Efeito Colateral


Escrita porJuliana M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 11 • %Anthony%

  Diferente da faixa de areia clara que cercava o hotel, o oceano dali parecia ter sido pintado com uma cor completamente diferente. O azul era mais denso, quase anil, e se confundia com o céu carregado pelas chuvas da noite anterior. Ainda assim, era de tirar o fôlego.

  Quando %Anya% disse que a família ia sair para navegar, imaginei um catamarã simples. Algumas almofadas coloridas, música baixa, talvez uma mesa com frutas e queijos. Entretanto, o que apareceu foi um verdadeiro iate de luxo. Três andares. Tripulação uniformizada. Aparentemente, aquele era o conceito de "vamos dar uma volta" dos %Bhasin%.
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  Era impossível não se sentir pequeno diante daquela visão de luxo exagerado, como se o universo tivesse decidido fazer uma piada comigo, misturando os absurdos da minha vida pessoal com a grandiosidade daquela cena.
  Além do cenário digno de filme, no andar de cima, estavam Adit – meu sogro temporário – e alguns de seus irmãos e primos. Entre eles, como uma maldição em forma de terno amassado, estava Davi Martinez. Como se o iate não fosse humilhação suficiente, ainda tinham decidido colocar o meu chefe no mesmo barco. Ou, dependendo do ponto de vista, o homem que poderia destruir a minha vida sentado a poucos metros de distância enquanto eu fingia ser o namorado da filha de um dos homens mais poderosos que conhecia.
  Só de pensar em Davi ali, meu estômago embrulhou e eu tive certeza de que não era ressaca. E ainda assim… Ali, no sofá de frente para o mar, na área de popa, com a brisa batendo no rosto e %Anya% se encaixando contra o meu corpo como se aquilo fosse rotina, eu consegui esquecer – por alguns minutos – de quem eu era. Ou de quem eu fingia ser.
  Ela estava linda. Não era a primeira vez que eu pensava aquilo, mas naquele momento, com a luz do sol filtrada pelas nuvens, a palavra parecia pequena demais. As bochechas ainda levemente coradas – vinho, ressaca, ou os dois –, alguns fios de cabelo insistindo em escapar do coque improvisado, e aquele sorriso.
  No nosso teatrinho bem ensaiado de casal apaixonado, ela se acomodou contra mim com cabeça no meu ombro, o corpo encaixado contra o meu, o braço dela descansando sobre minha perna. E eu passei o braço por cima dos ombros dela, assumindo meu papel com eficiência duvidosa. Tentei focar na conversa, tentando parecer o namorado perfeito e não deixar transparecer que eu estava completamente desnorteado por %Anya%.
  Continuei respondendo às perguntas, concordando quando precisava, sorrindo nos momentos certos e fingindo acompanhar a conversa. Na prática, metade da minha atenção estava presa ao peso do corpo de %Anya% encostado no meu. A outra metade ainda tentava organizar a noite anterior.
  Quando Ethan apareceu completamente bêbado, tinha sido ele quem sugerira dormir no meu quarto. Só que as coisas saíram completamente do controle quando no meio da madrugada, a chuva começou a cair com força e aos poucos, o pessoal foi migrando para o cômodo mais próximo que encontrava... e, quando percebi, o salão improvisado da mesa de pôquer era o meu quarto. Quem teve a brilhante ideia de carregar uma mesa de pôquer inteira até lá? Sinceramente, até hoje eu não sei.
  O quarto de %Anya% estava vazio, já que ela tinha dito que passaria a noite com Nina. Na minha cabeça, completamente anestesiada pelo álcool, tudo aquilo pareceu fazer um sentido impecável. Se Ethan precisava apenas de um lugar para apagar, por que não deixá-lo na cama enquanto o restante da bagunça acontecia ao redor?
  Tirei os sapatos dele, apaguei a luz e já estava saindo quando ouvi passos atrás de mim. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, %Anya% me empurrou de leve contra a parede e me beijou, fechando a porta do quarto.
  Sorri sozinho ao lembrar. Não tinha sido um beijo planejado. Nem delicado. Nem particularmente coordenado, considerando o nível de álcool que tínhamos ingerido. Foi desajeitado, cheio de intenção e de urgência e eu não queria que terminasse.
  Nos enrolamos por alguns segundos, tropeçando em direção à cama, as mãos dela agarradas na minha camisa, a minha na cintura dela, o corpo dela colado no meu. E, por um momento considerei seriamente a possibilidade de transar com Ethan dormindo no mesmo ambiente.
  Não foi um pensamento orgulhoso, mas foi honesto.
  Naquele instante, com ela contra mim, o gosto do vinho ainda na boca dela, a respiração quente no meu pescoço, eu realmente não ligava para o fato de que tinha um homem roncando a três metros de distância.
  E então ela dormiu, parecia que o simples ato de tocar o colchão tinha sido o gatilho que o corpo dela esperava. Fiquei alguns segundos olhando para aquele rosto completamente relaxado, tentando decidir se ria ou se me ofendia.
  No fim, só a deitei na cama. Ajeitei o travesseiro e puxei o lençol, porém, olhei para Ethan. Olhei de novo para %Anya%. Dormir ali parecia uma péssima ideia. Sair e deixá-los sozinhos – ela bêbada, ele bêbado, os dois numa cama que não era de ninguém – pareceu pior ainda. Então puxei um cobertor do armário, joguei Ethan no chão e planejei o resto da noite na poltrona ao lado da janela.
  Mas %Anya% se levantou, cruzou o quarto cambaleando e sentou no meu colo e deixou claro que só dormiria se fosse comigo. Eu tentei argumentar, – não muito, mas tentei – porém, ela fingiu não ouvir. A mulher só soltou minha camisa quando eu deitei ao lado dela. Cinco segundos depois, já estava dormindo.
  Fiquei olhando para o teto por mais algum tempo, ouvindo Ethan roncar no chão e sentindo a respiração tranquila de %Anya% contra o meu peito. Em algum momento, apaguei também.
  A conversa ao meu redor continuava, mas eu já tinha perdido o interesse. Minha atenção tinha voltado para o peso de %Anya% contra mim. Para a forma como os dedos dela traçavam círculos na minha perna, que ela provavelmente nem percebia que estava fazendo.
  Mas eu percebia e sentia, o que era pior.
  – Não foi você que namorou uma palhaça? – Ouvi a voz de Andreas.
  Como diabos chegamos nesse assunto? Andreas tinha uma habilidade impressionante de puxar conversas dos lugares mais improváveis.
  – Artista circense. – Corrigi, erguendo uma sobrancelha.
  – Ant... a mulher era uma palhaça. No sentido literal da palavra! – Nina interrompeu, rindo alto, com o copo de vinho já meio vazio.
  Vinho ao meio-dia para curar uma ressaca. Parecia que eu estava na porra de The OC. Só faltava alguém aparecer com um colete e um escândalo familiar.
  – Ela era bonita. E flexível. – Dei de ombros, como se estivesse apenas defendendo um currículo. – Era divertida.
  – Claro que era divertida, né. Uma verdadeira palhaça! – %Anya% soltou, revirando os olhos com um sorriso sarcástico. – Ops... perdão. Artista circense.
  – Amor, sem ciúmes. – Eu dei uma risada, ajeitando os óculos no rosto. Usar óculos de grau naquele sol era um inferno. – Esqueci minhas lentes de contato no quarto do hotel.
  – Ainda bem... – %Anya% falou. A olhei, confuso. – Acho você a coisa mais linda de óculos de grau.
  – Você está brincando, né? – Tentei disfarçar a sensação de calor que começava a subir no meu rosto.
  – Não.
  Uma palavra. Uma sílaba. E tudo que eu achava que sabia sobre aquele momento – sobre o jogo, sobre o teatro, sobre o que era real e o que era encenação – foi parar no ar.
  Fiquei sem palavras por um momento. Ela realmente tinha essa habilidade de me deixar com a cabeça girando, sem saber se devia sorrir, revirar os olhos ou simplesmente me perder nesse jogo de palavras.
  Me levantei do sofá com um bocejo mal disfarçado, passando a mão pelos cabelos bagunçados. Disse que precisava ir ao banheiro, mas a verdade era que eu precisava de um respiro. Um minuto longe do teatrinho, do cheiro doce da pele da %Anya% misturado ao perfume caro que ela usava. Longe da sensação incômoda de estar gostando demais daquilo tudo.
  Longe dela.
  O corredor estreito do andar superior era silencioso, eu segui em direção ao banheiro, ainda tentando afastar a névoa da ressaca, quando, ao virar a esquina, quase trombei com alguém. Ou melhor, com um copo de uísque.
  – Que coincidência. – Davi Martinez sorriu de canto, firme o bastante para não derramar uma única gota. Com a mão livre, ajeitou o punho da camisa impecavelmente alinhada, como se aquele quase acidente fosse apenas um detalhe curioso da noite. Davi inclinou a cabeça, observando-me por alguns segundos quando não respondi. – E então? Como está indo?
  – O quê? – Fingi não entender.
  – O plano.
  Dei uma olhada rápida ao redor. O corredor estava vazio. Mas mesmo assim, minha voz saiu mais baixa.
  – Está indo bem.
  – "Bem" é uma resposta vaga.
  – Porque a pergunta foi vaga.
  O sorriso dele apareceu de novo. Pequeno.
  – %Anya% parece bastante confortável com você.
  – Somos namorados. – Respondi, como se aquilo explicasse tudo. Para Davi, explicava. Ele acreditava naquela parte da história tanto quanto qualquer outra pessoa naquele barco.
  – Quero saber se está conseguindo conversar com ele sobre a empresa. – Ele tomou mais um gole do uísque.
  – Aos poucos.
  Davi assentiu, claramente incomodado com minha falta de palavras minuciosas.
  – É melhor assim. Não tenha pressa. – Ele fez uma pausa. – A fusão não pode parecer uma ideia nossa.
  – Sua. – Repliquei. – A ideia é sua.
  Ele me encarou por alguns segundos, me examinando como um leiloeiro avalia um cavalo de corrida.
  – Sabe, eu realmente não pensava que você fosse durar tanto. Achei que você ia vacilar. Mas aqui estamos, você e eu. Olha só, a família %Bhasin% te adora e a garota... – Ele fez uma pausa, os olhos se fixando em mim com uma intensidade que fez meu estômago revirar. – Bem, ela olha para você como se você fosse a solução para todos os problemas dela.
  – E o que você quer de mim, Davi? – Minha voz soou mais firme do que eu esperava. – Já que você já me colocou nesse papel, o que mais tem para mim nesse jogo?
  – Você ainda não percebeu, não é? – Davi disse, quase como se estivesse se divertindo com a minha tentativa de resistência. – Você já está dentro, garoto. Já é parte do jogo.
  Ele se afastou com a mesma calma com que tinha chegado e eu fiquei parado, sem muito mais o que fazer. Voltei pelo corredor devagar, respirando fundo e tentando convencer meu corpo de que não havia motivo para continuar tenso.
  Depois do almoço, o barco inteiro pareceu entrar oficialmente no modo preguiça. Voltamos para os sofás da popa, espalhados entre almofadas, óculos escuros e copos de bebida como se ninguém tivesse planos de se mexer pelo resto do dia.
  – Pelo menos a Maya não teve coma alcoólico esse ano. – %Anya% deu de ombros. Conversávamos enquanto trocávamos versões do caos da noite anterior. Cada um lembrava de um detalhe diferente e nenhuma das histórias parecia combinar perfeitamente com a outra. – Isso já é um avanço.
  – Isso que é herança e legado familiar… – Andreas interrompeu, com aquele sorriso cínico de quem está prestes a soltar algo ainda mais ácido. – Ter uma família com tanto nome e história tem suas vantagens, não é?
  – Quem diria que a Maya, dona da loja Kaie, sairia de ambulância da festa de aniversário só por ingestão desenfreada? – Nina soltou, com um tom que misturava curiosidade e diversão.
  – Ela tem uma loja? – Perguntei.
  – A mãe dela tem a loja. A Maya cuida da parte criativa. – Ela inclinou a cabeça, pensando. – Na verdade, todo mundo aqui é envolvido nos negócios da família de algum jeito.
  – Vocês sabem que existe um nome para isso na internet, não sabem? – Fiz um gesto amplo, apontando para o barco, para os parentes espalhados ao redor, para o universo %Bhasin% inteiro. – Nepo babies.
  – O nepotismo existe desde que o mundo é mundo, lindo. – %Anya% sorriu.
  – O nome é "Nepo Baby". – Corrigi, tentando brincar com a situação e alfinetar %Anya% ao mesmo tempo. – Filhos do nepotismo, se preferir.
  – Hum, então eu sou uma nepo baby? – Ela perguntou, com um sorriso astuto.
  – Uma nepo muito baby. – Respondi, tocando o nariz dela de leve. %Anya% deu um sorriso travesso e encostou a cabeça no meu ombro.
  – No final, sempre acaba sendo sobre o que você faz com o que tem. – Ela falou com a calma de quem sempre encontra um jeito de transformar o mais complexo em algo simples.
  – Essa é a moda agora? Nepo babies? – Andreas riu, bebericando o que restava no copo. – %Anthony% claramente tem um tipo. Nepo babies indianas.
  A sacada foi rápida. E boa, infelizmente. Soltei uma risada antes de conseguir me controlar. Nina também, mas a gargalhada morreu no meio quando ela percebeu exatamente o que Andreas tinha acabado de dizer e deu um tapa no braço dele.
  – Ai! – Ele se encolheu, olhando para ela. A confusão nos olhos dele durou um segundo. Depois, o clique. Foi quase possível acompanhar o momento exato em que o cérebro dele refez a própria frase e encontrou o problema.
  Bro code. Não precisava nem perguntar. Ele tinha acabado de lembrar, tarde demais, que falar das minhas ex-namoradas na frente da minha atual talvez não fosse exatamente a melhor demonstração de inteligência social. Principalmente daquela ex-namorada.
  Kiara.
  O nome nem precisou ser dito. Mencionar aquela ex-namorada na frente de %Anya% era praticamente pedir para ser jogado no mar.
  – Tenho certeza de que ela encontraria alguma maneira de transformar isso em elogio para ela mesma. – %Anya% resmungou.
  – É bem a cara dela. – Nina riu.
  – Nina. – Repreendi. – Não começa.
  – Por que você a defende tanto? – %Anya% virou o rosto na minha direção.
  – Por que você a ofende tanto? – Retruquei, antes de conseguir me impedir.
  O sorriso dela desapareceu. A obsessão de %Anya% com Kiara sempre parecera exagerada.
  – Eu não ofendo. Eu só me defendo das coisas ridículas que ela fala sobre mim. Kiara passou anos inventando versões de mim que fossem convenientes para ela.
  – Que versões?
  – A versão em que eu sou arrogante.
  – Você é um pouco arrogante. – Dei de ombros.
  – %Anthony%. – Ela me lançou um olhar irritado. – Digo a versão em que eu sou mimada. Fria. Competitiva.
  – Você é competitiva.
  – Eu vou jogar você no mar. – Ela revirou os olhos, mas o canto da boca dela tremeu em um quase um sorriso. – Kiara acha que qualquer coisa que venha fácil demais não tem valor, por isso me ataca usando a empresa. – %Anya% soltou uma risada sem humor.
  – Não parece uma posição tão absurda.
  – Não seria, se ela não passasse metade do tempo tentando provar que é melhor do que todo mundo porque escolheu sofrer um pouco mais para chegar aos mesmos lugares. – %Anya% inclinou a cabeça, os olhos fixos em mim. – Na cabeça dela, trabalhar na empresa da própria família invalida qualquer competência que você tenha. Como se todo o seu esforço deixasse de existir só porque você não começou do zero.
  – Talvez ela só queira provar que consegue sozinha.
  – E por que ela precisa provar isso me diminuindo?
  Abri a boca para responder, mas nenhuma justificativa pareceu suficiente. Mais uma vez, me vi entrando na cabeça de %Anya%, a quem eu passei a vida achando que era uma rica fútil, porém, ela tinha opiniões bem razoáveis para quem nasceu em berço de ouro.
  Sem sequer desviar o olhar, continuou: – Kiara vive falando sobre como quer mudar o mundo, sobre como o país não precisa de outro rico aproveitando seus privilégios. E eu concordo. Mas, se ela realmente acredita em justiça social, poderia começar pelo básico. Poderia parar de ocupar espaços que nunca precisou disputar. Tirar a vaga de alguém que depende dela para mudar de vida só para provar um ponto... isso não é idealismo. É vaidade. O que a sua namorada não parece entender é que essa é a realidade de como o mundo funciona e...
  – É você. – Soltei, sem pensar, interrompendo-a.
  – O quê? – A mão dela, que estava gesticulando, parou no ar.
  – Você é minha namorada.
  A frase saiu antes que eu pudesse pesá-la. E só depois de ouvir em voz alta percebi como aquilo tinha soado com uma naturalidade muito, muito perigosa.
  %Anya% se calou imediatamente. Eu poderia ter jurado que vi uma corzinha nas bochechas dela, um tom rosado que subiu rápido e desapareceu quase no mesmo instante.
  – Olha só, %Anthony% fez a %Anya% calar a boca. – Andreas riu, apontando para nós dois como se tivesse acabado de testemunhar um acontecimento histórico. – Isso merece um brinde.
  – Ao primeiro milagre do dia. – Nina levantou o copo imediatamente.
  %Anya% voltou a se sentar ao meu lado e ajeitou os óculos escuros sobre o nariz.
  – Idiota. – Murmurou, me fazendo sorrir.
  A tensão que havia se instalado entre nós depois da discussão foi se desfazendo aos poucos. Nina voltou ao assunto, Andreas entrou na conversa e, por alguns minutos, conseguimos transformar uma discussão sobre privilégios em uma análise informal dos ricos bonzinhos que descobriam a desigualdade social depois de terem dinheiro suficiente para pagar por um apartamento em Manhattan.
  A conversa continuou por mais alguns minutos, até eu perceber que %Anya% tinha ficado mais quieta. Estava recostada no sofá, os óculos escondendo os olhos e uma das mãos pressionando discretamente a testa. Ela ajeitou os óculos no rosto e se levantou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse fazer seu cérebro abandonar o corpo.
  – Vou deitar um pouco lá embaixo. Quer vir comigo?
  O sol da tarde ainda batia forte, aquecendo a madeira do convés e deixando tudo com aquela aparência preguiçosa de fim de dia. Observei %Anya% atravessar o espaço com naturalidade, seu vestido preto, simples e leve, acompanhava seus movimentos enquanto ela descia os degraus na parte traseira do iate.
  Ali embaixo, o mundo parecia outro.
  A plataforma de madeira se estendia sobre a água, tão próxima do mar que bastava sentar na borda para deixar os pés mergulhados. %Anya% fez exatamente isso. Sentou-se na beirada e soltou um suspiro quando a água tocou suas pernas. Apoiou as mãos atrás do corpo e inclinou o rosto para o sol. A luz dourada banhava o rosto dela, iluminando os traços que eu já começava a conhecer de cor.
  Por alguns segundos, não disse nada. Eu também não. Fiquei parado no último degrau, observando-a.
  – Você vai ficar aí me encarando? – Perguntou, sem sequer abrir os olhos.
  – Eu estava esperando você parar de reclamar da cabeça.
  – Pode esperar sentado.
  – Tecnicamente, é exatamente o que você está fazendo.
  Ela abriu um olho por trás dos óculos e me olhou. O canto da boca dela subiu ligeiramente.
  – Você está especialmente irritante hoje.
  Sentei-me ao lado dela, deixando os pés mergulharem na água. O frio subiu pelas pernas e arrancou de mim um suspiro involuntário. Ficamos em silêncio até %Anya% virar o rosto na minha direção.
  – O que foi? – Perguntou, como se esperasse algo mais de mim.
  – Essa dor de cabeça é ressaca ou culpa pela menção à Kiara? – Perguntei, sem pensar muito, tentando manter a leveza na conversa.
  – Os dois. – %Anya% voltou a olhar para o mar. – Me estressa o tanto que você se desdobra para defender ela.
  – Você não pode me brigar, estou em um barco com seu ex-namorado, não esqueça disso. – Tentei brincar, mas a piada saiu com um tom mais defensivo do que eu queria.
  – Ei! Você escolheu entrar nesse barco.
  – Não sabia que vinha com uma guerra civil. – Resmunguei, fazendo ela rir.
  – Andreas não é tão ruim assim... e é namorado da Nina – %Anya% respondeu com a voz mais suave.
  – Não sei não… ele me provoca demais para quem deveria estar supostamente apaixonado pela minha irmã. – A frase escapou de mim em uma forma de desabafo não planejado.
  – É, pode ser... – Ela me olhou com uma mistura de compreensão e ironia nos olhos, como se tivesse visto através de mim. – Mas não acho que seja proposital. Acho que é porque nosso último ponto de divergência foi o meu aniversário. Foi quando terminamos. E ainda teve... – Ela suspirou, quase com vergonha, e balançou as pernas dentro da água. – Ethan.
  – O que tem ele? – Perguntei, agora sério.
  – Bom... no meu aniversário do ano passado, nós... – Fez uma careta. – Não foi exatamente uma decisão muito inteligente. Eu estava triste. Eu e Andreas tínhamos acabado de terminar e... enfim. Aconteceu.
  – Aconteceu...? – Arregalei os olhos, tentando aceitar aquela frase. – Com o Ethan.
  – Sim. – Ela revirou os olhos, como se estivesse cansada de ter que explicar aquilo. – Andreas acabou descobrindo que eu tinha passado a noite com o cara que ele sempre desconfiou. Foi uma confusão.
  – Então você está me dizendo... – Fiz uma pausa proposital. %Anya% estreitou os olhos, já prevendo onde eu ia chegar. – ...que o cara que eu arrastei para o seu quarto ontem... já tinha...
  Ela soltou uma risada nervosa e cobriu o rosto com uma das mãos.
  – Meu Deus. Sim, %Anthony%. – Ela baixou a mão e me encarou.
  A resposta veio tão direta que meu sorriso vacilou por um instante. Todo mundo tem um passado, claro, mas ouvir aquilo da boca dela era diferente. E odiei descobrir que existia uma parte de mim que queria saber mais detalhes. Eu queria saber quanto tempo durou, se significou alguma coisa, se ela ainda pensava nele de vez em quando.
  Encarei-a por alguns segundos antes de falar.
  – Eu deixei ele dormindo sem camisa na sua cama, %Ananya%.
  – Você também estava na cama. – Ela sustentou meu olhar, impassível.
  – Eu devia ter deixado você dormir sozinha ontem.
  Um sorriso discreto apareceu no canto da boca dela.
  – Não teria. – Ela respondeu com tanta convicção que eu nem tentei discutir. Porque nós dois sabíamos que era verdade. Eu não a teria deixado sozinha da mesma forma que ela não me deixou dormir na poltrona. – Não depois de você transformar o seu quarto em um cassino clandestino de Las Vegas.
  – Detalhes. – Eu me recostei, tentando fingir desinteresse, mas não pude evitar um sorriso, lembrando do caos que meu quarto no hotel havia acolhido. – O caso é... Ethan.
  – Eu estava emotiva! E bêbada! E... ok, talvez um pouco carente. – Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás, os cabelos caíram sobre os ombros, e por um momento, ela pareceu mais leve. – Mas foi uma vez. E eu juro que me arrependi no dia seguinte. Não que eu lembre de muita coisa. Mas arrependimento é um sentimento persistente, sabe? Não importa quanto tempo passe, ele sempre encontra um jeito de voltar.
  – Eu sei como é isso. – Suspirei. Ela virou o rosto na minha direção. Os óculos escuros escondiam os olhos, mas eu sentia o peso da atenção dela. – Não vai perguntar qual foi o meu arrependimento?
  – Achei que você fosse me contar quando estivesse pronto.
  – Talvez outro dia. – Sorri de canto.
  Pensei que meu maior arrependimento fosse o dinheiro que eu tinha roubado da empresa, a confusão com Davi ou todas as escolhas duvidosas que tinham me levado até ali. Mas, sentado ao lado dela, percebi que talvez meu maior arrependimento não fosse nenhuma das decisões que tomei.
  Era justamente a única que eu não tomei.
  Não ter ligado ou mandado uma mensagem. Não ter dito nada depois daquela noite.
  Talvez se eu tivesse ligado, eu não estivesse aqui, sentado ao lado dela, fingindo ser seu namorado. Talvez eu fosse o namorado de verdade.
  %Anya% assentiu, seus olhos encontraram os meus por um segundo, mas ela não pressionou. Só ficou ao meu lado, as pernas balançando na água, o sol se pondo atrás de nós. Suspirei e molhei as mãos na água, deixando o frescor escorrer entre os dedos.
  – E o Andreas? – Perguntei baixinho. – Você nunca me disse o que realmente aconteceu entre vocês dois, hein? Fiquei com a impressão de que ainda tem algo não resolvido, não sei… – Pausei, buscando as palavras certas.
  Ela ficou em silêncio por um momento. Os olhos fixos no horizonte, as pernas balançando lentamente na água. Eu quase pensei que ela não ia responder.
  – Não aconteceu nada... – Ela falou devagar, como se estivesse encontrando as palavras enquanto falava. – Eu e Andreas... não fazia muito sentido. Foi um grande nada.
  Eu fiquei em silêncio, tentando digerir o que %Anya% estava dizendo. Algo na maneira como ela falava – tão tranquila e quase indiferente – não batia com a complexidade de suas palavras. Eu a observava, procurando sinais de dor e não achei nada.
  Fiquei quieto, processando o que ela estava me dizendo. Eu não sabia o que era mais difícil de acreditar: o fato de Andreas e Nina terem se envolvido ou o fato de que ela parecia tão... calma em relação a tudo isso.
  – Então, me explica uma coisa, %Anya%. Seu ex e sua melhor amiga? – Perguntei, o desconcerto tomando conta de mim. – Como é que você simplesmente... aceitou?
  Eu precisava entender, de alguma forma. Aquela situação não se encaixava. Não no mundo que eu conhecia, onde términos vinham acompanhados de mágoas e bagagem.
  – Parece complicado, não é? – Ela disse, rindo levemente. – Mas eu juro que não é. Como eu disse, Andreas foi... Ele nunca foi realmente algo, sabe? A gente se encaixava no papel. Ele era o que minha mãe queria. Eu era o que a família dele esperava. Mas no fundo... a gente só fazia porque era esperado. Então, quando surgiu o lance dele com Nina, não foi algo que me devastou. Não foi decepcionante, nem arrasador. Foi... apenas mais uma prova de que, às vezes, a vida não faz sentido.
  – Você está me dizendo que seu ex começou a namorar sua melhor amiga e você simplesmente ficou bem?
  – Não exatamente.
  – Ah. Ótimo. Porque eu estava começando a achar que você era psicopata.
  Ela me lançou um olhar divertido.
  – Eu só não vejo sentido em sofrer por uma coisa que já tinha acabado. – Ela simplesmente deu de ombros, como se estivesse acostumada com a ideia de ser vista como a única pessoa a lidar com o caos de uma maneira mais prática. – Talvez seja porque eu nunca amei ele de verdade.
  Agradeci pôr a brisa ter ficado mais forte. Ela deve ter ouvido meu suspiro satisfeito e aliviado, porque o canto da boca dela se moveu ligeiramente em um sorriso.
  O sol se espalhava pela água à nossa frente, dourando a superfície e fazendo tudo parecer mais tranquilo do que realmente era. Olhei para ela. %Anya% continuava ali, um pouco distante, os dedos tamborilando distraidamente no copo vazio enquanto parecia perdida em algum lugar dentro da própria cabeça.
  O barco balançou suavemente e uma onda mais forte bateu contra a plataforma, fazendo a água subir até nossa cintura. Suspirei, maravilhado. A sensação era tão boa que dava até para deitar ali.
  Olhei para %Anya% mais uma vez.
  – Quero comprar um barco.
  – Não olha para mim, já gastei dinheiro demais com você. – Ela balançou a cabeça, rindo.
  – Você é uma péssima sugar mommy. – Virei-me para ela, o sorriso se ampliando. – Está de biquíni? Segura isso.
  Ela levantou uma sobrancelha, os olhos se estreitando, mas o canto da boca entregava um interesse inesperado. Tirei a camisa num movimento rápido, joguei meus óculos no colo dela e pulei no mar.
  A água me atingiu com o impacto de um soco gelado, roubando o fôlego por um instante e depois um grande alivio. Flutuei por alguns segundos, deixando o corpo se ajustar à temperatura. Quando virei, ela estava na borda do barco, os braços estendidos na minha direção.
  Nadei até ela, estendi a mão. Ela hesitou por um segundo, olhando para a minha mão como se estivesse avaliando o risco. Depois soltou o ar e se deixou cair. A água a engoliu por um instante e ela voltou a superfície com cabelos espalhados, braços abertos, o vestido se enrolando ao redor das pernas.
  A água era absurdamente cristalina. A luz do sol atravessava a superfície e desenhava reflexos dourados sobre nossos braços e ombros. Alguns metros abaixo, porém, o azul se tornava tão profundo que o fundo simplesmente desaparecia. Era bonito e um pouco assustador.
  Comecei a nadar em volta do iate, sem pressa, deixando a correnteza me levar. %Anya% seguiu na direção do deck, apoiou os cotovelos na madeira e descansou o queixo sobre os braços cruzados. Seu corpo permanecia quase todo submerso, flutuando com facilidade, enquanto as pernas balançavam lentamente sob a superfície.
  Por um instante, me perguntei se ela se afastaria caso eu encurtasse a distância entre nós. E depois me perguntei por que eu queria encurtar a distância. A resposta mais conveniente apareceu primeiro. Porque ela era absurdamente bonita. Porque o vestido molhado desenhava o corpo dela de um jeito que exigia um esforço quase desumano para fingir que eu não tinha notado. Porque eu era um homem. Só isso.
  Nada mais complicado do que testosterona fazendo o trabalho dela.
  Foi pensando que eu era apenas um cara reagindo à mulher incrivelmente gostosa ao meu lado que nadei na direção dela.
  – Tudo bem? – Apoiei a mão na costa dela, me apoiando também no deck. – Toda essa quietude... é da ressaca?
  Ela assentiu, mas depois levantou os óculos escuros ainda com a cabeça deitada para que seu olhos encontrassem os meus.
  – Você acha mesmo que eu sou mimada e arrogante? – Perguntou, num tom tão direto que me pegou desprevenido.
  Ah. Não era ressaca. Eram os reflexos da conversa anterior. A discussão sobre Kiara, sobre privilégios, sobre o que significava ser quem ela era. Acho que eu tinha mexido em algo que ela não tinha processado completamente.
  – Acho. – Dei risada vendo ela resmungar e ameaçar se afastar, como sempre fazia quando se sentia contrariada e eu segurei a cintura dela antes que ela fosse longe enquanto me apoiava com um braço no deck. – Mas também acho que você é muito, muito amada. E só é mimado quem é muito amado.
  Bastava prestar atenção.
  No jeito como Adit olhava para ela. Em Anjali, que, apesar da rigidez, das críticas e das correções constantes, encontrava mil formas discretas de demonstrar afeto. Um prato preparado especialmente para %Anya%. Um hotel inteiro reservado para que ela comemorasse o aniversário cercada por quem amava.
  Até o desgraçado do meu chefe tinha um ponto fraco por ela. Nunca fazia questão de esconder o quanto a considerava inteligente.
  Eu tinha visto tudo isso na ilha. Nos primos que gravitavam ao redor dela sem perceber. Na risada espontânea de Nina sempre que %Anya% aparecia. Até no babaca do Ethan, o codiretor engraçadinho, que passava metade do tempo inventando qualquer desculpa para chamar sua atenção.
  E não era só ele.
  Era o garçom que sorria ao vê-la chegar. A recepcionista que a cumprimentava pelo nome. Os funcionários que pareciam genuinamente felizes quando ela passava. Eram pessoas de mundos completamente diferentes reagindo da mesma forma à presença dela.
  – Minha avó diz isso. Que, para alguém ser mimado, primeiro precisa ser muito amado. E ela sempre termina dizendo que eu sou. Especialmente por ela. – O sorriso de %Anya% se abriu um pouco mais. – A Nani é forte, meio doida, teimosa... – Ela riu baixinho. – Mas do tipo que faz você se sentir o centro do mundo só por estar ali. Mesmo quando tá errando feio.
  – Então ela estraga as pessoas. – Ri pelo nariz.
  – Bastante. – Inclinou a cabeça, o sorriso ainda nos lábios, os olhos perdidos em alguma lembrança que eu não conseguia ver. – Ela é meio bagunçada.
  – Faz sentido. Você também é assim.
  Ela me encarou por um instante. Pela primeira vez desde que a conversa tinha começado, foi ela quem pareceu não saber o que responder.
  %Anya% apenas se sentou no degrau submerso da escada. A água chegava à altura da sua cintura, balançando preguiçosamente ao redor do corpo. O iate subia e descia com a maré, e antes que eu pudesse pensar nas consequências, deixei a minha cabeça repousar sobre sua coxa. %Anya% ergueu a mão e afastou, com delicadeza, uma mecha molhada que caia sobre a minha testa.
  – Sabe... – Murmurou, a voz saiu quase engolida pelo barulho da água. – Você não precisa concordar comigo. Só não precisa presumir que eu nunca pensei sobre isso.
  – Do que exatamente a gente está falando? – Virei o rosto para conseguir olhar para ela, apoiando os antebraços nas pernas dela.
  – Privilégio. Gente rica. Kiara. Consciência social... – %Anya% soltou um sorriso curto e sarcástico. – Assuntos leves.
  – Eu não presumi. – Tentei me defender, mas ela logo me cortou.
  – Presumiu.
  Ficamos nos olhando. Eu conhecia aquele olhar. %Anya% estava se preparando para argumentar até conseguir provar um ponto que talvez nem soubesse mais qual era.
  – Talvez eu tenha presumido... – Admiti, devagar. – Mas não foi por mal.
  – Não importa se foi por mal. – Ela inclinou a cabeça, a água balançando ao redor dela. – Importa que você fez. E que, quando você presume algo sobre mim, eu sinto que tenho que provar que você está errado.
  Mais uma vez, a honestidade dela me deixou sem reação.
  Estava virando rotina. %Anya% tinha esse dom irritante de dizer exatamente o que pensava, sem rodeios, e me obrigar a encarar verdades que eu passava tempo demais tentando evitar.
  – Eu sei que tenho privilégios, %Anthony%. Sei exatamente de onde eles vêm. Sei que tive sorte... – Ela interrompeu a própria frase e balançou a cabeça. – Não. Sorte, não. Eu tive acesso.
  Passei a mão pelo rosto, limpando a água que escorria pelo queixo.
  – Você não precisa fingir que não sabe disso só porque esperam que se sinta culpada. Mas também não pode usar esse privilégio como desculpa para nunca olhar para o que acontece ao seu redor. – Retruquei e ela assentiu quase imediatamente.
  – É exatamente isso que eu penso.
  – Eu sei.
  Ela me encarou por um instante.
  – Então por que você me olhou daquele jeito? Como se eu fosse só uma garota rica brincando de consciência social.
  Demorei alguns segundos para responder.
  – Porque... às vezes você parece.
  – %Anthony%! – Ela me acertou um tapa leve no ombro.
  – Calma. Eu disse "às vezes". – Segurei seu pulso por um instante. – Talvez, em vez de presumir, eu devesse perguntar.
  – Perguntar o quê?
  – O que você realmente pensa. Sobre privilégio. Sobre tudo o que você herdou. Sobre quem você escolhe ser com isso.
  %Anya% respirou fundo antes de responder.
  – Eu acho que o mundo não é justo. Nunca foi. E sei que nasci do lado que mais se beneficia dessa injustiça. – Fez uma pequena pausa. – Mas também acho que sentir culpa não muda a vida de ninguém. – As palavras saíram calmas, sem qualquer traço de defensiva. – O que eu posso fazer é reconhecer o lugar de onde vim e usar isso da melhor forma possível. Abrir portas quando eu puder. Dar oportunidades. Financiar projetos. Contratar pessoas. Compartilhar o que tenho.
  Fiquei em silêncio.
  – E a Kiara? – perguntei. – O que ela tem a ver com isso?
  – A Kiara sente tanta culpa pelos próprios privilégios que transformou isso em identidade. Ela precisa provar o tempo inteiro que é diferente da família, diferente do dinheiro, diferente do mundo onde cresceu.
  – Você não precisa provar nada, %Ananya%.
  – Eu sei. – Inclinou a cabeça de leve, sem desviar os olhos dos meus. – Mas você continua perguntando. Eu vejo o jeito que você me olha e fico tentando descobrir o que passa nessa sua cabecinha anarquista. – Ela encostou um dedo na minha testa. Fiz uma careta exagerada, arrancando um sorriso discreto dela. – Então, no fundo, acho que você ainda está esperando uma resposta. E eu fico tentando te dar uma.
  – Talvez eu esteja. Mas não porque quero te pegar num erro. É porque eu quero entender.
  Ela ficou em silêncio. Os dedos voltaram a passear pelo meu cabelo. Depois de alguns segundos imersa em seus pensamentos, suspirou, dizendo: – Por que você quer entender o que eu sou, %Anthony% %Campelli%?
  Nem entendia direito como ela tinha notado aquilo que nem eu tinha percebido. Mas agora que ela tinha dito em voz alta, fazia sentido. Eu ficava mesmo procurando explicações e brechas e análises de %Anya%.
  Não respondi, só voltei a apoiar a cabeça sobre as coxas dela, sentindo o calor suave da pele através do tecido molhado e virei o rosto para o horizonte. O sol terminava de mergulhar no mar, derramando laranja e rosa sobre a água como tinta.
  Ela não perguntou o que eu estava pensando, não tentou preencher o silêncio, só continuou passando os dedos pelo meu cabelo.
  Aquele pôr do sol foi impressionante. Assistimos juntos em absoluto silêncio. E me senti em paz, mesmo com tanta coisa não dita entre nós.

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Capítulo 11
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