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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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De volta pra casa

Escrita porNathara Sant'anna
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo Onze

“Crianças falam o que os adultos escondem”

  Eu não deveria ter bebido tanto ontem à noite, mas depois que saímos do hotel, Theo insistiu para que fôssemos beber e comemorar a nossa vitória.
  Minha cabeça ainda estava dando voltas quando decidi me levantar e tomar um banho. Flashes da noite passada me vêm à mente. As coisas ficaram estranhas entre Kai e eu. Quero dizer, Kai achava que Hazel poderia muito bem ser o bebê que eu tinha perdido, e ele fez questão de me perguntar na primeira oportunidade em que ficamos sozinhos na varanda da casa do Theo.
  — Sei que vai parecer indelicado da minha parte, mas você realmente perdeu o bebê? Não foi só uma desculpa por ter deixado ela para adoção?
  Bufo, irritada só de lembrar.
  Apesar de naquela época eu não estar preparada para ter um bebê, eu teria dado um jeito de mantê-lo. Jamais deixaåria uma criança à mercê dos outros, principalmente no mundo de hoje.
  — A menina tem dez anos, Kai. Ivy contou três vezes durante o jantar. Ela tem mãe, tem pai e um irmão. — Respondi. — Só eu sei o que passei naquele hospital, então pare de trazer esse assunto à tona.
  Depois disso o deixei sozinho na varanda, mas não sem antes escutar um pedido de desculpas dele.
  Forço minha mente para lembrar de mais alguma coisa. Theo jogado no sofá, praticamente morto depois de tanto beber, e aquela pergunta que ficou presa na minha cabeça até eu pegar no sono.
  Por que aquela garotinha era parecida comigo? Nem minha sobrinha e irmã que compartilhavam o mesmo sangue que eu tinha traços parecidos.
  Enterro meu rosto no travesseiro e solto um grito.
  Que ressaca dos infernos! Que situação dos infernos.
  Me encaro no espelho e lavo meu rosto com força tentando apagar esses pensamentos. As suposições do Kai eram uma merda, mas me deixaram um pouco intrigada. Termino meu banho e coloco uma roupa de academia. Eu precisava correr para espairecer a mente.
  Saio do quarto chamando pelo Theo, mas tudo que encontrei foi um post-it grudado na geladeira, um aviso dele de que tinha ido para casa da sua mãe.
  Traidor.
  Nem para me chamar.
  Abro a geladeira e pego um iogurte, e decido se devo ou não pôr em prática um exercício que a Dra. Helen me passou.
  Visitar um lugar que eu gostava quando mais nova.
  Lembro que eu passava muito tempo fazendo trilha pela ilha, mas isso era quando eu era mais nova, atualmente não era muito o meu forte. Preferia mil vezes ficar dentro de casa, no ar condicionado. Mas eu precisava me desafiar e superar meus medos.
  O que poderia acontecer? Era só uma trilha, certo?
  Escolhi uma das trilhas que eu fazia muito com meu avô, confiando cegamente na minha memória muscular. Só não esperava que o caminho até as pedras do costão da Enseada Norte estivesse cercado por uma vegetação tão espessa, fazendo com que eu topasse com uma cobra a qualquer momento. Mantenho a cautela. E tento não pensar muito nisso, aumentando meus passos.
  Praguejo quando tropeço na raiz solta de uma árvore.
  Por que eu tinha que continuar tendo ideias tão idiotas?
  Respiro fundo, tentando acalmar minha mente e continuo subindo. Tinha certeza de que esse era o caminho que me levaria para o costão, então sigo minha intuição.
  Mais dez minutos e finalmente consigo ter um vislumbre do que estava procurando.
  As pedras mais à frente pareciam imponente, e eu só queria me sentar em uma delas para apreciar o silêncio daquele lugar, mas claro que as coisas não seriam do jeito que eu esperava.
  Mais adiante, em uma das pedras, segurando uma vara de pescar, estavam Kai e seu filho, Reef. A cena seria fofa, se eu não estivesse sentindo meu estômago embrulhar.
  — Solta a linha bem devagar, Reef. — Me permito observar a cena, porque aparentemente eu era o tipo de pessoa masoquista. — Se você puxar muito rápido, o peixe pode comer a isca e ir embora.
  — Assim, papai? — A voz suave dele me arranca um suspiro.
  — Exatamente assim. — Kai parecia tão concentrado no filho que nem notou minha presença. — Olha só, cara! Parece que pegamos um, puxa!
  Os dois comemoram e Reef dá pulinhos de alegria.
  — Consegui! Meu primeiro peixe do dia! — Ele solta uma risada que me faz sorrir sem querer.
  Eu estava pronta para dar meia-volta e seguir meu caminho, mas acabo chamando uma atenção que eu não queria.
  Reef é o primeiro a perceber que eu estava ali. Quando seus olhos encontram os meus, fico estática. O garotinho simplesmente larga a varinha de pesca na mão do pai e vem correndo na minha direção.
  Fico com medo de ele cair no caminho, então me aproximo.
  — Moça bonita! — Reef parecia empolgado por me ver.
  Logo o alcanço e, para minha surpresa, o garoto abraça minhas pernas com força, fazendo com que eu olhasse para baixo e o encarasse.
  Fico parada por um momento, tentando compreender o que tinha acabado de acontecer. Eu não me dava bem com crianças, mas aparentemente esse garoto gostava de mim. Seguro seus bracinhos e o afasto de uma forma gentil, me agachando para ficar do seu tamanho.
  — Ei, garoto! Você não pode sair correndo desse jeito, principalmente para abraçar estranhos. — O repreendo de leve.
  — Mas você não é estranha! Papai tem uma foto de vocês abraçados.
  Arregalo meus olhos. Aquelas palavras saem com tanta naturalidade que meu cérebro dá uma bugada. Pisco algumas vezes para recobrar os sentidos e, principalmente, para digerir aquela informação.
  Papai tem uma foto de vocês abraçados.
  Caralho! Que revelação.
  — O… O quê? — Quando sou capaz de falar novamente, não consigo disfarçar o impacto.
  — Sim! Tava naquele livro estranho dele… Como se chama mesmo? — O garotinho coça a cabeça. — Ah! Moby Dickens.
  Solto uma risadinha. Ele era um doce, mesmo errando o nome do livro.
  — Sério? E só tinha essa foto lá? — Pergunto.
  — Nah! Tinha uma de vocês se beijando.
  Ok! O garoto era um fofoqueiro nato. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer outra pergunta, Kai surge entre nós.
  Seu olhar para Reef dizia tudo. Ele estava repreendendo o filho silenciosamente, bem na minha frente.
  — Reef…
  — Mas é verdade, papai! — O menino se defende. — Você disse que é feio mentir. Não me olha assim...
  Kai podia ter errado em muitas coisas, mas pelo menos tinha acertado na criação do filho. O garoto era extremamente educado, apesar da fofoca que certamente o pai não queria que eu soubesse.
  — E você não conhece a Hailey. Então não a incomode.
  Semicerro meus olhos.
  Claro que ele me pintaria como uma vilã. Porém, Kai tinha uma pitada de verdade no que falou. Reef não me conhecia, eu poderia ser uma pessoa má. O garoto precisava aprender sobre perigo.
  — Reef, você é um garoto doce. Mas seu pai tem um pouquinho de razão. — Me agacho novamente. — Ver uma foto e tirar conclusões é perigoso, e você pode acabar se machucando. — Bagunço seu cabelo. — Da próxima vez, tome cuidado.
  Me levanto para encarar Kai.
  — Hailey… Não quis dizer que você é perigosa, só… — Ergo a mão para impedi-lo de continuar.
  — Está tudo bem, Kai. Você está certo, Reef não me conhece. — Olho para ele, pedindo em silêncio que pare de complicar as coisas. Eu não queria brigar na frente de uma criança.
  — Vem! Vem ver o peixe que eu peguei! — Reef começa a me puxar pela mão.
  — Garotinho…
  — É sério, moça bonita!
  Acabo cedendo aos puxões e o acompanho até as pedras onde ele e Kai estavam antes, mantendo uma distância segura do pai dele, enquanto o garotinho tagarela sem parar sobre o quão legal tinha sido pegar aquele peixe. E até eu me deixo levar por uma lembrança bem antiga.
  Eu e meu avô estávamos nesse mesmo costão. Ele me trouxe aqui depois que meus pais foram para o centro da ilha com a Quinn e me deixaram aos cuidados dos meus avós. Acho que ele percebeu que eu estava chateada por ter ficado para trás e quis me animar. Claro que eu não gostava muito de pescaria naquela época e entendia muito pouco sobre isso, mas ele foi paciente, e me ensinou a pescar da mesma forma que Kai ensinou o filho. Depois disso, eu vinha para cá com meu avô quase sempre, até ele ter um derrame, seguido de um infarto.
  Minha infância nunca mais foi a mesma, porque minha avó entrou em um estado de solidão completa até falecer.
  Ele foi a única pessoa daquela família que me olhou como se eu pertencesse a alguém.
  —… E então, bum! Fui mordido por um siri no meio da praia e meu pai riu da minha cara por dias.
  Sorrio para Reef, mesmo sem ter escutado toda a história.
  — Deve ter doído bastante, né? — Ergo meu dedo para ele. — Vê essa cicatriz? Ganhei do mesmo jeito.
  Mostro a pequena cicatriz que eu tinha no dedo, presente de uma pescaria de siri com Kai e Theo.
  — Ai, meu Deus! Somos gêmeos! — Ele tira a sandália e mostra o pé. — Também tenho uma cicatriz de siri.
  — Reef! — Kai olha para o filho horrorizado. — O que a Hailey vai achar?
  — Ela vai achar que eu sou um cara legal!
  Balanço a cabeça, desacreditada com o jeito que ele falava.
  — Ele tem razão, Kai. Seu filho é um carinha muito legal. — Pisco para ele.
  Fico sentada, escutando Reef tagarelar mais um pouco sobre sua vida na ilha. Ele era tão puro. Mesmo com tudo o que aconteceu, era difícil notar que Reef tinha crescido sem a mãe. Aos poucos, ele vai esfregando os olhos e se aconchegando no meu colo, até finalmente pegar no sono.
  Ajeito seus cabelos com cuidado, evitando os olhos do Kai a todo custo.
  — Eu sabia que isso ia acontecer. — Kai suspira, indo até a mochila e tirando uma canga e um travesseiro pequeno. Ajudo a estender tudo na sombra da pedra. — Aqui, deixa eu pegar ele.
  — Não acha melhor levar ele para casa? — Aquilo parecia desconfortável.
  — Vai por mim, se o Reef for para casa antes de eu pescar uns dez peixes, ele vai me infernizar para voltar amanhã. Então deixa ele dormir.
  Concordo, deixando Kai pegar o filho dos meus braços.
  — Bom… Acho que já vou indo. — Eu não queria ficar ali.
  Antes, Reef funcionava como uma barreira. Não precisávamos conversar, trocamos poucas palavras. Agora era diferente, agora não tínhamos mais uma criança falante entre nós.
  — Se você for agora, quando o Reef acordar, vai perguntar de você. — Ele não me encara.
  — Só… Hum, não sei se é uma boa ideia. — Respondo.
  O nosso silêncio é preenchido pelas ondas que batiam nas pedras.
  — Hailey… — Merda, aquele tom de voz.
  — Sim?
  — Em algum momento… — Kai começa. — Momentos como esse passaram pela sua cabeça? Sabe, enquanto você estava em Goldenport?
  Olho para o mar. Eu poderia mentir. Eu era boa nisso, ganhava a vida fazendo os outros acreditarem nas minhas palavras. Mas a Dra. Helen tinha sido bem clara.
  Comece não fugindo.
  — No primeiro ano, todos os dias. — Minha voz sai mais baixa do que eu esperava. — Eu acordava e imaginava como teriam sido as coisas se eu tivesse ficado.
  Kai fica imóvel.
  — E depois?
  — Depois eu aprendi a não pensar. — Dou de ombros. — É um baita talento. — Ele solta uma risada baixa.
  — Eu nunca aprendi.
  Não sei o que pensar com essas palavras. Então fico ali, em silêncio, ignorando o que ele tinha acabado de falar.

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Natashia Kitamura

Eu só quero saber quando é que o Kai vai começar a tomar vergonha na cara para desenterrar de vez todo esse sentimento reprimido e começar a tomar alguma atitude com a Hailey. Não vem com indireta não, meu filho, eu já estou a 11 capítulos esperandoooo! Hahahaha! To amando, Nath!

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