Efeito Colateral


Escrita porJuliana M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 7 • %Ananya%

  Depois de uma viagem inteira atravessada por tensão, desconforto e pensamentos que eu preferia não revisitar, tudo o que eu queria era uma cama. Cheguei a cogitar desfazer as malas, mas a ideia evaporou no instante em que vi os travesseiros alinhados como se tivessem sido posicionados especificamente para me convencer a desistir da vida social.
0
Comente!x

  Troquei de roupa no piloto automático, vesti um roupão de microfibra e me joguei na cama sem nenhuma dignidade. Apaguei. Acordei horas depois com batidas violentas na porta, altas o suficiente para me arrancar do sono.
0
Comente!x

  – %Ananya%! – A voz de minha mãe atravessou a porta antes mesmo que ela fosse aberta. – Estamos esperando você para o almoço há um bom tempo!
0
Comente!x

  – Que horas são? – Olhei para a janela e senti um leve pânico ao perceber que o sol já pendia baixo demais no céu.
0
Comente!x

  – Mais um pouco e você perde o jantar.
0
Comente!x

  – Mama, não exagera. – Murmurei, sentando na cama e afastando o cabelo do rosto. – Eu só dormi demais.
0
Comente!x

  – E por que não dormiu durante a viagem? – Explicar que eu não tinha dormido no trem porque %Anthony% passou boa parte da noite praticamente deitado em cima de mim parecia um caminho longo demais para aquela hora do dia. – Enfim, – Ela continuou, sem esperar resposta. – eu trouxe sua roupa para o jantar.
0
Comente!x

  Ergueu um cabide com um lehenga absolutamente lindo, porém, era o tipo de roupa que exigia postura, maquiagem e provavelmente uma quantidade injusta de grampos no cabelo.
0
Comente!x

  – Maadi… – Lamentei, fechando os olhos. – Eu realmente preciso usar isso?
0
Comente!x

  – Você sabe que sim. – Respondeu, com aquela mistura irritante de doçura e autoridade que só mães conseguem sustentar. – Eu e seu pai estaremos na cobertura com seus tios até a hora do jantar. Seus amigos estão na piscina. Seja uma boa anfitriã, %Ananya%.
0
Comente!x

  Enquanto eu trocava o roupão por um vestido leve de verão, mamãe se posicionou atrás de mim e seus dedos começaram imediatamente a ajeitar meu cabelo e, como era de se esperar, resmungou sobre o comprimento do vestido.
0
Comente!x

  Quando finalmente me liberou, desci até a área da piscina e bastou avistar o grupo reunido para que uma onda imediata de empolgação tomasse conta de mim. Champanhe circulava em taças generosas, narguilés passavam de mão em mão entre as espreguiçadeiras e a música baixa do hotel lutava bravamente para competir com o volume natural da família %Bhasin%.
0
Comente!x

  Fui recebida com gritos exagerados, abraços apertados, alguém tentando me levantar do chão, outro reclamando que eu tinha desaparecido por horas. Aquela bagunça deliciosa que eu tinha passado semanas esperando. Passei alguns minutos me movendo entre o grupo, as conversas se sobrepunham, as piadas surgiam e desapareciam rápido demais para acompanhar direito e eu só me deixei levar pela energia do momento.
0
Comente!x

  Algo chamou minha atenção do outro lado da piscina comprida. Nina estava dentro da água disputando uma bola inflável com minha prima Maya e o Dodi, um dos meus amigos mais antigos. Sem pensar muito, comecei a caminhar na direção deles e conforme me aproximei da borda, algo em mim desacelerou quando vi %Anthony% e Andreas sentados lado a lado.
0
Comente!x

  Eu devia ter imaginado.
0
Comente!x

  Das infinitas combinações de pessoas naquela ilha, o destino resolveu fazer questão: meu ex-namorado e meu namorado falso, lado a lado, dividindo o mesmo pedaço de beirada de piscina como se fosse a coisa mais normal do mundo.
0
Comente!x

  A fórmula perfeita para dar tudo errado.
0
Comente!x

  – Olha só quem apareceu. – Andreas comentou primeiro.
0
Comente!x

  – Estou sendo cobrada como se fosse uma debutante.
0
Comente!x

  Do outro lado da piscina, Maya levantou a cabeça e gritou, imediatamente atraindo a atenção de metade das pessoas por perto: – Decidiu dar o ar da graça, alteza?
0
Comente!x

  – Alguém esqueceu de me acordar. – Rebati, virando o olhar para %Anthony%, que apenas ergueu as mãos num gesto preguiçoso.
0
Comente!x

  – %Anya% – Dodi colocou a mão no peito, dramático igual um ator de novela –, vou ser sincero: estou a dois passos de roubar seu namorado.
0
Comente!x

  – Ah, é?
0
Comente!x

  Meu olhar passeou pela borda da piscina procurando uma cadeira vazia. Andreas percebeu meu movimento quase imediatamente e começou a se inclinar, já se preparando para levantar, porém %Anthony% não esperou, me puxou com firmeza, fazendo com que eu me sentasse em suas pernas. Foi o primeiro gesto realmente íntimo desde… bem, desde aquela noite que ambos fingíamos não lembrar direito.
0
Comente!x

  A bermuda dele estava encharcada, mas eu não me importei. O calor do corpo de %Anthony%, mesmo molhado, era confortável. Ele passou um braço ao redor dos meus ombros e, de surpresa, encostou os lábios na minha mandíbula em um beijo rápido, quase casual. Meu cérebro demorou um segundo inteiro para alcançar o que tinha acabado de acontecer.
0
Comente!x

  – Mudei de ideia. – Dodi declarou, cruzando os braços com exagero. – Vocês dois são insuportavelmente lindos.
0
Comente!x

  – É bonitinho… – Nina apoiou os cotovelos na borda e ficou observando a cena. – Até o dia em que você chega em casa e encontra os dois assim no sofá.
0
Comente!x

  Em poucos segundos os três estavam em uma pequena guerra aquática, o que fez metade do grupo rir e a outra metade se afastar para não virar alvo.
0
Comente!x

  Inclinei a cabeça para trás com cuidado, buscando um ângulo que me permitisse alcançá-lo sem precisar virar o corpo inteiro.
0
Comente!x

  – Confortável? – Murmurei.
0
Comente!x

  %Anthony% respondeu sem hesitar, a voz baixa, tranquila demais para ser inocente: – Bastante.
0
Comente!x

  A conversa do grupo já tinha migrado para outra coisa. Maya defendia a ideia de montar uma rede de vôlei mais tarde, enquanto Dodi insistia que aquilo ia terminar com alguém quebrando um dente.
0
Comente!x

  – %Anya%. – Dodi voltou a falar, apontando para mim como se tivesse acabado de lembrar de algo. – Pronta para entrar oficialmente no clube dos trinta?
0
Comente!x

  – Você ainda fala como se fosse o fim da linha.
0
Comente!x

  – E não é? Aliás, já que entramos nesse assunto… tive uma epifania hoje. – Ele apontou para mim, depois para %Anthony%, com um ar solene demais para algo tão idiota. – Você, %Anya%, trinta. Ele… vinte e oito ou nove? – Sem chance para resposta, ele sorriu animado. – %Anthony%, meu caro… você é um sugar baby.
0
Comente!x

  A piscina inteira desabou em risada.
0
Comente!x

  – É matemática básica. – Nina respondeu, boiando de costas, como se estivesse narrando um documentário. – Ele é mais novo, bonito e… vamos dizer… fraco financeiramente. Você é mais velha, bem-sucedida e claramente manda nele.
0
Comente!x

  – Certo. Essa é a nossa deixa. – Rindo, apoiei as mãos na lateral da cadeira e me levantei do colo de %Anthony%, sentindo imediatamente o burburinho de desaprovação de todos.– Vamos, sugar baby. Vocês também deviam começar a se arrumar. Sem atrasos. Mais tarde a gente se encontra no salão de jogos.
0
Comente!x

  – E vocês vão para onde? – Andreas falou pela primeira vez, sem sair da posição relaxada na espreguiçadeira.
0
Comente!x

  %Anthony% nem se deu ao trabalho de olhar para ele quando respondeu: – Para o quarto. Vou explicar para %Anya% o que é, exatamente, uma sugar mommy.
0
Comente!x

  Em vez de responder, entrelacei meus dedos nos de %Anthony% e simplesmente o puxei comigo, sem olhar para trás.
0
Comente!x

  – Seu palhaço. – Murmurei, rindo. Ele inclinou o corpo contra o meu, o ombro dele esbarrando no meu de propósito, feito criança. – Estou interessada em saber como você pretende sustentar essa narrativa absurda de que virou meu garoto de programa.
0
Comente!x

  – Ué, você que pediu.
0
Comente!x

  – Foi você que aceitou.
0
Comente!x

  – Foi você que...
0
Comente!x

  – Gente! – A voz do Dodi cortou o ar lá de trás, aguda igual um apito. – A gente ainda ouve, hein!
0
Comente!x

  Nós dois paramos, nos olhamos e o riso veio junto, sem combinar.
0
Comente!x

  De mãos dadas, retomamos o passo. Conduzi %Anthony% pelo caminho de pedra que subia na direção do hotel, os dedos dele entrelaçados nos meus. Durante o caminho, apontei algumas pessoas aqui e ali, apresentando brevemente quem era quem da minha família com comentários nada generosos. %Anthony% ria mais do que eu esperava, parecia mesmo de bom humor.
0
Comente!x

  – Aquele ali é o Arjun, meu primo do meio, que acha que é um coach de sucesso. – Apontei discretamente para um homem de camisa estampada e relógio dourado exagerado. – E aquela, a Ria... vive dizendo que é influenciadora.
0
Comente!x

  Caminhamos alguns passos em direção à recepção. Eu ia comentar alguma coisa sobre o escândalo dos nossos amigos quando parei pois enxerguei Ethan encostado no balcão como se fosse parte da decoração. Ao lado dele, uma mulher familiar. Demorei um segundo além do necessário.
0
Comente!x

  Demorei alguns segundos a mais do que o normal para encaixar a imagem no lugar certo da memória. Meu cérebro começou a folhear mentalmente os rostos da empresa, como se estivesse virando páginas de um arquivo invisível.
0
Comente!x

  Financeiro? Não. Administrativo? Também não.
0
Comente!x

  – Ethan! – Chamei. %Anthony%, que já estava perto do elevador, se virou no mesmo instante.
0
Comente!x

  – %Bhasin%. – Ethan respondeu, no tom morno de sempre, como se minha presença fosse apenas um detalhe inconveniente no cenário.
0
Comente!x

  – Senhorita %Bhasin%. – Ela também me cumprimentou. A voz saiu baixa demais, quase tímida, como se ela estivesse pedindo desculpa.
0
Comente!x

  – Você disse que eu podia trazer um acompanhante, então… – Ele começou. – Essa é a Erica.
0
Comente!x

  – Erica… – Repeti, observando o rosto dela por mais alguns segundos. A mulher encolheu um pouco sob meu olhar.
0
Comente!x

  Ah! Almoxarifado!
0
Comente!x

  – Você devia ter me avisado que ela viria com você. – Comentei, num tom leve demais para o que eu realmente estava pensando.
0
Comente!x

  – Algum problema? – Ele rebateu na mesma hora.
0
Comente!x

  Entendi na hora o que estava acontecendo ali. Era Ethan sendo Ethan: tentando me desmoralizar, me pintar como vilã, me empurrar para o papel de chefesaurus que ele tanto gostava de insinuar que eu era. Ele queria que eu desse um show ali mesmo, no meio do saguão, para ele ter uma história para contar depois.
0
Comente!x

  –Nenhum. Só logística. – Olhei para ela outra vez. – Você está escalada para o fechamento esse fim de semana, não está?
0
Comente!x

  Ela travou na hora. Primeiro olhou para Ethan, buscando algum sinal, um pedido de socorro tão explícito que doía de ver. Só que não veio resposta. Ele deixou que ela se virasse sozinha.
0
Comente!x

  Com Ethan eu já tinha prática. Anos de prática. Eu sabia devolver o constrangimento antes mesmo de ele terminar de armar o cenário. Mas então eu olhei para ela. Para o vestido novo – novo demais – escolhido com cuidado suficiente para importar, mas discreto o bastante para fingir que não. Para o coque torto, preso às pressas, como se ela tivesse hesitado até o último segundo antes de sair de casa.
0
Comente!x

  E, de repente, nada em mim respondeu como deveria. Não veio a ironia pronta, nem o cálculo rápido, nem aquela vontade quase mecânica de virar o jogo.
0
Comente!x

  – Bem, sabe quem não está no fechamento esse mês? Isso mesmo. Eu. Aproveitem a festa. – Dei um sorriso sem graça, mais para mim do que para eles. – Se precisarem de alguma coisa, não me procurem. E, se me virem fazendo algo questionável… finjam que tenho uma irmã gêmea.
0
Comente!x

  Virei as costas antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de formular uma resposta. %Anthony% segurava a porta do elevador, encostado naquele jeito preguiçoso e atento que só ele tem.
0
Comente!x

  As portas começaram a se fechar e foi só então que senti o olhar dele em mim. Um olhar atento demais para ser casual. Pesado de um jeito que me deixou com vontade de cruzar os braços.
0
Comente!x

  – Bom, isso me pareceu pessoal. – Ele soltou uma risadinha curta, daquelas que vêm com um anzol escondido. Fingia leveza, mas por baixo vinha carregada de testes. Como se ele já soubesse a resposta e só quisesse ver até onde eu me permitia cair.
0
Comente!x

  – Você pode achar o que quiser. – Respondi. O tom denunciou uma irritação que eu mesma não esperava sentir tão crua.
0
Comente!x

  Maldito Ethan e seus malditos joguinhos. Maldito elevador apertado com um homem que me olhava como se lesse entrelinhas que eu nem sabia que tinha escrito.
0
Comente!x

  – Vocês se pegam?
0
Comente!x

  Soltei o ar pelo nariz, um quase riso que morreu no meio do caminho.
0
Comente!x

  – Você claramente não conhece o Ethan. – Revirei os olhos, cedendo à vontade de cruzar os braços. – Ele é meu codiretor. A gente divide o setor de finanças. Metade das decisões passa por mim, metade por ele. E, na teoria, a gente precisa concordar na maior parte delas. Na prática… – Soltei um riso baixo, sem humor. Olhei de relance para a porta do elevador, como se ainda desse para ver o saguão do outro lado. Ela paralisada. Ele impassível. – O Ethan faz essas coisas às vezes.
0
Comente!x

  – Como assim?
0
Comente!x

  – Como se fossem testes. Talvez ele não acredite que eu consigo sustentar esse papel o tempo todo… então, de vez em quando, ele arma uma situação. – Meus olhos voltaram para ele. – Para ver se eu escorrego. Se o meu “verdadeiro eu” aparece. Ai ele vem com alguém que eu conheço. Alguém que… – a frase travou. Eu senti. Ajustei as palavras com cuidado demais – …que não tem nada a ver com esse ambiente.
0
Comente!x

  – Tipo… – ele apontou para si mesmo, com um meio sorriso – eu?
0
Comente!x

  Talvez ele esperasse que eu negasse. Que eu recuasse ou que eu aderisse a versão que diz "claro que não" e ri junto para desarmar a tensão. Mas eu nunca fui boa nisso. Perdi essa habilidade antes mesmo de aprender a usar.
0
Comente!x

  – Exatamente. – Sustentei o olhar dele, sem suavizar. Ele bufou. Uma risada abafada, sincera dessa vez. – Ela é uma boa funcionária. O que me irrita não é ela. É o uso. – A palavra saiu feia. Escrota. Eu senti o formato dela na língua e não gostei. Uso. Como se pessoa pudesse ser verbo transitivo direto. – Ele foi atrás dela. No almoxarifado. Não é o tipo de lugar onde o Ethan costuma pisar.
0
Comente!x

  Não era só sobre ela. Não era só sobre o que Ethan tinha feito. Era sobre o que eu tinha visto acontecer antes. Outras caras. Outros nomes. Outras mulheres com vestidos novos e medo líquido nos olhos. Todas descartáveis. Todas usadas. Todas devolvidas ao almoxarifado depois que o jogo terminava.
0
Comente!x

  O rosto de %Anthony% não mudou muito. Mas algo nele se reajustou, um enrijecimento quase invisível na linha da mandíbula, uma contração mínima ao redor dos olhos. Ele não estava surpreso. Talvez estivesse é cansado de ouvir histórias que começavam assim.
0
Comente!x

  – Você sabia quem ela era? – Perguntou. O dedo dele ainda pousado no botão do meu andar, sem pressionar de novo.
0
Comente!x

  – A %Bhasin% pode não carregar o meu nome na porta…mas carrega o meu sangue na fundação. – Dei de ombros, mas por dentro eu senti um leve rubor subir pela nuca. Uma vergonha besta, dessas que a gente não devia sentir por assumir o que é seu. Porque não era ostentação. Não era soberba. Era só… verdade. Meu avô tinha suado aquele nome. Meu pai tinha perdido noites de sono por ele. E eu tinha aprendido a assinar documentos importantes antes de aprender a andar de bicicleta. Porém, explicar isso soava sempre como arrogância. – Sei o seu histórico, o salário, o desempenho. E sei que ela não merece ser usada num jogo que ela nem sabe que está jogando.
0
Comente!x

  Era muito fácil perceber quando %Anthony% estava analisando algo. Especialmente quando esse algo era eu.
0
Comente!x

  Ele não fazia muita questão de ser sutil e talvez essa fosse a parte mais desconcertante. Ele apenas olhava. E os olhos dele se tornavam um microscópio. Dava para ver neles que ele estava processando de verdade.
0
Comente!x

  – Não é uma empresa pequena, %Anya%. – A voz dele veio mais baixa agora. Sem o meio sorriso de quem está jogando, era só curiosidade. – Como você grava o nome de todos? – Perguntou, finalmente apertando o botão do elevador.
0
Comente!x

  – Anos de planilhas. De relatórios. De auditorias que ninguém mais tinha paciência de ler até o fim. – Respondi, apoiando o peso em uma perna só. – Achei melhor gravar os nomes. Nomes de pessoas que eu precisaria proteger se um dia a casa desabasse. Ou que eu precisaria cortar. Ou que eu precisaria escolher. Quando alguma coisa quebra, não é o número que paga o preço. São as pessoas.
0
Comente!x

  O olhar dele não saiu de mim.
0
Comente!x

  – Você sempre fez isso? Se preparar para o pior?
0
Comente!x

  – Eu trabalho com finanças, %Anthony%. – Soltei um quase sorriso, curto. – Prever o pior é meio que a descrição do cargo.
0
Comente!x

  – Não é disso que eu estou falando. – A resposta veio rápida demais.
0
Comente!x

  Sustentei o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário. Tempo suficiente para decidir o quanto eu estava disposta a ceder.
0
Comente!x

  – E é sobre o quê, então? – Desviei o olhar para o painel do elevador, os números subindo com uma calma quase provocativa.
0
Comente!x

  – Sobre você nunca falar no presente.
0
Comente!x

  Franzi levemente o cenho, sem virar o rosto. Continuei olhando para o painel, para os números que subiam, para qualquer coisa que não fosse o peso do olhar dele sobre mim.
0
Comente!x

  – Tudo é “se acontecer”. “Se quebrar”. “Se desabar”. – Continuou, a voz baixa, precisa. – Você não vive o que está acontecendo. Vive o que pode acontecer.
0
Comente!x

  – É assim que se evita surpresas.
0
Comente!x

  – Ou assim que você nunca é pega desprevenida. – Ele corrigiu.
0
Comente!x

  – E qual é a diferença? – A pergunta escapou antes que eu pudesse admitir que o diálogo não era mais sobre semântica.
0
Comente!x

  – É estratégia. – O olhei, confusa. – Então não é só o Ethan que joga.
0
Comente!x

  – Eu nunca disse que não jogava. – Dei de ombros, como se aquilo não tivesse peso nenhum, ignorando deliberadamente o jeito como ele me media. O olhar dele deslizou sem pressa – boca, queixo – e voltou a se fixar nos meus olhos. O painel apitou baixo, o número do andar acendeu, e as portas se abriram. – Podemos ir ou você quer continuar me analisando até chegar numa conclusão?
0
Comente!x

  – Eu já cheguei.
0
Comente!x

  – E qual é?
0
Comente!x

  – Que você é cheia de surpresas, %Ananya% %Bhasin%.
0
Comente!x

  – Isso é um problema?
0
Comente!x

  Ele hesitou – só um segundo – a cabeça inclinando de leve, o foco distante, como se procurasse a resposta dentro de si e ainda não tivesse decidido o que fazer com ela.
0
Comente!x

  – Ainda não sei.
0
Comente!x

  – Me avisa quando decidir.
0
Comente!x

  – Você vai ser a primeira.
0
Comente!x

  Se eu tivesse imaginado onde aquilo ia dar, jamais teria transado com %Anthony% naquela noite. Não que o sexo tivesse sido ruim. O problema é que foi bom o suficiente para me trazer até aqui. O erro nunca foi o sexo. Foi o depois. Se meu corpo não tivesse cedido daquele jeito. Se não tivesse respondido com aquela facilidade irritante, com uma fome que ainda latejava na memória. Se eu tivesse tido o mínimo de distância para prever o que viria depois…
0
Comente!x

  Agora estávamos presos vinte e quatro horas por dia de tensão mal disfarçada de normalidade. E o pior – o que realmente me incomodava – era não ter certeza se eu queria sair dessa prisão causada pela grande presença de %Anthony%
0
Comente!x

Capítulo 7
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Todos os comentários (1)
×

Comentários

×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x