Efeito Colateral


Escrita porJuliana M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 8 • %Anthony%

  Na maior parte do tempo, eu me considerava um homem confiante. Não do tipo que se impõe em voz alta ou precisa se provar constantemente, mas alguém que sabia se portar. Eu costumava lidar bem com qualquer ambiente, especialmente os formais.
0
Comente!x

  Era por isso que eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo naquele momento.
0
Comente!x

  Sozinho no corredor em frente ao quarto de %Anya%, encarei meu reflexo pela décima vez. A iluminação amarelada não ajudava; parecia ressaltar cada detalhe que eu ainda não tinha decidido se aprovava ou não. Meus dedos, levemente trêmulos, passaram pelo cabelo já endurecido pelo gel quase seco, tentando domar fios que insistiam em sair do lugar.
0
Comente!x

  Inclinei a cabeça de um lado, depois do outro, avaliando como se estivesse prestes a entrar numa entrevista de emprego. Talvez um terno tivesse sido mais apropriado. Um terno sempre dava a sensação de controle.
0
Comente!x

  Mesmo com %Anya% repetindo que seria apenas um jantar em família – informal, tranquilo, quase relaxado –, aquela era, segundo minha namorada falsa, a única noite da viagem que realmente importava. A única em que eu precisava parecer alguma coisa além de um convidado conveniente.
0
Comente!x

  Arregacei as mangas da camisa até os cotovelos e fui me encostar na parede em frente à porta do quarto de %Anya%. Olhei o relógio no pulso de novo – a terceira vez – e soltei um suspiro curto, já sem paciência. Eu estava ali havia pelo menos vinte minutos e a única resposta que recebia era a mesma: – Estou quase pronta!
0
Comente!x

  Quase pronta há vinte minutos.
0
Comente!x

  Eu sabia que, racionalmente, nada daquilo deveria me afetar tanto. Não eram meus sogros. Não era um relacionamento de verdade. Ainda assim, a ideia de me atrasar para aquele jantar me incomodava de um jeito que eu não conseguia ignorar.
0
Comente!x

  Levantei a mão para bater na porta de novo, já sem muita paciência comigo mesmo por estar ali, hesitando. Mas, antes que meus dedos encostassem na madeira, a porta se abriu de repente.
0
Comente!x

  – Desculpa, eu demorei, eu sei. – %Anya% surgiu no vão, levemente ofegante, os braços erguidos enquanto tentava domar o próprio cabelo. – Meu cabelo resolve ter vontade própria justamente quando eu mais preciso que se comporte.
0
Comente!x

  Afastei-me da parede quase por reflexo, como se precisasse de espaço para processar o que estava vendo. Por um segundo – breve, mas suficiente – eu duvidei da minha própria percepção, pois ela estava… absurda.
0
Comente!x

  %Anya% vestia roupas tradicionais indianas e havia algo de hipnótico na forma como tudo nela se movia. As joias eram discretas, mas impossíveis de ignorar: brilhavam nos pontos certos, chamando atenção sem jamais parecerem demais. Havia uma peça no centro da testa, delicada, quase etérea, e o pequeno piercing no nariz só reforçava aquela sensação estranha de que ela não pertencia completamente àquele lugar.
0
Comente!x

  – Ah, meus pais insistem nisso. – Ela comentou, com um sorriso meio resignado, apontando de leve para a própria roupa. Claramente interpretando meu silêncio como curiosidade cultural.
0
Comente!x

  – Você está… – Comecei, mas a frase morreu no meio do caminho. Decidi ser sincero. Não porque eu queria, mas sei lá, eu precisava. – Você é, sem exagero, uma das mulheres mais bonitas que eu já vi. E olha que eu já vi algumas. – – fiz uma pausa breve, como se ponderasse a própria afirmação. – Mas acho justo dizer que você acabou de estabelecer um padrão.
0
Comente!x

  Por um instante, algo nela vacilou (quase imperceptível), o olhar se quebrou do meu rápido demais, denunciando que ela tinha ficado tímida com minha observação.
0
Comente!x

  – Você deveria tomar cuidado com esse tipo de afirmação. – Disse, por fim, forçando uma risadinha. Quando passou por mim, o braço dela encontrou o meu, se encaixando com naturalidade demais para alguém que, segundos antes, parecia querer distância. E seguimos lado a lado até o elevador. – A maioria das pessoas que me diz esse tipo de coisa quer alguma coisa em troca.
0
Comente!x

  – Eu não pedi nada.
0
Comente!x

  – Exato. – Ela finalmente me olhou. – É por isso que está me deixando nervosa.
0
Comente!x

  – Fica tranquila. Quando eu quiser algo, você vai saber. – Ela revirou os olhos, me fazendo rir. – Vamos lá, últimas considerações?
0
Comente!x

  – Nenhuma. Só que minha mãe faz questão de que toda a família se vista de forma tradicional no jantar, então hoje você vai assistir a um espetáculo digno de Bollywood.
0
Comente!x

  – Você vai dançar? – Provoquei.
0
Comente!x

  – Só se você pedir.
0
Comente!x

  Não sei explicar como uma frase tão leve conseguiu mudar o ar entre nós.
0
Comente!x

  – Então, %Ananya% %Bhasin%, – Respondi, a voz saindo mais grave do que eu pretendia –, hoje você vai dançar para mim.
0
Comente!x

  Ela inclinou a cabeça, tentando conter o sorriso, e esse pequeno gesto foi o suficiente para acelerar minha respiração.
0
Comente!x

  Descemos em silêncio, lado a lado, até o hall principal. Conforme nos aproximávamos do salão de jantar, meu estômago se apertava. %Anya% parou a poucos passos da entrada, ajeitando discretamente uma pulseira. Aproveitei a pausa para observá-la de novo, como se isso fosse me preparar para o que viria.
0
Comente!x

  – Só para garantir, lembra dos nomes? – Cochichou, virando o rosto na minha direção. Assenti, tranquilo pois eu sempre tive boa memória. – Muito bem, você quase parece um genro de verdade.
0
Comente!x

  – Não fala assim ou eu começo a acreditar. – Tentei manter o tom leve, mas minhas palavras saíram mais sinceras do que eu gostaria.
0
Comente!x

  %Anya% nos guiou até uma sacada grandiosa, que parecia saída de uma cena de filme dos anos 50. Mesas de madeira escura e cadeiras com estofados elegantes estavam dispostas de maneira impecável, criando um ambiente de sofisticação sutil. A brisa que vinha do mar e as ondas quebrando ao fundo se misturavam ao som das conversas animadas.
0
Comente!x

  Eu dei uma olhada atenta no salão, engolindo em seco. Não era tanta gente assim, talvez trinta ou quarenta pessoas, mas eram indivíduos com olhares afiados, prontos para avaliar e julgar o novo namorado de %Ananya%. Eu não fazia ideia do que eles poderiam estar pensando sobre nós, mas a sensação de ser observado era inescapável. E, entre essas figuras de autoridade, um par de olhos bem familiares me puxou para a realidade de uma forma nada agradável.
0
Comente!x

  – Merda. – O sussurro escapou antes que eu conseguisse segurar.
0
Comente!x

  Davi Martinez estava ali. De pé. O olhar preso em mim. Havia surpresa e também como se ele estivesse reorganizando, em tempo real, tudo o que achava que sabia.
0
Comente!x

  – É. Merda. – %Anya% repetiu ao meu lado, num tom também receoso.
0
Comente!x

  Antes que eu tivesse tempo de reagir, o braço dela deslizou pelo meu e nossos dedos se entrelaçaram com naturalidade.
0
Comente!x

  – Relaxa. – Sussurrou, sem sequer virar o rosto, os lábios quase imóveis (uma habilidade impressionante). – Somos só dois amigos andando de mãos dadas por razões completamente questionáveis.
0
Comente!x

  – Meu chefe está aqui, %Anya%. Puta merda. – Resmunguei de novo.
0
Comente!x

  As pessoas ao redor começaram a notar. Olhares rápidos, sorrisos educados, aquela curiosidade mal escondida. Eu reagi no automático, acenando aqui e ali, desempenhando o papel.
0
Comente!x

  – Eu avisei que ele estaria. – Ela respondeu entredentes, sorrindo para alguém.
0
Comente!x

  – Eu sei, mas… – Passei a mão pelo rosto, tentando me recompor. – Você não entende. Para ele, eu sou o cara dos relatórios. Não o cara que anda de mãos dadas com a sobrinha favorita dele numa ilha particular.
0
Comente!x

  – Então hoje você vai ser os dois. – Ela arqueou uma sobrancelha. – Expansão de portfólio.
0
Comente!x

  – Eu sei, mas… porra, %Anya%. – Soltei, frustrado, ainda tentando assimilar tudo. Meu avaliador, meu potencial carrasco, o homem que decidia meu bônus e, basicamente, meu futuro… ali, assistindo à encenação mais delicada da minha vida. – Acho que até hoje ele nunca acreditou que eu estava namorando você.
0
Comente!x

  – Você só precisa ser meu namorado lindo, charmoso e absurdamente competente por alguns dias. Depois pode voltar pros seus relatórios. – Ela finalmente virou o rosto na minha direção. – Vai conseguir sustentar a história?
0
Comente!x

  Soltei o ar devagar, negando com a cabeça enquanto me forçava a relaxar. Inclinei um pouco o corpo na direção dela.
0
Comente!x

  – Se você dançar para mim hoje, eu sustento qualquer coisa. Até fingir que não estou morrendo de medo do seu tio.
0
Comente!x

  Ela riu, empurrando meu ombro e, por algum motivo, isso bastou. O som leve do riso dela me arrancou outro em resposta.
0
Comente!x

  Quando nos aproximamos da mesa principal, foi a mãe dela quem nos notou primeiro. O pai estava ao lado. Adit %Bhasin%. Impecável, quase como um retrato de outra época que decidiu caminhar entre nós. As roupas tradicionais caíam com precisão, a barba perfeitamente aparada. Na mão direita, uma bengala que ele não parecia realmente precisar. Segurava-a mais como símbolo do que como apoio.
0
Comente!x

  – Demorei? – %Anya% cortou o silêncio antes que ele se tornasse incômodo, soltando meu braço e se inclinando levemente na direção da mãe, já com um sorriso carregado de provocação.
0
Comente!x

  – Como sempre. – Logo em seguida, voltou-se para mim e estendeu o braço, natural demais para que eu não hesitasse por um segundo. – Venha, querido. Você deve estar com fome. %Anya% tem uma relação… complicada com horários. E com qualquer coisa que envolva compromisso.
0
Comente!x

  Ali estava. A origem.
0
Comente!x

  O mesmo tom, a mesma provocação elegante. Aparentemente, %Anya% tinha aprendido com a melhor.
0
Comente!x

  – Posso pedir para servirem o jantar? Estamos famintos. – Adit se antecipou, apoiando a mão no estômago com uma teatralidade discreta, quase calculada.
0
Comente!x

  – Esperaram por mim? Que consideração. – comentou %Anya%, aproximando-se do pai e estendendo a mão para ele num gesto quase infantil.
0
Comente!x

  – Sua mãe insistiu. Você sabe que não atraso refeições por ninguém. – Ele afirmou, tocando a mão de %Anya% com um beijo paternal.
0
Comente!x

  – Nem pela sua filha favorita? – Ela provocou, inclinando a cabeça.
0
Comente!x

  – Especialmente não por ela.
0
Comente!x

  Anjali ignorou a troca e fez um sinal discreto. Em poucos segundos, garçons cruzavam o salão com bandejas fumegantes e taças tilintando. O aroma das especiarias chegou como uma onda quente, envolvente.
0
Comente!x

  – Papá, não se deve apressar uma dama, você sabe.
0
Comente!x

  – Uma dama, talvez. Você, não. – A resposta veio afiada, arrancando dela uma risada genuína.
0
Comente!x

  – Parem vocês dois. O que o %Anthony% vai pensar vendo vocês agirem como crianças? – Resmungou Anjali, embora o canto dos lábios denunciasse o humor.
0
Comente!x

  – Não se preocupe comigo. %Anya% sempre fala sobre vocês e, principalmente, da relação harmoniosa entre vocês, senhor %Bhasin%. – Improvisei, com um sorriso diplomático.
0
Comente!x

  Era uma mentira descarada. %Anya% nunca havia mencionado a relação com os pais, mas eu e Nina conversávamos sobre isso. Sabia que ela era mais próxima do pai e usei isso ao meu favor. Apostei que um elogio sutil à família cairia bem.
0
Comente!x

  – Que bom que você sabe sobre nós. Não podemos dizer o mesmo. – O homem respondeu sem sorrir, com a voz cortante. Engoli em seco.
0
Comente!x

  – Adit. – Anjali o repreendeu com um olhar firme.
0
Comente!x

  – Papa está indignado por não saber sobre nós antes. Como se eu contasse todos os meus relacionamentos para ele. – %Anya% interferiu, tentando suavizar o momento. Assenti com um meio sorriso.
0
Comente!x

  – Não todos, mas os sérios sim. – Ele rebateu, ainda sisudo.
0
Comente!x

  – Pai, quando se tornou sério, eu contei. – Afirmou, tranquila, mas firme.
0
Comente!x

  – Adit, que diferença faz? – Anjali interveio outra vez, tentando cortar a tensão, enquanto acariciava o ombro do marido.
0
Comente!x

  – O senhor está certo. Sinto muito por não ter ido até você antes. Nossas últimas semanas foram uma loucura, especialmente no trabalho. – Me justifiquei, adotando o tom mais sincero que consegui reunir. %Anya% assentiu, me apoiando com o olhar. E, honestamente, não era totalmente mentira.
0
Comente!x

  – Rapaz, é só que... – Adit interrompeu a fala de repente. Seu rosto endureceu ao olhar além de mim, para algo – ou alguém – atrás das minhas costas. – Oh.
0
Comente!x

  – Oh, não. – Anjali murmurou, abaixando a cabeça com uma expressão tensa.
0
Comente!x

  – Adit, meu velho amigo. – A voz inconfundível de Davi Martinez me fez congelar.
0
Comente!x

  Minha pele arrepiou. %Anya% e eu trocamos um olhar rápido. Ela também ficou tensa, o que me confirmou que não era paranoia: Martinez não era bem-visto naquela casa. E agora, ele estava ali. Perto demais.
0
Comente!x

  E agora?
0
Comente!x

  – Martinez, você veio. – O tom de Adit era comedido, quase neutro, mas, por educação, ele se levantou para cumprimentá-lo com um rápido aperto de mão. Eu, por outro lado, desejei intensamente ser capaz de evaporar da mesa.
0
Comente!x

  – Eu não perderia esse evento por nada. – Martinez declarou com entusiasmo falso, pousando uma mão pesada sobre o ombro de %Anya%. Ela sorriu, mas o gesto era forçado, rígido. – %Anthony%. – Ele se voltou para mim.
0
Comente!x

  – Sr. Martinez. – Murmurei, mantendo o cumprimento breve e mecânico, voltando minha atenção ao prato como se pudesse desaparecer dentro dele.
0
Comente!x

  Senti a mão de %Anya% pousar discretamente sobre minha coxa por baixo da mesa, apertando-a com leveza. Um gesto sutil, mas necessário. Respirei fundo, tentando relaxar os ombros e devolvi um sorriso lateral para ela.
0
Comente!x

  – Que felicidade ver todos vocês reunidos. – Martinez se virou para os anfitriões, embora tenha ignorado solenemente Anjali. Algo que não passou despercebido por mim, nem por ela. – Imagine só, Adit, quando descobri que meu funcionário estava namorando sua preciosa %Ananya%.
0
Comente!x

  – Foi uma surpresa, realmente. – Adit respondeu, lançando-me um olhar de relance que não consegui decifrar completamente. – %Anya% comentou que %Anthony% trabalha com você. Espero que passar um final de semana com seu chefe não seja um problema, %Anthony%. – Tentou brincar, mas o tom era dúbio.
0
Comente!x

  Era, sim, um grande problema. Mas apenas neguei com a cabeça, mantendo o sorriso amarelo.
0
Comente!x

  – %Anthony%, você poderia se juntar a mim por alguns minutos? Temos alguns assuntos a tratar. – A entonação era educada, mas os olhos de Martinez estavam frios e calculistas.
0
Comente!x

  Antes que eu pudesse responder, Anjali interveio: – Sem assuntos de trabalho hoje, Martinez.
0
Comente!x

  – Claro, minha querida. Apenas farei algumas considerações ao meu funcionário. – Ele insistiu, ainda sorrindo, mas havia algo claramente forçado em seu semblante.
0
Comente!x

  – Titio, estamos na ilha Sundar. Aqui, ele não é seu funcionário. – %Anya% rebateu, com um sorriso tão plastificado quanto o dele, controlando o tom de voz com habilidade.
0
Comente!x

  – Aqui ele é meu genro. Então, se nos der licença. – Anjali completou com naturalidade, cortando o assunto com uma precisão cirúrgica.
0
Comente!x

  Arqueei as sobrancelhas, surpreso com a firmeza elegante de sua postura, enquanto Adit apenas balançava a cabeça em silêncio. Anjali voltou a comer, mastigando com calma, como se não tivesse acabado de esmagar o orgulho de Davi Martinez com três frases bem colocadas.
0
Comente!x

  – Certo. Peço licença e um bom jantar para todos nós. – Ele respondeu, mantendo a pose.
0
Comente!x

  – Anjali. – Adit murmurou em tom reprovador assim que o homem se afastou.
0
Comente!x

  – Perdão, querido. Eu simplesmente não consigo! – Ela suspirou com os olhos arregalados, indignada.
0
Comente!x

  – Ele é terrivelmente inconveniente, papa. – %Anya% disse, com uma careta.
0
Comente!x

  – Ele sequer a cumprimentou, senhora. – Acrescentei, incapaz de esconder a indignação diante do descaso.
0
Comente!x

  – Viu? – Anjali apontou para mim como se eu fosse a prova viva num tribunal. – Não é coisa da minha cabeça. Esse homem me odeia.
0
Comente!x

  Adit apenas suspirou, balançando a cabeça com um cansaço silencioso, enquanto %Anya% tentava conter o riso ao meu lado.
0
Comente!x

  – Não se ache tão especial, mãe. Ele odeia todas as mulheres do mundo. – Ela fez uma pausa, então apontou o polegar na minha direção. – E alguns homens também.
0
Comente!x

  Aquilo me arrancou uma risada, mais pela forma como ela disse do que pela constatação em si. Martinez claramente conseguia o raro feito de unir as mulheres %Bhasin% contra ele.
0
Comente!x

  – Eu sei disso. – Continuou Adit, ainda contrariado. –, mas precisamos ser superiores. Davi é um estúpido, sim, mas é um gigante no mundo dos negócios.
0
Comente!x

  – Ele é sujo! – %Anya% rebateu, sem hesitar.
0
Comente!x

  – Justamente por isso temos que tomar cuidado, beta. – Adit interveio com calma firme. – É melhor ter homens como Davi como aliados do que como inimigos.
0
Comente!x

  Não havia como discordar. Eu mesmo só estava ali por pensar exatamente assim.
0
Comente!x

  – E você? – Anjali voltou-se para mim, ainda com um resquício de irritação. – Como consegue trabalhar com esse sanguessuga?
0
Comente!x

  – Não consigo. – Respondi, sincero, sem esperar o riso que veio em seguida de Anjali e %Anya%.
0
Comente!x

  Após a saída de Martinez, o clima à mesa mudou drasticamente. O peso que pairava no ar se dissipou aos poucos, dando lugar a conversas leves e provocações amistosas, especialmente depois que comecei a provar os pratos servidos. A maioria era de culinária indiana, intensamente apimentada. E, bem, minha tolerância a pimenta sempre foi... questionável. A cada mordida em um pedaço de dosa, minha expressão denunciava o desespero que eu tentava disfarçar. Era em vão.
0
Comente!x

  As reações não passaram despercebidas. As risadas foram surgindo, primeiro de Anjali, depois de %Anya%, até mesmo de Adit, que deixou escapar um leve sorriso.
0
Comente!x

  – Esse se chama Pakora, não é tão apimentado. – %Ananya% explicou, pegando um pedaço do empanado com as próprias mãos e o levando à altura da minha boca. – Esse é de espinafre, prova. – Senti a ponta dos dedos dela roçarem meus lábios no gesto e, involuntariamente, contabilizei aquele como o segundo toque direto entre nós desde a noite anterior.
0
Comente!x

  – Definitivamente sem masalas para você, genro. – Anjali comentou entre risos, cobrindo a boca com um lenço, o que fez Adit rir novamente, dessa vez, de forma mais solta.
0
Comente!x

  – Pakora? – Repeti o nome enquanto mastigava a massa crocante. – E qual o problema com masalas? Eu quero mais disso. – Apontei para o prato de %Anya%, que riu, cortou mais um pedaço e me ofereceu da mesma forma, mantendo o toque leve e espontâneo.
0
Comente!x

  – Garam masala é uma mistura de temperos. Pode ser um pouco forte demais para paladares sensíveis como o seu. – Adit tentou manter o tom sério, mas a risada escapou antes mesmo que ele terminasse a frase.
0
Comente!x

  – Senhor, o máximo de tempero que meu paladar aguenta é sal. – Brinquei, arrancando mais algumas risadas.
0
Comente!x

  A mesa dos %Bhasin% era mais acolhedora do que eu esperava. A leveza, a forma como todos se tratavam com afeto, mesmo nas provocações, não exigia esforço da minha parte. Eu não precisava fingir, estava genuinamente me divertindo. Até Adit, mesmo com sua postura protetora, demonstrava gentileza e uma educação firme, porém, calorosa.
0
Comente!x

  Eu era, sem dúvida, o alvo da piada, porém nunca de um jeito cruel. Foi inevitável comparar com o ambiente ao qual eu estava acostumado. Lá, o riso quase sempre vinha às minhas custas. Ali, não. Ali, riam comigo.
0
Comente!x

  A diferença era gritante.
0
Comente!x

  E, pela primeira vez em muito tempo, eu me senti… parte. Bem-vindo de verdade.
0
Comente!x

  Durante o jantar, fui percebendo mais nuances sobre os %Bhasin%. Mesmo espalhados por diferentes mesas no salão, conversavam como se estivessem lado a lado, em voz alta, trocando piadas, passando pratos e rindo de um canto ao outro. Era barulhento, desorganizado, acolhedor. Como uma família deveria ser.
0
Comente!x

  Eu não tinha uma família grande. Sempre fomos só eu, minha mãe e minha irmã e, por muito tempo, isso me pareceu suficiente. Mas, ao ver a naturalidade com que os %Bhasin% se relacionavam, me perguntei como teria sido crescer assim, cercado por tantas vozes, tantos risos, tantos braços que puxam para dançar sem perguntar.
0
Comente!x

  Fui apresentado a alguns primos, tios e tias de %Anya%, todos educados, receptivos e, principalmente, alegres. Essas três palavras pareciam definir bem a família %Bhasin%. Se todos os jantares fossem como aquele, eu não me importaria de participar de mais alguns.
0
Comente!x

  Era fácil esquecer que aquele era um jantar de gente rica e influente. Com eles, parecia só... família.
0
Comente!x

  Em um momento de distração, levei a mão ao bolso e enviei uma mensagem para Nina, perguntando se ela não viria ao jantar. Já havia procurado por ela com o olhar, mas nem sinal dela ou do namorado esquisito. Inclinei-me para %Anya%, tocando de leve seu ombro. Ela balançava o corpo suavemente ao som da música indiana que ecoava pelo salão.
0
Comente!x

  – Onde está Nina?
0
Comente!x

  – Eu a convidei para sentar com a gente, mas... acho que seria estranho demais para eles. – Ela murmurou baixo no meu ouvido. Antes que eu perguntasse o motivo, ela completou: – Meus pais não gostaram muito do namoro da Nina com o Andreas.
0
Comente!x

  Não tive nem tempo de reagir. Maya – a prima de %Anya% – apareceu ao nosso lado como um furacão, já puxando-a pela mão e convidando-a para dançar. %Anya% tentou recusar, resistiu por um segundo, talvez dois, mas foi inútil. Anjali rapidamente se juntou à conspiração, rindo enquanto ajudava a arrastá-la para o centro do salão.
0
Comente!x

  E então aconteceu.
0
Comente!x

  Em questão de segundos, me vi diante de um verdadeiro espetáculo: música vibrante preenchendo o ambiente, palmas marcando o ritmo, corpos se movendo com uma sincronia quase coreografada. Havia energia em cada gesto, alegria em cada giro, como se tudo ali tivesse sido ensaiado e, ao mesmo tempo, fosse completamente espontâneo.
0
Comente!x

  %Anya%, que antes relutava, já estava rindo, entregue ao momento, os movimentos leves acompanhando a batida como se aquilo fizesse parte dela desde sempre.
0
Comente!x

  Fiquei ali, observando. Era um universo diferente do meu em todos os sentidos e ainda assim, de alguma forma, eu não me sentia deslocado.
0
Comente!x

  Um tio %Bhasin% se aproximou de Adit e vi isso como minha deixa para sair. Sinalizei para %Anya% que estava indo ao banheiro enquanto me afastava. Caminhei em direção ao banheiro tranquilamente, e após ter me aliviado, ouvi toques na porta do banheiro enquanto lavava as mãos. Rapidamente, fui até a porta desocupar o cômodo o mais rápido possível, mas me surpreendi quando fui empurrado de volta para dentro de maneira quase agressiva.
0
Comente!x

  – %Anthony%, meu caro. – A voz de Davi Martinez cortou o ar antes mesmo de sua presença se materializar. Era grave, quase teatral. Assustadora. – Jamais imaginei vê-lo tão... domesticado. Um %Bhasin% de estimação agora?
0
Comente!x

  – Olá, senhor. – Respondi, me esforçando para não revirar os olhos ou estampar o desprezo no rosto.
0
Comente!x

  – E nossos acordos? – Ele ajustou o relógio de ouro, o tique-taque audível no silêncio que se seguiu.
0
Comente!x

  "Estão enterrados junto com sua decência", pensei. Mas o que saiu foi: – Progressos lentos. Os %Bhasin% têm... resistência ao seu nome.
0
Comente!x

  – E por que você acha que eu escolhi você? Sempre soube da implicância de Adit e Anjali comigo. Mas é exatamente por isso que você está aqui. Para mostrar que sou um homem confiável, de boa índole. – Tive que conter uma gargalhada. Aquilo era absurdo demais, até para ele. – Se você foi capaz de se enfiar entre as pernas da herdeira %Bhasin%, pode ir além.
0
Comente!x

  Senti um gosto amargo na garganta. A repulsa foi imediata. A vontade de socar o rosto dele tão presente quanto a raiva que crescia no peito.
0
Comente!x

  – Eu não estou com ela por interesse. – As palavras saíram mais duras do que eu esperava.
0
Comente!x

  – Pois deveria. Seria uma vantagem e tanto ter ao lado alguém com o dinheiro e a influência de uma %Bhasin%. Principalmente para alguém como você... que tem talento em perder. Perdeu a mãe, perdeu a ex-namorada %Bhasin%... vai perder o emprego também?
0
Comente!x

  Meu corpo travou. A garganta secou. O sangue ferveu. Como ele sabia dessas coisas? Até onde aquele homem havia cavado na minha vida? Ali, diante de mim, estava a prova viva da fama que o precedia. Sujo. Corrupto. Cruel.
0
Comente!x

  – Isso é uma ameaça, senhor Martinez? Porque, para alguém que já perdeu quase tudo, perder mais uma coisa não vai fazer muita diferença.
0
Comente!x

  – Não é uma ameaça. É um lembrete. Talvez, cercado por essa gente, paparicado como o cachorrinho da família, você ache que pertence a este lugar. Mas não se iluda, %Anthony%… fora daqui você não passa de alguém comum. Irrelevante. Medíocre.
0
Comente!x

  – Se quiser atravessar essa noite sem problemas, é melhor cuidar do que diz. – Respondi, com os dentes cerrados, concentrado em manter as mãos firmes.
0
Comente!x

  Eu nunca tinha entrado numa briga de verdade. Ainda assim, naquele instante, teria dado qualquer coisa para apagar o sorriso de Martinez com um soco bem colocado.
0
Comente!x

  – Posso não ser o sujeito mais decente do mundo… – Disse ele, já se afastando em direção ao banheiro. – Mas você também não é, %Campelli%. – Parou na porta, virou o rosto só o suficiente para me lançar o aviso final, gélido: – Se quiser continuar exibindo sua namoradinha até o fim da noite, pense bem em cada passo que der a partir de agora.
0
Comente!x

  Fiquei parado por alguns segundos depois que ele saiu. Respirava fundo, devagar, mas o ar parecia pesado demais. O luxo ao redor só piorava tudo. Mármore impecável, espelhos amplos, metais dourados reluzindo sob uma luz perfeita.
0
Comente!x

  Quando finalmente levantei o olhar, encarei meu reflexo e não me reconheci. A raiva distorcia meus traços.
0
Comente!x

  Achei que conhecia a raiva. Achei que já tinha passado por tudo: as piadas veladas no escritório, as portas que se fechavam um segundo antes de eu chegar, os olhares que diziam, sem precisar de palavras, você não pertence a este lugar. Achei que já tinha aprendido a engolir cada uma dessas pequenas violências, a mastigar em silêncio até que deixassem de ter gosto. Mas eu estava errado.
0
Comente!x

  "Se você foi capaz de se enfiar entre as pernas da herdeira %Bhasin%..."
0
Comente!x

  O pensamento de Martinez, implícito naquele ar de superioridade, foi o estopim. Sem racionalizar, chutei a lixeira de aço polido com toda a força do meu corpo. A sorte de estar vazia foi o único freio para um constrangimento maior. Respirei fundo, tentando sugar o ar gelado do ar-condicionado e expelir o fúria junto com ele.
0
Comente!x

  Ao sair, a máscara já estava recolocada. O sorriso relaxado, os ombros descontraídos. Um ator retornando ao palco.
0
Comente!x

  Voltei para o salão decidido a afogar aquele asco repugnante que Martinez incrustara em mim. Caminhei direto para o pequeno bar, ignorei o bartender com um aceno breve e peguei eu mesmo a garrafa de um uísque caro, despejando uma dose generosa num copo baixo.
0
Comente!x

  – Querido! Finalmente te encontrei! – Dodi apareceu ao meu lado como um borrão de cores, irradiando aquele entusiasmo exagerado típico dos que já passaram do ponto. Com um gesto teatral, ergueu o indicador para pedir mais um drink, o bracelete de ouro tilintando no pulso. – E então, onde está a nossa aniversariante?
0
Comente!x

  – Ali. – Indiquei com um leve movimento de cabeça. %Anya% rodopiava no centro do salão, cercada pela mãe e por algumas primas. Entre sáris ondulantes e o brilho inquieto das joias refletindo as luzes da festa.
0
Comente!x

  – Ah, olha só como ela brilha! – Dodi colocou a mão no peito, fingindo um desmaio teatral. – Se %Anya% fosse uma estrela de cinema, sua casa teria fila de pretendentes com dotes embaixo do braço. Ia faltar bandeja para tanto anel de noivado!
0
Comente!x

  – O quão bêbado você está? – Perguntei, rindo da comparação exagerada, tentando cobrir a tensão que ainda latejava em mim. Entretanto, enquanto eu a via dançar algo dentro de mim se acalmou. Ela era um antídoto visual contra a frieza que Martinez tinha deixado em mim.
0
Comente!x

  – O suficiente para já ter tentado me arrastar para o banheiro duas vezes. – Anwar apareceu por trás de nós, sorrindo com aquela tranquilidade debochada. Pediu um drinque e se virou para mim: – Uísque ou cerveja,estrangeiro?
0
Comente!x

  Desde que fui oficialmente apresentado como o namorado de %Anya%, a maioria dos primos, especialmente os com quem mais simpatizei, adotou o apelido.Estrangeiro. Uma piada interna que nasceu rápido, mesmo que, no papel, compartilhássemos a mesma nacionalidade. No início, fiquei na defensiva, mas logo percebi: era um sinal de aceitação. Uma forma de me incluir na intimidade familiar através do humor leve. Numa família com raízes tão profundas e entrelaçadas, aquilo era, de fato, uma honra disfarçada.
0
Comente!x

  – Uísque. – Respondi, levantando o copo, mas, honestamente? Já não prestava mais atenção em nada ao meu redor.
0
Comente!x

  No meio de todas aquelas pessoas dançando, meu olhar só conseguia pousar sobre %Anya%. Para o quadril dela, para ser mais específico.
0
Comente!x

  Aquele pedaço de pele à mostra – entre a borda do sári e o cós da saia – movia-se para a esquerda e para a direita com uma despretensão que beirava o injusto. Como se dançar fosse uma língua materna. E talvez fosse mesmo. Talvez ela tivesse nascido naquela pista, entre primas e tias e luzes de festa. Eu não sabia muito sobre a vida anterior dela.
0
Comente!x

  As pessoas ao meu redor ainda falavam comigo. Alguém perguntou algo sobre o escritório. Dodi, em algum lugar, ria de algo que eu não ouvi direito. Minhas respostas tinham se tornado automáticas. Tudo isso pois estava ocupado demais tentando não perder de vista a imagem que dançava no centro do salão.
0
Comente!x

  %Ananya%, com as bochechas coradas – aquele rosa quente que só aparece depois do segundo drink e da terceira música –, os cabelos soltos balançando conforme ela girava e ria, e o brilho da pele realçado por uma leve camada de suor que refletia as luzes como pequenas estrelas tímidas.
0
Comente!x

  Ela parecia fora do alcance do resto do mundo.
0
Comente!x

  Não no sentido arrogante. Não no sentido "sou rica demais para você. Havia algo hipnotizante na forma como ela se movia. Os quadris descreviam curvas que a música não pedia, mas que combinavam perfeitamente. Me perguntei se eu era o único que estava vendo aquela miragem.
0
Comente!x

  – E então a gente joga uma bomba na quadra de tênis.
0
Comente!x

  – Ou explode as paredes, tanto faz.
0
Comente!x

  As palavras absurdas me tiraram do transe, entrando pelos meus ouvidos como se atravessassem água. Levei alguns segundos até entender que os dois ao meu lado – Anwar e Dodi – estavam falando.
0
Comente!x

  – Vocês vão fazer o quê?! – Perguntei, confuso.
0
Comente!x

  – Você está num nível de distração que dava para confessar um assassinato aqui do seu lado. – Comentou Anwar, balançando a mão na frente do meu rosto.
0
Comente!x

  – Foi mal. – Murmurei, soltando uma risada sem graça. – É que… – Inclinei levemente a cabeça na direção de %Anya%. – Dodi tinha razão.
0
Comente!x

  O gritinho agudo e empolgado de Dodi cortou o salão alto o bastante para fazê-la se virar. %Anya% nos encontrou com o olhar, curiosa, e abriu um sorriso antes de acenar. Nós três erguemos os copos quase ao mesmo tempo, como se fosse ensaiado. Ela riu, balançou a cabeça em negativa e voltou para a dança.
0
Comente!x

  – Se você continuar olhando para minha prima desse jeito, com essa cara de quem vai devorá-la com os olhos, vou acabar tendo que te agredir… – Ameaçou Anwar, o tom traindo o riso que ele mal conseguia segurar.
0
Comente!x

  A suposta ameaça não teve efeito nenhum. Nem se Anwar tivesse me empurrado com força, eu conseguiria desviar o olhar de %Anya%.
0
Comente!x

  E o pior – ou talvez o melhor – foi perceber o momento exato em que aquela imagem deixou de ser apenas presente e se transformou em memória. Ela já tinha ficado daquele jeito diante dos meus olhos antes.
0
Comente!x

  Só que, da última vez, não havia música alta nem festa. Não havia sáris coloridos ou olhares de familiares. Havia apenas o silêncio pesado do escritório dela, depois do expediente, com as luzes da cidade cintilando do lado de fora da janela. No escuro. O rubor no rosto dela não vinha da dança, mas da pressão dos meus lábios contra a pele. O brilho era de suor, sim, mas suor nascido do calor de nossos corpos colados.
0
Comente!x

  Agarrei o copo de uísque com mais força do que o necessário e virei o restante de uma vez só. A memória tinha forma. Tinha o rosto de %Anya%, o rubor marcado na pele, a respiração irregular, os gemidos baixos demais para atravessar paredes, intensos demais para serem esquecidos.
0
Comente!x

  – %Anthony%? – Dodi cutucou meu braço, arrancando-me do transe. – Está com cara de quem viu um fantasma.
0
Comente!x

  – Só pensando em como explodir a quadra de tênis. – Respondi no automático porque %Anya% dançava agora com o corpo voltado para mim, os olhos presos nos meus.
0
Comente!x

  A namoradinha de quem Martinez falara. A herdeira que eu deveria proteger dentro daquela farsa cuidadosamente construída. Naquela lembrança, porém, ela não era nada disso. Não era um papel, nem um sobrenome, nem uma responsabilidade.
0
Comente!x

  Naquela noite, no escuro do escritório, ela tinha sido só minha. Mesmo que por pouco tempo. Mesmo que tivesse sido um erro.
0
Comente!x

– Ժ –

  Exceto pela WDM Corp., eu sempre fui o tipo de cara que se enturmava com facilidade. Festas eram praticamente parte da minha rotina. Na época em que eu namorava Kiara, era raro um fim de semana que não começasse com um convite e só terminasse no domingo à tarde, deixando na boca o gosto de ressaca e na memória histórias absurdas demais para serem repetidas em voz alta.
0
Comente!x

  Eu já tinha visto de tudo. Conhecia cada tipo de bêbado, já tinha passado por festas que mais pareciam surtos coletivos e, em mais de uma ocasião, fui peça-chave – quando não o próprio epicentro – do caos.
0
Comente!x

  Mas naquela noite, naquela ilha até então desconhecida para mim, era diferente. Não havia excessos, nem esforço para que a diversão acontecesse. Só gente que gostava umas das outras, compartilhando o tempo sem pressa.
0
Comente!x

  Perceber aquilo foi… estranho. Porque eu sempre achei que diversão vinha acompanhada de exagero, como álcool, barulho e algum tipo de descontrole controlado. Gente gritando, música estourada, pelo menos uma pessoa chorando no banheiro e outra dormindo no sofá antes da meia-noite. Esse era o meu conceito de uma boa noite. A receita que eu aprendi e que repeti tantas vezes que virou verdade.
0
Comente!x

  Mas ali, sentado num salão de jogos, cercado por gestos simples, algo diferente acontecia. A celebração não precisava de exagero para existir. Ela se construía nos detalhes: nos olhares cúmplices trocados entre primos, nas risadas que surgiam sem esforço, na leveza de quem só queria estar junto. E mesmo sendo o "estrangeiro", eu me sentia incluído.
0
Comente!x

  Após o jantar, o grupo migrou para o salão de jogos e eu, como extensão de %Anya%, fui arrastado junto. O salão era um mundo à parte: menor que o salão de jantar, mas infinitamente mais vivo. O ar, antes carregado de formalidade, agora era descontraído, perfumado pelo couro dos sofás e pelo aroma amadeirado das bebidas no minibar.
0
Comente!x

  A atração óbvia era a mesa de bilhar, um íman para os mais competitivos. Jogos eletrônicos piscavam em um canto, ecoando nostalgias dos anos 80. Ainda assim, para mim, a melhor parte do lugar era a porta externa, mantida completamente aberta, criando uma ligação direta com a praia. O frescor do mar invadia o ambiente e o som distante das ondas quebrando trazia uma tranquilidade inesperada.
0
Comente!x

  Jogar sinuca ali era uma experiência única. Meus pés estavam descalços, enterrados na areia fria que invadia o piso de madeira, enquanto me inclinava sobre o feltro verde. Era o tipo de prazer simples, mas profundo, que eu nunca soube que existia.
0
Comente!x

  Desviei o olhar do grupo que eu conversava e encontrei Nina e %Anya% debruçadas sobre uma mesa, gargalhando. Mesmo com a música tocando, mesmo com o som das ondas se quebrando, mesmo que eu estivesse sentado no sofá da área externa do salão, eu conseguia ouvir as risadas de Nina e %Anya% se cruzando e reverberando pelo local.
0
Comente!x

  Foi no salão de jogos que eu entendi, finalmente, o motivo pelo qual %Ananya% havia pago uma fortuna por minha presença.
0
Comente!x

  Eu não via minha irmã sorrir assim há muito tempo. Nina estava leve, quase irreconhecível em sua tranquilidade. Era visível que ela estava feliz, algo que eu não tinha visto desde a última crise de depressão que a abalou.
0
Comente!x

  Era por isso. Tudo aquilo – os acordos velados, os namoros encenados, as mentiras cuidadosamente costuradas – existia por um motivo único. Nina precisava daquilo. Era como se, por alguns instantes, o tempo tivesse voltado atrás e colocado cada peça em seu lugar. E %Anya% sabia. Sabia que o seu papel era esse: devolver a Nina o reflexo esquecido de si mesma.
0
Comente!x

  Meu copo de uísque ficou suspenso no ar quando Nina, percebendo meu olhar, me acenou com aquele sorriso que eu achara perdido. O mesmo de quando éramos crianças e ela acreditava que o mundo cabia em nossas mãos.
0
Comente!x

  E naquele momento, eu teria feito muito mais que fingir um namoro com %Anya%. Eu faria qualquer coisa para manter aquele sorriso no rosto de Nina.
0
Comente!x

  – %Anthony%, sua vez. – Voltei a dar atenção ao meu grupo, visto que estávamos em uma intensa partida de pôquer desde a hora que chegamos ali.
0
Comente!x

  Eu estava me deleitando tão contente com a visão de Nina e seu riso de animação que até esqueci que o tal do Andreas existia e nós estávamos na mesma mesa jogando cartas.
0
Comente!x

  – Flush. – Joguei as cartas na mesa, encarando o rosto descontente de Andreas.
0
Comente!x

  Que cara ambicioso. Ele ganhou as últimas três rodadas e agora que eu tive um bom conjunto de cartas, ele estava irritado. Era isso ou ele ainda não tinha aceitado que era comigo que %Anya% estava dividindo a cama.
0
Comente!x

  Não estávamos, mas ele não sabia disso e eu jamais o deixaria perceber o contrário.
0
Comente!x

  – Mais uma rodada? – Alguém na mesa perguntou.
0
Comente!x

  – Narguilé? – Outro ofereceu.
0
Comente!x

  Novamente, desviei o olhar para dentro do salão. Podia usar a desculpa de estar observando Nina e sua facilidade de ingerir álcool, mas bem no fundo, eu sabia que estava procurando por %Anya%. Por um momento, o olhar dela encontrou o meu. Ficamos nos fitando por alguns segundos até Nina perceber e puxá-la pelo braço, ambas vindo em nossa direção.
0
Comente!x

  %Ananya% havia trocado de roupa depois do jantar, mas mantivera a maquiagem impecável e as joias ainda reluziam sob a luz do salão. Agora usava uma bata estampada, confortável e casual, que terminava bem acima dos joelhos. Ou seja, %Anya% estava andando para cima e para baixo com as pernas mais visíveis do que o normal.
0
Comente!x

  – Prima! Gostou do meu presentinho? – Um dos rapazes cujo nome não memorizei perguntou assim que %Anya% se aproximou. A taça de vinho branco em suas mãos explicava as bochechas ruborizadas e olhos acentuados.
0
Comente!x

  – Um bom Montrachet. Você nunca erra, Ravi. – Ela levantou a taça em direção a ele, agradecendo.
0
Comente!x

  – Que bom, pois eu trouxe várias garrafas para você. E não pense que eu esqueci de você, ladki. – Apontou para Nina.
0
Comente!x

  – Ei, só eu a chamo de ladki! – %Anya% esbravejou.
0
Comente!x

  – Você me trouxe algo? – Nina perguntou, ocupando o lugar vazio que Andreas deixara com uma naturalidade que quase me irritou.
0
Comente!x

  Bunda-mole. Revirei os olhos mentalmente. Peguei o copo de uísque que descansava no muro baixo, virei o resto de uma vez só. Pela segunda vez naquele dia, minha mão encontrou o braço de %Anya%. Girei-a suavemente e a pousei em meu colo, como se o espaço ali lhe pertencesse por direito.
0
Comente!x

  – Vem cá, deixa eu limpar seu olho. – A mentira saiu fácil. Sua maquiagem estava perfeita, é claro. Mas eu precisava de um pretexto, de um motivo para manter meu rosto perto do dela, para ter uma desculpa para tocá-la.
0
Comente!x

  Ela levantou a cabeça, e ao virar o rosto para mim, o mundo externo – Nina, o salão, a música – desfocou por completo. Estávamos tão próximos que eu podia ver os minúsculos reflexos dourados em seus olhos castanhos, a textura quase imperceptível do pó iluminador em suas maçãs. Podia contar seus cílios.
0
Comente!x

  – Conseguiu? – Ela murmurou, a voz um fio de som só para mim. Inclinou a cabeça num ângulo que expôs ainda mais a linha suave de sua mandíbula para mim.
0
Comente!x

  – O quê?
0
Comente!x

  – Meu rosto. Você disse que estava sujo. Está? – Ela passou os dedos levemente sob o olho, sua busca por uma sujeira inexistente era quase uma provocação inconsciente.
0
Comente!x

  – Não.
0
Comente!x

  Seus olhos se estreitaram, não com irritação, mas com uma compreensão lenta e perigosa. Um pequeno sorriso começou a tocar os cantos de sua boca. – E por que você...? – Ela revirou os olhos, vendo minha expressão suspeita. – Há-há, engraçadinho.
0
Comente!x

  Em seguida, ajeitou-se melhor no meu colo, com a naturalidade de quem se senta sempre ali, cruzando as pernas como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo. Minha mão ainda repousava em sua cintura, indecisa entre manter o contato ou recuar.
0
Comente!x

  – Seus pais não ligam? – Murmurei, me aproximando um pouco mais, enquanto apontava discretamente para o narguilé, que poderia ser malvisto em muitos lugares.
0
Comente!x

  – Eles odeiam, mas já perderam a guerra.
0
Comente!x

  Dei uma olhada rápida ao redor e notei que pelo menos quatro dos seis grupos ali tinham narguilés espalhados por perto. O número já era o suficiente para torná-los praticamente imbatíveis, se é que alguém ainda estava tentando.
0
Comente!x

  – E você usa?
0
Comente!x

  Com meu passado – bem, nem tão distante assim –, eu não tinha muito direito de julgar alguém por fumar em um narguilé (ou “hookah”, como chamavam lá), quando, se eu fosse ser honesto, fazia coisas bem mais questionáveis alguns meses atrás. Então, pensei que talvez %Anya% fosse mais radical, mas... quem sabe?
0
Comente!x

  – Já, mas não sou exatamente fã de todas as essências. – Ela deu de ombros, como se fosse uma coisa totalmente normal. – O Ravi sempre traz umas novidades e acabo experimentando, mas não sou tão viciada quanto o resto deles. E, além disso, percebo uma certa dificuldade na academia depois que fumo demais.
0
Comente!x

  – Academia?
0
Comente!x

  – É, montei uma em casa. Tenho tentado manter a rotina de treino, sabe como é... – Ela parecia relaxada ao falar disso, mas logo percebi que estava me distraindo com os detalhes que, bem... não eram exatamente sobre academia. Eu recuei um pouco, como se estivesse “fazendo um levantamento” visual de sua resposta. Não que eu precisasse disso. Conhecia bem o corpo de %Anya%, mas às vezes não fazia mal reforçar a imagem. – Ei! – %Anya% me interrompeu com um soco de brincadeira nos meus ombros, que me fez rir.
0
Comente!x

  Logo, todos estavam acomodados na mesma mesa grande, compartilhando copos, conversas e histórias. Era um ambiente tão descontraído que eu me senti aliviado. Eu podia ser apenas o %Anthony% de vinte e tantos anos, rindo das piadas bobas de Anwar e Dodi, que estavam flertando descaradamente um com o outro. Eu não precisava ser o %Anthony% advogado, aquele que finge o tempo inteiro. Estava, de alguma forma, me permitindo ser eu mesmo.
0
Comente!x

  Era irônico, na verdade. Afinal, o propósito do meu final de semana era, exatamente, o oposto disso: um grande fingimento.
0
Comente!x

  – E aí? Como está sendo a noite como “primeiro–damo”? Ou primeiro–cavalheiro, como preferir. – Olhei para trás, procurando pela dona da voz brincalhona.
0
Comente!x

  Minha irmã sempre teve uma péssima tolerância para álcool. Basta um gole de espumante e ela já está rindo de coisa que não tem graça. Dois goles, já está contando segredo. Três, já está no colo de alguém prometendo amizade eterna.
0
Comente!x

  Mas, pelo visto, ela tinha encontrado alguém tão fraco para bebida quanto ela.
0
Comente!x

  Andreas estava completamente bêbado.
0
Comente!x

  – Melhor do que eu imaginei.
0
Comente!x

  – Você provou o uísque envelhecido do tio Kapur? – Andreas questionou e, por pouco, eu não entendi o que a língua dele enrolava. Assenti, confirmando. – E não está bêbado?! – Exclamou alto.
0
Comente!x

  – Ok, senhor. Por que não vai beber uma água? – Nina o guiou até o bar enquanto nós riamos dos passos trôpegos do rapaz. – Isso que dá beber de barriga vazia. – Comentou.
0
Comente!x

  – Por falar nisso, não vi vocês no jantar hoje.
0
Comente!x

  – Ah, não fomos. Não me senti confortável em ir por conta de... – Ela apontou para si e Andreas, que estavam com a cabeça apoiada no balcão do minibar e se levantou quase imediatamente. – Aqui é diferente. Ninguém liga para o que aconteceu, ninguém liga se ele é ex de %Anya% ou não, especialmente com você aqui. Mas lá, no salão, com todos os...
0
Comente!x

  – Tios! São terríveis. Aquele bando de velhos ricos e fofoqueiros, que adoram colocar o nariz onde não são chamados. – Andreas interrompeu, falando alto.
0
Comente!x

  Não contive a risada e tentei me colocar mais próximo a ele, para que ninguém ouvisse ele proferindo xingamentos com os mais velhos, especialmente se seus filhos estivessem no mesmo local que nós. Nina foi mais incisiva e apertou a mão contra a boca do cara, que ainda xingava sem parar. Ainda rindo, enfiamos mais alguns mls de água goela abaixo do Andreas e voltamos a roda onde %Anya% estava.
0
Comente!x

  Ela narrava a história com um entusiasmo contagiante, como se, por alguns instantes, fosse outra pessoa. O álcool parecia ter dissolvido a timidez que normalmente a envolvia, revelando alguém expansiva. Gesticulava, ria alto, prendia a atenção de todos com uma facilidade que eu nunca tinha visto nela. Sóbria, ela jamais teria atraído a atenção de todos para si para contar uma história.
0
Comente!x

  Olhei ao redor, tentando encontrar uma cadeira livre. Senti %Anya% pegar em minha mão, mantendo-me no lugar quando percebeu que eu procurava uma cadeira livre. Sem desviar o olhar dos amigos ou perder o fio da meada da história, ela levantou e gentilmente me colocou sentado no lugar onde ela estava e, em seguida, se sentou em minhas coxas novamente. Coloquei as mãos em sua cintura, ajeitando seu quadril sobre mim, com um esforço quase sobre-humano para que eu não focasse no jeito que suas nádegas estavam completamente coladas em...mim.
0
Comente!x

  Fiz um esforço consciente para me desconectar das vozes ao redor, do som ambiente, das distrações e me concentrar apenas nela. E deu certo. Enquanto %Anya% falava, animada, sobre as trapalhadas dos aniversários anteriores naquele mesmo lugar, sua voz ia ganhando uma textura diferente para mim.
0
Comente!x

  Foi aí que fui tomado por uma pontada incômoda de arrependimento. Um ressentimento silencioso, pois ali sentado ao lado dela, ouvindo e rindo, me dei conta de que queria tê-la conhecido antes.
0
Comente!x

  A verdade é que fui eu quem construiu aquela barreira invisível entre nós. Primeiro, por conta do sobrenome dela. Cresci com a ideia de que pessoas como %Ananya% %Bhasin% viviam em uma realidade inalcançável. Depois veio a Kiara e sua guerra silenciosa com a prima, como se fosse meu dever permanecer leal a um campo que nem era realmente meu.
0
Comente!x

  Acabei erguendo barreiras onde, na verdade, nunca houve nada que impedisse o caminho. Ainda assim, ao ver %Anya% tão próxima – tão acessível, tão… real – algo dentro de mim sussurrava, hesitante, se ainda havia tempo de realmente conhecê-la.
0
Comente!x

Capítulo 8
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Todos os comentários (1)
×

Comentários

×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x