Um Romance Para O Natal

Escrita porNatashia Kitamura
Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 2

  O jantar era no restaurante de um chef com estrela Michelin. A reserva havia sido feita por Martha, a pedido de %Eric%. A mulher, que trabalhava como assistente do diretor, às vezes obedecia ordens do presidente, quando %Jessica% se encontrava repleta de serviço para fazer. A assistente verdadeira, no entanto, nunca imaginava que Martha estivesse fazendo alguns serviços a pedido do chefe, apenas para passar uma imagem falsa à sede, nos Estados Unidos.
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  %Jessica% apoiou o braço no do chefe, quando este lhe deu a ordem, assim que saíram do carro. Lentamente, caminharam para dentro do restaurante, e foram conduzidos até uma mesa onde um homem já se encontrava sentado.
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  – Boa noite. - ele disse, em um inglês extremamente polido. Levantou-se para cumprimentar %Eric%, e então olhou para %Jessica%. – Senhorita…
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  Ela olhou para %Eric%, confusa, fingindo bem seu papel de uma ignorante na língua inglesa.
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  – Ela não fala em inglês?
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  – O básico. - %Eric% responde em sua língua natal, sentando-se. – Não se preocupe, não irá nos atrapalhar.
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  Thadeo enviou um olhar para %Jessica%, que abriu um sorriso, como se aquilo fosse cumprir com o cumprimento que não pode fazer, por “não ter compreendido” o que o homem havia dito. Em resposta, recebeu um pequeno aceno de cabeça.
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  Os dois conversaram sobre amenidades. Mercado financeiro, as dificuldades que a empresa estava enfrentando no exterior, e as projeções para o próximo ano. Durante o diálogo, %Jessica% percebeu os olhares de Thadeo em sua direção. Ela dividia sua atenção entre fingir o papel que lhe havia sido atribuído, e guardar na memória tudo o que o assistente pessoal do presidente dizia.
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  – O senhor presidente tem muito interesse em ver o resultado de seu serviço aqui no Brasil. Como já mencionei antes, o prazo se finaliza no dia 1º de Janeiro.
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  – Bem, tenho certeza de que ele está muito satisfeito com minha performance. Fiz exatamente o que me pediu.
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  Thadeo olhou sério para %Eric%, que manteve um pequeno sorriso no rosto. Em seguida, olhou para %Jessica%, que saboreava o resto de sua salada, enquanto deixava os dois conversando.
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  – Entretanto, acredito que ele tenha expressado a vontade de receber um feedback pessoalmente.
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  A boca de %Eric%, que mastigava o alimento, parou. O homem olhou para o funcionário do pai, que o observava com curiosidade. %Jessica% olhou de um para o outro, sem saber exatamente como agir. Qual o problema de fazer uma ligação para o presidente?
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  – Temo dizer que não será possível. Eu confirmei com %Jessica% de que passaria o natal com ela e sua família. - sem avisá-la, %Eric% pegou a mão da mulher, que estava apoiada à mesa de acordo com a etiqueta, e entrelaçou seus dedos, enviando-lhe um doce olhar. Ela imediatamente reagiu ao ato e também ao sorriso. – Irá me apresentar.
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  Thadeo ergueu uma sobrancelha e olhou para %Jessica%, que manteve o sorriso sem malícia. Ele não podia saber que ela entendia perfeitamente o que os dois conversavam, por isso, deixou um quê de confusão em seu olhar.
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  O homem, educado e discreto, limpou a boca com o canto do guardanapo de tecido e então respirou fundo, provavelmente arquitetando a resposta perfeita para o possível herdeiro à presidência.
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  – Seu irmão, Logan, também foi convocado. Com a noiva.
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  %Jessica% sentiu os dedos de %Eric% apertarem os seus com a notícia.
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  – Noiva? Acho que não o parabenizei por essa… novidade.
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  O assistente pessoal do presidente abriu um pequeno sorriso, certo de que havia ganho aquela batalha. Olhou para %Jessica% mais uma vez, antes de dizer para %Eric%:
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  – Acredito que será outra novidade para sua família, senhor, saber que está envolvido em um relacionamento sério.
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  Xeque-mate, %Jessica% pode ouvir claramente do homem, apesar dele não ter verbalizado. Thadeo havia colocado %Eric% contra a parede, e agora era necessário uma dose grande de esperteza e jogo de cintura para contornar aquela situação.
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  – Algum problema? – ela perguntou ao chefe, fingindo estar alheia à luta travada entre os dois. %Eric% a encarou e, sem perceber, acariciou a mão que segurava da mulher, com o polegar.
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  E então, %Jessica% soube: vinha problema por aí.
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  Talvez tenha sido os longos minutos de silêncio, que ela sabia que sempre vinha com alguma tempestade. Ou, quem sabe, a pequena curva que se formou no canto do lábio do homem, um sinal de que tudo estava ocorrendo da maneira que ele queria, o que pedia pela sequência do plano. E apesar de não saber o que exatamente o chefe estava tramando, tinha certeza que ela não sairia ilesa da situação.
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  – Acredito que exista passagens prontas - ele olha para Thadeo, que assente.
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  – Uma passagem, que pode ser resolvida sem problema – o homem olha para %Jessica% novamente, que sorri sem graça com a atenção dos dois dirigida a ela –, devo confirmar a presença do senhor?
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  – O que você acha, %Jessica%? De ir para Nova Iorque?
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  Haja de acordo com o plano. Ela pode ouvir a boca dele dizer, apenas de olhá-los nos olhos. Fez uma expressão de surpresa e, conforme o chefe esperava, disse:
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  – Achei que passaríamos com a minha família.
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  – Surgiu um imprevisto - olhou para Thadeo, que se mantinha calado, aproveitando seu momento de silêncio para comer –, e terei de comparecer a um evento familiar. Adoraria que você fosse comigo.
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  Por que diabos estamos falando sobre o assunto em frente a um homem que mal fala minha língua? Ela quis perguntar a %Eric%, mas, tão rápido veio a resposta, dizendo que, se ele estava falando com ela sobre o assunto, então talvez Thadeo estivesse, da mesma maneira que ela, fingindo ignorância sobre uma língua da qual não era a sua nativa.
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  – Acredito que serei recompensada por essa mudança de planos - ela tentou se desfazer do toque do homem, que a segurou com mais força, sorrindo.
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  – Farei questão de recompensá-la pessoalmente.
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  Ela hesitou por um segundo, fingindo pensar. A verdade era que queria responder um alto e sonoro NÃO, ao mesmo tempo que chorava de alegria por não ter que enfrentar o possivelmente pior natal em família de sua vida.
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  – Bem, então não vejo nenhum mal em mudar nossos planos.
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  – Ótimo. - ele disse, enviando-lhe uma piscadela, e voltou-se para Thadeo, que ao ver a atenção de %Eric%, parou de comer. – Será necessário uma passagem extra.
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  – Perfeitamente. - ele retirou o celular do bolso e digitou algumas palavras. – A data para partida está marcada para o dia 20.
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  Foi necessário todo esforço do mundo para %Jessica% não se engasgar com a notícia. Dia 20 era em dois dias.
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  Ela era uma filha e neta morta.
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  – Eu não entendo o motivo de você se expor a esse tipo de trabalho escravo! - a mãe repetia a exclamação pela quinta vez.
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  Ao chegar em casa, %Jessica% avisou às amigas sobre a notícia, que celebraram uma vitória inexistente e iniciaram uma lista de coisas para ela trazer do exterior. A família, no entanto, reagiu de maneira totalmente oposta, com a mãe ligando, nervosa, plena meia-noite.
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  – Eu vou mandar os doces e os presentes, mãe. A Mari levará para mim quando voltar.
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  – Que chefe faz com que a funcionária perca o natal em família? Ele não tem uma família? Você explicou a ele quão importante é estar presente no nosso evento? Sua avó está quase tendo um infarto, %Jessica%, e eu também estou quase lá. Ninguém nunca faltou no natal, principalmente por um motivo pequeno como este! O que direi para suas tias-- ah, suas tias! Elas tirarão sarro de mim! É isso o que você quer para sua mãe no natal? Que ela vire motivo de piada? Eu não esperava que você…
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  %Jessica% suspirou, olhando para seu reflexo no espelho. Estava, sim, chateada por não poder comparecer ao evento, mas a mãe estava tornando tudo um pouco mais fácil.
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  Ela amava sua família. Era unida, querida e divertida. Só tinham uma inclinação em achar que podiam mandar na vida dos filhos e netos, mas que família não tinha uma pessoa assim?
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  Só que ela estava cansada. Não queria ir para os Estados Unidos também, pelo menos não assim, a trabalho, repentinamente e com uma missão secreta que inclui se passar por namorada do próprio chefe. E a família parecia, como sempre, não entender. E disso ela também estava cansada. De sempre ser a vilã, apenas porque escolheu não se casar.
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  Ouviu calada a mãe falar por mais 40 minutos, até que ela lhe permitiu dizer algo:
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  – Mãe, a senhora me acha uma filha ruim?
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  – Que pergunta é essa? Eu não criei um monstro, oras. Não obedecer os pais, não a faz uma filha ruim. Não na sua idade, mas admito que tive minhas dúvidas quando você tinha 6 anos e adorava rolar morro abaixo no sítio da sua tia Ana Laura, quando eu insistia dizer para não fazer, porque era um trabalho enorme lavar tudo depois.
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  %Jessica% soltou uma risada nasalada, pois Ana Amélia conseguia, sempre, mudar o rumo da conversa em um piscar de olhos.
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  – Se você está feliz, minha filha, é o que importa para mim e seu pai.
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  Após mais meia-hora, %Jessica% desligou a ligação, aliviada por ter ouvido da mãe que não era o estorvo que achava que era. A terapeuta havia dito uma vez que, para as coisas começarem a melhorar, era necessário se comunicar. “Achar” era um erro cometido com frequência pelas pessoas, e que quase sempre levava a um desentendimento ou conflito.
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  Satisfeita, ela adormeceu quase 2 da manhã com o pensamento de que, após essa viagem, não havia jeito de não conseguir um cargo melhor que a assistente faz-de-tudo do chefe.
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  Manhattan era linda. Com seus prédios imponentes e as ruas parecendo espertamente organizadas, a ilha oferecia tudo o que uma pessoa poderia desejar. Com o esplendor ao seu redor, %Jessica% mal se lembrou do quanto estava desgostosa com a ideia de passar os próximos dias naquele lugar.
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  – É sua primeira viagem ao exterior – %Eric% disse, sentado ao seu lado no banco de trás do carro que “Marta” havia contratado para buscá-los no aeroporto.
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  – Sim! - ela disse, sorridente.
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  – Não foi uma pergunta.
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  Ela diminuiu o sorriso um pouco, sem graça por ter se esquecido de que estava ali a trabalho, e que a pessoa que estava ao seu lado era, além da causa da viagem, seu chefe.
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  Limpou a garganta e voltou a se sentar polidamente.
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  – Desculpe, senhor.
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  Ela o observou encará-la com uma das sobrancelhas erguidas. Sentiu-se mal. Ele nunca havia a encarado com uma das sobrancelhas erguidas. Geralmente, aquele ato significava que ela havia cometido um erro, apesar de não grave, ainda um erro que ele gostaria que não se repetisse.
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  Mas, o que ouviu em seguida, a fez-se questionar se os mesmos sinais que ele usava com outras pessoas, valeriam para ela:
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  – Eu acho - ele começou a dizer, abaixando o tablet e pousando-o no próprio colo –, que devemos nos falar com menos casualidade. Quero dizer, você deve falar.
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  – A-ah… - ela gaguejou, sentindo-se extremamente desconfortável. – É-é possível que…
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  – O possível é que você possa ser pega me tratando como um superior sem nem ao menos perceber. - ele disse, a sobrancelha voltando a se erguer. – E isso, sim, será um problema.
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  – Claro. Entendi. - ela disse rapidamente, uma maneira que encontrou de fazê-lo parar de pensar em seus erros de uma vez. Trabalhando com %Eric%, viu que, quanto mais o homem pensava em um assunto, mais criativo ele ficava, seja criando um novo esquema, ou querendo prejudicar outra pessoa. – Então… - ela limpou a garganta –, qual o plano?
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  – Mantenha-se calada o máximo que conseguir. – ele disse, voltando sua atenção ao tablet. – Minha família, como deve imaginar, é muito inteligente. Conseguirão captar qualquer mínimo deslize que cometermos. Basta fingir-se ignorante o tempo todo. Eles tentarão te testar, como Thadeo fez.
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  A mulher assentiu, nervosa, pensando no quanto aquilo poderia ser perigoso. A empresa de %Eric%, no Brasil, era uma das mais promissoras do mercado, o que tornava atrativo tê-la no currículo, mas uma mancha permanente neste, caso se torne algo negativo.
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  – Iremos nos hospedar em meu apartamento. – %Eric% voltou a falar. – Para não levantar suspeitas. Haverá um quarto para você, mas caso aconteça alguma visita, teremos que fingir que estamos dormindo juntos.
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  – Sim, senh… sim. - ela corrigiu-se rapidamente ao vê-lo olhá-la de canto.
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  – Tirando a agenda dos encontros com minha família, você terá todo o resto do tempo livre para fazer o que quiser. - ele finalmente olhou para ela. – Aproveite para passear.
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  – Obrigada.
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  Aquilo, sim, havia sido uma ótima notícia. Havia prometido à mãe e às amigas que voltaria com as malas cheias de presentes e itens de suas listas de pedidos. Além disso, era Nova Iorque e bem na época do Natal, portanto, havia centenas de lugares que gostaria de visitar a passeio. Ter o tempo livre significava poder tirar, finalmente, depois de anos, um tempo para si mesma.
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  – Algum deles fala português? - ela perguntou. – Sei que não irei falar nada sobre qualquer coisa, mas se for obrigada a fingir algo, seria melhor que soubesse se alguém fala a língua.
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  %Eric% olhou para cima, pensativo.
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  – Todos falam espanhol. Logan, meu irmão, com certeza entende um pouco do português.
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  %Jessica% entortou a boca e olhou para a paisagem afora. Não seria fácil, com certeza. Se a família era ligeira como %Eric%, ela sabia que estava entrando em um ninho de cobras.
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  Mas havia convivido com o chefe durante dois anos inteiros. Podia lidar com mais esse obstáculo que, com muita sorte e merecimento, seria o último até que ela fosse finalmente uma funcionária de alta patente, com um salário melhor e uma vida como a das mulheres nos filmes americanos.
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  E nada como começar a se inspirar em seu futuro, vivendo o presente no lugar ideal: Nova Iorque.
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