Capítulo 12 • %Ananya% e %Anthony%
%Ananya%
Tinha pouco mais de uma semana que havíamos voltado da ilha e o cheque continuava exatamente onde eu o havia deixado: sobre a minha mesa, desde a manhã seguinte ao nosso retorno e... ainda em branco.
Meus olhos desviaram, mais uma vez, para o sofá Poltrona Frau. Antes, ele era só um móvel absurdamente caro, escolhido mais pela estética do que pela utilidade. Agora... Era o sofá onde %Anthony% se enfiou entre as minhas pernas, sem a menor hesitação, pouco mais de um mês atrás.
A verdade é que eu não queria preencher aquele cheque. Não porque achasse injusto pagar – o acordo foi meu, afinal –, mas assinar aquele papel significava, de alguma forma, aceitar que tudo aquilo tinha terminado. E eu queria uma desculpa para continuar perto dele.
Soltei um suspiro exasperado e assinei o cheque de uma vez: trinta mil reais por um fim de semana que eu passaria o resto da vida tentando não romantizar.
Poucos minutos antes, eu tinha ligado para ele. Ok, %Anthony% não precisava vir até aqui. Eu poderia ter feito uma transferência em menos de um minuto e encerrado aquela história da forma mais prática possível. Talvez fosse exatamente isso que eu devesse ter feito: transferir o dinheiro, apagar a conversa e seguir em frente.
Mas, claro, ignorei os meus próprios limites e liguei, porque, aparentemente, uma transferência bancária era simples demais para alguém que estava procurando qualquer desculpa para ver o próprio namorado de mentira.
Combinamos de jantar juntos.
Fiquei alguns segundos com o celular ainda na mão, olhando para a tela apagada e me perguntando se estava fazendo a coisa certa. Ergui o olhar e encontrei Ethan sentado do outro lado da mesa, curvado sobre o notebook enquanto nos preparávamos para organizar a agenda da semana. Quando ele levantou os olhos, trazia no rosto aquela expressão que eu já conhecia bem: a de quem estava prestes a fazer uma piada, porque tinha me escutado ao telefone com ele.
– Nem pense nisso. – Coloquei o celular sobre a mesa e tratei de mudar de assunto. – O relatório. Está tudo aqui?
Ethan me observou por mais um segundo. Depois riu, balançou a cabeça e começou a me passar as fichas de papel.
– Está tudo aqui. – Confirmou, ainda com um sorriso. – Mas, se você quiser falar sobre o seu bonitão de olhos verdes, eu também posso ouvir.
Suspirei e revirei os olhos, mas as palavras escaparam antes que eu tivesse tempo de refletir ou de engoli-las de volta: – Eu estou tentando descobrir uma maneira de lidar com isso sem ser uma idiota.
O sorriso de Ethan diminuiu um pouco. Ele me encarou, quase sem acreditar que eu estava falando algo íntimo para ele.
– Início de relacionamento. Eu sei como é.
– Não é um relacionamento, Ethan. – A resposta saiu rápida demais, carregada de uma irritação incoerente. Quando franziu o cenho, confuso, tentei me corrigir. – É só... %Anthony% sendo %Anthony%. Eu liguei para convidá-lo para jantar e, de repente, estou aqui com as mãos suando feito uma adolescente.
Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, como se tentasse encaixar aquela informação em algum lugar. Era desconcertante ser analisada por Ethan. Eu preferia quando ele estava ocupado demais falando para prestar atenção no que eu dizia.
Finalmente, ele se moveu, largando o corpo no encosto da cadeira. O sorriso voltou, mas diferente: como se ele tivesse acabado de encaixar a última peça de um quebra-cabeça.
– %Ananya%... você está apaixonada?
– Que você está apaixonada. – Ele riu, explicando com obviedade. – E é pelo seu namorado. Olha que coisa boa. Nem todo mundo tem essa sorte.
Sorte. A palavra ficou girando na minha cabeça. Sorte era acordar ao lado de alguém que te escolheu sem precisar de ensaio. Sorte era não ter que medir cada gesto, cada telefonema, cada jantar. Eu não tinha sorte, eu tinha um roteiro. Então, sim, era uma puta sorte estar apaixonada pelo próprio namorado. Eu, por outro lado, possivelmente estava tendo o azar do século.
– Fica tranquila, %Ananya%. O cara enfrentou o clã %Bhasin% inteiro. Pelo amor de Deus.
“Não, Ethan. Ele foi pago para isso.” Segurei o impulso de corrigir ele e contar que o jantar, o cheque, o fim de semana, tudo aquilo tinha preço. Que o cara que “enfrentou o clã %Bhasin% inteiro” não tinha feito isso por mim, mas por trinta mil reais.
Em vez disso, apenas desviei o olhar para o notebook aberto entre nós, para a agenda da semana que ainda precisávamos organizar, e forcei um sorriso que nem eu mesma acreditei.
– Vamos logo com isso. A semana não vai se organizar sozinha. – Murmurei, puxando um dos papeis.
Ethan me encarou por mais um segundo. Acho que ele percebeu que havia algo errado, mas, por sorte ou por gentileza, não insistiu. Apenas assentiu, voltou ao notebook e começou a ditar os compromissos, enquanto eu fingia prestar atenção.
Mais tarde, dirigi até em casa no automático, enquanto minha cabeça fazia questão de trabalhar em turno duplo. Ele ia agir diferente? Eu ia conseguir agir normalmente? E se eu estivesse prestes a transformar uma coisa que poderia ser simples em algo completamente constrangedor?
Quando a campainha tocou, meu coração pareceu esquecer completamente como funcionava um ritmo normal.
Respirei fundo antes de abrir a porta, mas não adiantou muito. %Anthony% estava ali, bonito, como sempre. O cabelo levemente bagunçado, a bolsa transversal pendurada no ombro, dando a ele um ar quase juvenil. Parecia um estudante que tinha acabado de sair da faculdade, e não o homem que atravessara a cidade para me encontrar.
Eu estava começando a odiar o quanto ele conseguia parecer naturalmente à vontade enquanto eu precisava fazer um esforço consciente para me lembrar de como agir normalmente.
– Oi. Você jantou? – Perguntou e antes que eu respondesse, ele já estava entrando, fechando a porta com o cotovelo.
– Você vai…? – Hesitei quando vi as sacolas em seus braços.
– Cozinhar para você. – Ele passou por mim sem cerimônia. Dei uma risadinha e apontei com a cabeça para a cozinha, um convite silencioso que ele não precisava.
– Planejou um banquete ou só vai tentar me impressionar com o básico? – Provoquei, enquanto o ajudava a tirar as coisas das sacolas.
– Depende. Você considera arroz temperado algo básico? – Ele ergueu uma sobrancelha, tirando um pacote de arroz da sacola como se fosse um troféu.
– Não, mas eu não sou parâmetro para nada. – Peguei um objeto qualquer, lendo o rótulo e fingindo entender alguma coisa daquilo. – Considerando que o máximo que faço na cozinha é, sei lá, ovos mexidos.
Ele riu e ergueu o olhar, balançando a cabeça.
– Uma nepo muito baby. – Apontei para ele, devolvendo a provocação com as mesmas palavras que ele usara no barco, no dia do meu aniversário. %Anthony% soltou uma risada, reconhecendo a referência. – Posso ajudar?
%Anthony% me lançou um olhar desconfiado, como se estivesse calculando o risco real daquela oferta. Passou os olhos pela bancada, pelas ervas recém-colocadas sobre a tábua, pela panela que ainda estava vazia.
– Pode começar lavando isso.
Peguei as ervas, satisfeita por ter recebido uma tarefa que não envolvia fogo, facas ou qualquer outra coisa que pudesse terminar em um acidente doméstico. Ele abriu espaço ao meu lado, sem cerimônia, e por um momento ficamos os dois ali, ombro a ombro, no silêncio confortável de quem divide uma cozinha pequena.
– Quando dá. – Ele mexeu o arroz na panela em um movimento preciso. – Ajuda a desligar a cabeça.
A conversa fluiu com facilidade. Falamos do meu aniversário, das fotos que Nina jurou ter apagado – uma mentira descarada, considerando que já tinha recebido três delas naquela manhã – e de como %Anthony% transformou o próprio quarto na nova Las Vegas, com direito a uma mesa de pôquer improvisada e hóspedes que aparentemente tinham esquecido o caminho de volta para as próprias camas. Eu estava rindo de alguma coisa que ele dizia quando minha mãe apareceu à porta da cozinha.
– %Anthony%, querido! – Cumprimentou, mais animada do que eu esperava. Definitivamente, eu não estava preparada para a possibilidade da minha mãe ser a maior fã de %Anthony% %Campelli%. – Está mimando essa menina mais do que ela já é mimada?
– Só faço o básico, Sra. %Bhasin%. – %Anthony% sorriu, sem perder o ritmo. – Como vai?
– Ótima, ótima. – Ela entrou, passou os olhos pela bancada, pelas ervas, pelo arroz. – Você cozinha. Que surpresa agradável. – Ela se aproximou de %Anthony% e eu vi o momento em que ele hesitou entre estender a mão ou aceitar o abraço que claramente vinha a caminho. Ela resolveu por ele e o abraçou levemente. – Bem-vindo, querido. É bom ter você aqui. Estou de saída, na verdade. Adit está me esperando e, se eu me atrasar, começa a reclamar que estou conspirando contra ele. – Minha mãe pegou a bolsa e, antes de sair, voltou-se para %Anthony% com o dedo indicador erguido. – %Anthony%, você está em uma casa indiana. Por favor, coloque mais tempero nessa comida.
– Sim, senhora. – Ele assentiu, fingindo bater continência.
Minha mãe pareceu satisfeita com a resposta. Saiu da cozinha falando alguma coisa em hindi, e, por um momento, ficamos em silêncio.
%Anthony% voltou a atenção para a panela. Continuou mexendo o conteúdo com uma mão enquanto, com a outra, jogava um punhado de ervas frescas na frigideira. Por alguns segundos eu quase esqueci por que tinha ligado para ele naquela tarde.
Fui até minha bolsa e peguei o pedaço de papel amassado. Eu havia dobrado o cheque tantas vezes, apertado entre os dedos, que as bordas estavam quase arruinadas. Coloquei sobre o mármore ao lado dele e deslizei o papel alguns centímetros até seu campo de visão. %Anthony% parou de mexer a panela e olhou para o cheque e depois para mim.
– Trinta mil. – Tentei manter a voz firme.
%Anthony% baixou os olhos para o cheque outra vez. Ficou assim por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse lendo algo nas entrelinhas daquele número.
– Ah. – Levantou os olhos para mim. – Claro.
Eu me senti mal. Como se, de repente, aquele cheque tivesse colocado um preço em tudo o que tinha acontecido entre nós. Como se eu estivesse pagando por alguma coisa que, na minha cabeça, nunca tinha parecido um serviço.
– Espero que tenha aproveitado o tempo como meu namorado durante o fim de semana. – Tentei brincar, mas a frase soou estranha até para mim.
– Ilha paradisíaca, kart, barcos no meio do nada… – %Anthony% deu de ombros, forçando um tom casual que não combinava com o olhar. – Considerando que saí vivo do seu aniversário, sobrevivi ao seu primo bêbado e ainda consegui um bronzeado decente… acho que foi um investimento razoável.
Desviei os olhos para a panela. Era mais fácil olhar para o arroz do que para ele. Eu queria saber se, ao olhar para aquele cheque, ele via só o dinheiro ou se também se lembrava de todos os beijos que trocamos sem ninguém ver.
– Pelo menos o investimento não foi um desastre completo.
– Não se preocupe. – Ele inclinou a cabeça, me olhando. – Você foi uma péssima cliente, mas o pacote era bom.
Soltei uma risada apesar de mim mesma.
– Você não parava de dar ordens. – Ele riu de novo ao ver minha feição. – Eu não estou reclamando. – Ele ergueu as mãos, rendido. – Só estou fazendo uma avaliação profissional da cliente.
– Vou cancelar minha assinatura desse pacote premium. – Murmurei, beliscando o braço dele. – Reclame no SAC.
– Ei. – Ele estendeu o braço e tocou minha mão. – Obrigado. – Ele sorriu de lado e fez um carinho leve na minha mão antes de se virar para o fogão. Tentei abrir a boca para falar, para dizer alguma coisa que prestasse, mas de repente fui engolida pela timidez. – Bom, se é para encerrar com estilo... – Ele destampou a panela, e o cheiro das especiarias subiu de uma vez, quente e denso. – Vamos jantar.
Sentamos um de frente para o outro na pequena mesa da cozinha, fingindo que era só mais uma noite qualquer e não uma provável despedida.
Comemos em silêncio por alguns instantes. Eu olhava para ele de vez em quando, disfarçando por cima do garfo, e me perguntava quantas dessas noites ainda teríamos. Nenhuma, provavelmente.
Um segundo depois, ele baixou os olhos para o prato e começou a brincar com o garfo, empurrando o arroz de um lado para o outro como se buscasse respostas ali.
– Acho que vou sentir falta disso. – Murmurou %Anthony%, quase num sussurro.
Tive vontade de provocá-lo. Dizer que, agora, se ele quisesse passar mais tempo comigo, teria que ser por vontade própria e de graça. A piada já estava formada na minha cabeça, pronta para sair, afiada do jeito que ele merecia, mas aí o bichinho da insegurança me picou bem no orgulho.
Porque lembrei que %Anthony% nunca me ligou depois da noite que passamos juntos. Não me procurou no dia seguinte, não mandou mensagem, não deu sinal de que aquilo tinha significado alguma coisa. E se não fosse pela confusão de encontros combinados, segredos e esse namoro de mentira com roteiro de novela ruim, a gente provavelmente estaria seguindo vidas paralelas, sem nunca mais se cruzar.
A ideia de que ele sentiria falta daquilo, mas não o suficiente para me procurar sem uma cláusula contratual envolvida, me fez perder a vontade de brincar. Então mastiguei o que restava do orgulho junto com o arroz e fiquei quieta.
E ali permanecemos. Dois atores no fim do roteiro, sentados diante um do outro, tentando improvisar uma última cena sem admitir que nenhum dos dois sabia muito bem como terminá-la.
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%Anthony%
Eu estava no metrô com Vitor quando meu celular vibrou. Era uma mensagem de Anwar, com uma sequência de fotos do aniversário de %Anya% na ilha. Sorria para a tela como um idiota, revendo cada imagem como se fosse uma relíquia preciosa. Era estranho como algo tão recente já parecia nostálgico.
– O que é isso? – Victor inclinou o pescoço por cima do meu ombro. –
%Ananya%palooza?
Antes que eu pudesse sequer inventar uma desculpa, o celular já estava nas mãos dele.
– O primo dela me mandou umas fotos.
– Isso é um iate? – Victor arqueou as sobrancelhas e soltou um assobio baixo. – Nossa, odeio você. – Ele ampliou a imagem, como se quisesse confirmar que aquilo era real. – E essa epidemia de narguilé? – Victor virou a tela na minha direção, o dedo apontando para uma foto onde pelo menos sete cachimbos dourados brilhavam como armas em cena de crime.
– É uma febre entre eles.
– Incrível! Argh, nós, ocidentais, não sabemos mesmo aproveitar uma festa.
Ele continuou deslizando pelas fotos, dando zoom em detalhes que não exigiam tanta investigação. Um decote aqui, uma risada ali, alguém com um narguilé na mão. Eu já estava me arrependendo de ter deixado Victor descobrir aquelas fotos quando ele parou de repente.
– Olha só… – O sorriso se espalhou devagar pelo canto da boca dele. – %Anya% de biquíni.
O celular foi arrancado das mãos dele antes mesmo de a frase terminar. Bloqueei a tela com um clique agressivo, tentando não suspirar ao ver a imagem de %Anya% mergulhando na piscina, o biquíni vermelho grudado no corpo.
– Ei! – Victor ergueu as mãos, rindo. – Só estava olhando.
No caminho até o metrô, fui clicando sem pressa no celular, procurando um mercado perto da casa de %Anya%. Não queria aparecer de mãos vazias. Podia muito bem pedir algo pelo caminho, resolver tudo em dois toques, mas... não queria ser esse tipo de cara.
Um pouco antes do fim do expediente, %Ananya% ligou perguntando se eu estava ocupado – a voz dela saiu meio hesitante, como se estivesse testando se podia mesmo pedir aquilo – e a pergunta me arrancou uma risada. Como se houvesse alguma chance de eu estar ocupado demais para vê-la. Como se, mesmo que estivesse, não largasse o que quer que fosse para encontrar com ela.
Despedi-me de Victor às pressas e desci na estação seguinte. Segui direto para o mercado, escolhendo os ingredientes com mais cuidado do que gostaria de admitir. No caixa, uma senhora atrás de mim inclinou a cabeça, observando minhas compras com um sorriso cúmplice.
– Algo assim. – Retribuí com um meio sorriso. Não me dei ao trabalho de negar.
– As flores te entregaram. – Ela apontou com o queixo para a sacola.
Olhei para baixo, surpreso. No meio das compras, havia um pequeno ramo de rosas. Eu nem me lembrava de tê-lo colocado ali. Talvez estivesse ao lado do manjericão. Talvez minha mão tivesse simplesmente se adiantado ao bom senso.
De qualquer forma, esperei que a senhora desviasse a atenção e tratei de me livrar das provas, acomodando o buquê discretamente no caixa vazio ao lado.
Não era um encontro. Não exatamente. E aparecer com flores parecia uma maneira bastante eficiente de transformar uma noite qualquer em algo que %Anya% poderia interpretar errado. Ou pior: algo que eu mesmo poderia interpretar errado.
Peguei um táxi e segui para a casa dela.
Não era a primeira vez que ia até lá, mas, até então, minhas visitas tinham acontecido em circunstâncias que tornavam fácil ignorar o tamanho daquele lugar. Dessa vez, eu entraria de verdade naquela mansão. Sem uma desculpa profissional, sem um compromisso familiar para servir de justificativa. Apenas eu, algumas sacolas de compras e uma vontade inconveniente.
Toquei a campainha com uma sacola de mercado em cada mão. A porta se abriu alguns segundos depois.
E lá estava ela. Descalça, os cabelos soltos caindo sobre os ombros, uma saia longa e os olhos cansados. Bonita como sempre. Talvez até mais, infelizmente.
Assim que nos cumprimentamos, ela me guiou até a cozinha. A fachada branca e minimalista da casa me fez imaginar uma cozinha de revista – tudo clean e simétrico – porém, eu não poderia estar mais enganado. Tinha me esquecido de que os %Bhasin% eram indianos com orgulho e alma. A cozinha era um caos lindo de cores, texturas e aromas. Armários de madeira, cortinas floridas, uma prateleira inteira só de temperos vidros de todos os tamanhos, etiquetas escritas à mão em hindi.
Fiquei parado por um segundo, a sacola ainda na mão, olhando para aquela cozinha que parecia pertencer a outra casa, mas não a outra família.
Não perdi tempo e logo me fiz à vontade para explorar aquela cozinha simples, mas abastada. Conversamos um pouco, até que Anjali apareceu. A mulher era muita coisa mas definitivamente era educada e sabia fazer uma pessoa se sentir bem-vinda. Estava diferente das outras vezes em que eu a tinha visto. Nada de sáris brilhantes ou roupas formais. Usava jeans escuros e uma bata de algodão azul.
– Está mimando essa menina mais do que ela já é mimada? – Cruzou os braços com um olhar que misturava reprovação e divertimento.
– Só faço o básico, Sra. %Bhasin%. Como vai?
– Ótima, ótima. – Aproximou-se e me cumprimentou com um abraço breve, educado, mas caloroso o suficiente para deixar claro que ela me aceitava ali. Não era pouco, considerando quem ela era e quem eu era. – Bem-vindo, querido. É bom ter você aqui. – Não vou mentir: fiquei surpreso. Era muito fácil para a mãe de %Ananya% odiar alguém, mas, aparentemente, eu não estava nessa lista. Ainda. – Estou de saída, na verdade. Adit está me esperando e, se eu me atrasar, começa a reclamar que estou conspirando contra ele.
Ela se encaminhou para a porta, mas lançou um último olhar na minha direção, erguendo o dedo indicador como quem ainda tinha uma recomendação importante a fazer.
– %Anthony%, você está em uma casa indiana. Por favor, coloque mais tempero nessa comida.
– Sim, senhora. – Assenti, quase solene, e bati continência.
Estava tão focado em não deixar o arroz passar do ponto que não percebi quando %Anya% saiu da cozinha. Só percebi que estava ali quando deixou algo ao lado da minha mão. Um papel dobrado.
– O que é isso? – A pergunta era uma formalidade. Eu já sabia.
Meus dedos hesitaram antes de pegar o papel. Por um instante, continuei olhando para ele, como se pudesse adiar o que vinha a seguir.
– Trinta mil. – Disse, a voz saiu firme, quase dura. Levantei os olhos para ela.
Ela não me chamara porque sentira minha falta. Não era sobre a comida, nem sobre nós. Era um acerto de contas. Ridículo. Era assim que eu me sentia. Um idiota que confundira tudo, que permitira que gestos pequenos significassem mais do que deveriam. Eu sabia desde o começo o que aquele relacionamento era. Tinha sido pago para interpretar um papel, afinal. Não podia me dar ao luxo de esquecer isso só porque, em algum momento, atuar deixara de parecer tão difícil.
– Ah. Claro. – Murmurei, colocando o cheque de volta na bancada.
– Espero que tenha aproveitado o tempo como meu namorado no fim de semana.
– Ilha paradisíaca, kart, barco no meio do nada... – Dei de ombros, tentando parecer despreocupado. Tentei tanto. – Já tive piores fins de semana.
– Bem, pelo menos saiu bronzeado. E trinta mil mais rico.
Olhei para ela. Por um instante, nossos olhos ficaram presos um no outro, e tentei decifrar o que havia ali. Cansaço? Mágoa? Talvez só o desconforto de duas pessoas que já não sabiam muito bem como conversar sem recorrer à brincadeira.
Desviei o olhar e voltei para o fogão, com a postura de quem precisava encontrar alguma coisa urgente. Comecei a montar os pratos com uma precisão absurda, não porque quisesse impressioná-la, mas porque precisava manter a mente focada em outra coisa que não fosse a vergonha que me abateu.
O jantar estava delicioso. E completamente indigesto.
Enquanto comia, me perdi em pensamentos. Fiquei encarando o prato à minha frente, perguntando-me se aquela era mesmo a última vez. E, se fosse, era assim que tudo acabaria? Com um cheque sobre a bancada e algumas piadas ruins para fingir que não significava nada?
Se aquela fosse mesmo a despedida, como eu lidaria com o vazio depois? Quem me contaria quando seria a próxima viagem de Anwar? Como eu saberia se o Dodi queria uma banda ou algo mais discreto para comemorar os trinta anos? E o botox dele? Quem me atualizaria sobre as peripécias absurdas da codiretoria com Ethan?
Eram perguntas idiotas, mas continuavam surgindo, uma atrás da outra, porque era muito mais fácil me preocupar com as fofocas da família %Bhasin% do que admitir o que realmente me incomodava.
Antes de tudo, minha relação com %Anya% era praticamente nula. Ela era a mulher inteligente, irritante e absurdamente rica que aparecia de vez em quando no meu caminho. Era apenas a melhor amiga da minha irmã.
Então veio o acordo e, aos poucos, eu me infiltrei – ainda que só pela superfície – na rotina dela. Conheci a família, ouvi histórias que provavelmente nunca deveriam ter chegado aos meus ouvidos, descobri as pequenas rivalidades, as piadas internas, os nomes que significavam alguma coisa e os que deveriam ser evitados depois de duas doses de uísque.
Porque o acordo teria um fim, aquilo estava definido desde o princípio. Nada ali tinha sido pensado para durar. Só que ninguém havia calculado a parte em que um dos dois começaria a querer ficar. E, pior, se eu realmente quisesse fazer parte da vida de %Ananya% %Bhasin%, como diabos eu conseguiria?
A vida dela já parecia cheia demais. Cheia de pessoas que pertenciam àquele mundo porque sempre tinham pertencido. Pessoas que não precisavam de um contrato para ter um motivo para aparecer à sua porta.
E não sabia o que era pior: descobrir que não havia espaço para mim naquela vida pacata, mas cheia de %Ananya% %Bhasin%, ou perceber que havia, mas que eu nunca teria coragem de pedir para entrar.