Capítulo 9 • %Ananya% e %Anthony%
%Ananya%
Já era madrugada, mas ninguém ali parecia muito preocupado com isso. Eu, por outro lado, entrei em estado de alerta assim que percebi que o Montrachet do Ravi já não estava surtindo o mesmo efeito de antes. Na verdade, não estava surtindo efeito nenhum. O vinho tinha cumprido sua missão algumas horas atrás.
Avisei a %Anthony% que eu estava cansada e a três piscadas de desmaiar na mesa, mas ele recusou a ideia de me deixar ir sozinha como se fosse uma ofensa à sua função não oficial de me acompanhar por aí. A tal “caminhada até a recepção” acabou se transformando na nossa quinta volta completa pela orla. E, pelo visto, ainda sem qualquer previsão de chegada.
– Você pode me explicar novamente o quanto isso vai ser relevante na sua vida? Saber quantas mulheres eu já namorei? – Perguntou, rindo.
– %Anthony% %Campelli%... é a primeira vez que te vejo solteiro em anos. É natural que eu esteja curiosa. – Dei de ombros. – Então? Você tem um número? Ou já se perdeu no caminho?
– Pesquisa informal. Prometo não usar contra você... ainda. Foram quantas mais ou menos? – Pulei em sua frente, começando a caminhar de costas na areia úmida, meus olhos fixos nos dele, desafiadores.
– %Anthony%. – Repeti, imitando seu tom grave. – Duas?
– Sete? – Sugeri, estreitando os olhos, tentando ler alguma pista em seu rosto fechado.
– Cinco. – Afirmei, a voz triunfante. – É cinco, não é? Você ficou em silêncio! – Apertei os olhos e apontei um dedo acusador para seu peito, como uma detetive amadora que acabara de desvendar o crime perfeito. – Você namorou com
cinco mulheres!
Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça como se eu fosse previsível demais.
O silêncio se instalou, mas, dessa vez, não havia fuga no olhar dele. Ele soltou um suspiro leve, quase um riso, passando a mão pela nuca.
– Três. – Confirmou, por fim.
– Ha! Eu sabia! – Dei um pequeno pulo, como se tivesse acabado de marcar um ponto num jogo invisível. – Então, três mulheres marcaram passagem pela sua vida amorosa. Isso é... surpreendentemente normal para um %Anthony% %Campelli%.
– Normal? E o que você esperava? Um harém? Uma lista interminável com nomes e datas?
– Sei lá. – Dei de ombros, caminhando em volta dele, avaliando como se fosse um caso em aberto. – Um histórico caótico… Considerando que você namorou minha prima querida.
– Ó! – Ele apontou o dedo na minha direção, rindo. – Não começa.
– Não começa o quê? É um fato. Você namorou a Kiara. E, até hoje, eu não sei se aquilo foi exatamente um conto de fadas.
O riso dele diminuiu, virando outra coisa. Ele passou a mão pelo rosto, como se já esperasse por aquilo… como se soubesse que, em algum momento, a conversa ia chegar ali.
– A Kiara e eu… – Começou, mas a pausa veio antes do resto. – Foram circunstâncias. Não era para ser.
Inclinei levemente a cabeça, analisando.
– Circunstâncias? Essa é uma forma bem elegante de descrever um relacionamento.
Ele soltou um suspiro curto pelo nariz, quase um riso sem humor.
– Nem todo mundo entra na sua vida porque tem que ficar. – Os olhos dele vacilaram por um segundo – rápido, quase imperceptível – antes de voltarem pros meus. – Você é terrível, sabia? Me fazer relembrar um passado que eu já enterrei.
– Três. – Repeti e sorri de lado, devagar, ajeitando o cabelo que o vento bagunçara. – Ou você escolhe muito bem… ou se envolve muito mais do que deixa transparecer.
Ele ficou em silêncio por um instante, os olhos fixos em mim, como se estivesse lendo nas entrelinhas de cada palavra.
– E você? – Perguntou, a voz mais baixa agora. – Quantos marcaram passagem pela sua vida?
O sorriso congelou no meu rosto por um segundo. Eu não esperava que ele devolvesse a pergunta.
– Essa é uma pesquisa informal ou uma investigação aprofundada? – Desviei o olhar, pisando na areia com mais força.
– Troca de informações. – Ele inclinou a cabeça, um sorriso ladino se formando nos lábios, recuperando o tom provocador que tanto conhecia. – Você começou. Agora termine.
Por um segundo, considerei desviar de novo. Fazer uma piada. Mudar de assunto.
– E se eu disser que o meu número não é tão… organizado quanto o seu?
– O que diabos isso significa, %Ananya%?
– Significa que eu sou uma menina, %Anthony%. – Soltei um riso baixo, sem graça, passando a mão pelos cabelos. – A gente nunca sabe exatamente qual é o nosso status de relacionamento. Uma vez passei duas semanas em Los Angeles com um cara. Só duas semanas. Depois ele foi embora para outra cidade. Mas eu o amei mais do que amei o Luca, meu segundo namorado, com quem passei apenas seis meses, mas foi tão ruim que me traumatizou o suficiente para aceitar o Andreas como namorado. E teve o Benny, que passei sete meses, mas eu não acho que conta.
– Porque a gente não se via. Ele morava em Bangladesh, conheci numa viagem. A gente trocava mensagem, ligação, vídeo chamada. Mas nunca foi real, sabe?
– Aconteceu comigo uma vez. Ela era espanhola, não falava uma palavra de inglês e eu não falava uma palavra de espanhol.
– E como vocês se comunicavam?
– Com os olhos. – Ele respondeu, inclinando o rosto com um ar teatral que me fez revirar os olhos na mesma hora. – E com as mãos. – Completou, rindo, enquanto fazia um gesto sugestivo e descaradamente obsceno.
– Ai, que nojo! – Soltei, entre risos, dando tapas na mão dele como se estivesse espantando um inseto.
– O quê? Estou sendo honesto. Comunicação não verbal é uma forma de arte. Foram sete dias de intensa... troca cultural.
– Acabei de lembrar que você é um homem hetero. – Fiz careta, fazendo-o rir, deliciosamente.
– Então deixa eu ver se entendi… – Começou devagar, como se estivesse organizando peças demais de um quebra-cabeça. – Teve o cara de Los Angeles, duas semanas e aparentemente o amor da sua vida. O Luca, meses suficientes para te traumatizar. O Andreas, claramente um erro estratégico pós-caos… – Fez uma pausa breve, contando nos dedos – e o de Bangladesh, que a gente finge que não conta porque era virtual.
– Isso. – Confirmei, simples, como se não fosse nada demais. – Fora os casos de uma noite.
– Como você conseguiu enfiar tanta história em tão pouco tempo? – Perguntou, olhando para mim de novo, meio impressionado, meio divertido. – É… honestamente, impressionante.
– Uma garota como eu não fica solteira por muito tempo. – Dei de ombros, rindo, lembrando que aquela era exatamente o tipo de coisa que a Nina costumava dizer.
– É claro que não. – Ele balançou a cabeça, segurando um sorriso que quase escapava. – É vago. – Ele corrigiu, inclinando a cabeça. – Pode significar muita coisa. Que você é bonita demais para ficar sozinha. Que você é carente. Que você escolhe mal. Que você tem medo de ficar só. – uma pausa. – Ou que você simplesmente não se permite parar.
– Você é tão... advogado. – Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso que teimava em escapar. – É apenas uma frase engraçadinha de uma música.
– Sim. – Dei de ombros, como se fosse óbvio. – Fergie.
Ele piscou uma vez. Depois outra.
– Fergie. A cantora de "My Humps"?
– A mesma. – confirmei, rindo da expressão dele.
– E você está citando Fergie como justificativa filosófica para sua vida amorosa?
– Não é justificativa. – Corrigi, apontando um dedo na direção dele. – É referência cultural. Há uma diferença.
– Claro. – Ele inclinou a cabeça, o sorriso se alargando. – Porque Fergie é conhecida por sua profundidade filosófica.
– Fergie é conhecida por ser uma lenda. – Retruquei, fingindo indignação.
Ergui o olhar quando um chuvisco fino e inesperado começou. As estrelas tinham desaparecido, engolidas por nuvens cinzentas. Corremos juntos até a entrada do hotel, mas parei ao notar que %Anthony% não me acompanhou. Ficou parado no meio do pátio, com o rosto voltado para cima, deixando as gotas caírem no rosto. Franzi o cenho, sem entender.
– Ei, quanto de narguilé você fumou? – Ri, observando-o ali, plantado no meio da calçada.
– A chuva daqui é quente. – Disse, com as palmas das mãos viradas para cima, como se estivesse testando a temperatura.
– É, tipo... morna. Parece até que vem direto do aquecedor. – Ele inclinou o rosto para trás e fechou os olhos, deixando a água escorrer pelo rosto num gesto tão pacífico que parecia um comercial de shampoo.
– Tem certeza de que não tem alguém mijando em você?
– Só se Deus tiver guardado um rancorzinho e não goste muito de mim.
– Não acho que isso seja possível. – Murmurei, mais para mim do que para ele.
Ele abriu um olho ao ouvir aquilo, como se não tivesse certeza de ter escutado direito.
– Nada. Só acho improvável mesmo.
%Anthony% ficou me olhando por um segundo a mais do que o necessário, a chuva ainda escorrendo pelo rosto dele, os cabelos começando a grudar na testa.
– Isso foi um elogio? – Ele arqueou levemente a sobrancelha, como se estivesse avaliando a resposta por ângulos demais para algo tão simples. Dei de ombros, desviando o olhar. – Você devia experimentar... A chuva.
– Ahn... meu cabelo... – Toquei nas pontas com certo desespero contido.
Ainda estava com o penteado que minha mãe tinha feito, com laquê o suficiente para sobreviver a um furacão. E eu já sabia, por experiência própria, que molhar o cabelo assim resultaria numa dor de cabeça infernal.
– Ok. – Ele recolheu a mão com naturalidade.
Franzi a testa, incomodada com a rapidez da desistência.
– Ok? É isso? Você não vai nem tentar de novo? – A pergunta escapou antes que eu pudesse frear a língua.
– E você quer que eu tente de novo?
Eu sorri. Não consegui evitar. A audácia dele me arrancava sorrisos até quando eu não queria ceder.
– Então me faça a honra... – Ele fez uma pequena reverência com a cabeça.
Hesitei por um segundo, meus dedos ainda presos ao cabelo como se aquilo fosse uma desculpa válida. Mas ele não esperou resposta. Segurou minha mão com a leveza de quem confia no próximo passo e puxou. Logo, eu estava fora da proteção da marquise e sob uma chuva surpreendentemente... morna.
– Meu Deus. A chuva
realmente é aquecida. – Falei baixo, quase em choque.
E quando uma gota escorreu pela minha têmpora, ele não hesitou. Enxugou com o polegar, deixando o dedo pairando próximo da minha mandíbula.
Foi nesse instante que percebi. Eu estava tão distraída pela proximidade, tão acostumada com a presença dele ao meu lado naquela noite, que quase não notei como ele me olhava. De repente, ele sorriu. Um sorriso grande, espontâneo, que iluminou seus traços com uma naturalidade quase desconcertante. E então, sem qualquer aviso, me encarou com uma intensidade mais firme, como se tivesse tomado uma decisão.
– O que foi? – Perguntei, desconcertada, tentando fugir do olhar dele.
– Você é bem bonita, %Ananya% %Bhasin%.
Simples, direto e impossível de ignorar. Soltei um riso curto, sem graça.
– É que... eu invisto em cremes caríssimos. – Brinquei, mas a voz saiu trêmula, entregando minha timidez e ele sorriu novamente.
– Deve ser isso. – Nós dois sabíamos que não era. – Feliz aniversário, %Ananya%.
Um sorriso pequeno, mas genuíno, tomou conta do meu rosto, e sem pensar muito, murmurei: – Obrigada, e obrigada por ter topado essa loucura comigo.
– O prazer foi todo meu, literalmente.
– Você não imaginava que seria assim, não é? – Perguntei, caminhando para a recepção em direção ao elevador.
– Nem por um segundo. Eu não teria pensado tanto na proposta se soubesse que ia acabar numa ilha paradisíaca, fingindo ser namorado de uma mulher bonita…
Dessa vez, não contive o sorriso.
– Nada… só achei curioso. – Inclinei a cabeça, deixando a provocação vir com calma. – Os anos passam, %Anthony%, mas certas coisas não mudam, não é?
– Você. Ainda tem uma quedinha por mim.
Ele freou na hora. Foi sutil, mas eu vi. O microssegundo de surpresa atravessando o rosto dele antes de qualquer controle voltar.
Acho que a primeira vez que desconfiei foi aos dezessete. Era verão e último ano da escola, eu passava as tardes – e, muitas vezes, as noites – praticamente inteiras na casa da Nina. A casa tinha um silêncio diferente naquela época. A doença da tia Anamelia não dominava o ambiente, mas estava ali o tempo todo, ocupando espaço nos detalhes.
Foi nesse cenário que %Anthony% começou a aparecer. Sempre quando eu estava lá, recostada no sofá com um livro aberto no colo que eu mal lia, porque ler, na verdade, era só uma desculpa para existir naquele espaço sem precisar justificar minha presença.
“Esqueci meu celular”, dizia e eu apontava para a mesa sem erguer o olhar.
“Você viu a Nina?”, e eu dizia que não, que talvez estivesse no quarto, e ele dizia "ah, tá", mas não saía.
Era um flerte adolescente sem malícia, desses que a gente acha que nunca vai significar alguma coisa. No fundo, eu achava até graça. O irmão mais novo da Nina – tão educado, tão direitinho – com uma quedinha por mim? Era fofo.
Até que o verão acabou, como todos os verões acabam. A vida seguiu. Eu entrei na faculdade, troquei a rotina preguiçosa da casa da Nina por corredores lotados e horários apertados.
E quando dei por mim, o garoto que hesitava na porta tinha desaparecido e no lugar dele, havia alguém mais alto (ou talvez fosse só a forma como ele agora preenchia o espaço), mais quieto (não mais o silêncio tímido de quem não sabe o que dizer, mas o silêncio contido de quem sabe exatamente o que dizer e escolhe não dizer).
Ele tinha deixado de ser um menino e tinha deixado de ser transparente. Ele ainda entrava, mas agora me ignorava. Não de forma grosseira – %Anthony% nunca foi grosseiro com ninguém –, era educado, cordial, quase
excessivamente polido. Dava bom dia, perguntava como eu estava, escutava com atenção se eu dizia alguma coisa.
A atenção que antes parecia escapar dele – involuntária, quase desajeitada – agora era medida. Controlada. E distribuída com uma generosidade tranquila para todos ao redor. Para a Nina. Para a mãe. Para qualquer amigo que aparecesse. Para todo mundo.
– De onde você tirou isso? – Ele riu levemente.
– Uma mulher sempre sabe, Ant. – Dei de ombros, rindo também, tentando manter o tom leve, como se estivéssemos falando de algo banal. Como se o coração não tivesse disparado no exato momento em que abri a boca.
– Sabe o que, exatamente? – Ele inclinou a cabeça, como quem se diverte com a própria pergunta. – Que eu tive uma quedinha por você há dez anos… ou que eu ainda tenho? – Eu não esperava que ele confirmasse. Não esperava que fosse tão direto. Não esperava que ele jogasse de volta na minha cara com tanta tranquilidade. – Você nunca trocou mais de três palavras comigo, %Ananya%. E, além disso, eu era o irmão mais novo da sua melhor amiga. Não fazia sentido.
A pergunta escapou antes que eu pudesse segurá-la.
Não, não, não. Eu tinha chegado até ali sem que %Anthony% percebesse o estrago que ele vinha fazendo com uma mulher de trinta anos com o raciocínio emocional de uma adolescente mal resolvida. Não era agora que eu ia estragar tudo.
Os olhos encontraram os meus com uma calma calculada, como se ele tivesse esperado por aquilo. E naquele breve instante, eu achei que ele fosse dizer alguma coisa. Eu vi o movimento quase imperceptível dos lábios e como a respiração dele mudou (eu percebi, porque eu sempre percebi, mesmo quando ele achava que eu não estava olhando).
Mas ele não disse nada. Apenas soltou o ar, como se estivesse abrindo mão de alguma coisa. Tive a nítida impressão de que, se eu desse um passo em falso, ele não recuaria.
─────── ◇ ───────
%Anthony%
Acordei naquela manhã com a cabeça latejando e uma leve ressaca me abraçava com força suficiente para me lembrar que uísque, vinho e cerveja definitivamente não eram exatamente meus amigos.
Peguei o celular largado no criado-mudo e encontrei uma mensagem da %Anya%.
Ela avisava que faria um brunch – porque, claro, existiria um brunch – com a mãe e algumas tias, e que eu estava mais do que convidado a me juntar ao chá das matriarcas… ou, se preferisse, poderia ir pilotar karts com o pai dela e um grupo de amigos.
Por um instante, considerei seriamente enfiar o rabo entre as pernas e me refugiar na companhia das tias elegantes, cercado de porcelana fina e conversas educadas.
Mas aí lembrei que nunca tinha pisado numa pista de kart.
E, convenhamos, para alguém que colecionou carrinhos Hot Wheels até os quinze anos, deixar aquela oportunidade passar seria quase uma traição à própria história.
Depois – depois de me arrumar, depois de trocar de camiseta três vezes e decidir que a terceira era a melhor só porque eu já estava atrasado – desci até o restaurante do hotel. A área externa estava quase vazia, salvo por uma mesa ocupada nos fundos, debaixo de um guarda-sol listrado.
%Anya% estava sentada com um copo de suco entre as mãos, distraída, sugando o líquido pelo canudinho. Os óculos escuros eram grandes demais para o rosto dela – quase cômicos – mas, de algum jeito, nela funcionavam. Ao lado, Nina ria de algo que Andreas tinha acabado de dizer.
A dinâmica entre os três era… estranha. Cordial demais.
Como se não houvesse motivo nenhum para aquilo ser desconfortável, sendo que, porra, como havia.
O jeito como eles conseguiam sentar à mesma mesa, trocar comentários casuais, dividir risadas… como se aquela história não existisse mais. Como se todo mundo ali tivesse decidido, em silêncio, fingir que não lembrava.
Eu lembrava. Na verdade, aquilo nunca me desceu muito bem.
– Bom dia. – Murmurei, forçando um sorriso enquanto me aproximava. – Alguém aqui pode me convencer de que pilotar um kart depois de uma noite regada a vinho, uísque e cerveja é uma decisão sensata?
– Depende. – Nina respondeu, sem nem levantar os olhos da torrada. – Você quer causar uma boa impressão ou só sobreviver ao passeio?
– Honestamente? Só quero sair inteiro. – Curvei-me para beijar a bochecha de %Anya% e afaguei os cabelos de Nina com carinho.
– Dormiu bem? – Perguntei, pegando um dos cardápios sobre a mesa.
– Como uma pedra. – Nina respondeu por todos, ainda concentrada na própria torrada. Andreas soltou um riso curto pelo nariz, sem acrescentar nada.
%Anya% pegou a garrafa térmica sobre a mesa, serviu uma xícara de café e a estendeu na minha direção.
– Achamos que você ia preferir os carrinhos mesmo. – Disse, entregando a xícara.
A mesa ficava próxima ao parapeito de pedra que separava a área externa do restaurante da vista para o mar, largo o suficiente para servir de apoio, com a imensidão azul se abrindo logo atrás.
Dei alguns passos até lá e encostei-me, sentindo o calor do sol bater de lado, e, quando ela se aproximou o suficiente, estendi o braço e a puxei pela cintura.
Eu era um ótimo namorado falso.
Especialmente quando minha namorada falsa era absurdamente cheirosa. Havia algo naquele perfume – suave, quase delicado, mas com um fundo quente que ficava – que tornava o papel ridiculamente fácil de sustentar.
– Você acha que vai demorar muito no autódromo? – Perguntei.
– Pelo que ouvi, vai ser o dia todo. Meu pai parece estar levando a sério essa história de "piloto de fim de semana".
– Ele leva mesmo. Só cuidado para não rir demais das manobras dele. Ele gosta de fingir que não se importa, mas se ofende fácil. Não sei se o %Anthony% está pronto para isso. – Andreas disse, com aquele sorriso de quem queria ser só espirituoso, mas o tom de voz entregava algo mais.
Olhei diretamente para ele, sem pressa.
– Agradeço a preocupação, camarada. Mas já me acostumei a pilotar máquinas de grande porte. – Apontei discretamente para %Anya% e, no segundo seguinte, dei um tapa estalado na nádega esquerda dela. Ela virou o rosto na minha direção, surpresa e riu.
– Meu Deus… – %Anya% cobriu o rosto com as mãos, ainda rindo, enquanto o rubor subia pelas bochechas de um jeito que eu achei ridiculamente encantador.
– Eca! Ei! Eu estou comendo! Limites, pelo amor de Deus! – Reclamou Nina, fazendo uma careta.
– Relacionamento saudável, Nina. – Dei de ombros, completamente à vontade enquanto %Anya% me dava um empurrão leve no peito, como quem queria me repreender.
– Só não faz o que eu fiz da última vez. Me achei na Fórmula 1, entrei numa curva como se fosse o Hamilton e quase arranquei um banner de propaganda com o carro. – Andreas contou.
– Eu avisei que não era uma boa ideia. – Comentou %Anya%, levando canudinho à boca. – E, para ser justa, vou avisar você também.
– Então quer dizer que devo recuar?
– Não, só... se divirta. Meu pai respeita quem se diverte mais do que quem tenta competir com ele. – Ela ergueu levemente as sobrancelhas em direção a Andreas.. seu ex.
– Obrigado pela dica, Sra. %Bhasin% – Fiz uma reverência exagerada com a cabeça. – Desejem-me sorte.
– Você vai precisar. – Eu e %Anya% trocamos um olhar rápido diante do murmúrio em tom amargo vindo de Andreas. Ela apenas revirou os olhos, sem paciência, como quem já estava acostumada com aquele teatrinho passivo-agressivo.
– Estarei na praia quando você voltar. – Avisou. – Não demore.
– Sim, senhora. – Me curvei teatralmente na direção dela e, antes que o bom senso me detivesse, me inclinei e roubei um selinho rápido dos seus lábios.
Foi um movimento simples, quase automático. Queria poder dizer que planejei, que calculei o momento certo para deixar Andreas desconfortável ou para arrancar um sorriso de %Anya%. Mas, na real, foi puro reflexo. Ela riu pelo nariz e balançou a cabeça, sem conseguir esconder o sorriso no canto da boca.
Descobri, meio tarde demais, que o lugar aonde iríamos não ficava na ilha. Resultado: precisei fazer a travessia de barco para terra firme, lutando contra a leve ressaca.
Cheguei à entrada do kartódromo me sentindo anestesiado, me esforçando para parecer sóbrio e funcional. Perto da pista, um grupo já estava reunido: todos com óculos escuros dignos de comerciais de perfume importado e aquele tipo de confiança que não se compra, só se herda.
Era o tipo de gente que cresceu frequentando clubes exclusivos, discutindo apostas de corrida de jet ski como se fossem questões diplomáticas. Ajustei a postura, respirei fundo e pensei:
É isso. Estou oficialmente infiltrado no habitat natural deles. Reconheci o pai de %Anya% imediatamente. Adit estava rindo alto, com um copo na mão e contando alguma história que fez dois dos caras ao lado darem tapas nos joelhos como se estivessem ouvindo a piada do ano.
– %Anthony%! – Chamou, batendo no próprio ombro, como se dissesse “vem cá, senta aqui no banco dos adultos”. – Achei que você ia preferir o chá da tarde com as mulheres.
– Confesso que quase fui seduzido pela ideia. – Tentei manter o tom descontraído. – Mas minha criança interior, viciada em carrinhos de brinquedo, falou mais alto.
Todos riram. Um deles, um sujeito com barba cerrada e cara de quem já tinha dirigido mais carros de luxo do que eu tinha visto na vida, estendeu a mão.
– Ravi. Primo de %Anya%. Bem-vindo ao lado selvagem da família.
– Valeu. Mas, só para constar, eu nunca andei de kart. – Confessei, dando um leve riso constrangido.
– Melhor ainda. – Respondeu um dos outros caras. – Vai ser divertido te ver girar na curva 3.
O pai de %Anya% colocou um braço em volta dos meus ombros, como quem já tinha me adotado ou estava prestes a me jogar na pista como um cordeiro entre leões.
– Aqui é cada um por si, %Anthony%. Só não se esquece de frear.
Dei uma risada nervosa e naquele momento percebi: ou eu conquistava o respeito deles com habilidade no volante ou viraria a piada do almoço de domingo da família %Bhasin%.
– Então é você o acompanhante misterioso da %Anya%. – Comentou enquanto colocava as luvas. – Corajoso.
– Ou inconsequente. – Completei, meio rindo, meio sem saber se era uma provocação.
– A linha é tênue para os Bhasins, amigo. – Respondeu Ramesh, ajustando o capacete como quem se preparava para um duelo no Velho Oeste.
Quando os motores roncaram, um sorriso involuntário brotou no meu rosto. A criança que colecionava Hot Wheels ali dentro estava em êxtase. É, aquilo ali, eu também sabia pilotar.
No local, pude reconhecer uma porção daquelas pessoas, algumas do jantar da noite passada. A maioria parecia ter algum elo, direto ou distante, com o universo do automobilismo. Empresários ligados às peças e acessórios da %Bhasin% AutoParts, investidores e, principalmente, parentes ricos. Todos estavam sendo devidamente paparicados pelas equipes com comida impecável, sombra fresca e uma vista espetacular da pista.
O tempo no kart acabou sendo mais divertido do que eu esperava. Não me saí tão mal, considerando a leve ressaca e a falta de prática. Optei por uma pilotagem cautelosa, o que provavelmente me salvou de repetir o vexame do Andreas. Dei risada com alguns dos outros pilotos, até ganhei um tapinha nas costas do Ramesh e um comentário do Ravi dizendo que eu “jogava seguro como quem joga xadrez”. Não levei como ofensa.
Naquele final de semana, segurança era exatamente o que eu buscava.
Depois da corrida, enquanto os outros ainda discutiam manobras e batidas quase épicas, encontrei o Sr. %Bhasin% afastado do grupo, olhando o horizonte de sol já alto. Me aproximei com um sorriso e perguntei se podia pedir um uísque. Ele não só aprovou como fez questão de me acompanhar. Pegamos dois copos e nos sentamos em um dos sofás baixos no canto do autódromo, com vista para a pista agora silenciosa.
– Bom trabalho lá na pista. Não parecia sua primeira vez. – Disse, girando o gelo no copo antes de dar um gole.
– Eu diria que foi quase uma vitória, se o critério for “não capotar”.
– E para onde você vai agora? – Ele perguntou, o sol já começando a desaparecer atrás das colinas distantes.
– %Anya% me pediu para encontrá-la no deck principal, na praia.
– Ah, sim. Eu e minha esposa vamos aguardar por vocês amanhã para o passeio de barco. – Ele sorriu. – Sério, cuide dela. %Anya% tende a perder a cabeça nos aniversários dela.
– Pode deixar, Sr. %Bhasin%. Estarei atento.
E eu ficaria mesmo. Até porque %Anya% só bebia uma vez por ano e eu não perderia a chance de ver a princesa %Bhasin% extrapolando limites.
Depois ficou um breve silêncio confortável entre nós e então, talvez guiado pelo uísque ou pelo sol que aquecia devagar as laterais do nosso rosto, ele falou:
– Quando conheci a Anjali... eu não tinha um centavo. A gente namorou escondido por quase um ano. O pai dela não queria nem ouvir meu nome. E, sendo justo… talvez ele tivesse razão. Mas Anjali era teimosa e eu… bom, eu estava completamente apaixonado. Trabalhei como um louco. Peguei dinheiro emprestado, abri meu negócio sem saber metade do que estava fazendo e errei mais vezes do que acertei no começo. Mas ela ficou.
O olhar dele se perdeu, distante, como se enxergasse um pedaço do passado projetado no asfalto da pista iluminada, continuou:
– Talvez seja por isso que hoje eu não sou do tipo de pai que faz muitos interrogatórios, que impõe regra ou fica testando quem chega perto da minha filha. – Adit retomou, a voz agora mais baixa, mais firme. – Eu sei como é estar do outro lado. E sei reconhecer quando alguém está falando sério… E quando não está.
– Imagino que deva ter sido difícil. – Falei, tentando manter a voz estável.
– Foi. Mas dificuldade não é exatamente um bom motivo para desistir de alguém.
Assenti, como se concordasse com naturalidade, como se aquela frase não tivesse acabado de encontrar um lugar muito específico dentro de mim.
Porque eu não estava ali por alguém, estava ali por dinheiro.
– %Anthony%… eu também não tinha carro quando conheci a Anjali. – Continuou, com um meio sorriso. E então fez sentido. A reação dele e da mãe dela naquele primeiro dia, quando %Anya% comentou que eu não tinha carro. Não era estranhamento, era reconhecimento. – Eu era um azarão... com uma herdeira %Bhasin%. Assim como você.
Soltei um riso curto, automático, mas, por dentro, eu estava morrendo de vergonha.
Se ele soubesse que o azarão ali não era só o rapaz sem carro, mas também era o cara que trocava mensagens com o chefe no banheiro do resort. O cara que tinha aceitado um trabalho sujo porque as contas tinham apertado um tempo atrás e fez umas merdas.
Adit ainda sorria, alheio, achando que estava tendo um momento de conexão com o namorado da filha. O homem tinha acabado de me dar o maior aval que um pai pode dar – que era confiar a filha a outro homem – e eu era uma farsa. Ele olhava para mim e via alguém que veio de baixo e estava tentando construir algo honesto ao lado da filha.
E eu… Novamente, me senti um babaca.
Após isso, a volta para ilha foi mais tranquila do que eu esperava. A gente até cogitou ficar mais um tempo nas pistas, mas entre a quantidade nada modesta de cerveja que já tinha passado pela mesa e o risco bem real de irritar %Anya%, Adit resolveu ser a voz da razão e sugeriu que voltássemos antes que o céu escurecesse mais.
Seguindo as orientações do mapa desenhado por ela, passei por um breve matagal, e depois de alguns minutos, cheguei finalmente ao deck principal. O local parecia um pedaço isolado de paraíso, uma faixa de areia não muito grande, com o mar banhando suavemente a costa e o acesso era por uma passarela de madeira que se estendia até a praia. Ao redor, gigantescas árvores de raízes profundas e algumas construções rochosas emergiam.
O barulho alto só me alcançou de verdade quando pisei no deck de madeira. As batidas animadas vibravam, a garoa fina, misturada ao calor da festa, não parecia incomodar ninguém, pelo contrário.
Cumprimentei alguns primos %Bhasin% pelo caminho, mas as palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro, porque meu olhar, traidor e insistente, procurava apenas uma pessoa entre aquela maré de rostos desconhecidos e familiares.
A voz dela cortou o barulho como se tivesse prioridade e eu ri na mesma hora.
%Ananya% bêbada. Perfeito. Nem precisei pensar duas vezes antes de começar a procurar a origem daquele chamado dramático, já antecipando o caos.
E então eu a vi, vindo direto na minha direção, meio correndo, meio tropeçando, os braços esticados como se estivesse prestes a me atropelar sem nenhum tipo de remorso. Ela vinha como um meteoro, %Anya% bêbada era exatamente isso: uma força da natureza. Sem filtros, sem inibições, sem aquele verniz social que ela usava com tanta habilidade em dias normais.
– Você! – %Anya% apontou para mim, o dedo meio trêmulo. – Eu gosto de você! – Eu ri, pois não tinha como não rir.
%Anya% bêbada era um espetáculo – caótica, linda, impossível de ignorar.
Ela se jogou contra mim sem aviso, num abraço torto e confiante demais para alguém que claramente não estava em pleno equilíbrio. Eu a segurei, firmando as mãos na cintura dela. Ela se afastou o suficiente para me olhar, os olhos levemente nebulosos.
– Você está bêbada – Respondi, rindo, segurando o rosto dela com uma mão enquanto, com a outra, afastava os fios grudados na pele úmida pelo chuvisco.
– As duas coisas podem ser verdade. – Ela riu alto.
– Você precisa de água. Ou de alguém responsável para te supervisionar.
– Sim. E esse alguém chegou. – Murmurou, encostando de novo no meu pescoço. Soltei um riso baixo, respirando fundo. %Anya% bêbada tinha deixado de ser divertida fazia alguns segundos. Agora era perigosamente desafiadora. – Eu decidi uma coisa.
– O que? – Inclinei a cabeça, estudando-a.
%Anya% piscou devagar, como se estivesse organizando os pensamentos numa fileirinha antes de soltá-los. A língua passou pelos lábios num gesto inconsciente e eu tive que fazer um esforço consciente para não olhar para a boca dela.
– Que você é bonito. – Contou nos dedos. – Cheiroso. E que eu vou te beijar agora.
E antes que eu pudesse processar a visão ou sentir qualquer vergonha pelos olhares dos primos dela ao redor, %Anya%, com a impulsividade deliciosa que era toda do álcool, segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou.
Fiquei paralisado por um segundo, surpreso com a intensidade e a falta de hesitação dela. Não foi um selinho distraído ou um gesto de bêbada alegre que poderia ser esquecido na manhã seguinte. Ela me beijou de verdade. Os lábios dela estavam com gosto doce de alguma bebida mista e as mãos segurando meu rosto com uma firmeza que não admitia dúvida.
O mundo à nossa volta explodiu em risadas, gritos de incentivo, aquele “ooooh!” coletivo que só uma família barulhenta sabe fazer. Mas eu não ouvi nada porque aquela era só a minha segunda vez beijando %Ananya% %Bhasin%.
Eu senti o sorriso dela contra os meus lábios, como se o beijo fosse uma piada interna que só nós dois entendíamos e eu acabei sorrindo também. As mãos dela continuavam firmes no meu rosto, os polegares desenhando círculos distraídos nas minhas bochechas.
Sem desfazer o beijo, começamos a nos mover desajeitadamente para o lado, tropeçando um no outro, rindo contra as bocas entreabertas, até que minhas costas encontraram o suporte de um poste. Aproveitei a oportunidade para puxá-la ainda mais para perto, encaixando-a entre minhas pernas de forma instintiva. Com a respiração descompassada, afastei meu rosto apenas o suficiente para provoca-la.
– Sentiu minha falta? – Murmurei contra a boca dela.
%Anya% riu, sem responder, o sorriso se abrindo devagar enquanto os lábios dela ainda roçavam nos meus. Ela se afastou o suficiente para que eu pudesse vê-la por inteiro.
Estava deslumbrante. Os olhos brilhando mais do que o normal, a pele corada pelo álcool e pela garoa, o cabelo úmido grudando nas têmporas de um jeito caótico.
– É meu aniversário! – Ela exclamou, como se a constatação fosse a melhor notícia do mundo, dando pulinhos desengonçados e sinceros, que faziam o vestido rodopiar e as pulseiras tilintarem. Não pude deixar de sorrir ao vê-la tão empolgada com a própria festa, como uma criança que acabara de ganhar o presente que mais queria. – Pensei que você fosse se atrasar.
– Não sou de perder um bom espetáculo. – Respondi, com meu tom mais brincalhão, tentando disfarçar a intensidade do que estava sentindo naquele momento. Estalei mais um beijo tímido em seus lábios – uma carícia rápida, quase um teste – e senti o sorriso dela contra os meus antes mesmo de terminar.
– Você devia me beijar mais vezes… – Ela sussurrou, com um sorriso travesso e deu uma risada solta que escapou enquanto ela se afastava com um passo dançante, rodopiando no meio da chuva como se a noite fosse dela. E era.
A festa, a música, a garoa fina… o mundo inteiro parecia pertencer a ela naquele momento.
E, naquela noite, será que eu também pertencia?
– Ժ –
Tinha uma coisa sobre os ricos que ninguém me avisou: as bebidas deles são traiçoeiras de um jeito bem mal-educado.
No meu mundo, álcool vinha com aviso prévio. Cerveja amarga, vodca que arranhava a garganta, gin barato que deixava bem claro que você ia se arrepender depois. Tudo muito honesto.
O uísque dos %Bhasin%, por outro lado, era quase simpático. Descia fácil demais, basicamente, parecia inofensivo. Porém, quando você percebe, já passou do ponto e nem teve o aviso sonoro. O mundo só… amolece. Foi exatamente o que aconteceu comigo.
Eu já estava no quarto – quinto? – copo quando notei que as luzes da festa tinham ganhado um brilho extra, que a música parecia melhor do que realmente era e que, de alguma forma, eu tinha sido adotado por cinco indianos profundamente comprometidos com uma partida de beerpong.
Comprometidos no nível “isso aqui vale honra, legado e talvez um tratado internacional”. E, honestamente? Eu estava levando tão a sério quanto eles.
Não sei quando me tornei parte daquela confraria. Não sei quem decidiu que eu era digno. Mas ali estava eu – suando sob a garoa, com um copo de uísque na mão esquerda e uma bolinha de pingue-pongue na direita – pronto para defender a honra do time que nem sabia que eu tinha.
O uísque dos %Bhasin% era convincente para caralho.
Apesar de estar imerso na minha própria névoa – uísque caro descendo fácil demais e a fumaça doce dos narguilés indianos deixando tudo ligeiramente fora de foco – eu vi %Anya% e, ao lado dela, Maya. A prima lendária. A mesma que, segundo histórias contadas em tom de riso nervoso, já tinha entrado em coma alcoólico em um aniversário anterior.
E ali estavam as duas. Juntas. Com uma fileira de copos em sua frente, pequenos, transparentes e mortalmente inocentes.
Maya ria de algo que %Anya% tinha dito, os olhos dela brilhando com aquele brilho perigoso de quem já estava no ponto onde o "divertido" e o "hospital" se encontram. E %Anya% pegou um dos copos, ergueu num brinde à prima, e virou de uma vez.
–
Não. Hum, hum. Não. – Murmurei para mim mesmo, já me levantando.
Abandonei a mesa sob protestos dramáticos de um público que, há cinco minutos, não sabia nem meu nome, e atravessei a festa.
– Isso aqui tem algum tipo de prêmio no final ou é só… destruição recreativa mesmo? – Perguntei, parando ao lado delas e antes que ela tivesse tempo de reagir, peguei o copo da mão dela, levei à boca e virei o conteúdo de uma vez.
%Anya% ficou me encarando, ofendida por meio segundo… E depois arregalou os olhos: – Você
bebeu o meu shot?!
– Sacrifício nobre. – Dei de ombros, sentindo o calor do álcool se espalhar pelo peito. – Alguém tinha que fazer. Você ia agradecer amanhã.
Atrás dela, Maya simplesmente… desistiu. Uma gargalhada alta, despreocupada, e então ela se jogou na areia como quem finalmente aceita seu destino. Olhou para o céu por um segundo, murmurou algo que poderia muito bem ter sido uma filosofia profunda e fechou os olhos.
– Ela… – %Anya% começou, apontando vagamente. – Ela não pode dormir aí.
Olhei para Maya, perfeitamente instalada, como se tivesse sido arquitetada para aquele exato pedaço de areia.
– Tecnicamente, pode. – Falei. – Recomendo? Não muito. Não se preocupe, vou pedir para o Dodi levar ela.
– Isso é culpa sua. Ladrão! – %Anya% rebateu, apontando para mim. – De shots. De momentos. De... – Ela parou no meio da frase, como se tivesse esquecido onde estava indo. – …coisas.
– Coisas? – Repeti, segurando o riso.
– Coisas importantes. – Ela assentiu com força, quase perdendo o equilíbrio. – Que você não tem direito de roubar.
– Roubou, sim! – Ela deu um passo à frente, o dedo ainda em riste. – Meu shot. Minha diversão. Minha...
Ela travou de novo. Os olhos se estreitaram, como se estivesse vasculhando o fundo da memória em busca de uma palavra que tinha escapado.
– Sua...? – Incentivei, a voz cheia de riso contido.
– Minha dignidade! – Ela finalmente declarou, triunfante, como se tivesse encontrado um tesouro perdido. – Você roubou minha dignidade, %Anthony%!
– Sua dignidade estava num copo de shot?
– Sim! – Ela cruzou os braços num gesto que deveria ser de indignação, mas que saiu mais parecido com um abraço nela mesma para não cair. – E eu a quero de volta.
– E como é que eu devolvo sua dignidade? Você quer que eu... desbeba?
– Não. – Ela deu um passo à frente, o dedo que antes apontava agora estava encostado no meu peito, bem no centro. – Você me deve um beijo, %Anthony%. Porque você roubou meu momento.
– %Anya%, eu acabei de te beijar há meia hora. – Soltei uma gargalhada, meio em protesto, meio rendido, enquanto minhas mãos já encontravam o caminho de volta para cintura dela.
– Isso foi antes. Agora é outra situação. Você me deve outro. É a lei.
– A minha lei. E ela é definitiva. – Deu de ombros.
– Impressionante. – Murmurei, deixando o olhar percorrer o rosto dela. Um pouco fora de foco – culpa do uísque, da fumaça, da noite inteira –, mas ainda perigosamente claro onde importava. – Um sistema jurídico completo em, o quê, trinta segundos?
– Eu sou extremamente eficiente. – Ela disse, com um ar quase convencido. Seus braços subiram devagar, se acomodando ao redor do meu pescoço.
– E se eu resolver ignorar essa… decisão judicial?
– Aí você vai estar oficialmente em dívida comigo.
– Já não estou? – Eu ri, balançando a cabeça, e me inclinei com calma.
Sustentei o olhar dela por um instante, procurando qualquer sinal de recuo. Não encontrei. Em vez disso, havia aquela mesma firmeza tranquila que eu quase sempre encontrava nela. A beijei e ela correspondeu sem hesitar.
– Era óbvio, – A voz de Nina atravessou o momento com uma pigarro. – que, se a %Anya% sumiu e o %Anthony% também, eles iam estar se pegando em algum canto. A gente se afastou num susto mínimo quando Nina apareceu entre as sombras das pedras. – E, como boa amiga que sou... A gente trouxe shots!
Na mão dela, uma bandeja de plástico carregava pelo menos seis copinhos coloridos, todos parecendo uma péssima ideia.
Andreas vinha logo atrás, com os passos arrastados de quem já tinha desistido de tentar impedir qualquer coisa naquela noite. Ele levantou uma mão em um aceno preguiçoso, o sorriso no rosto misturando resignação e carinho.
Foi só ver a bandeja que os olhos de %Anya% acenderam e ela já estava se jogando na direção dos copos quando eu passei o braço pela cintura dela e puxei de volta, no reflexo.
– Nina, intervenção. – Falei, segurando %Anya% perto o suficiente para impedir qualquer tentativa heroica. – Ela já passou do ponto. Mais um shot e ela vira decoração de praia, igual à Maya.
Nina olhou por cima do ombro, na direção da prima estirada alguns metros atrás, perfeitamente integrada ao ecossistema local. Depois voltou para mim, muito tranquila.
– Ótimo. A praia é de graça.
Antes que eu organizasse um argumento minimamente convincente – porque talvez eu só não estivesse em plena posse das minhas capacidades também – senti os dedos de %Anya% se encaixando nos meus de novo, ela girou no lugar, o vestido abriu com o movimento, a risada dela veio solta e bêbada. Por dois segundos… a gravidade resolveu se manifestar. Ela perdeu o equilíbrio no meio do giro e eu precisei puxá-la de volta rápido.
– Só quero que você termine a noite sem uma concussão, – Ri, mantendo as mãos firmes nos ombros dela para impedir que ela cambaleasse. – ou que você vire lenda familiar pelos motivos errados.
Apontei com o queixo na direção de Maya, que já estava sendo carregada por Dod para longe como um troféu de guerra. Ele usava um braço para segurar ela e o outro para filmar, provavelmente arquivando material para chantagem futura entre primos. Clássico.
Ela abriu a boca para responder, mas pareceu esquecer o argumento no meio do caminho. Acontecia bastante naquela noite. Era, na verdade, um dos meus momentos favoritos. Havia algo adorável naquela batalha dela contra a própria névoa alcoólica, tentando resgatar um raciocínio que já tinha ido embora.
– Você é muito chato. – Ela finalmente declarou, como se tivesse chegado à conclusão mais profunda do mundo me fazendo rir.
Levei a mão até a mandíbula dela e afastei todo o seu cabelo para trás e obrigando-a a me encarar. Ela piscou uma, duas vezes, e o olhar dela prendeu no meu.
– Seu pai me fez prometer que eu não deixaria você morrer hoje, %Ananya%.
– E você vai obedecer? – Ela inclinou um pouco a cabeça, me olhando com aquele sorriso que parecia desafiar qualquer tentativa de bom senso.
Era quase engraçado como ela ainda tentava parecer no controle, como se estivesse conduzindo aquela situação perfeitamente, quando claramente já estava alguns drinks além do limite.
– Estou tentando. – Respondi.
– Fazer a coisa certa. – Por um segundo, ela pareceu não entender e eu não explicaria. Porque explicar significaria admitir que, enquanto para ela aquela era só mais uma noite de festa, música alta e uísque em excesso... para mim não era tão simples. – Água. Agora.
Antes que pudesse argumentar, Nina fez um som alto de desaprovação veio do nosso lado e reclamou: – Eu me recuso a continuar aqui enquanto isso vira… isso. – Ela apontou entre nós dois com uma expressão de puro julgamento. – Vocês são insuportáveis.
– Você que veio até a gente! – Rebati, sem sequer olhar para ela. %Anya% riu baixo contra mim, o som abafado pelo meu ombro.
– %Anthony%, por favor…– E, como se estivesse apresentando uma proposta irrecusável, Nina ergueu a bandeja de shots outra vez. – Última rodada. Eu prometo. Pela honra da família.
– Que honra? – Retruquei no automático. – A gente não tem nenhuma.
– Isso foi ofensivo. – Ela cruzou os braços.
Nina apertou os olhos, tentando encontrar uma brecha no meu argumento, e eu já estava preparando a próxima réplica quando alguém gritou do outro lado: – %Ananya% %Bhasin%!
Ethan veio na nossa direção com passos rápidos, já puxando a toalha do ombro e, sem parar, ele lançou o tecido na direção de %Anya%. Ela tentou pegar no ar, mas o corpo atrasou meio segundo e ela pendeu pro lado, traída pelo próprio equilíbrio. Apertei a mão na cintura dela e puxei de volta.
– O que eu fiz agora, Ethan? É meu aniversário. A agenda de reclamações só abre na segunda.
– Ethan! – Nina entrou no meio como uma parede humana, os braços abertos num gesto teatral que separava os dois. – Você veio para festa ou para trabalhar? A gente combinou: hoje você desliga o modo chefe.
– Estou desligado! – Ele respondeu, sorrindo mas os olhos foram direto para mim. Não eram hostis. Não exatamente. Porém havia ali uma avaliação silenciosa, de quem está medindo o terreno, calculando distâncias, decidindo se o visitante é amigo ou ameaça. – Eu sou Ethan. E você deve ser o famoso namorado que a %Anya%, na sua habitual falta de consideração com os meus sentimentos, esqueceu de me apresentar.
Quase ri. Não pela piada em si, mas pela execução. Um comentário com mais de uma camada, entregue como se fosse apenas mais uma. Típico de ambientes corporativos. A gente aprendia a fazer isso: jogar uma isca com sorriso, ver se o outro mordia.
Eu apertei a mão de volta, mantendo o contato por um segundo a mais do que o necessário. O suficiente para que ele soubesse que eu não era um alvo fácil. Afinal, eu também era um cara do corporativo. Conhecia o jogo.
Mantive o sorriso, mas não soltei primeiro. Pequenos detalhes importam, especialmente quando alguém está prestando atenção neles.
– %Anthony%. – Falei, por fim, encerrando a formalidade.
Desviei o olhar de Ethan por um momento e, sem querer, encontrei o de Andreas. Ele estava ali, parado a poucos passos, os braços cruzados numa postura que tentava parecer casual mas não enganava ninguém.
– Então você é o tal codiretor. – Andreas disse, leve como quem tenta disfarçar o peso de uma pergunta que realmente quer fazer.
– Sou eu mesmo. – Ethan estendeu a mão com simpatia. – E você…
– …o ex-namorado da %Anya%.
A frase caiu no meio do grupo como uma pedra num lago congelado.
Ele poderia ter dito amigo da %Anya%. Poderia ter dito namorado da Nina, já que aquela era a informação mais óbvia para alguém de fora. Mas não, ele escolheu
ex. E eu tive a impressão de que Ethan percebeu isso no mesmo instante pois seu olhar, antes apenas divertido, ficou mais atento.
%Anya% virou na mesma hora, como se tivesse sentido a mudança no ar antes mesmo de entender o motivo. Os olhos dela passaram por Andreas e ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que deveria.
Devia ter alguma coisa ali, alguma história que ainda não parecia completamente encerrada, um fio solto que alguém tinha puxado sem querer.
Andreas foi o primeiro a quebrar o contato. Deu um passo para trás, murmurou alguma coisa que ninguém conseguiu entender – uma desculpa qualquer, uma frase pela metade – e seguiu em direção ao deck.
Nina soltou o ar pelo nariz, cruzando os braços.
– Impressionante. Dois minutos de interação e já temos climão. Parabéns, Ethan. – Nina comentou, soltando uma risada sem muita convicção. Ela olhou na direção onde Andreas tinha ido, depois para nós, depois para o chão. Pareceu pesar as opções por um segundo e simplesmente desistiu de tentar explicar. – Eu vou lá ver o que foi… Sei lá. Tudo isso.
Ethan acompanhou a saída dela com o olhar, pensativo por meio segundo.
– Ué? – Disse então, voltando para nós. – O que foi que eu fiz? Eu estava esperando uma reação ciumenta do atual… – Completou, lançando um olhar rápido para mim – …não do ex. – Ele falou divertido.
Desviei o olhar de Ethan para %Anya%. Ela ainda estava parada no mesmo lugar como se estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Por alguns segundos, ela apenas ficou em silêncio. Então soltou um suspiro e virou o rosto para Ethan: – Ethan, em dez segundos a gente vai começar a se agarrar. Tem certeza de que quer estar aqui para isso?
Ethan não a deixou terminar a frase. Ergueu a garrafa num meio brinde, como quem encerra uma conversa perfeitamente normal, e já estava se afastando antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa.
Fiquei olhando Ethan se afastar por alguns segundos e voltei minha atenção para %Anya%.
– Então… – Murmurei, inclinando um pouco a cabeça na direção dela. – a gente vai se agarrar?
Ela me encarou por um instante, depois revirou os olhos, soltando uma risada curta.
– Não. Eu só não aguento a cara dele.
– Justo. – Dei de ombros. – Mas já que a gente não vai se agarrar … vamos vai falar sobre a cena do seu amigo Andreas agora? Ou amanhã?
Ela não respondeu de imediato, apenas soltou um suspiro longo. Mesmo bêbada, rindo à toa, tropeçando nas próprias decisões, %Anya% não era distraída. O álcool podia deixar os passos dela menos precisos, mas não apagava a capacidade que ela tinha de perceber tudo ao redor.
Ela sabia exatamente do que eu estava falando. Sabia que eu tinha visto o olhar que Andreas sustentou nela, a forma como ele escolheu a palavra
ex com uma precisão que não era inocente. Sabia que aquele silêncio entre eles tinha dito mais do que qualquer conversa poderia.
– Amanhã. – Disse finalmente, como se soubesse que aquela conversa existiria de um jeito ou de outro. – Hoje a gente pode só… – Ela fez um gesto vago com a mão, os olhos já percorrendo a festa como se buscasse algo para desviar a atenção. – …beber mais shots de gelatina?
– Um shot de gelatina e nenhuma outra aparição dramática de ex-namorados ou codiretores possessivos pelo resto da noite. – Estendi a mão livre na direção dela, como quem oferece um acordo. – Fechado?
– Dois shots de gelatina. – Propôs.
– É meu aniversário! – Retrucou na hora e eu soltei um riso baixo, passando a mão pelo rosto.
%Anya% segurou o primeiro copo como se estivesse encarando um inimigo pessoal. Fez uma careta exagerada, torceu o nariz com uma dramaticidade que merecia um prêmio, fechou os olhos por alguns segundos – como quem se prepara para um mergulho – e ainda teve a audácia de reclamar entre um gole e outro, como se aquele pequeno shot de gelatina fosse uma prova de resistência. E o segundo demorou ainda mais.
Diferente dela, que parecia mais interessada em transformar cada gole em um espetáculo do que realmente beber, eu fui direto. Peguei o copo, inclinei a cabeça e virei de uma vez. Antes que ela tivesse tempo de fazer algum comentário, peguei o segundo e repeti o movimento. O pequeno tilintar do copo vazio contra a madeira soou quase como um ponto final.
%Anya% ficou me encarando em silêncio por alguns segundos. Então soltou um assobio baixo.
– Uau. – Ela apontou para os copos vazios na minha frente. – Você bebe como se tivesse algum motivo.
– Eu tenho vários. – Dei de ombros, tentando parecer casual, como se não tivesse acabado de virar dois shots em sequência e como se o mundo não estivesse levemente inclinado alguns graus para a esquerda. – Você, por exemplo.
– Eu sou um motivo? – Ela perguntou, apontando para mim com uma expressão divertida, como se tivesse acabado de encontrar uma brecha no meu argumento.
– Tenho uma lista de motivos chamada “%Anya%”. – Fiz uma pausa proposital, só para ver a reação dela. – É uma lista longa. Tem subitens.
– Subitens! – Ela gargalhou, segurando minha camisa para se equilibrar. – Que tipo de subitens?
– Para começar… você me prendeu em uma ilha com uns cinquenta indianos.
– É minha família! – Ela rebateu, mas já estava rindo antes mesmo de terminar a frase.
E era impossível não rir junto.
Aproveitei que ela estava distraída e passei o braço pela cintura dela, puxando-a um pouco mais para perto. Oficialmente, era para impedir que ela perdesse o equilíbrio. Extraoficialmente… eu só queria.
A música ficou para trás aos poucos, transformando-se em um som distante misturado às vozes e às risadas. No lugar das batidas, vieram as ondas. A garoa continuava caindo fina e insistente, deixando a areia escura sob nossos pés.
– E todos queriam jogar beerpong comigo. – Continuei.
– Isso é culpa sua. – Ela riu, tentando se afastar um pouco. Num movimento completamente impulsivo – e provavelmente influenciado pelos shots – ela prendeu as pernas ao redor da minha cintura, como se aquilo fosse a maneira mais fácil de resolver a questão do equilíbrio. – Você é bom no jogo.
– Eu nunca tinha jogado beerpong antes de hoje.
– Você ganhou aquele monte de partidas sem nunca ter jogado?
– Eu não sei como aconteceu. – Dei de ombros. – Seus primos gritando em hindi me deixaram confiante.
A água já começava a alcançar meus pés quando continuei andando em direção ao mar. %Anya% estava no meu colo, os braços presos ao redor do meu pescoço e as pernas envolvendo minha cintura.
– Você vai me molhar! – Ela gritou, entre risadas e protestos.
– A chuva está caindo em você desde que a gente chegou.
– Molhada de chuva é diferente de molhada de água do mar!
– Não é, não! – Ela insistiu, batendo de leve no meu braço com a mão livre, embora continuasse perfeitamente confortável ali. – Água do mar tem sal. Tem cheiro de alga. Água de chuva é… é limpa. Ela começa no céu.
Comecei a voltar para a areia, ainda carregando %Anya% como se ela fosse incapaz de aceitar que tinha pernas próprias. Mas antes que ela terminasse a explicação sobre a superioridade da água da chuva, meu pé afundou.
Entre carregar %Anya%, os shots que já tinham começado a negociar com meu senso de direção e a areia fofa que parecia ter virado lama de propósito, minhas opções ficaram bastante limitadas.
Afundei na areia, e %Anya%, ainda completamente agarrada a mim, veio junto no movimento. Ficamos parados naquela posição ridícula até que o universo decidiu dar sua contribuição. Uma onda veio um pouco mais forte do que as anteriores e atingiu nossas costas antes que qualquer um de nós tivesse tempo de reagir. A água gelada nos envolveu de uma vez.
Ela abriu a boca, provavelmente pronta para reclamar, mas o que saiu foi uma mistura desajeitada de protesto, engasgo e risada, o que me fez gargalhar com vontade.
Ainda rindo, eu a ajustei melhor contra mim, porque bom senso, convenhamos, já tinha dado o fora naquela noite fazia umas boas horas. Ela continuava ali, completamente molhada, encaixada em mim, com um joelho de cada lado da minha cintura. Levei a mão até o rosto dela, afastando com cuidado a mistura de água salgada e areia grudada na bochecha. O sorriso dela continuava lá, mas tinha algo diferente agora, um brilho mais lento, mais curioso.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse lendo uma placa em outra língua, até que finalmente disse: – Você ri.
Pisquei, tentando acompanhar o raciocínio.
%Anya% desviou o olhar, os dedos distraídos brincando com a gola da minha camisa molhada, enrolando e desenrolando o tecido.
– Eu vejo você rindo com todo mundo… – Ela começou, meio hesitante. – Com a Nina, com seus amigos, até com gente que você acabou de conhecer. Mas comigo não. – Ela franziu levemente a testa, como se estivesse tentando organizar o que sentia enquanto falava. – Comigo você fica… mais quieto às vezes. Ou então fala alguma coisa e logo depois parece que se arrepende. Como se estivesse medindo cada palavra. E eu não sei se é porque você não se sente tão à vontade…Ou se é uma linha que você não quer cruzar comigo.
Eu não respondi de imediato. Não porque me faltassem palavras. Pelo contrário, minha cabeça estava cheia delas, todas prontas, organizadas… e inúteis. Porque, no fim, todas esbarravam no mesmo ponto: ela tinha acertado. Em cheio.
%Anya% me observava sem pressa. E o estranho é que não havia decepção ou irritação no rosto dela. Só aquela calma… quase definitiva. Só parecia ter chegado a uma conclusão que, de alguma forma, a minha ausência de resposta já tinha confirmado.
– Você não precisa responder... – Murmurou, quebrando o silêncio com uma suavidade que desmontava qualquer defesa. – Eu só… queria que você soubesse que eu percebo.
Eu queria dizer que não era tão simples. Queria explicar que existiam coisas que ela não sabia mas, naquele instante, me ocorreu que talvez também existissem coisas que
eu não sabia. Porque, no fim das contas, por que diabos eu me prendia tanto quando o assunto era ela? Por que diabos eu me prendia tanto perto dela? Por que o riso ficava mais curto, as palavras mais medidas, o corpo mais tenso?
A resposta veio meio torta, meio inconveniente: talvez, lá no fundo, eu soubesse que, se me soltasse demais… não ia conseguir voltar a ser só meu. E isso era ao mesmo tempo a coisa mais assustadora e mais tentadora do mundo.
Fiquei ali, olhando para ela, com todas as respostas emboladas na garganta, pesadas demais para sair do jeito certo. Então desviei o assunto covardemente.
– Você fala demais quando bebe. – Passei o braço ao redor dela e a puxei um pouco mais para perto, sentindo os joelhos dela afundarem de cada lado do meu quadril.
%Anya% sorriu. Um sorriso de vitória de quem sabia que tinha furado minha defesa, a paciência de quem não precisava ouvir a resposta naquela noite e um afeto silencioso que dizia
tudo bem, eu espero.
Ela se inclinou na minha direção, fechou os olhos e deixou o resto comigo.
Eu congelei. Meu corpo travou, mas meu olhar não. Ele percorreu cada centímetro do rosto molhado dela, devagar, como se eu estivesse guardando aquela imagem num lugar seguro: a água escorrendo pela testa, os fios de cabelo colados nas têmporas, o lábio inferior levemente entreaberto. A respiração tranquila demais para alguém que claramente estava esperando.
%Anya% abriu
apenas um dos olhos. Aquele olho me encarou com uma mistura tão precisa de impaciência e diversão que soltei uma risada nervosa.
– Você não vai me beijar?
Eu ri, não porque fosse engraçado – embora fosse –, mas porque era tão %Anya% que chegava a ser previsível. A impaciência disfarçada de provocação, a certeza de que eu ia ceder.
Antes que pudesse analisar, pesar, ou encontrar uma desculpa esfarrapada, a beijei. Dessa vez, não havia plateia. Não havia primos %Bhasin% gritando ao fundo, nem risadas de canto, nem aquele burburinho constante que tinha marcado a noite.
E foi diferente daquele primeiro beijo, lá no começo da noite, quando tudo era mais agitado, mais urgente, meio "vamos ver onde isso dá". Agora, apesar de ainda estar bêbada – e, sim, eu também já tinha passado do ponto fazia um tempo –, não era mais a pressa que guiava.
%Anya% soltou um som baixinho contra minha boca, quase um suspiro. Senti os dedos dela se enroscarem no meu cabelo, me puxando um pouco mais para perto, encurtando qualquer espaço que ainda teimasse em existir entre a gente.
Nos afastamos devagar até nossas testas se encostaram. Por alguns segundos, ficamos ali, deixando o som das ondas e da chuva, agora mais fraca, preencher o silêncio entre a gente.
– Estou com frio. – Ela murmurou e mexeu o nariz contra o meu, num gesto tão bobo e tão íntimo que me arrancou um sorriso leve.
– Eu também – Murmurei, inclinando-me o suficiente para roçar um beijo leve no lábio inferior dela. – Mas não quero ir embora. – Minha voz saiu quase inaudível, engolida pelo som constante do mar.
Por um instante, pensei que ela não tivesse escutado. Mas %Anya% sempre captava até o que eu não dizia direito, principalmente aquilo que eu tentava esconder nas entrelinhas.
Ela me observou em silêncio por alguns segundos e, dessa vez, eu não desviei o olhar.
N/A: gente do céu… desde TSHA eu não escrevo uma long fic e eu tinha esquecido o quanto é difícil 😭
eu realmente achei que dessa vez, por já ter EC toda pronta, seria mais fácil… mas eu simplesmente mudo TUDO quando começo a editar o capítulo, então acaba demorando muito mais do que eu imaginava
isso aqui é basicamente uma desculpa pelo atraso 👍
porque estão vindo umas partes aí que eu já sei que vão me travar completamente
enfim… paciência comigo <3