Capítulo 10 • %Ananya%
– Quanto tempo mais conseguimos enrolar? – Murmurei, bocejando.
– Uns trinta minutos, talvez.
– Quarenta?
– Se você quiser Adit batendo na porta feito um carcereiro, talvez.
– Trinta e cinco.
– Quinze. Depois disso, você encara seu destino e eu, o seu pai.
– Você é obcecado por ele.
– O cara dirige igual piloto de Fórmula 1, %Anya%. Em estrada de terra. Claro que sou obcecado.
– Ant?
– Hm?
– Por que tem uma pessoa dormindo na cama com a gente?
Acordei com a sensação de que alguém tinha usado minha cabeça como tambor durante a noite inteira. A ressaca estava instalada antes mesmo de eu abrir os olhos, meu corpo inteiro doía como se eu tivesse dormido sobre uma camada de pedras e eu já tinha bebido quase um litro de água antes mesmo de conseguir abrir os olhos.
%Anthony% estava encaixado atrás de mim, um braço envolvendo minha cintura e eu sentia a respiração quente dele contra a minha nuca. Estávamos espremidos em uma ponta da cama king-size enquanto mais da metade do colchão estava ocupado por uma silhueta desfalecida, de bruços, com um braço pendurado para fora e a respiração pesada.
Ethan.
A porra do Ethan estava dormindo na minha cama.
– Ele... ele veio com a gente? – Franzi o cenho.
%Anthony% apoiou o queixo no meu ombro. O calor do corpo dele encostando no meu fez minha cabeça latejar um pouco mais. Talvez fosse só a ressaca. Talvez fosse o sono. Ou talvez fosse... outra coisa. Mas eu estava cansada demais para tentar descobrir qual das opções era a certa.
– Eu deixei ele ficar.
– Por que você deixou isso acontecer, %Anthony%?
Fechei os olhos, tentando reconstruir a noite na minha cabeça.
– A garota com quem ele estava sumiu com o Anwar, e ele quis “resolver as coisas”. Estava bêbado, puto e prestes a apanhar dos seus primos. Meu quarto estava ocupado por uma mesa de pôquer clandestina, enquanto você tinha me informado, com bastante convicção, que ia dormir com a Nina.
É, eu tinha dito aquilo. O problema era que Nina havia desaparecido com Andreas em algum momento da noite.
– Eu tinha esquecido disso. – Admiti.
– Eu também não estava exatamente no auge da minha sobriedade. Então, considerando todas as circunstâncias, acho que fiz o melhor que pude: impedir que seis dos seus primos transformassem o cara em saco de pancadas e deixar ele dormir no corredor. – Ele fez uma pausa e coçou a nuca. – Além disso, a última coisa que eu queria era ser promovido a corno da temporada diante da sua família inteira. Já não basta Andreas ser conhecido aqui por...ter feito um combo com a minha namorada e a minha irmã?
Dei risada, coçando meus olhos, sentindo o resto da maquiagem se acumulando nos meus dedos.
– Então deixa eu ver se entendi. Você estava preocupado em não ser feito de idiota pela minha família....e a solução que encontrou foi colocar um homem bêbado no meu quarto?
– Não. A solução foi colocar um homem bêbado para dormir no chão e vir dormir com a minha namorada. – Ele apertou um pouco mais os braços ao redor da minha cintura.
– Então por que ele está na cama?
– Porque você teve pena dele.
– Eu? Eu não faria isso.
– %Anya%, você quase chorou quando viu ele dormindo no chão.
Revirei os olhos e voltei a encarar Ethan. Ele continuava imóvel, completamente inconsciente do fato de estar dormindo na mesma cama que eu e %Anthony%.
Havia um motivo para eu só beber daquele jeito uma vez por ano. E, como acontecia depois de cada uma dessas ocasiões, eu renovava solenemente a promessa de nunca mais repetir a dose.
Fechei os olhos e tentei catar os pedaços da noite anterior e organizar dentro da minha cabeça.
Música alta. A gargalhada da Nina. Meus primos me incentivando a fazer escolhas questionáveis. Um copo com alguma coisa vermelha, doce o suficiente para enganar qualquer pessoa minimamente inteligente. Depois disso... %Anthony%. A lembrança do beijo voltou inteira, sem pedir licença.
O que aconteceu depois? Eu tinha falado alguma besteira? Tinha feito alguma besteira? Ou... Até onde nós tínhamos ido?
Aquilo me deixou inquieta. Não porque eu necessariamente me arrependesse do que pudesse ter acontecido. Era justamente o contrário. Se alguma coisa tinha acontecido entre mim e %Anthony%, eu queria lembrar. Queria saber o que tinha dito, como tinha começado e entender como tínhamos terminado na cama juntos.
– Ant? – Murmurei. Senti que ele deu um pequeno susto, como se tivesse dormido de novo. – A gente...?
– O quê?
– Você sabe.
Ele ficou em silêncio por um instante que durou uma eternidade. Senti ele suspirar contra o meu cabelo e suspirei junto.
– Não. A gente não fez nada.
– Tem certeza?
A verdade é que minha preocupação não era exatamente a possibilidade de ter acontecido alguma coisa entre nós. Era a possibilidade de ter acontecido e eu não me lembrar. Se aquele momento finalmente tivesse chegado – de novo –, eu queria estar inteira. Queria lembrar, não reconstruir na manhã seguinte por migalhas de conversa, pela versão dele dos fatos.
– Bom... A gente não fez nada. – %Anthony% repetiu, mais baixo ainda, quase num sussurro contra a minha nuca. – Mas quase. Você quis. Eu quis. E aí você dormiu.
– Não. – Duvidei.
– Sim.
– Não existe a possibilidade de você estar inventando isso só para me humilhar? – Virei o rosto o suficiente para encará-lo, com os olhos semicerrados.
Ele sorriu daquele jeito convencido que dava vontade de empurrá-lo da cama.
– Foi o fora mais educado que já levei na vida. – A risada dele veio baixa, quente contra a minha nuca. – Você apagou. No meio. E eu fiquei aqui, olhando para o teto, me perguntando se eu beijava tão mal assim ou se você só estava muito cansada.
Fechei os olhos, envergonhada. Era tão absurdo que quase era cômico.
– Eu dormi no meio de um beijo, tem um homem bêbado ocupando a minha cama e existe uma chance muito real de meu pai bater nessa porta nos próximos quinze minutos. – Levei as duas mãos ao rosto. Se existisse um prêmio internacional para situações constrangedoras, eu acabara de garantir uma indicação fortíssima. – No meio de um beijo?
– Você parou, disse "estou com sono", e apagou. Foi tão repentino que eu achei que tivesse te dado um mata-leão sem querer.
Fiquei em silêncio, tentando organizar aquilo com qualquer nível mínimo de dignidade. Era uma cena tão absurda que eu nem sabia por onde começar.
– É por isso que eu não bebo... – Murmurei.
Demoramos um tempo para sair da cama. Não porque eu quisesse ficar – eu queria fugir – mas porque meu corpo ainda estava processando a noite anterior em câmera lenta e cada movimento exigia uma negociação com a ressaca.
%Anthony% se levantou primeiro. Com um gemido preguiçoso que parecia sair diretamente dos ossos dele, esticou os braços para cima, os músculos das costas se alongando. Foi quando ele começou a procurar a camisa pelo chão que eu reparei que ele estava sem ela. O tecido azul-marinho estava amassado perto da janela, a cinco passos da cama, como se tivesse sido arremessado com algum propósito.
Maldita ressaca. Maldito uísque. Maldita noite que eu não lembrava e que, aparentemente, tinha sido muito mais movimentada do que eu pensava.
Ele se inclinou, pegou a camisa pelo ombro, sacudiu uma vez – como se isso fosse desamassar alguma coisa – e enfiou a cabeça na gola.
– Temos o passeio de barco com sua família. – Disse, a voz abafada pelo tecido um segundo antes de a cabeça dele aparecer. – E, por favor, vê se esse cidadão acorda antes que alguém do hotel ache que você montou um harém acidental.
O "cidadão" em questão roncou em resposta, virado de bruços na minha cama, o rosto enterrado no travesseiro como se estivesse se afogando em linho branco.
– Harém acidental. – Repeti, com a voz seca. – É exatamente o que eu sempre sonhei para minha reputação.
%Anthony% riu, baixo, e passou a mão pelos cabelos tentando domá-los. Olhei para Ethan, que continuava estirado na cama.
– Ethan? – Chamei, baixinho. – Ethan. – Nem um movimento dele. Merda, já estávamos atrasados. Meu pai ia me matar. Minha mãe ia dizer que não tinha problema nenhum, sorrir daquele jeito educado e depois passar o resto do dia me lembrando, sem dizer uma palavra, de que eu era uma decepção logística. – ETHAN!
Ethan acordou como se tivesse levado um choque, sentando de uma vez, ofegante, o olhar correndo pelo quarto numa velocidade desesperada.
– Que porra... – Passou a mão no rosto, ainda tentando fazer o cérebro acompanhar a realidade. Ele olhou para mim e depois para %Anthony% e voltou para mim. – Ah, não... – Meu estômago despencou quando vi a feição dele. – A gente...
– Ethan! – Cortei, a voz aguda de pânico, tão alta que até %Anthony% levantou uma sobrancelha. – Não. Não foi nada disso.
– A gente...
– Não! – Ele ficou alguns segundos me encarando, claramente tentando montar a sequência dos acontecimentos. Pela expressão dele, fazia muito mais sentido acreditar que tínhamos dormido juntos do que aceitar qualquer outra explicação. E, bom, considerando que a um ano atras aquilo tinha mesmo acontecido... – Faz um enorme favor para todos nós e vai embora antes que meu pai resolva entrar aqui e antes que eu me afunde de vergonha na frente do meu namorado... eu agradeço.
– Tá. Tá bom. – Ethan assentiu várias vezes, ainda desnorteado. Ele levantou da cama quase tropeçando nos próprios pés e com os olhos ainda sem foco.
Quando passou por %Anthony%, diminuiu o passo. Lançou um olhar cauteloso para ele como quem esperava, a qualquer segundo, levar um soco perfeitamente justificável por ter acordado sem camisa na cama da namorada de outro cara. %Anthony% não fez absolutamente nada, só abriu um pouco mais o caminho. Ethan murmurou um "foi mal" quase inaudível e desapareceu pelo corredor. Esperei a porta fechar e olhei para %Anthony%.
– Eu vou guardar esse momento. – Ele disse, apoiando o ombro no batente, os braços cruzados. – "Meu namorado."
– Foi retórica. – Respondi, tentando ignorar o calor que subia pelas minhas bochechas e se espalhava pelo pescoço. – Estratégia de sobrevivência.
– Só estou dizendo... – Ele inclinou a cabeça, fingindo considerar a possibilidade. – "Meu namorado" é um termo bem específico para uma estratégia de sobrevivência.
– %Anthony%...
– Você podia ter dito "o homem que eu contratei para me acompanhar em eventos sociais” ou “meu sugar baby”.
– %Anthony%. – Choraminguei, quase implorando para que ele tivesse piedade.
Ele riu baixo. Aquele tipo de risada que parecia aquecer o espaço entre nós e, por algum motivo irritante, ficava ecoando na minha cabeça muito depois de ele parar.
– Vamos lá, %Bhasin%. Tem um barco esperando por nós. E seu pai já deve estar ensaiando o discurso sobre pontualidade e responsabilidade. – Ele abriu a porta e fez um gesto para que eu saísse. – Então finge que você não passou a última hora tendo um colapso existencial com dois homens na sua cama.
– Ժ –
A única vantagem do passeio matinal era que só compareciam os que não estavam mortos de ressaca. Meus tios, alguns primos mais velhos e os amigos dos meus pais. Gente que, aparentemente, acordava cedo por puro prazer de ver o sol nascer ou que tinha descoberto como beber sem passar o dia seguinte desejando a própria morte.
Nós quatro – eu, %Anthony%, Nina e Andreas – não fazíamos parte dessa categoria. Estávamos no auge da ressaca, com olheiras profundas e a dignidade deixada em algum lugar da festa da noite anterior. Para ser sincera, ainda me sentia meio bêbada. O mundo balançava num ritmo diferente do mar e meu estômago parecia ter decidido acompanhar os dois.
Arrumei os óculos escuros no rosto (minha proteção contra a luz, contra os olhares, contra as perguntas, contra tudo que exigisse que eu parecesse uma pessoa funcional) enquanto fugia do olhar de minha mãe. Ela me olhou por um segundo, depois desviou o olhar. Suficiente para eu saber que ela já tinha notado cada detalhe em mim.
Cumprimentei algumas pessoas com sorrisos automáticos. Nina e Andreas já tinham se refugiado do outro lado do barco, encostados na borda, fingindo interesse profundo em algo no horizonte. Convenientemente ocupados demais para cumprimentos sociais. Covardes. Traidores. %Anthony%, ao meu lado, não se refugiou. A mão dele roçou a minha suavemente.
– Tá bem? – Ele perguntou, baixo.
– Perfeita. – Menti.
– %Anya%.
A voz da minha mãe cortou o ar como uma tesoura.
Ela vinha na minha direção impecável, como sempre. O sári branco de linho parecia ter sido escolhido só para deixar ainda mais evidente que, enquanto eu parecia ter dormido dentro de um carro, ela parecia ter acabado de sair de um editorial de revista.
– Maa.
Por um instante, achei que ela fosse me abraçar. Em vez disso, ela estendeu a mão e ajeitou uma mecha do meu cabelo que tinha escapado atrás da minha orelha. O gesto que me arrepiava sempre.
– Seu cabelo está horrível.
Fechei os olhos por um segundo. Contei até três. Respirei fundo.
– Bom dia para você também.
Ela ignorou. Como se eu não tivesse falado.
Virou-se para %Anthony% e, como se tivesse acabado de trocar de personalidade, abriu um sorriso. Não era um sorriso falso, exatamente – era um sorriso de ocasião, daqueles que ela guardava para encontros sociais, para pessoas que mereciam ser tratadas com educação.
– %Anthony%, querido. – Ergueu a mão num cumprimento breve.
– Bom dia, Anjali. – %Anthony% sorriu e assentiu.
O sorriso educado desapareceu assim que ela voltou a atenção para mim.
– Você dormiu? – Perguntou.
– Sim.
– Você comeu?
– Sim.
– Alguma coisa que não fosse álcool? – Debochou. %Anthony% tossiu ao meu lado, segurando um riso. – E você... – O olhar dela subiu e desceu por ele. – Você parece mais cansado do que ela.
– Tive uma noite longa. – A resposta dele foi tão calma que eu senti uma pontada de inveja.
%Anthony% não tinha sido criado pelas críticas de Anjali %Bhasin%. Não tinha passado a vida aprendendo a medir cada gesto, cada palavra, cada escolha antes de fazê-los. Para ele, minha mãe era só uma mulher elegante com perguntas inconvenientes. Para mim, ela era o juiz que nunca dormia.
– Imagino. – Anjali voltou a atenção para mim como se %Anthony% tivesse deixado de existir no exato segundo em que terminou de falar. – Ouvimos alguns gritos durante a madrugada. E, quando fui pedir para diminuírem a música, tive a impressão de ver um casal se agarrando na areia.
Meu coração deu uma pequena cambalhota.
– Um casal?
– Uma moça particularmente parecida com você.
%Anthony% tossiu. Dessa vez, nem tentou disfarçar. Também senti o calor subir pelo pescoço. Não foi o sol, foi a lembrança da sensação de ter passado boa parte da noite me agarrando a %Anthony% como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Peguei um copo de água da bandeja de um garçom que passava – o homem apareceu no momento exato, como se tivesse sido treinado para intervir em emergências familiares – e tomei um gole longo antes de responder.
– Está dizendo que todas nós, indianas, somos parecidas, Mãe? – Perguntei, fingindo a maior indignação que consegui reunir. – Isso foi extremamente racista da sua parte.
– %Anya%. – Ela disse meu nome com aquele tom que significava ‘não tente’. Aquele tom que eu ouvia desde criança, sempre que eu tentava desviar de uma conversa com humor.
– Posso ter sido eu. Posso não ter sido. O universo nunca vai saber. – Dei de ombros, um gesto que eu esperava que parecesse casual.
– Conveniente. – Ela suspirou, cruzando os braços. – Quero vocês dois longe da água se estiverem bêbados demais para se equilibrar. E ninguém vomitando no convés.
– Sou uma dama, Maa.
– Vai sentar – Ela disse. – O sol está forte. – Ela ajeitou os próprios óculos e começou a se afastar. – E come alguma coisa leve antes do almoço. Você está com a pele amarelada.
Ela me olhou por mais um segundo. Depois, o rosto dela suavizou e deu um tapinha no meu ombro e depois arrumou a alça do meu vestido. Anjali cuidava corrigindo alguma coisa no caminho, como se o amor precisasse sempre vir acompanhado de uma nota de rodapé com recomendações de melhoria.
Eu nunca duvidei do amor da minha mãe. Só passei boa parte da vida tentando entender por que, nas mãos dela, o amor sempre vinha com uma lista de coisas que eu ainda precisava consertar.
Uma hora depois, o brunch tinha terminado e agora o barco começava a desacelerar junto com o resto da família. Alguns tinham voltado para os quartos. Outros estavam espalhados pelo convés, aproveitando o sol que finalmente aparecera depois da chuva da madrugada.
Depois de alguns minutos ouvindo vozes, risadas e música demais para uma cabeça em estado de ressaca, resolvi fugir e fui até a proa.
– E aí, gata. – Olhei para trás, sobressaltada.
Nina estava largada em uma espreguiçadeira a poucos metros dali, tão destruída quanto eu. Os óculos escuros cobriam metade do rosto, uma garrafa de água estava presa entre as duas mãos e a expressão dela era a de alguém que tinha sobrevivido a uma catástrofe natural.
– Gatona! – Fui até ela e me joguei na espreguiçadeira ao lado. – Você está viva.
– Você não está exatamente em posição de me julgar. – Ergueu a garrafa e apontou para mim com ela. – Eu vi você andando. Seus órgãos pareciam estar tentando pedir demissão.
Soltei uma risada que imediatamente se transformou em uma careta.
– Fazer o quê? Foi mais uma edição histórica do Anyapalloza. – Apertei os olhos atrás dos óculos. Nina riu baixinho, um som rouco que rapidamente se transformou em um gemido.
– Não me faz rir. Vai doer.
– Você está bem?
– Definição de "bem" tá meio elástica hoje. – Ela suspirou. – Você lembra do que aconteceu ontem?
– Qual parte?
– Da cena com o Andreas. – Meu sorriso desapareceu e isso foi resposta o suficiente para ela. – A gente brigou depois. Ele ficou estranho depois que viu o Ethan. Acho que ele ainda não superou tudo isso, %Anya%.
Suspirei e esfreguei o rosto com as duas mãos. Por um momento, eu quis voltar para o quarto, me enfiar debaixo das cobertas e fingir que o mundo não existia.
– Nina, ontem não foi sobre mim. Você sabe disso. Ele viu o Ethan, juntou um mais um e... pronto. Foi ego ferido.
– Você contou para ele que era o Ethan? Na época?
O lance com o Ethan tinha sido um completo acidente de percurso. Eu e Andreas tínhamos acabado de terminar e eu estava magoada, assustada com a ideia de que aquele término pudesse significar uma espécie de sentença de solteirice eterna. Meus pais também não ajudavam. Continuavam insistindo em manter a proximidade com a família do Andreas, como se nosso término fosse apenas um detalhe inconveniente.
Então eu estava triste, bêbada, carente e cansada de me sentir presa.
E o Ethan estava ali.
O que aconteceu entre nós foi impulsivo, confuso e uma decisão bastante estúpida. Não significou nada. Pelo menos, não no sentido que o Andreas provavelmente tinha imaginado. Não foi amor. Não foi desejo. Não foi sequer vingança. Foi apenas... desespero.
– Não. Eu só disse que tinha ficado com um colega do trabalho. – A minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. – Mas o Andreas sempre implicou com o Ethan, antes mesmo da gente terminar. Deve ter ligado os pontos.
– E você acha que ele ficou com ciúme?
– Acho que ficou com o orgulho machucado. É diferente.
Nina permaneceu em silêncio por alguns segundos, parecia estar processando.
– Você acha que ele ainda te ama?
– Não. – Respondi sem hesitação.
Andreas não me amava mais e eu não amava ele (sinceramente, acho que nunca amei). O que sobrava entre nós não era amor, era apenas uma história mal resolvida que aparecia nos momentos mais inconvenientes.
– Às vezes eu não sei o que fazer. Quando estamos só nós dois, é tão fácil. Ele é meu namorado. Eu sou a namorada dele. Parece ridiculamente simples. – Ela deu um sorriso triste. – Aí acontece uma coisa como a de ontem... E meu cérebro resolve estragar tudo. E eu sei que é ridículo. – Ela soltou uma risada fraca. – Acho que a gente devia falar mais sobre isso.
– Sobre o quê, exatamente?
– Sobre como é namorar o ex da sua melhor amiga.
– É um grupo de apoio bem específico. – Dei risada, acolhendo o braço dela que se enrolou no meu.
– Provavelmente somos as únicas duas pessoas qualificadas para participar. – Concordou, rindo também.
Ficamos em silêncio mais um pouco, não precisávamos de mais palavras naquele momento, só da certeza de que, não importa o que acontecesse – Andreas, %Anthony%, famílias, passados – a gente ainda tinha uma à outra.
– Não estou dizendo essas coisas para você se sentir culpada, ok? – Assegurou, brincando com os anéis em meus dedos. – Só... é uma coisa que às vezes passa pela minha cabeça. – Nina levantou a cabeça do meu ombro por um instante, os olhos fixos em mim. – Você não sentiu nada quando soube que a gente tinha começado a ficar?
– Eu senti alívio. – Respondi e ela riu. – Alívio por ele estar com alguém que eu sabia que conhecia ele de verdade. E alívio por você estar com alguém que... bom, que não era um idiota completo.
– Ele é meio idiota às vezes. – Ela deu de ombros.
– Todos são.
– Eu gosto dele. – Nina respirou fundo e voltou a apoiar a cabeça no meu ombro. O vento bagunçou o cabelo dela e eu senti o cheiro do xampu que ela usava desde o colégio, sorri. – Só que... – Nina fez uma careta e escondeu o rosto no meu ombro. – Ele é seu ex.
A risada escapou de mim antes que eu pudesse segurar.
– Você ainda está choramingando por causa disso? Pensei que já éramos bem resolvidas quanto a isso.
– Não estou choramingando.
Ri outra vez e apertei o braço ao redor dela. Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando o mar.
– Você nunca se arrependeu? – Perguntei, ela me olhou confusa. – De namorar o Andreas.
– Todos os dias, quando lembro que ele é seu ex. – Ela riu. – Que tipo de amiga eu sou? Isso já seria suficiente para deixar qualquer pessoa minimamente funcional desconfortável.
– Nós nunca fomos exatamente o exemplo de funcionalidade.
– Não, sério. – Ela sorriu, dessa vez sem brincadeira. – Porque, por mais que a gente faça piada sobre isso, eu sei que poderia ter sido muito diferente. Essa foi a parte mais estranha de todas. Eu estava me apaixonando por alguém que você tinha amado... e você estava genuinamente feliz por mim. Nunca reclamou, nem me fez escolher.
– Então por que ainda carrega essa culpa?
– Porque eu amo vocês dois. – Aquilo me desarmou. Não tinha como responder a isso com uma piada. Não tinha como desviar. – Você é minha melhor amiga. Ele é o cara que eu amo. Às vezes parece que eu estou sempre devendo alguma coisa para alguém. Só quero que você saiba que, se algum dia alguma coisa ficar estranha entre nós por causa disso, você pode me falar.
– Nina...
– Eu estou falando sério. Não quero que você fique tentando me poupar porque acha que precisa.
– Eu não faço isso.
– Você sempre faz isso! – Ela rolou os olhos, rindo levemente. – Eu sei que a minha depressão foi assustadora para você, mas eu não sou tão frágil assim. Você não precisa ficar escolhendo as palavras certas o tempo todo comigo. – Ela continuou. – Nem esconder coisas porque acha que eu não vou saber lidar.
Baixei os olhos para minhas mãos. Era exatamente isso que eu e %Anthony% estávamos fazendo com ela.
– Eu só tento não piorar as coisas.
– Eu sei, %Anya%. Mas às vezes, tentando não piorar as coisas, você acaba decidindo por mim o que eu consigo suportar. – Não respondi, porque, dessa vez, ela tinha acertado. Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando o mar. – Você gostava dele? De verdade?
Ri outra vez e apertei o braço ao redor dela. Eu sabia que ela não ia deixar aquele assunto morrer tão facilmente. Nina tinha esse talento irritante de perceber quando eu estava tentando encerrar uma conversa.
– Às vezes penso que não, sabe? Olho para trás e não sei se era amor ou se era só... hábito. Ele era o que minha mãe queria que eu namorasse. Eu era o que a família dele esperava. Mas no fundo, acho que nunca tivemos uma conversa de verdade. Nunca nos perguntamos se a gente queria aquilo. A gente só fazia porque era esperado. – Balancei a cabeça de novo. – Você sabe, como nossas famílias torciam muito para essa transação comercial acontecer.
– A grande transação comercial dos %Bhasin% e dos Buppha. – Nina soltou uma risada baixa. Apertou a garrafa entre as mãos e ficou alguns segundos encarando a água. – E você acha que... ele gosta de mim?
– Nina... você quer que eu te convença de alguma coisa? Porque eu não vou fazer isso.
Ela desviou o olhar por um instante. Depois voltou a me encarar.
– Você é uma pessoa muito sábia de ressaca. – Ela disse, por fim.
– É o efeito colateral da desidratação.
Ela riu e eu ri junto. O barco balançou suavemente sob nós. O vento trouxe o cheiro salgado do mar, e, por alguns segundos, foi fácil fingir que aquela conversa tinha resolvido alguma coisa. Eu quase esqueci que tinha um segredo deitado entre nós como uma pedra no fundo do mar.
– %Anya%?
– Hm?
– Se eu terminar com ele, você vai ficar do meu lado?
– Nina, eu fico do seu lado em qualquer circunstância. Mesmo que você decida ficar com ele. Mesmo que você decida mudar de nome e ir viver no interior da Tailândia. Eu vou estar aqui.
Ela riu de novo e eu senti o corpo dela relaxar contra o meu, como se aquelas palavras tivessem dissolvido alguma tensão nela.
– Você é a melhor amiga que alguém poderia ter. – Ela apertou meu braço. – E, só para deixar registrado... eu gosto de você e do Andreas juntos. Como pessoas que conseguiram sobreviver ao término sem destruir a amizade. Mas gosto ainda mais de você e do %Anthony%. – Ela fez uma pausa, me olhando. – Não estou dizendo que me mata de felicidade você ter se envolvido com meu irmãozinho. – Ela riu, ainda sem perceber meu desconforto. – Só estou dizendo que ontem, pela primeira vez, eu olhei para vocês dois e pensei: “ah”.
– “Ah”?
– Quando eu vi vocês dois na festa... rindo de alguma coisa que só vocês entendiam... eu pensei... – Ela sorriu de canto. – É assim que parece quando duas pessoas se escolhem.
Escolhem.
A palavra bateu em mim com uma força desproporcional. Porque Nina enxergava uma escolha, eu enxergava um contrato.
– Nina, eu...
– Não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse que eu vejo. E que fico feliz por vocês dois. – Assenti, incapaz de responder.
Por um instante, imaginei como seria se eu contasse para Nina. A vontade veio tão forte que chegou a doer. Eu podia contar sobre o acordo, podia dizer que tudo havia condições, prazo, um fim previsto desde o primeiro dia. Podia dizer que %Anthony% nunca aceitou ser meu namorado, aceitou um trabalho. Que a história que Nina enxergava com tanta facilidade tinha nascido de uma mentira.
Mas a verdade não era só minha. O acordo envolvia %Anthony% muito antes de envolver a mim. O motivo que o levou a aceitar aquele dinheiro era dele e, por mais que aquela mentira estivesse pesando na minha consciência, eu não tinha o direito de arrancar o segredo das mãos dele para aliviar as minhas.
Eu conhecia apenas uma parte da história. Sabia que existia um motivo e que %Anthony% carregava um peso grande o suficiente para aceitar um dinheiro que claramente o incomodava, mas sendo completamente consciente de que eu não conhecia toda a verdade. E justamente por isso, não tinha o direito de contá-la.
E eu sabia que, se eu dissesse aquilo em voz alta, a Nina nunca mais olharia para nós da mesma forma. Ela ia ver %Anthony% como alguém que aceitou dinheiro. Ia me ver como alguém que comprou companhia. E pensar nisso me deixava ansiosa, só de pensar em ter Nina me vendo de outra forma senão como sua melhor amiga.
Nina apertou meu braço mais uma vez e apoiou a cabeça no meu ombro. Fechei os olhos, suspirando.
No horizonte, a água brilhava sob o sol. Linda e silenciosa, escondendo sabe-se lá quantas coisas sob a superfície.
Eu conhecia bem aquela sensação.