Capítulo 13 • %Ananya%
Vovó %Bhasin% era uma mulher espiritualizada, cheia de crenças e superstições. Só comemorava aniversários em números redondos: cinquenta, sessenta, setenta. E, nesses casos, exigia a presença de todos os netos.
Dos filhos, curiosamente, ela não parecia fazer tanta questão.
Vovó nunca nos obrigou a usar roupas tradicionais. Na verdade, os eventos dela eram praticamente os únicos em que podíamos deixar os sáris no armário sem culpa nenhuma. Por outro lado, Nani tinha horror a qualquer coisa que parecesse minimamente fora de controle. Se dependesse dela, provavelmente nos colocaria sentados em círculo no chão, meditando até que todos encontrássemos a paz interior.
Estava tudo indo bem, ver meus primos sempre era divertido, mas tudo saiu do lugar no instante em que fui colocada no mesmo time que Kiara no Carrom, um jogo indiano de tabuleiro que, em teoria, exigia estratégia, precisão e um mínimo de civilidade.
– Você tocou na minha peça.
– Onde, Kiara? Como? – Falei, já aumentando meu tom de voz.
– Agora. Antes. Você empurrou o striker e a minha peça se mexeu.
– A sua peça se mexeu porque o tabuleiro é velho, não porque eu encostei nela.
– Vocês duas podem parar? – Maya reclamou, entediada, com o queixo apoiado na mão. – Ninguém nem conseguiu jogar ainda.
E foi assim que, antes mesmo de terminarmos a rodada, fomos oficialmente expulsas da mesa de Carrom.
Vovó apontou o queixo na direção da cozinha – não levantou a voz, as mulheres %Bhasin% nunca levantavam a voz – e disse que, já que tínhamos tanta energia para discutir, também teríamos para servir.
Era o castigo favorito de Nani. Sempre que algum dos netos passava dos limites, ela fazia questão de nos lembrar que, apesar de todo o dinheiro da família, ainda éramos perfeitamente capazes de fazer o nosso próprio serviço. E, honestamente, éramos. Só não éramos particularmente boas nisso.
A verdade é que eu e Kiara éramos mandadas para a cozinha com certa frequência. Como brigávamos mais do que qualquer outro par de primos, Nani tinha descoberto que nos colocar para trabalhar juntas era uma maneira bastante eficiente de nos manter ocupadas e, de quebra, evitar que continuássemos infernizando o resto da família.
No começo, éramos um desastre. Derrubávamos bandejas, trocávamos os pratos, esquecíamos os talheres e discutíamos até sobre quem tinha feito o quê. Os funcionários assistiam de longe e até se divertiam. Depois de alguns castigos – e de algumas broncas memoráveis –, acabamos ficando boas em servir.
Olhei para ela de soslaio.
Postura impecável. Cabelo perfeitamente alinhado. Vestido sem uma única dobra fora do lugar. Até organizando taças de sobremesa, Kiara parecia estar posando. Havia alguma coisa irritantemente elegante nela. O olhar afiado e aquele nariz americano de que ela tanto se orgulhava completavam o conjunto.
Se quisesse, seria uma socialite indiana de dar gosto de assistir. Tinha o rosto, o sobrenome, o dinheiro e a postura impecável para isso. Só lhe faltava uma coisa: vontade.
Kiara tinha passado boa parte da vida fazendo questão de deixar claro que não queria ser exatamente aquilo que esperavam dela. O que, considerando o quanto ela se parecia com tudo o que dizia desprezar, tornava a coisa ainda mais engraçada.
– O que veio fazer aqui? – Perguntei, passando o pano pela borda de uma taça. – Lembrou que é uma %Bhasin%?
– Minha mãe me obrigou a vir. E Nani também. – Kiara deu de ombros, sem perder a postura. – Não sei fingir que está tudo ótimo enquanto o dinheiro sujo cai das paredes, como vocês fazem aqui.
– Puta merda. – Rolei os olhos, quase indignada com a capacidade que Kiara tinha de transformar qualquer conversa banal em uma oportunidade para ser insuportável. – Você não consegue passar cinco minutos sem pegar uma conversa normal e transformar em manifesto político?
– Eu só respondi à sua pergunta.
– Você não respondeu. Aproveitou a oportunidade para atacar.
Kiara finalmente levantou os olhos para mim.
– Se eu quisesse atacar, começaria pelo fato de você estar namorando o meu namorado.
Continuei olhando para a taça entre meus dedos. Eu sabia que, em algum momento, aquele assunto apareceria.
Kiara podia passar a tarde inteira fingindo que não se importava, mas não perderia a oportunidade de jogar %Anthony% na minha cara assim que encontrasse uma brecha. E eu não podia fazer nada a respeito, precisava continuar fingindo que eu não me sentia ridícula toda vez que lembrava que, antes de mim, ele tinha sido dela de verdade.
Essa parte me incomodava profundamente.
Ela tinha tido ele. De verdade.
– O que? – Ela se inclinou um pouco sobre a mesa, aproximando-se o suficiente para baixar a voz. Havia uma diversão estranha no brilho dos olhos dela. Kiara tinha percebido o esforço que fiz para não demonstrar o quanto eu estava desconfortável. – Você realmente achou que ninguém ia me contar?
– Não devo explicações a você, Kiara.
– Não. Claro que não. – Pegou outra taça e começou a passar o pano pela borda, como se o assunto não tivesse importância. – Você nunca deve nada a ninguém.
– Lá vem. – Resmunguei.
– Você sempre quis ser como eu, %Ananya%. Sempre! – Murmurou, baixo, mas exasperada, como se estivesse esperando havia anos por uma oportunidade de dizer aquilo. – Desde sempre. Desde pequena, você sempre...
– Ah, Kiara, pelo amor de Deus.
– Sempre assim, %Ananya%. – Ela pousou outra taça na bandeja. – Como quando você vestiu meu vestido rosa sem pedir e rasgou a costura.
– Isso foi no meu aniversário de doze anos. – Rebati , incrédula. – Supera!
– Engraçado você falar em superar. – Ela pegou outra taça. – Como você superou o meu brinco de pérolas?
Muito antes de decidir que era contra todos os herdeiros do mundo, contra tudo o que a família representava e, aparentemente, contra qualquer coisa que tivesse o sobrenome %Bhasin%, Kiara já travava batalhas por brincos de pérola.
– Eram meus! – Bati o pé no chão.
– Foram herança da vovó Lakshmi! – Kiara rebateu. – Assim como o apartamento em Bandra.
– O apartamento não era seu. – Cruzei os braços, irritada.
– Também não era seu!
Por um segundo, ficamos apenas nos encarando através da mesa coberta de taças. Duas mulheres adultas discutindo por coisas que tinham acontecido mais de uma década antes.
Kiara foi a primeira a quebrar o silêncio.
– Você sempre faz isso. – Apontou o dedo para mim. – Transforma tudo em competição.
– Eu não estou competindo com você.
– Está sim.
– Não.
– Está!
Kiara ainda estava rebatendo quando ouvimos vozes do outro lado da porta. Não dava para entender tudo. Só frases cortadas pelo barulho da festa, pelo tilintar dos copos, por alguém rindo mais longe.
– ...e agora está tentando a fusão de novo. – Disse uma das vozes, mais baixa, acompanhada por uma risada curta.
Minha mão parou sobre a taça. Kiara também ficou imóvel.
– Davi precisava de alguém próximo da gente. E agora ele conseguiu.
– Quem?
Houve uma pausa e então a resposta veio com escárnio:
– O cara que namorou as duas. Ou você acha que foi puro acaso?
Olhei para Kiara, ela já estava olhando para mim. E, pela primeira vez, nenhuma das duas parecia interessada em ganhar a discussão.
Outra voz respondeu, mais abafada, como se estivesse de costas:
– …algumas alianças nesse lado da família são mais… convenientes do que parecem.
E veio o silêncio de novo, como se os dois tivessem deixado a antessala.
Eu reconheci as vozes antes mesmo de conseguir organizar as palavras. Sameer e Rohan. Os dois trabalhavam na empresa havia anos. Sameer cuidava da parte administrativa; Rohan trabalhava diretamente com meu pai e, às vezes, com meu tio.
– Viu? É por isso que eu fico longe daqui. – Kiara jogou o guardanapo sobre a mesa, como se aquilo encerrasse a discussão. – Tudo para vocês é conspiração. Todos vocês corporativistas são assim. – Kiara soltou uma risada curta, provocativa. Revirou os olhos e pegou outra taça. – Passam o dia falando de contratos, fusões, aquisições e Deus sabe mais o quê. Depois tomam duas taças de vinho e começam a enxergar conspiração em qualquer conversa de corredor.
– Rohan é um lunático, você sabe. – Dei de ombros, embora um comichão insistente tivesse começado a se espalhar pela minha pele, subindo pelo pescoço como se tivesse vida própria.
– E irresponsável. – Ela apontou para mim com o dedo molhado de vinho. – Falando de %Anthony% como se ele tivesse alguma coisa a ver com a empresa.
%Anthony% era advogado de outra empresa. Não fazia parte de nada da %Bhasin%. Ser funcionário do Martinez, que era amigo da família, era apenas uma coincidência. Não tinha qualquer motivo para estar envolvido numa conversa sobre fusão, muito menos em qualquer plano relacionado à minha família.
Era só uma coincidência.
– É. – Murmurei. – Maluquice.
Ela ficou alguns segundos em silêncio, os dedos brincando distraidamente com o pano que tinha acabado de usar. Então soltou uma risadinha nervosa e disse: – Isso está começando a soar como se seu namorado fosse algum gênio do mal.
– Meu namorado que já foi seu namorado. – Pontuei.
– Exatamente. – Kiara sorriu e eu também, então nossos olhos se encontraram e alguma coisa mudou.
Nenhuma de nós riu dessa vez. Porque o sorriso de Kiara morreu devagar, como se ela tivesse acabado de ouvir de novo, na própria voz, o que tinha dito.
Não parecia tão absurdo assim.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Kiara foi a primeira a falar, ainda olhando para a porta: – Ele nem trabalha para a empresa.
– Não precisa trabalhar. – Respondi sem pensar.
– Como assim?
Levei um instante para formular a resposta. Nos meus anos na %Bhasin%, eu tinha visto coisas que jamais teria imaginado e ouvido falar de outras tantas. Histórias de consultores que apareciam para uma reunião e saíam com três contratos na bagagem. De advogados que nunca pisavam no escritório, mas cujo nome constava em todos os memorandos internos. De gente que não tinha cargo nenhum e, ainda assim, parecia saber de tudo antes de todo mundo.
– Não sei. – Falei, por fim. – Estou só dizendo. Mas já vi gente sem crachá nenhum circular por lugares onde eu, que tenho o sobrenome na parede, nunca entrei.
%Anthony% não precisava trabalhar para a %Bhasin%. Precisava apenas estar perto de mim.
– Espera aí, gatinha. – Kiara apontou o dedo para mim, e a unha perfeita parecia uma arma pequena. – Eu passei anos num relacionamento com ele. O %Anthony% não é esse tipo de cara. – Kiara me observou por mais alguns segundos. – Eu passei anos com ele, %Ananya%. Você sabe disso.
Eu sabia o que ela queria dizer. Kiara conhecia %Anthony% de um jeito que eu não conhecia. Tinha convivido com ele antes de mim, antes da mentira, antes de eu sequer considerar que ele pudesse fazer parte da minha vida.
– Eu não estou dizendo que ele fez alguma coisa. – Passei o pano pela borda de outra taça, concentrando-me no movimento repetitivo.
Foi quando me lembrei da conversa que tivera com %Anthony% semanas antes.
%Anthony% já tinha me contado sobre Davi.
Tinha ido até o meu escritório para me avisar que ele queria informações da minha família. Contratos. Cláusulas confidenciais. Documentos.
Não sei por que comentei o que comentei, mas, naquele momento, as coisas começaram simplesmente a sair pela minha cabeça e pela minha boca, sem pedir licença.
– %Anthony% me contou que uma vez o Davi tentou usar ele para conseguir informações da nossa empresa.
– Quando?
– Algumas semanas atrás.
– E você não achou isso estranho? – Kiara perguntou.
A pergunta me atingiu de um jeito diferente. Até poucos minutos antes, eu nem tinha pensado em questionar. Eu tinha guardado aquele dia no escritório como prova de que %Anthony% era honesto. Como prova de que ele tinha escolhido me proteger. De repente, a mesma lembrança servia para as duas coisas.
– Ele me contou porque queria que eu tomasse cuidado...?
Kiara não respondeu de imediato. Apenas sustentou meu olhar e havia alguma coisa nos olhos dela que eu não via desde que éramos crianças. Uma espécie de solidariedade silenciosa, quase desconfortável.
– Ou porque queria que você confiasse nele...? – Ficamos nos encarando por alguns segundos e, pela primeira vez, não havia provocação entre nós. – Tem gente demais orbitando essa família sem que ninguém pare para perguntar por quê. – Ela falou quase distraidamente.
Esperei que ela continuasse, mas, em vez disso, virou-se de repente e se afastou de mim com passos rápidos, o corpo inteiro retesado, como se precisasse fugir daquela conversa antes que alguma de nós dissesse alguma coisa que não pudesse mais ser desdita.
Passei o pano pela borda da taça uma vez.
Depois outra vez. E depois não havia mais nada para limpar, mas mesmo assim, continuei.
Olhei para a porta.
O cara que namorou as duas.
A frase voltou à minha cabeça.
Não fazia sentido.
%Anthony% não trabalhava para a empresa. Não tinha qualquer cargo, qualquer participação, qualquer motivo óbvio para estar envolvido nos assuntos dos %Bhasin%. E, ainda assim, o nome dele tinha aparecido no meio de uma conversa sobre Davi, uma fusão e alguém que precisava estar próximo da minha família.
Eu não sabia o que pensar.
Olhei para o corredor, onde as vozes ainda soavam como murmúrios distantes. Um peso súbito tomou conta dos meus músculos, como se meu corpo tivesse entendido alguma coisa antes de mim e agora estivesse tentando me obrigar a parar. Como se dissesse: para, antes que você descubra o resto.
A coincidência me incomodou de um jeito que eu não conseguia explicar. Porque, isoladamente, cada coisa ainda podia ter uma explicação perfeitamente razoável. Davi poderia ter procurado %Anthony% por acaso. %Anthony% poderia ter recusado. Poderia ter me contado justamente porque não queria fazer parte daquilo.
Se tudo aquilo fosse apenas coincidência, era uma coincidência muito bem ensaiada.
Como? Desde quando? Antes da ilha? Aquele encontro que eu ainda chamava de acaso tinha sido mesmo um acaso?
E o sexo? Fechei os olhos por um segundo. Ele planejou aquilo também?
Meu estômago se revirou. Porque, de repente, cada lembrança parecia ter uma segunda versão escondida dentro dela. O jeito como ele tinha aparecido na minha vida, tão fácil, tão certo, tão... conveniente.
– Você está me dizendo que ele quer que você entregue informações? Usando você como isca? Ele te ameaçou? É por isso que está aqui?
– Ele quer coisas específicas... Cópias de contratos. Cláusulas confidenciais. Acha que, com a documentação certa, pode derrubar o Adit... ou comprá-lo.
– Isso é crime, %Anthony%.
– Eu sei. Mas o Davi não liga para legalidade. Ele só quer resultado.
– Por que você está me contando isso?
– Porque eu preciso que você esteja atenta. Que se proteja. E que entenda que... se alguém aparecer querendo esse tipo de informação, não vai ser coincidência.
– E o que você vai fazer?
– Ainda estou tentando descobrir.
Abri os olhos. O salão voltou de uma vez: as vozes, os copos, a música baixa, o pano ainda preso entre meus dedos e uma vertigem muito, muito forte.
Ainda estou tentando descobrir.
Naquele dia, eu tinha entendido que %Anthony% estava tentando decidir o que fazer. Agora, pela primeira vez, me perguntei se tinha entendido errado.
%Anthony% tinha aceitado o plano naquele dia? Ou já fazia parte dele muito antes? Desde Kiara?
A lembrança do nosso primeiro encontro veio inteira. Depois, a ilha. Os beijos. A porra do sofá. Cada memória que eu tinha guardado como prova de que aquilo era real agora parecia ter adquirido uma segunda versão.
Como se eu tivesse passado meses acreditando que estava vivendo uma história... quando, talvez, tivesse apenas entrado no meio de uma estratégia que começou muito antes de mim.
– Ժ –
Virei minha sexta taça de rum da Nani. Ou quinta. Aparentemente, além de só beber no dia do meu aniversário, agora eu também bebia no aniversário da minha avó.
Uma evolução questionável.
Tentei de tudo para fazer o nó na minha garganta afrouxar, mas ele continuava ali, apertado e persistente, desde o momento em que ouvimos aquela conversa. E, como eu não fazia a menor ideia do que fazer com todas aquelas perguntas – muito menos com o nome de %Anthony% martelando dentro da minha cabeça –, precisava de alguma coisa que me ajudasse a calar tudo aquilo.
A bebida mais próxima era o rum.
Foi mais ou menos na hora da oitava taça que Kiara apareceu. Ela não perguntou se eu estava bem, muito menos ofereceu qualquer consolo. Apenas ficou ali, de braços cruzados, esperando pelo momento em que eu finalmente cairia ou vomitaria.
Kiara soltou um suspiro pelo nariz. Seus olhos – tão parecidos com os da vovó – percorreram meu rosto por alguns segundos. Não havia pena ali, nem carinho. Mas havia alguma coisa: uma preocupação que ela provavelmente morreria antes de admitir.
– Você vai passar mal. – Disse, seca. Fiz uma careta e procurei a taça de novo, embora ela estivesse exatamente onde eu tinha deixado.
Estendi a mão para a taça, mas antes que pudesse beber outra vez, Kiara segurou meu braço e disse: – Vem.
– Não. – Neguei com a cabeça.
– %Anya%... – Ela me encarou e depois fechou os olhos por um segundo, como se estivesse pedindo paciência a todos os deuses disponíveis: – Vou levar você para casa.
Aproveitando que eu estava perto da porta, Kiara segurou meu braço e começou a me conduzir pelos degraus da varanda em direção à entrada, ignorando solenemente todas as minhas recusas.
O álcool era, de fato, um efeito colateral desgraçado.
Na minha cabeça, eu sabia que ela estava certa. Precisava sair dali, parar de beber e, de preferência, desaparecer antes que alguém da família me encontrasse naquele estado. Não podia fazer uma cena na casa da Vovó, não ali, não naquela noite, não com o sári da tia Meera passando pelo corredor e o primo Vikram sempre a um passo de aparecer com o celular na mão.
Ainda assim, meu corpo parecia ter desenvolvido uma opinião própria sobre o assunto. Eu dizia que não enquanto tentava me desvencilhar de Kiara, como se repetir a palavra fosse suficiente para transformar uma decisão estúpida em um princípio inegociável. Meu cérebro, em algum lugar atrás da névoa etílica, repetia a mesma frase em loop – você precisa parar, você precisa parar –, mas era como ouvir alguém gritar do outro lado de uma porta fechada.
Não sei dizer por que ela insistiu tanto. Talvez estivesse preocupada com o que eu poderia fazer se me deixasse sozinha. Talvez soubesse, melhor do que eu, que a noite ainda tinha muito espaço para piorar. Seja qual fosse o motivo, ela conseguiu me levar até o carro.
O problema foi que chegar até lá não significava que eu tivesse concordado em entrar.
Quando Kiara abriu a porta do passageiro e fez um gesto para que eu me sentasse, recusei-me a obedecer. Ela tentou argumentar. Eu respondi que não precisava. Não sei bem como a conversa descambou para os brincos de pérolas. Em algum momento, Kiara estava dizendo alguma coisa sobre a herança da vó Lakshmi, e eu, bêbada como estava, resolvi que aquela era a hora perfeita para defender minha honra. Discutimos. Levantamos a voz. Eu disse coisas que provavelmente não faziam sentido nenhum e que, com certeza, não tinham nada a ver com o carro.
E, em algum momento, aproveitando uma distração dela – acho que ela olhou para o celular, ou para a rua, ou para qualquer coisa que não fosse eu –, afastei-me do carro e voltei para a calçada.
Kiara soltou o ar com força e fechou os olhos por um instante. Depois, fechou a porta do carro com um baque contido e entrou, sem olhar para trás. Pela primeira vez na noite, ela parecia ter desistido de mim.
Foi uma péssima ideia ela ter me deixado sozinha. Andei rápido demais. Não me lembro de ter olhado para trás ou para os lados, tampouco percebi que tinha me afastado da calçada e avançado em direção à rua. Então uma luz forte invadiu meu campo de visão. Tive tempo apenas de virar o rosto antes de sentir o impacto.
Um carro me atingiu de raspão, mas foi o bastante para me desequilibrar completamente. Meus pés perderam o contato com o chão e meu corpo foi lançado para o lado. Bati o cotovelo primeiro, depois o quadril. Por alguns segundos, não consegui fazer nada além de ficar deitada, olhando para o céu escuro e tentando entender por que as estrelas pareciam girar.
Ouvi o motor ser desligado alguns metros adiante, seguido pelo baque de uma porta. Passos apressados se aproximaram pelo asfalto. Por um instante, imaginei que alguém fosse se ajoelhar ao meu lado, perguntar se eu conseguia respirar ou se tinha batido a cabeça. Talvez até oferecer ajuda antes de decidir se eu merecia recebê-la.
– Você é louca, porra?!
Pisquei, tentando focar o rosto do homem parado à minha frente. Devia ter pouco mais de vinte anos. Usava um moletom com capuz, tinha o cabelo raspado e estava vermelho de raiva, com os punhos cerrados ao lado do corpo. Ele não perguntou se eu estava bem, nem sequer olhou para o meu cotovelo. Só continuou gritando alguma coisa sobre o carro, sobre o seguro, sobre mulheres bêbadas que não sabem atravessar uma rua.
Tentei me apoiar nas mãos para levantar, mas o movimento fez a dor no braço aumentar. Soltei um ruído involuntário e voltei a me sentar, desajeitada.
– Eu... – Minha voz saiu baixa, arrastada. Precisei engolir em seco e tentar de novo. – Você me atropelou.
– Ah, não fode! Você se jogou na frente do meu carro, sua idiota! – Ele abriu os braços, indignado.
Antes que eu conseguisse responder, Kiara surgiu ao meu lado, ofegante.
Ajoelhou-se no asfalto sem se importar com o vestido e segurou meu rosto entre as mãos, obrigando-me a olhar para ela.
– %Ananya%. Olha para mim. Você está bem?
Tentei responder, mas minha cabeça ainda parecia estar alguns segundos atrasada em relação ao resto do mundo.
– Acho que...
Ela passou os olhos pelo meu rosto, depois pelo meu corpo, procurando algum sinal mais grave. Quando chegou ao meu braço, franziu a testa.
– Não se mexe. – Ela soltou meu rosto com cuidado, certificou-se de que eu continuava consciente e só então se levantou para encarar o motorista. A preocupação desapareceu de sua expressão, substituída por uma raiva tão fria que parecia pertencer a outra pessoa. – Você bateu nela!
– Ela se jogou na frente do carro!
– É mentira! – Kiara apontou para o sedã, o dedo firme no ar. – Eu estava vendo. Você veio rápido demais para uma rua tão estreita. E ainda parou em cima da calçada.
Soltou um palavrão. Ergueu o telefone, a câmera apontada para nós.
– Vou filmar vocês duas. Vou mostrar para todo mundo o tipo de gente que...
– Filma. – Kiara inclinou a cabeça de leve, como se estivesse posando para uma fotografia. – Começa pelo meu rosto. Depois filma o seu carro parado em cima da calçada, com a mulher que você atropelou sentada no chão. – Kiara nem piscou. – Vai ficar ótimo.
Era um erro subestimá-la. Eu sabia disso desde a infância. Algumas das minhas lembranças mais constrangedoras envolviam descobrir, tarde demais, que minha prima era capaz de causar estragos consideráveis sem precisar alcançar uma prateleira alta.
O homem baixou o telefone devagar, olhando de mim para ela como se estivesse tentando decidir se valia a pena continuar discutindo.
– Quer saber? – Resmungou. – Eu não vou ficar aqui ouvindo isso.
Ele se virou em direção ao carro e Kiara deu um passo para o lado, ficando entre ele e a porta.
– Onde você pensa que vai? Você acabou de atropelar alguém!
– Ela está andando, não está?
Foi nesse ponto que a gritaria começou de verdade.
Ele falava por cima dela, Kiara respondia sem recuar, e eu continuava sentada no asfalto, tentando acompanhar a discussão. A única coisa que conseguia concluir era que nenhum dos dois parecia disposto a encerrar o assunto.
Em algum momento, entre o cotovelo sangrando e a sensação desconcertante de que o chão ainda se movia sob mim, o motorista pareceu perder a paciência. Virou-se bruscamente na direção de Kiara e a empurrou pelos ombros, tentando voltar para seu carro.
Foi um gesto rápido, talvez nem tão forte assim, porém, alguma coisa dentro de mim se rompeu.
Eu sempre me considerei uma mulher calma e controlada. Mantinha essa fachada com uma competência quase profissional. Trabalhar em um ambiente predominantemente masculino tinha me ensinado a não demonstrar quando alguém me ofendia ou me tirava do sério.
%Bhasin% era sinônimo de autocontrole. Mas, aparentemente, meu autocontrole tinha um limite. E o limite era um desconhecido mal-educado empurrando minha prima depois de me atropelar.
Não pensei nas consequências. Não pensei na polícia, na minha família, na Vovó ou na possibilidade de que alguém estivesse assistindo àquela cena da janela de casa. Pensei apenas que queria que ele parasse de gritar e, aparentemente, meu cérebro bêbado concluiu que a melhor maneira de conseguir isso era tirar um dos meus saltos e jogar nele.
O salto atravessou o ar numa trajetória que, em outras circunstâncias, eu teria descrito como surpreendentemente boa. O problema foi que não acertou nele, e sim na janela lateral do carro, com um estalo seco.
O vidro se estilhaçou.
Bom. Aquilo tinha sido, sem dúvida, uma péssima decisão.
Os minutos seguintes viraram um borrão. Gritos. Passos apressados. O motorista berrando alguma coisa sobre danos materiais. Kiara berrando algo sobre responsabilidade civil. Eu tentando entender por que o chão parecia inclinado e por que meu pé esquerdo estava tão frio.
Depois, vieram as luzes vermelhas e azuis, piscando contra as fachadas das casas e deixando tudo ainda mais surreal.
Eu me lembro de portas de carros batendo, vozes se sobrepondo e policiais tentando entender o que havia acontecido. Kiara tentou explicar que eu estava bêbada, sim, mas que ele tinha me atingido primeiro. Que eu estava ferida e desorientada. Que ele havia se recusado a chamar uma ambulância, começado a nos filmar e tentado ir embora. Que ela só havia tentado impedi-lo de sair.
E que, quanto ao retrovisor, havia circunstâncias atenuantes.
O motorista contou uma versão consideravelmente diferente. Segundo ele, eu havia atravessado a rua bêbada, me jogado na frente do carro e, depois, destruído a janela lateral com um salto alto. A parte em que ele havia me atingido foi convenientemente reduzida a um detalhe. O empurrão em Kiara também pareceu desaparecer da história.
No fim, os policiais ouviram os dois lados, registraram os depoimentos e chegaram à conclusão aparentemente mais simples da noite: nenhuma das nossas explicações mudava o fato de haver um carro danificado, uma confusão no meio da rua e duas mulheres que, por razões diferentes, não estavam exatamente em condições de facilitar o trabalho de ninguém.
Foi assim que acabamos na delegacia.
Eu, algemada. Não porque tivesse oferecido resistência – mal conseguia me manter em pé sem ajuda –, mas porque, ao que tudo indicava, atirar um salto contra a janela de um carro era uma péssima maneira de demonstrar indignação. Quem poderia imaginar?
E Kiara... Kiara estava resistindo à prisão com uma energia que eu não sabia que ela possuía.
– Eu não estou resistindo! – Protestou, enquanto dois policiais tentavam convencê-la a entrar na viatura. – Estou perguntando por que ela está algemada e aquele imbecil está andando por aí como se tivesse acabado de estacionar o carro no shopping!
Quando finalmente entramos na viatura, Kiara sentou-se ao meu lado e sustentou meu olhar por alguns segundos.
Havia tanta coisa que poderíamos dizer uma à outra – a começar por uma lista bastante extensa de decisões estúpidas tomadas naquela noite –, mas nenhuma de nós parecia disposta a ser a primeira a admitir o absurdo da situação.
Tentei manter a expressão séria. De verdade. Mas, apesar da dor de cabeça, do cotovelo ardendo e da perspectiva de explicar aquela noite aos meus pais, senti uma vontade absurda de rir. E, pela maneira como Kiara desviou o rosto e mordeu o lábio trêmulo, acho que ela também.