faz uma curva.— Tira isso da sua cabeça.
  — Estou pensando em voltar para Goldenport. — Suspiro.
  — E vai ficar aonde?
  — Posso ficar na casa da Mack por um tempo, até eu ajeitar minhas coisas e arrumar um emprego.
  Dou de ombros.
  — Você pode ficar na minha casa.
  — Não sei. Voltar para cá não foi uma boa ideia.
  Apoio minha cabeça no vidro, fechando os olhos.
  Dois dias, esse foi o período que consegui ficar aqui. Ir embora não seria sinônimo de fugir, certo? Não quando todo mundo parece odiar você.
  Encaro o mar bem diante dos meus olhos. As ondas quebravam com força e a água tinha uma tonalidade azul cinzenta. Completamente diferente do azul clarinho que estava no dia anterior.
  Essas eram algumas das mudanças de que quem morava na ilha encarava. A virada do mar repentina.
  — Pelo menos iremos passar um tempo juntos. — Ele tenta me animar.
  — Podemos nos encontrar em Goldenport.
  — Nah! Estou com um projeto na ilha. Vou ficar aqui por pelo menos seis meses.
  Arregalo meus olhos. Lembrando vagamente que Theo trabalhava para um grupo de empreendimento poderoso em Goldenport.
  — Pode compartilhar a informação?
  Pergunto, sentindo o meu lado profissional aflorar pela primeira vez desde que pisei na ilha. Theo solta uma risada, batucando os dedos no volante.
  — O dono da empresa onde trabalho passava as férias de verão aqui. Ele quer transformar Isla Syrena em uma joia do turismo, Hals.
  Abro a boca, chocada.
  — E como vocês vão convencer o pessoal mais velho?
  — Aí é que está. A ilha tem um índice de crescimento gigante, mas algumas vilas não aceitam bem a mudança.
  — E o que você pretende fazer?
  Ele me olha de soslaio.
  — É aí que você entra. Preciso de alguém para gerenciar a crise.
  — Qual é Theo, minha carreira foi por água abaixo. — Reviro meus olhos, achando que ele estava brincando.
  — Eu tô falando sério. A ordem veio de cima, quando descobriram que você foi demitida, eles me procuraram.
  — Claro, e como saberiam que somos amigos? Não preciso de ajuda, Theo. Sério!
  — Eu conheço vocês, Hals. Jamais iria oferecer esse tipo de ajuda. Sua fama precede. Quem perdeu foi o seu ex-sogro.
  — Para você querer uma especialista em gestão de crises, o negócio é muito sério.
  — Sim. — Ele parou o carro na frente de uma cafeteria. — Como eu disse, o pessoal da vila não está muito feliz com um hotel cinco estrelas.
  — Isso é ridículo! Eles não entendem que isso vai gerar mais empregos e maior rentabilidade para a ilha?
  Não podia acreditar que os moradores estivessem indo contra a algo que apenas os ajudaria.
  — Aí é que está! Eles acham que isso iria mudar a ilha, as tradições. Você sabe como eles são.
  — Tá e você acha que eu seria a melhor opção? As pessoas já me odeiam…
  Como um clique na mente, entendo perfeitamente o que ele estava fazendo.
  — Pelo amor de Deus, Hailey! Não me olhe com essa cara. Não é nada disso que você está pensando.
  Ele me conhecia tão bem.
  — Tem certeza? Porque seria muito cômodo para você eu ser a vilã dessa história.
  Cruzo os braços.
  Theo vira seu corpo em minha direção, apoiando o braço no encosto do banco.
  — Há quanto tempo a gente se conhece, Hailey? — Ele me pergunta.
  Reviro os olhos.
  — Uma vida inteira.
  — Exatamente. E você acha que eu realmente faria de você o meu escudo? Você fere meu orgulho.
  Solto uma risadinha.
  — Mas eu não entendo, por que iriam me querer? Meu sogro fez questão de me queimar para todas as empresas de Goldenport.
  — Eu não questiono meus superiores. Se eles te querem no projeto, é porque seu histórico de gerenciamento é impecável.
  Engulo em seco, desviando o olhar para frente.
  — Isso seria uma boa oportunidade, mas ao mesmo tempo irei ficar trancada aqui. — Abro a porta do carro.
  — Você não tem que lidar com seus pais, mi casa és tu casa.
  Theo me acompanha, abrindo a porta da cafeteria para entrarmos.
  — E o salário?
  Eu não estava em posição de questionar valores.
  — Bom o suficiente para você recomeçar. — Ele pisca para mim. — Já falei que eles cedem moradia em Goldenport?
  — Sério? — Escolhemos uma mesa e nos sentamos.
  — Sim.
  — Interessante.
  — Prontos para pedir? — Um garçom se aproxima da nossa mesa.
  — Dois americanos, por favor! — Theo pede.
  — Consegue colocar uma dose extra? Por favor? — Peço com um sorriso.
  — Então? Aceita a proposta? — Meu amigo pergunta.
  — Não tenho para onde correr e estou precisando de um emprego. — Dou de ombros.
  — Ótimo! Irei fazer uma ligação enquanto o café não chega.
  Theo se levanta, me deixando sozinha.
  Pego meu telefone para mandar uma mensagem para Mack.

  Eu: Eii, sou uma péssima amiga! Mas precisava de um tempinho sozinha. Vir para Isla foi um tiro no pé.
  Mack: Eu disse para você ficar na minha casa, mas não me escuta.
  Eu: Bom… Mas recebi uma proposta de trabalho…
  Mack: Conte mais, quem fez a proposta?
  Eu: Theo…
  Mack: Traidora.

  Desligo o celular assim que Theo volta para mesa.
  — Tudo certo, vou te encaminhar o e-mail para você enviar sua documentação. — Seu sorriso ia de orelha a orelha.
  — Isso quer dizer que eles darão moradia enquanto eu estiver na ilha? — Mordo meus lábios.
  — Eu já disse. Você fica na minha casa. — O garçom nos interrompe, entregando as bebidas.
  Dou um gole no café e sinto o gosto forte e quente descendo pela minha garganta.
  — Tem certeza disso? — Pergunto.
  Já bastava eu ser odiada por todos nesse lugar, não queria que Theo fosse arrastado junto.
  — Pensei que já tinha deixado claro na outra noite. — Ele encara o telefone. — Assim que voltarmos, vamos pegar suas coisas.
  — Minha mãe vai te odiar.
  Coloco a mão no rosto, tentando esconder minha frustração.
  — Ela vai ter que lidar com isso.
  Theo me deu tempo suficiente para terminar meu café e comer alguma coisa antes de voltarmos para o Jeep e irmos para minha casa. O mormaço estava mais forte agora que o dia clareou, me deixando com vontade de me jogar na água apenas para aliviar o calor que estava sentindo.
  Mas eu tinha outras coisas para fazer, como por exemplo, encarar minha mãe.
  Não que eu sair daquela casa fosse importar alguma coisa. Afinal, se ela realmente se preocupasse com meu bem-estar, não estaria me expulsando de casa. Sinto meu estômago revirar quando ouço mais vozes vindo ali de dentro. Será que minha irmã já tinha chegado?
  Quando abro a porta da casa, sinto uma onda de alívio tomar conta do meu corpo. Minha irmã não estava ali, mas ao ouvir vozes conhecidas, paro imediatamente.
  — O que foi? — Theo para logo atrás de mim.
  — Seus pais estão aqui. — Sussurro, como se estivesse fazendo algo ruim.
  — Hoje é quinta-feira? — Ele me pergunta.
  — Sim?
  — Droga! — O encaro sem entender o motivo do xingamento. — Hoje é dia de limpeza das lulas.
  Fecho meus olhos; isso era uma tradição das famílias locais. Se reunir com amigos e familiares para limpar frutos do mar. Por muito tempo tive que ajudar os mais velhos nessa tarefa. Minha infância foi regada pelo cheiro de peixes, crustáceos e gelo.
  Theo é o primeiro a entrar. Saudando todo mundo.
  — Querido, o que você está fazendo aqui? — Tia Lorelai se levanta. Ela estava vestindo uma roupa de pescaria e fica surpresa ao me ver. — Hailey, querida.
  Ela vem em minha direção.
  — Ei. — Dou um aceno, me mantendo distante.O cheiro de lula invadindo minhas narinas.
  — Pensei que você fosse correr. — Minha mãe nem se dá o trabalho de olhar para mim.
  — Vim pegar minhas coisas.
  Silêncio toma conta do lugar.
  — Resolveu voltar para casa? — Ela me pergunta.
  — Na realidade, Hailey e eu estamos em um projeto juntos. — Theo fala descontraído. — Ela irá ficar na minha casa nesse tempo.
  Outro silêncio constrangedor. Lorelai me olha com os olhos arregalados. Para eles, duas pessoas não relacionadas jamais deveriam morar juntos.
  — Como assim? — Eu não sabia para onde olhar, então baixei minha cabeça.
  — Bom… Hailey não tem onde ficar, então cedi um dos meus quartos para ela.
  Theo fala com a maior naturalidade.
  Para nós, não era o bicho de sete cabeças. Eu mesma morei com meu ex por quatro anos antes de levar um pé na bunda. Mas para os nossos pais, parecia realmente o fim do mundo.
  — Querido, você sabe que eu amo Hailey como uma filha, mas não acho que um homem e uma mulher devam morar juntos quando não estão casados.
  Mantenho minha cabeça baixa para esconder um sorriso que surge em meus lábios.
  — O que você está fazendo? — Minha mãe direciona sua pergunta para Theo. — Querido, está na hora de deixar Hailey ir, ela não faz parte das nossas vidas faz dez anos.
  — Desculpe, tia. Mas eu vejo Hailey praticamente todos os dias. Não é porque ela decidiu ir embora que eu iria ignorá-la. Vivemos na mesma cidade, fomos para a mesma faculdade.
  Quando fui embora, meus pais ficaram cerca de quatro anos sem falar comigo. E só me procuraram quando minha irmã não pode ajudá-los com as despesas da casa. Então, eles não saberem que Theo e eu continuávamos amigos, mesmo depois de eu ter saído dessa ilha, não era surpresa.
  — Qual o problema dela ficar aqui? — Lorelai questiona minha mãe.
  — Quinn está vindo passar as férias com o marido e a filha. Preciso do quarto liberado.
  Minha mãe dá de ombros.
  — Céus! E sua melhor decisão é mandar sua outra filha embora?
  — Bom… Ela está aqui porque deve ter feito alguma merda em Goldenport.
  Meu pai continua calado.
  — Como disse, estamos trabalhando juntos, e Hailey irá ficar na minha casa. — Theo não recua. — Vá buscar suas coisas.
  Ele me dá um leve empurrão, me encorajando a subir as escadas.
  Faço exatamente o que ele pede.
  Subo os degraus da escada de dois em dois, quanto antes eu saísse daqui, melhor seria para todos.Minha mãe tinha deixado bem claro que eu não era bem-vinda, e meu pai não ousou se pronunciar.
  Entro no quarto da minha irmã e fecho a porta atrás de mim. Eu não tinha desfeito minhas malas, então o processo de organizar as coisas que estavam do lado de fora seria rápido. É possível ouvir um falatório vindo lá de baixo, paredes finas eram assim mesmo, conseguimos escutar tudo o que era falado. Então tento desligar minha mente. Não precisava ouvir mais coisas absurdas sobre a minha pessoa.
  Vou até o banheiro para pegar meus itens de higiene pessoal e jogo tudo dentro da minha nécessaire.
  Terminando de guardar minhas coisas, abro a porta do quarto e arrasto duas malas de rodinha para o corredor, voltando pra lá e pegando as outras duas. Eu não iria conseguir descer tudo de uma vez, então faço duas viagens para o andar de cima, garantido não esquecer de nada.
  Theo me vê e vem em minha direção. Ele parece satisfeito. Então provavelmente convenceu tia Lorelai de que não é nada demais morarmos juntos pelos próximos seis meses.
  — Escutem aqui… — Dou um pulo pelo susto que levei. — Eu ainda não concordo com essa ideia de vocês dois morarem juntos, mas Theo disse que irá me explicar depois.
  Dou um olhar de poucos amigos para ele. Espero que Theo não conte sobre o pé na bunda que levei e como isso acarretou na minha demissão.
  — Mãe…
  O ouço a repreender.
  — O que eu quero dizer é que vocês são adultos e confio em vocês. — Ela sorri para mim.
  Um sorriso que nunca recebi da minha mãe.
  Balanço a cabeça para dispersar esse pensamento. Trabalhei muito com meu terapeuta para deixar isso me abalar novamente.
  — Obrigada.
  Eu realmente me sentia agradecida. Ela era uma das poucas pessoas que parecia não me olhar com nojo.
  — Mais tarde irei levar a janta para vocês. Sei que Theo não cozinha, e se você tem as mesmas habilidades de quando era adolescente, que Deus ajude vocês a não passarem fome.
  Sinto meus olhos arderem um pouco.
  Merda. Ela me conhecia tão bem.
  Dou um aceno curto para Lorelai e me viro para sair de casa, sem olhar uma única vez para minha própria mãe.
  — Obrigada, mamãe. — Theo se aproxima dela sem se importar com o cheiro e beija sua bochecha.
  Sou tomada pelo ar quente de Isla Syrena novamente assim que piso para fora de casa. Eu não tinha percebido que meus pais estavam usando ar-condicionado até ir para a rua. Desço o lance de escadas, caminhando até o Jeep estacionando no meio fio. Theo abre o porta malas e me ajuda a colocar minhas coisas para dentro.
  — Eu tenho algumas coisas para resolver do serviço, tudo bem se você ficar sozinha em casa? — Ele me pergunta.
  — Sem problemas, vou aproveitar esse tempo para organizar meus documentos e mandar para o e-mail que você me passou.
  Tudo o que eu não queria era que Theo se sentisse responsável por mim ou pela minha estadia em sua casa. Então, quando chegamos, a primeira coisa que eu fiz ao ser levada para o meu novo quarto, foi conectar meu notebook na internet e começar a trabalhar.
  O resto do dia passou como um borrão. Eu precisava de um banho, pois em breve Lorelai iria aparecer para jantar e conhecendo ela como eu conhecia, a mulher iria ficar até tarde da noite conversando. Então um banho seria ideal.
  Vasculho alguma coisa confortável e acabo pegando uma das blusas de Matt que eu tinha pego de seu guarda roupa há alguns anos. E entro no chuveiro.
  A casa onde Theo estava morando tinha sido reformada e parecia novinha em folha. A calefação era ótima e a pressão do chuveiro lembrava a de um hotel. Então levo um bom tempo tomando um banho premium.
  Quando saio, escuto barulhos vindo da cozinha e vou até lá para ver se Lorelai tinha chego.
  — Theo, trouxe os pães que você não foi pegar e o…
  Arregalo meus olhos.
  Quais seriam as chances?
  Porra!
  — Hailey?!
  — Kai?!
  — O que você está fazendo aqui? — Ele pergunta. Seus olhos correndo pelo meu corpo.
  — Hm… Irei ficar aqui por enquanto.
  — Merda…
  Eu achava que a situação não poderia ficar pior, até escutar a voz de Theo vindo da frente de casa.
  — Hailey? Kai?

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