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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Me Apaixonei Pela Babá

Escrita porNatashia Kitamura
Revisada por Natashia Kitamura

[Idade dos filhos]
Anna e Hugo
– 14 anos
Felipe e Arthur – 12 anos
Eric – 9 anos
Helena – 7 anos
Caique – 3 anos


Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 48 minutos

  A segunda-feira foi de folga. Sempre que passava o final de semana na casa dos %Miller%, Amélia a dispensava na segunda, para descansar. %Henrique% não precisou ligar para a governanta de férias, para saber. Assim que o jantar terminou e a babá colocou os mais novos para dormir, foi informada pelo chefe de que poderia tirar o dia seguinte de folga.
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  Agora, %Julia% estava sem fazer nada, deitada na própria cama, enquanto as irmãs tagarelavam sobre artistas e roupas que elas não poderiam comprar.
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  – Escuta, Ju, será que você não poderia nos emprestar um dinheiro? – Yasmin perguntou.
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  – Quanto, exatamente?
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  – Ah, nada demais, uns mil.
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  %Julia% riu. Olhou para a cara das irmãs e se sentou na cama.
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  – Vocês sabem que mil reais é praticamente o valor de um salário mínimo, e que paga todas as nossas contas fixas aqui de casa, não é?
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  – Por que precisaríamos saber disso? – Laura ergueu uma sobrancelha.
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  – Para que eu pudesse emprestar para vocês.
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  – Você é um saco! O papai é um saco! Estou cansada dessa vida de pobre! - a mais velha das gêmeas, Laura, gritou. – Vocês só querem saber de economizar! Desde criança nos ensinam as coisas que são boas, e agora querem tirar isso de nós.
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  – Bem, se você quer as melhores coisas, então trabalhe. Vocês não disseram que iam se tornar influencers?
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  – Como, se não temos as coisas de última moda? - Yasmin revirou os olhos. – Parece que você já se converteu em uma pobre, né %Julia%, mal sabe como as coisas realmente funcionam.
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  – Muito pelo contrário, sei muito bem como as coisas funcionam - %Julia% volta a se deitar. – Não está aí – diz, ao ouvir o som de suas coisas sendo mexidas, provavelmente por Laura. – Eu não guardo dinheiro em casa. Existe banco para isso.
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  – Para te roubarem, que nem fizeram com o papai? Quem é a burra aqui?
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  – Vocês sabem o que aconteceu com o papai?
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  As três se calaram, observando a reação uma da outra. %Julia% nunca parou para pensar se as duas quiseram entender o que levou a família àquele estado. Elas só reclamavam e agiam como crianças fúteis, mesmo tendo idade para cuidar da própria vida.
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  – Ele quis ser pilantra e não conseguiu. - Yasmin foi a primeira a dizer. – Carla disse que ele deu sorte que os pais dela e das outras famílias foram gentis em não cobrarem nada que ele lhes devia, ou a dívida seria muito maior do que já temos.
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  – E vocês perguntaram para o papai se isso é verdade?
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  As duas reviraram os olhos, impacientes e cheia de certeza de que não precisavam perguntar nada aos pais; o assunto, apesar de abafado e atualmente esquecido pela maioria das pessoas, na época permaneceu na boca do povo.
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  – Vocês preferiram acreditar nas mentiras das suas amigas, do que na verdade do seu pai? Vocês duas são ridículas.
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  – Ridículas? Bem, somos nós mesmas que estamos aqui, presas em um quarto que é menor do que o nosso antigo banheiro, enquanto as amigas mentirosas estão em Miami, tomando margaritas na Ocean Avenue. Com certeza somos as certas.
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  – Estar no exterior não significa que você está certa – %Julia% diz. – Papai está trabalhando para conseguir pagar a comida de vocês. Para garantir que tenhamos um teto sob nossas cabeças. Mamãe está com depressão. Eu passo uma semana inteira fora para conseguir ajudar em alguma coisa, e vocês continuam agindo como duas garotinhas de 15 anos que mal sabem o que querem ser. Suas amigas podem estar vivendo na mordomia, mas sabe o que aconteceria com elas se os pais falirem? Nada. Assim como está acontecendo com vocês duas. Vocês não são nada. E não estão fazendo nada para se tornarem algo.
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  – Melhor do que ser uma empregadinha…
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  – Ser empregadinha me faz, atualmente, ter mais chance de comprar uma Chanel do que vocês. Boa sorte em esperar por uma chance, madames.
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  Laura e Yasmin soltaram palavrões e tentaram ofender %Julia%, que, obviamente, não ficou nem um pouco ofendida, já que sabia que a reação delas seria essa. Amava as irmãs e esperava que elas melhorassem, mas estava cansada do comportamento egoísta e mimado que elas tinham. As duas precisavam, urgente, tomar um jeito, ou %Julia% não sabia como seria a vida delas no futuro.
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  Aproveitou o tempo livre para arrumar a casa. As irmãs e a mãe não sabiam como fazer, e ela havia aprendido muito bem com Paloma, que lhe deu dicas dos produtos mais baratos e também como aproveitar todos ao máximo. O banheiro, principalmente, precisava de um trato. O lixo não era trocado há anos, o que significava que o pai chegava tão cansado do trabalho, que mal tinha tempo para conferir as coisas básicas da casa; %Julia% não o culpava, ele era o único que colaborava.
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  Ao terminar de cuidar do único banheiro e da cozinha, os lugares que mais tomavam tempo, passou pela sala e em seguida para o quarto, onde arrastou os móveis e trocou todas as roupas de cama dela e das irmãs. Ao chegar no quarto dos pais, respirou fundo antes de bater e entrar.
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  O cheiro estava forte, pois a mãe gastava o pouco que o pai recebia em cigarros. As gêmeas compravam para ela, em troca de ganharem um trocado extra. %Julia% já havia pedido mil vezes para pararem de fazer isso, pois estavam debilitando ainda mais a saúde da mãe; obviamente, nenhuma lhe deu atenção.
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  As venezianas e cortinas estavam fechadas, e a mãe estava deitada na cama, encolhida.
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  – Mãe… preciso limpar o quarto.
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  – Venha depois.
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  – Agora é depois - %Julia% suspirou. – Passei aqui mais cedo e a senhora me falou a mesma coisa, lembra?
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  Ela não lembrava. Daisy estava perdida demais em seus próprios pensamentos, para lembrar de algo que havia falado para a filha mais velha. Não conseguia entender por que estava naquela situação; as amigas haviam falado bem do plano, disseram que não havia como dar errado. E agora, todas haviam virado as costas e expulsado ela do grupo, como se fosse um vírus letal. Tentou, de todas as maneiras, falar com as amigas, pedir por ajuda, mas só recebeu olhares e rostos virados. O irmão, seu único porto seguro após a morte dos pais, disse-lhe que seria bom sair um pouco daquele grupo; meses depois, viu que ele, na verdade, não tinha intenção nenhuma de ajudá-los, apenas havia fingido preocupação para não fazer Daisy ter qualquer reação exagerada que pudesse prejudicá-lo.
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  A mulher jamais imaginaria que obedecer ao pai e ao irmão, a levaria a este estado de miséria. Ouvia as filhas falarem para lá e para cá, reclamando, dizendo que esta vida era uma merda. De fato, era mesmo. Daisy estava cansada dos pensamentos negativos que rondavam sua mente e seus arredores, seu único ponto de luz era %Julia%, sua filha mais velha, que lhe falava docemente e tentava, de seu próprio jeito, ajudar a mãe. Mas Daisy ainda não estava pronta para sair daquele breu que era sua mente; havia perdido tudo, estava em luto. Será que se o pai estivesse vivo, daria um jeito? Não… ela não lhe era mais útil desde quando o pai de Paulo vendeu a empresa %Strada% para um amigo. Ela não havia mais se casado com um herdeiro, e sim um incompetente. Era mais fácil ignorar a filha e prestar atenção na mais nova, que havia se casado por amor contra a vontade dos pais, mas que agora era a mais rica dos 3 irmãos. Fez o próprio negócio e, com a ajuda do marido, expandiu a marca pela maioria das capitais brasileiras; antes de morrer, ouviu o pai dizer que a filha mais nova era o orgulho dele; Daisy, por outro lado, não ouviu nada.
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  – Preciso de mais cigarros.
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  – Não.
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  Daisy olhou para %Julia%, que abria as cortinas e janelas.
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  – A senhora não vai ser uma dependente, mamãe, ou terá de ser internada. Não quero e não vou deixar a senhora chegar a esse ponto. Precisa parar enquanto consegue tomar conta de si mesma.
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  – Deixe de ser malcriada, mamãe não está…
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  – Mamãe não está em suas melhores condições faz um ano e oito meses! - %Julia% olhou para a mulher, magra. – Olhe-se no espelho, mãe! Está desnutrida e cansada. Precisa de cuidado extra; onde está a mulher que cantarolava o dia inteiro e vivia bem arrumada? Não estou pedindo para a senhora ser um poço de felicidade, mas passar o dia inteiro no escuro, na cama, não vai ajudar a sair dessa situação.
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  A mãe, como sempre, não respondeu. Queria dizer que não queria sair daquela situação, que estava acomodada. Mas a verdade é que queria, sim. Queria ter força para sair e caminhar. Para fazer uma salada e assistir a um filme inteiro.
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  – O que a senhora está achando da terapia? - %Julia% perguntou. Fazia alguns meses que ela havia começado, mas não viu muito resultado. Achou que deveria esperar, mas nada aconteceu. Quase 5 meses depois e a mulher sequer olhava para o marido. – Que tal mudarmos?
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  Não ouviu, mais uma vez, resposta. %Julia% decidiu que era hora de ir a um psiquiatra. Queria evitar os remédios, tinha medo dela ser uma dependente, mas acreditava que, dali pra frente, as coisas só iriam piorar.
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  – Quando eu marcar o médico, a senhora vai, não é mesmo? - %Julia% perguntou, segurando a mão magra da mãe. – Papai irá levá-la.
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  – Não preciso do seu pai.
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  – A senhora, então, pega o metrô?
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  A ideia de dividir um vagão com outras pessoas desconhecidas lhe apavorava. Daisy não tinha preconceito com o transporte público, mas ele já foi cenário de muitos traumas dela. Quase foi raptada duas vezes e roubada, então, outras duas. Na época da faculdade, a mulher saía com os amigos que não eram da alta sociedade, e achava que podia ser como eles; isso fez com que acabasse prestando depoimento na polícia mais vezes do que imaginava, e pior, foi a causa das dores de cabeça do pai e da mãe.
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  – Vai ficar tudo bem, mãe. A senhora só precisa se cuidar.
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  Daisy olhou para %Julia%. A filha podia ver somente uma casca cansada e sem vida da mãe, mas a mulher, por dentro, admirava a filha mais que tudo. Achava que ela era uma cópia sua, mas viu, após todo esse pesadelo, que %Julia% era muito mais. Não sabia da onde a filha tinha arranjado forças para se erguer e correr atrás do prejuízo com o pai; ouvia Paulo falar sobre como ela conseguiu um emprego fixo com um salário altíssimo, e que oferecia plano de saúde para todos os integrantes da família. No início, Daisy não se importou. Quando saiu pela primeira vez do quarto durante uma manhã, viu a diferença em %Julia%. Ela estava limpando o banheiro com cuidado e murmurando palavras de incentivo para si; ao ver a mãe, abriu um sorriso e disse estar feliz de vê-la fora do quarto.
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  Agora, ela observava a filha dizer que tiraria as cortinas, que cheirava a cigarro, para lavá-las. Gastaria uma quantidade grande de água esse mês, mas tudo bem, pois precisava deixar o quarto dos pais o mais limpo possível. Não tinham faxineira, e Laura era alérgica a pó, o que seria terrível para ela se a casa não fosse limpa o bastante.
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  – Você não trabalha hoje? - a mãe perguntou, de repente. %Julia% a olhou, surpresa, mas logo se recompôs e lhe respondeu:
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  – Ganhei o dia de folga porque trabalhei o final de semana inteiro. Meu chefe é legal.
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  – Quem é? Nós o conhecemos?
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  – Não, acho que deve ser um novo rico. Ele tem uma posição alta em um banco digital. Papai foi fazer uma entrevista com ele hoje.
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  – Paulo?
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  – É.
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  – E o que ele faria lá? Seria motorista do homem?
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  Ao invés de se ver ofendida pela maneira como a mãe falava do pai, %Julia% olhou para Daisy e disse, animada:
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  – Ele precisava de alguém da área de economia e eu disse que papai era formado no ramo. O senhor %Miller% então disse para o papai aparecer lá hoje com o currículo. Imagina essa loucura?
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  Daisy quis sorrir, mas não pelo marido e sim pela filha. Era tão importante assim para ela que o pai voltasse a ser um funcionário? E banco? Como que algum banco contrataria uma pessoa com o passado de Paulo? Havia ainda que não sabia do desastre que aconteceu com os %Strada%?
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  Guardou os pensamentos para si, como sempre, e observou a filha levar as cortinas para a lavanderia, separada da cozinha por uma simples mureta. Ao voltar, %Julia% limpou todos os móveis e retirou as roupas de dentro das gavetas para limpar a área dentro; em seguida, foi a vez do armário; por fim, varreu todo o quarto e limpou cada canto, arrastando os móveis enquanto cantarolava músicas que Daisy não conhecia. Quando o odor do quarto passou de cigarro, para produto de limpeza, %Julia% trocou a roupa de cama e sorriu para a mãe:
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  – Pronto! Acabei!
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  – Você se acostumou bem com a limpeza.
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  – Aprendi com uma colega de trabalho. Agora não preciso de dois dias para limpar a casa inteira. Na próxima folga, limpo as janelas. A senhora conseguiu separar as roupas que não precisa mais?
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  – Ainda não.
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  – Tudo bem, não teria tempo de vê-las agora, mas se a senhora puder fazer essa semana… - %Julia% olhou para cima. – Acho que terei o sábado de folga.
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  – Você está gostando? - Daisy lhe perguntou. – Do trabalho?
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  – Até que estou! - %Julia% sorriu para a mãe. Gostou de ver o interesse dela em si; a mulher nunca foi de dar atenção para as filhas, e, quando acontecia, geralmente eram as gêmeas. – Meus colegas de trabalho são muito legais e meu chefe também, as crianças são um pouco baderneiras, mas ainda têm solução.
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  A mãe não disse nada. Abriu um pequeno sorriso e observou a filha contar sobre as 7 crianças e como ela se virou com o motorista, que também era segurança, para fazer os 7 obedecê-la. Fazia tempo que Daisy não via alguém com tanta energia. Aproveitou o momento de animação da filha mais velha, e permaneceu sentada a encarando com um sorriso no rosto.
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  O momento foi quebrado com o som da porta da casa se abrindo.
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  – %Julia%! - a voz do pai era urgente, fazendo mãe e filha se assustarem. Não houve tempo para elas reagirem; quando viram, o pai estava parado na porta, com o rosto vermelho.
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  – O que foi, pai? Que auê é esse? - Yasmin perguntou, saindo do quarto.
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  Mas Paulo só tinha olhos para a filha mais velha.
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  – Eu consegui.
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  – O quê? – %Julia% perguntou, chocada. – Conseguiu? Mesmo? Mesmo!
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  – Consegui! Estou contratado. Estou contratado!
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  A filha mais velha gritou e o pai gritou junto. A mãe, ainda chocada, permaneceu sentada com a mão na boca e os olhos arregalados para os dois que pulavam em sua frente.
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  – Quem contratou o senhor? Aonde? - Laura entrou no quarto, não se importando de atrapalhar a comemoração da irmã com o pai.
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  – É um banco chamado Y. Estão precisando de alguém para o setor de economia. %Julia% falou sobre mim para o chefe dela, que concordou em me entrevistar. Achei que ele fosse perguntar mais sobre o trabalho, mas…
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  – Ele não perguntou sobre o trabalho? - %Julia% olhou para ele, confusa.
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  – Tive que fazer dois testes, acho que ele me avaliou mais na prática. Para a entrevista, só me perguntou o que eu fazia na empresa do seu avô e se eu entendia de algumas coisas. Pode ser que eu precise de fazer um curso, mas ele diz que a empresa banca.
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  – Mas isso é perguntar sobre trabalho, não é?
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  – É sim, filha, estou chegando lá - o pai lhe sorriu – Ele perguntou mais sobre nossa família e como estávamos vivendo. Você disse alguma coisa para ele, %Julia%?
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  – Não muito… acho. - ela tentou se lembrar da conversa que tiveram na cozinha, quando chefe não parecia um chefe, mas sim um cara que ela conhecia. Se sentiu à vontade para falar sobre si, quando ele lhe perguntava, e ouviu mais dele do que todos os dias dos últimos 6 meses juntos.
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  – Então o chefe da %Julia% contratou o senhor para trabalhar no banco? – Yasmin perguntou para o pai, que confirmou. – Ele é um novo rico?
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  – Parece que sim. Falei com alguns contatos que ainda tenho e disseram que ele é o assunto do momento. É um gênio do trabalho: todas as empresas o querem. Ele tem um salário estratosférico; por isso paga %Julia% tão bem.
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  – Ele é bonito? – Laura perguntou, fazendo %Julia% revirar os olhos.
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  – Você acha que ele vai querer você, Laura? - Yasmin riu. – O homem pode ter qualquer mulher.
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  %Julia% não respondeu nada. Ela, melhor do que todos ali, sabia da realidade de %Henrique%. Se ele tinha tempo para namorar, ela não sabia, mas o que sabia, era que a pessoa que topasse se envolver com ele, tinha de saber que teria de levar 7 pacotinhos junto na compra.
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  Pacotinhos bem pesados.
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  – %Juju%!
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  A babá agachou-se para abraçar Caique, que veio correndo e desatou a falar sem parar sobre como havia sido sua segunda-feira e início da terça. Helena, ao lado, tentava puxar %Julia% para brincar com suas bonecas. A mulher percebeu o quanto as crianças sentiam falta de alguém para lhes dar atenção. A primeira hora foi tomada pelos dois mais novos da família %Miller%. Caique se contentava em só permanecer sentado no colo da babá, enquanto Helena desviava toda a atenção da mais velha para os bonecos.
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  Os primeiros a chegar da escola foram Eric e Anna. A irmã mais velha logo foi para o quarto tomar um banho e trocar de roupa, enquanto o mais novo teve de fazer a tarefa de casa, se quisesse assistir à TV.
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  Às seis, quando o resto dos %Miller% já estava em casa, com exceção do pai, todos se encontravam na sala, seja assistindo à TV ou mexendo no celular. Anna era a única que andava de um lado para o outro, nervosa.
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  – Mas ela disse que conseguiria! - gritou ao celular. – Eu não posso ir outro dia, tenho horário para voltar e meu pai não vai deixar eu…
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  Seu rosto se tornou vermelho, enquanto os dedos apertavam o aparelho. Os irmãos desviaram a atenção para a garota que se segurava para não gritar ainda mais com a pessoa do outro lado da linha. Após cinco minutos, desligou a ligação, pegou uma almofada e gritou tudo o que conseguia.
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  – O que a Karina aprontou agora? – Hugo perguntou.
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  – Você acredita que ela mudou, sem avisar ninguém, o dia da festa e agora todas temos que mudar a reserva no salão, mas o Akira não muda a reserva de última hora! Se eu não for vista lá, eu…
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  – Cara, é só um salão. Vai no Jaques.
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  Foi como se Hugo tivesse perguntado se Anna era mulher. A garota olhou ultrajada para o irmão, que olhava para ela tranquilo, sem ter noção da baboseira que havia dito.
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  – O Jaques não é o Akira. O Akira é o melhor cabeleireiro da cidade. Ganhou vários prêmios e só faz o cabelo de quem é muito importante. Você não sabe o que é isso, porque você não se importa tanto com seu cabelo. Mas se você disser para a Gabriela sobre o Jaques, tenho certeza de que ela lhe dará um pé na bunda.
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  %Julia% apertou os lábios, tentando não rir. Já havia sido como Anna antes, e não passou pela cabeça que estivesse soando fútil e desagradável como a garota. Manteve sua atenção no jogo com Helena, que murmurava uma música que havia aprendido no colégio.
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  – Tá, mas e agora? Você não consegue mudar e aí?
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  – Não sei! - Anna levou as mãos à cabeça, desesperada. – Não sei como vou fazer. Todas elas conseguiram, não sei por que não consigo. Será que não tinha espaço o suficiente na agenda?
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  Ninguém respondeu, porque ninguém sabia que o real motivo de Anna não conseguir uma nova vaga no salão, era porque ela era uma nova rica. As pessoas faziam isso de vez em quando, para se divertir. Escolhiam uma integrante do grupo que não tinha personalidade e a humilhavam, mostrando quão menos influente ela é na sociedade em que vivem.
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  – Quer que eu faça a alteração para você? - %Julia% perguntou.
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  Os quatro mais velhos olharam para a babá, que a encarava com cumplicidade, ainda brincando com Helena.
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  – E o que você faria para conseguir? – Arthur perguntou em tom maldoso. – Você nem sabe quem é o Akira.
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  %Julia% sorriu para o mais novo e pegou o celular. Os ombros do garoto se endireitaram com a ideia da babá ligar para o Goblin, mas a moça só olhou para a %Miller% mais velha e perguntou:
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  – Qual dia e horário é melhor para você?
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  A garota olhou, suspeitando que a babá fosse conseguir. Hesitou em falar um horário, mas, se a mulher estava dizendo que conseguia, então não custava nada acreditar.
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  – Sexta, às quatro.
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  Era o horário nobre, como costumam chamar. O momento em que todo mundo que é importante vai ao salão, porque quem, em sã consciência, tem como estar em um salão às quatro da tarde de um dia de semana?
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  Com o celular em mãos, %Julia% discou o número já existente.
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  – Quem é vivo, sempre aparece – a voz melosa e aveludada soou do outro lado –, não é porque você ficou pobre, que deve deixar de vir no meu salão.
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  – Eu não tenho mais dinheiro para te bancar - ela riu.
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  – Ora, mas isso é mesmo um ultraje. Volte a ficar rica logo, odeio aturar suas amigas. Ou ex?
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  – Ex, definitivamente. - %Julia% disse, revirando os olhos só de pensar nas companhias de sua “outra vida”. – Escuta, que tal me fazer um favorzinho?
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  – Favor? Não sou casa de penhor, querida…
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  – Mas achei que você fizesse uma caridade de vez em quando.
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  – Você é in-su-por-tá-vel, sua danadinha! Tudo bem! Vou fazer dessa vez. O que foi? Tentou cortar seu cabelo sozinha? Já esqueceu as lições que te passei?
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  – Não, estou cortando meu cabelo muito bem, graças a você. Tem uma cliente sua que gostaria de remarcar um horário, mas parece que seus funcionários têm medo de algumas… crianças. – ela olhou para Anna, que olhava para a babá nervosa, quase levando o dedo à boca.
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  – Ah… sei quem são essas clientes. Elas são terríveis, mas gastam horrores aqui.
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  – É, bem. Essa cliente também pode gastar horrores, mas seus funcionários querem perdê-la para o Jun.
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  – Como é que é? Quem é a ousada que quer me trocar por aquele falso? Acredita que ele tentou DE NOVO pegar a minha Jana?
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  – Ele nunca irá desistir, Akira, dê sociedade a ela, eu já disse. Além disso, não foi a cliente que quis te trocar pelo Jun, seus funcionários quem deram a ideia.
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  – Nomes! Eu quero nomes! Por que você sempre me traz essas informações privilegiadas? Desse jeito, nunca pagarei as minhas dívidas com você.
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  – Não vou te pedir dinheiro, seu bobo. Estou trabalhando. O que eu quero é que você mude a reserva de Anna %Miller% para essa sexta, às seis, e atenda ela você mesmo. Exclusivo.
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  – %Miller%? Janice, querida, abra a agenda, deixe eu ver a reserva dessa %Miller%. Anna, querida, Anna %Miller%. Lavagem, corte e penteado?
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  – É. E o que você puder esbanjar na cara das crianças.
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  – Sei, entendi. No que você está se metendo? Virou animadora de criança? – %Julia% abriu um sorriso. Se Akira soubesse… – Tudo bem, amor, está feito. Receberei essa Anna na sexta com champanhe.
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  – Ela é menor, sirva algo sem álcool. E obrigada.
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  – Passe aqui para tomarmos um chá. Quem sabe não criamos uma fofoca de que você está rica de novo?
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  %Julia% deu risada com a ideia de Akira e imaginou como as pessoas com quem se relacionava reagiriam. Seria algo imperdível, mas não podia colocar em risco a fofoca se transformar em algo ruim para sua família que ainda devia uma boa grana. Desligou após agradecer mais uma vez a gentileza de Akira. O cabeleireiro foi um grande amigo seu na época em que mais mudava a cor e o corte de cabelo. Foi graças a ele que %Julia% não ficou careca, após mudar o corte tantas vezes. Além disso, ela gostava de passear em seu salão para fofocar; era um ótimo lugar para se mostrar. Não havia funcionários mais fofoqueiros do que os de Akira.
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  – Feito - ela olhou para Anna – Se quiser, você pode falar para ele, como quem não quer nada, os nomes de quem te atendeu e não mudou o seu horário. Ele não vai mais esquecer seu nome.
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  – Da onde você o conhece? - Anna perguntou, surpresa. – Ele é muito requisitado.
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  – Já faz um tempo, mas não é nada demais. Ele me devia um favor, só isso.
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  Ele devia bem mais que um favor, já que foi %Julia% quem o apresentou a uma famosa atriz de televisão. Ela fez alguns stories com ele e o chamava para sua campanha; com o tempo, outros famosos foram o chamando, tornando-o o que é hoje. Ainda assim, tudo o que %Julia% fez, foi comentar com a atriz sobre seu novo cabeleireiro.
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  Anna permaneceu encarando a babá por um tempo, até decidir que podia confiar na palavra dela. Era possível que uma pessoa como %Julia% conhecesse um dos cabeleireiros mais queridos de São Paulo. Ou será que não?
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  Fosse o que fosse, ela havia conseguido mudar o horário. Tudo o que Anna precisava fazer agora, era segurar sua vontade de se gabar para as amigas, e surpreender Karina. Conseguiria fazer isso, é claro. Eram só 3 dias.
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  Enquanto isso, %Julia% observava Hugo fazendo caretas ao mexer no celular. Falava com alguém e parecia não estar se dando bem na conversa. Arthur, ao perceber, se aproximou sem que o irmão mais velho percebesse, e espiou o papo:
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  – Nossa, Hugo, como você consegue ser burro! Good morning é bom dia e não boa noite!
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  Imediatamente, as orelhas de Hugo ficaram vermelhas, mostrando sua vergonha por estar errando algo que seu irmão 2 anos mais novo sabia. Tentou retruca-lo, mas não conseguiu, pois além de saber que estava mesmo errado, tinha de dar atenção à pessoa com quem estava conversando que, aparentemente, era a garota de quem estava afim. Saber que era péssimo com a língua inglesa e ainda cometer um erro não era a melhor coisa para se saber.
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  – Cale a boca e me deixe em paz. Vá jogar seu joguinho – Hugo disse, mau humorado. Anna ergueu uma sobrancelha e olhou para %Julia%, como se, agora, a babá fosse a solução para tudo.
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  – A garota é mais velha que ele – ela murmurou para a mais velha, que balançou a cabeça, como se estivesse interessada no assunto, mesmo não estando. – Você já deve ter ouvido falar dela, é sobrinha de um artista famoso, se chama Giselle Levy.
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  %Julia% não conhecia a garota e nem a atriz, mas, obviamente, já havia ouvido falar, pelo menos na famosa. A família Levy se consagrou por possuir integrantes que se destacaram na mídia. Atriz, empresário, jogador de tênis e até advogado. Não eram, de um todo, ruins, apenas se preocupavam mais com o próprio nariz, do que com o que os demais dizem sobre eles. Não são muito ricos, mas também não são novos ricos, o que os fazem serem aceitos e chamados para a maioria das festas.
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  – Ela está no último ano do colégio, mas dá bola para ele.
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  – E por quê?
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  Anna ergueu os ombros, como alguém que também queria saber. Não conseguia enxergar no irmão, a mesma pessoa que as garotas da escola enxergavam. Hugo era um dos populares; brincava, sorria, passava cola e, o mais importante, era bonito.
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  – Droga! - Hugo gritou, tacando o celular no sofá, logo ao seu lado. Anna e %Julia% foram as únicas que olharam para o irmão mais velho bufar e cruzar os braços, para, em menos de 10 segundos, voltar a pegar o celular para olhar a conversa.
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  Ninguém disse nada. Ao invés disso, %Julia% se certificou de que os mais novos estavam bem entretidos em suas atividades, e que o segundo casal de gêmeos realizava as tarefas de casa direito. Assim, dirigiu-se para a cozinha, para ajudar Jussara com o lanche da tarde, para servir a todos assim que os deveres escolares fossem finalizados.
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  – %Julia%, você sabe sobre divisão? - a voz que surgiu na cozinha foi de Felipe. O garoto tinha a apostila da escola em mãos e a olhava com esperança. A babá sorriu e chamou ele para sentar consigo na mesa da cozinha. Jussara, com um sorriso, pôs-se a ouvir as dúvidas do garoto para a colega, que pacientemente explicou como realizar a divisão, sem precisar de usar as mãos. – É muito difícil.
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  – Precisa praticar. – %Julia% disse, se levantando e pegando a travessa com o lanche para levar até a sala. – É para isso que existe a lição de casa.
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  – Que chato, prefiro passar o tempo jogando futebol.
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  – Ora, é importante que você saiba dividir, caso seja um jogador de futebol.
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  – Pra quê? Eu só preciso chutar a bola.
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  – Bem, se você ganhar dinheiro, precisará saber dividir o que tem entre as coisas que quer comprar, caso contrário, não poderá ter várias coisas, pois não terá dinheiro o suficiente para tudo.
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  – Você acha mesmo que o Neymar tem esse tipo de problema? - o garoto debochou da babá, que riu.
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  – Ele teve um dia, tenho certeza.
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  “E se não teve, nunca é tarde.” Ela pensou, considerando mais a própria situação, do que a do jogador. Olhou para Hugo, que continuava emburrado, mas não parava de enviar mensagens pelo celular.
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  – Venham lanchar! - ela disse, despertando o interesse da maioria dos presentes, menos os dois mais velhos. – Anna, Hugo, não querem comer?
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  A garota obrigou-se a ir, pois foi ela quem “havia planejado” o menu. O garoto, no entanto, murmurou uma resposta qualquer e ignorou a babá. %Julia% decidiu não obrigá-lo a nada, mas avisou Jussara, que disse que era normal, por conta da idade. Eles comiam na hora que queriam, e não na que deviam. Separaram um pouco do lanche, para caso a fome viesse muito antes do jantar.
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  – Adivinha – Lucas, o secretário de %Henrique%, entrou na sala com o tablet em mãos, olhando para %Julia%, que dividia sua atenção entre Helena e Caique –, preciso que você fique até as nove.
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  – O quê?
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  – Não está fácil achar uma babá para a noite. - ele olhou para as crianças. O que o homem queria mesmo dizer, era “não está fácil achar uma babá que tope cuidar de 7 crianças sozinha”. – Entrevistei dez mulheres ontem, e mais três hoje. Está me tomando todo o tempo. Por que você não muda para cá de uma vez? Estou brincando, é claro. - como sempre, o moço desatou a falar sem parar, não dando chance para %Julia% ou qualquer outra pessoa da casa argumentar. – Bem, %Henrique% disse que só chegará depois das oito, então, para garantir, preciso que você fique até as nove. Pode ser?
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  %Julia% não podia responder que não. O tanto de horas extras que fez só no mês, já lhe garantia um mês a mais de férias ou, quem sabe, um salário a mais. Mas %Henrique% havia dado um serviço de confiança e qualidade para o pai, além de ter permitido inserir todos os familiares no seguro saúde. Não queria ser o tipo de funcionária que só queria ganhar em cima do chefe.
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  – Tudo bem.
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  – Foi o que eu disse a ele. - Lucas murmurou, dando as costas e atendendo o telefonema no celular, que, para variar, não parava de tocar.
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  – Você ganha muito quando fica a mais? - Anna perguntou, de repente. %Julia% olhou para a pequena chefe, surpresa com seu interesse repentino em si.
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  – Seu pai é bem justo. Ele paga o que deve pagar.
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  – É por isso que ela está aqui até hoje, né, dã! - Arthur disse para a irmã, que lhe mostrou a língua.
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  %Julia% sorriu, percebendo o quanto alguns membros do clã %Miller% a aceitavam, diferente de antes. Ficar fora do quarto fez com que eles conhecessem mais %Julia% e entendessem que ela não estava ali para nada além de fazer o seu papel de cuidadora. Além disso, os mais velhos gostavam do fato dela ser diferente das outras babás, que queriam que eles fizessem tudo da maneira que elas achavam ser certo ou que acabavam gritando quando eles aprontavam.
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  Eram 19h quando %Julia% foi esquentar a janta que Jussara havia deixado pronto. As crianças estavam, em sua maioria, assistindo a desenhos na televisão ou compenetrados em seus celulares. Enquanto esquentava a lasanha no forno, aproveitou para ler as mensagens que o pai havia lhe enviado, dizendo para sua família que havia feito os exames admissionais da empresa e assinado o contrato de emprego. Oficialmente, não era mais um motorista, mas sim um funcionário de carteira assinada.
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  Ela sorriu enquanto lia as mensagens animadas dele contando sobre o que fez durante o dia para o novo serviço. A contratação do pai mudou o ambiente da família; as irmãs, apesar de continuarem se preocupando só com o próprio umbigo, começaram, de vez, a gravar vídeos e fazer conteúdo para suas redes sociais. Aproveitaram o ânimo de %Julia% em responder o pai, e pediram para os dois falarem delas em todos os lugares, enviando o link do primeiro post, feito há pouco, no TikTok. Elas já possuíam muitos seguidores antes, então %Julia% achava que não seria problema conquistar mais. As pessoas na internet gostavam de gente bonita, e elas são muito bonitas.
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  – O que você ta fazendo? - a voz de Hugo soou próximo a ela, que pulou de susto.
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  – Esquentando a janta.
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  – Você estava vendo o celular.
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  – É. Estava lendo umas mensagens do meu pai enquanto espero o alarme apitar.
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  Ela observou o garoto, que balançou a cabeça como quem entendia. Achou que ele fosse reclamar ou ameaçar de contar para o pai que ela perdia tempo no celular durante o horário de trabalho, mas ao invés disso, olhou para o lado timidamente, provavelmente pensando em dar para trás com o que havia pretendido fazer.
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  E %Julia% sabia o que ele queria fazer. Abriu um pequeno sorriso e deixou o celular de lado.
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  – Na época da escola, eu tinha vários paqueras - começou a dizer e, antes que o mais novo a cortasse, dizendo que não se importava, continuou: -, tinha um, o Tiago, ele era muito bonito e muito legal. Era um ano mais novo que eu e as minhas amigas ficavam falando para eu não dar bola, porque o mais legal eram os caras da faculdade.
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  – O que caras da faculdade tem de diferente? - Hugo pergunta em tom indignado. %Julia% ri.
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  – Nada. Sabe qual é a diferença entre a escola e a faculdade? - ela pergunta ao garoto, que ergue os ombros. – Basicamente, você só estuda matérias relacionadas ao curso que você escolheu, pode ser que estude de noite e, durante a aula, você não precisa pedir permissão para o professor, para ir ao banheiro.
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  – Só isso?
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  – Só isso. Todo mundo acha que tem que ser adulto, mas não é assim que as coisas acontecem de verdade. Você mudou o quê do ano passado para este?
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  Mais uma vez Hugo ergue os ombros, mostrando que não havia sentido diferença nenhuma.
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  – Pois é. Um ano você está no último ano do colegial, no outro, no primeiro ano da faculdade. Grande coisa. Tive uma amiga que namorou um cara do colégio, estando na faculdade.
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  – E aí?
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  – Durou alguns anos, até ele terminar com ela porque ele entrou na faculdade e conheceu outra garota.
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  – Que idiota.
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  – Não é? – %Julia% sorriu para Hugo. – Não seja esse tipo de cara. Não pega bem, você sabe, para as outras garotas.
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  – Você namora? - ele perguntou, com um olhar de curiosidade que %Julia% nunca havia visto antes no garoto. Ela negou com a cabeça. – Por quê?
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  – Aconteceram algumas coisas na minha vida e ele terminou comigo.
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  – Do nada?
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  %Julia% sorriu. Na verdade, foi do nada para ela, mas não para ele. Vitor Marques havia começado a desapegar de %Julia% dois anos antes do término, quando a traiu com uma intercambista alemã que estava morando na casa de uma das amigas em comum dos dois. Apesar de ter sido chamada de trouxa, Vitor foi muito bom em esconder a verdade, surgindo com ela à tona apenas depois de ter dado um pé na bunda de %Julia%.
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  Foi humilhante, mas uma boa lição para ela. Um homem não se faz de beleza e dinheiro. Muito menos de uma amizade de anos. Se ela fosse se relacionar novamente, dessa vez seria com um homem de verdade, que gosta dela e não do que ela possivelmente poderia oferecer na cama e na vida financeira dele. Sentiu-se, de repente, feliz por ter tido a oportunidade de se ver livre daquele protótipo de ser humano.
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  O importante, agora, era não deixar Helena cair de amores pelo irmão mais novo de Vitor. Mas a menina não havia mais comentado sobre Rafael, o que era um ponto positivo.
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  – Você sabe inglês? - Hugo perguntou quando %Julia% achou que o papo havia terminado. Ela retirou a lasanha do forno e apoiou na bancada da pia, olhando para ele. – A Giselle está terminando o curso e disse que vai para a Disney no final do ano, está treinando o inglês para quando for.
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  – E você disse que sabia?
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  – Eu sei inglês. Temos aula na escola. - ele se defende. – Mas não no nível dela…
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  A babá ficou calada, vendo o filho do chefe quebrar a cabeça pensando na fria que havia se metido. Ela sorriu; sentiu-se nostálgica. Queria ter, como preocupação, um paquera, ao invés de uma vida inteira para cuidar.
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  – Quer uma dica de como eu aprendi? - ao ver que tinha a atenção de Hugo, disse: – Música.
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  – Música?
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  – Eu ouvia a música e escrevia ela inteira. Assim eu treinava meus ouvidos, aprendia novas palavras e como pronunciá-las. Fora que era divertido!
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  Hugo arregalou os olhos, surpreso por nunca ter pensado nisso.
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  – Quer outra dica? Use fones de ouvido. Fica mais fácil ouvir as palavras.
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  O garoto sorriu e saiu correndo sem agradecer a babá, que o observou ir em disparada para o quarto.
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  Arregalou os olhos ao ver o chefe parado no batente da cozinha, os braços cruzados e um sorriso no rosto.
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  – A-ah… - desconcertou-se. – E-eu estava para servir o jantar e…
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  – Quer dizer que Hugo está gostando de uma garota mais velha? - %Henrique% perguntou, achando graça a reação de %Julia%, mas ainda mais de vê-la ajudando o filho com seus casos amorosos.
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  – Anna quem disse.
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  – Anna? - %Henrique% ergueu as sobrancelhas. – Ela conversou com você também?
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  A babá não soube o que falar. Não podia dizer que havia feito um favor para Anna, pois era uma funcionária e, apesar de não ser o seu papel, foi mais ou menos como cuidar dela.
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  – Vai esfriar. - o chefe fez um sinal com a cabeça para a lasanha, que ainda estava fumegante na bancada da pia.
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  Em um pulo, %Julia% pegou a travessa e a levou para a mesa, onde começou a servir os pratos das crianças e a esfriar os de Caique e Helena.
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  – Desculpe por não ter encontrado ninguém para o turno da noite - %Henrique% disse, seguindo a babá para a sala de jantar. – Você anda fazendo muitas horas extras aqui.
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  – A %Juju% podia morar com a gente! - Helena disse, abraçando a cintura da babá, que sorriu.
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  – A %Julia% tem uma casa e uma família também. - %Henrique% olhou para a filha mais nova, que o encarou como se não visse problema nenhum no fato dela não precisar ver mais a própria família e ficar com eles. – E ela precisa descansar, sabe?
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  – Ela descansa comigo de tarde. - a menina retruca o pai, mas logo ouve da irmã mais velha.
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  – Não descansa, não. Ela só finge.
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  Helena olha para %Julia% como se tivesse sido traída, e a babá abre um pequeno sorriso e arruma o cabelo dela, enquanto serve mais uma garfada de lasanha para Caique.
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  – Eu descanso um pouco.
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  – Viu, Anna? Você pode morar com a gente, %Juju%?
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  – Mas eu fico com saudades do meu papai. - %Julia% responde Helena, que arregala os olhos, surpresa com a notícia. – Você não sente saudades do seu?
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  – Sinto. O seu papai também fica muito fora?
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  – De dia e de noite. - %Julia% diz. – Que tal você comer mais lasanha?
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  – Não quero…
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  – Xiii, será que só o Caique vai comer a sobremesa?
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  – Que sobremesa? - Eric, o mais calado dos 7, ergueu a cabeça com a notícia. – É pavê?
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  – De doce de leite. - %Julia% sorri e vê as crianças comerem com mais fervor.
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  – Tome, para o táxi. - %Henrique% deixa uma nota de 100 na mesa da cozinha, enquanto %Julia% termina de arrumar tudo conforme orientação de Jussara.
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  – Está tudo bem, ainda tem ônibus neste horário.
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  – É perigoso - o chefe diz, sério –, pegue um táxi. Como eu vou olhar para o seu pai, sabendo que fiz a filha dele voltar às dez da noite de ônibus?
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  %Julia% abriu um pequeno sorriso de agradecimento, até se lembrar que precisava, sim, agradecer o chefe, e muito.
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  – Obrigada por ter dado uma chance para o meu pai. Ele está muito feliz.
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  %Henrique% balançou a mão.
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  – Ele foi muito bem no teste. Melhor até que alguns outros candidatos mais novos. Foi uma escolha sensata.
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  A mulher queria dizer mais, mas não podia encher o chefe de agradecimento, poderia incomodá-lo.
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  Permaneceram calados por muito tempo. Tempo o suficiente para ela se sentir incomodada. %Henrique% permaneceu em pé em um canto da cozinha, observando-a guardar a comida na geladeira. Quando fez menção de dizer algo, foi interrompido por Anna, que entrou na cozinha em busca da babá:
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  – Ainda bem que você ainda tá aqui! Caique fez xixi na cama.
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  %Julia% riu e pediu licença para %Henrique%, que não disse nada, apenas abriu espaço para a babá passar e ir em direção ao quarto de Caique.
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  Assim que a mulher saiu da cozinha, Anna olhou para %Henrique%, que desviava seu olhar para o celular. Abriu um pequeno sorriso, pois havia ouvido a conversa do pai com %Julia%.
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  E apesar de ter somente 14 anos, Anna tinha maturidade o suficiente para perceber quando o pai mostrou interesse em alguém pela primeira vez em anos.
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Capítulo 4
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Liv

A resposta da Julia para as irmãs foi simplesmente perfeita, fiquei tipo “é isso aí!” hahaha. É bacana e divertido acompanhar a pp, sem contar que ela tá indo muito bem no trabalho. E o final, hein, dona Natashia… o romance vindo aí, até a filha do Henrique já percebeu, hahaha. Ansiosa para a próxima att!

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