CAPÍTULO 4 • O começo, parte 2
%Heewon% cruzou os braços abaixo do peito ao encarar Ni-ki.
— Você só pode estar me achando com cara de palhaça! Já vai fazer uma semana que minha moto está aqui senhor Nishimura.
— Ni-ki! — Ele corrigiu cruzando os braços de volta.— Pode me chamar de Ni-ki, caramba! Você é teimosa e eu gosto disso, sabia?
%Heewon% sentiu as bochechas ficarem vermelhas e quentes. Assim como o coração acelerar dentro do peito de forma indevida.
— Se você parasse de dar em cima de mim, minha moto já estaria pronta. Eu estou andando de ônibus, por sua causa. Se continuarmos sem sair do lugar, vou levar a moto para outro lugar.
— E ficar sem me ver todo dia? Tá bom que você consegue doçura.
%Heewon% estreitou os olhos de raiva da prepotência do mais alto. Apesar de achá-lo meio arrogante, ela vinha pensando nele com frequência, e aquilo precisava urgentemente parar… ele era encrenca e das grandes. %Heewon% sabia.
— Faz-me rir, querido. E então? Posso finalmente levar minha moto para casa? — Ela mudou de assunto, reparando no sorriso dele crescer.
— Pode. Tá prontinha para você inclusive correr comigo hoje. A corrida do
Asfalto Fantasma, eu sei que você já deve ter ouvido falar dela por aí. Eu te desafio hoje. Não vai fugir, né?
— Como é?! — A voz de %Heewon% subiu algumas dezenas, o choque evidente em seu tom de voz.
Ni-ki gargalhou, os ombros mexendo no ritmo da risada. O sangue de %Heewon% ferveu dentro das veias.
— Tá me achando com cara de que? Olha bem para mim, querido. Eu jamais me envolveria com nada
ilegal. Tá maluco? Você… — Ela pausou o analisando de cima para baixo. —
Esquece! É óbvio que você sim mexe com coisas ilegais.
A risada rouca dele voltou a invadir seus ouvidos.
— Assim você me ofende, senhorita Cho. Eu posso até me envolver com coisas ilegais aqui e ali, mas nunca fui preso. E cuidei tão bem da sua moto. Fiz um milagre na verdade.
%Heewon% bufou alto, os braços ainda cruzados abaixo dos seios, destacando o tomanho dos mesmos dentro do decote da regata cinza escuro que ela usava. Os olhos de Ni-ki pousaram lá rapidamente, passeando pelo mesmo.
A pele branca dela exposta e tão vulnerável para os dentes dele, fez Ni-ki dar um passo atrás, atordoado…
O coração, já morto dentro do peito deu uma leve acelerada, que nem nas corridas. Ni-ki sentiu os pulsos vibrarem de conexão. Uma conexão que ele sabia que deveria evitar.
Os olhos dele encontraram os de %Heewon%. Ela ainda o analisava com certo desdém disfarçado de desejo. Ni-ki apesar de ser o vampiro mais novo entre os amigos, era vivido e esperto. Esperto o suficiente para saber quando uma mulher o desejava de volta. E ele sabia que %Heewon%, por mais que tentasse fugir, queria.
Ela gostava daquela troca esquisita entre os dois. Gostava da forma como o corpo pulsava perto dele, o coração acelerado gritando nos ouvidos dele que ela estava viva… o fato dele tentar repeli-lo era só fachada, e Ni-ki gostava daquele jogo.
Para ele já havia ficado claro:
era ela.
Mesmo que os dois fossem o completo oposto um do outro. Mesmo que ela fosse toda certinha e ele todo errado.
E ele deveria tentar fugir?
— Apareça na corrida e nós estamos quites.
— Não vou aparecer nessa corrida, Nishimura. Quanto de dinheiro eu lhe devo pelo serviço? Sei que ela deu trabalho.
— Apareça na corrida %Heewon%. Só apareça lá, não precisa correr. Leve alguma amiga para não se sentir sozinha. Apareça na corrida e me pagará o que deve.
🩸🩸🩸
— Achei que você não daria as caras por aqui mais.
Jay arrumava as luvas no pulso, ele só precisou sentir o cheiro de
baunilha invadindo o tatame para saber que era ela.
— Por sua causa? Eu preciso de muito mais que isso para não aparecer mais aqui, bonitinho.
Jay ergueu os olhos da luva e então passeou os olhos por ela.
— Você é a minha aluna das dezoito horas? Desistiu das aulas em grupo porque?
A boca de Jay secou. Ela teria aulas individuais com ele dali para frente?
Não, não, não, não! — Porque minha terapeuta disse que se eu fizer aulas em grupo eu posso ficar desfocada e minha chance de arrumar confusão num grupo muito grande de pessoas é maior e isso não me ajuda em nada no tratamento. — Respondeu %Naryeon%, rápido, tudo de uma vez, atropelando as sentenças.
Não queria ter que se explicar para ele.
— Que tratamento? O que eu tenho haver com esse tratamento? — Pensou alto.
— Nada! Nem com o tratamento, nem com a minha vida. — %Naryeon% deu de ombros. — Você era o único professor de boxe disponível nas dezoito horas.
— É porque eu sou o dono, e único professor de boxe da academia.
Os dois ficaram se encarando em silêncio por segundos a fio.
“Porque essa maldita tem que ser tão bonita?” “Há quanto tempo eu não acho uma humana bonita e atraente assim?” “Eu não posso ceder, sei muito bem o que acontece quando um de nós cede.” — Vai me ensinar ou vai ficar me encarando com essa cara de quem gostou e muito do que viu?
— Eu não gostei nadinha do que vi. — Jay pigarreou para voltar ao próprio eixo. — Aqui somos aluna e professor, e isso já diz tudo.
%Naryeon% abriu a boca para desafiar de volta, mas nada foi dito. Ela estava surpresa com o corte seco vindo do
“professor”. Depois de se recuperar da surpresa ela jogou as luvas nele, as mesmas acertaram em cheio o peito de Jay.
— E você vai me ensinar ou vai ficar ai pagando de certinho? Eu não vim aqui para flertar, vim para lutar.
Jay segurou as luvas contra o peito por um segundo a mais do que precisava, respirando fundo antes de jogá-las de volta para ela.
— Ótimo. — a voz saiu fria, profissional demais para alguém que claramente não estava em paz. — Então entra no ringue.
%Naryeon% arqueou a sobrancelha.
— Só isso? Sem discurso motivacional? Sem “vamos com calma”?
— Aqui não é terapia. — Jay apontou para o tatame. — Aqui você aprende a bater. E a apanhar.
Ela sorriu. Não um sorriso doce — um sorriso de desafio.
— Finalmente algo que eu sei fazer.
Jay subiu no ringue primeiro. Cada movimento dele era calculado, preciso, quase militar. Quando %Naryeon% entrou logo atrás, ele percebeu: ela não andava como alguém inseguro. Havia raiva ali. Raiva antiga. Contida do jeito errado.
— Guarda alta. — ele ordenou, seco. — Pernas afastadas. Se você entrar desse jeito numa luta real, cai em dois segundos.
— Ainda bem que você tá aqui pra me corrigir, né? — ela rebateu, ajustando a posição só para provocá-lo.
— Não testa minha paciência.
— Não testa minha força. — ela respondeu no mesmo tom.
Ele respirou fundo outra vez, aproximando-se apenas o suficiente para ajustar a postura dela. Não tocou.
Não podia. Ainda assim, a proximidade foi o bastante para bagunçar tudo.
— Eu não vou aliviar porque você é nova. — disse, baixo. — E não vou aturar provocação.
— Ótimo. — %Naryeon% levantou os punhos. — Porque eu odeio quando pegam leve comigo.
Jay assentiu uma única vez.
O soco veio rápido, impulsivo, carregado de emoção — e Jay desviou com facilidade, segurando o braço dela no último segundo para impedir que perdesse o equilíbrio.
— Controle! — ele rosnou. — Você luta como se quisesse provar alguma coisa.
— E você luta como se tivesse medo de sentir! — ela disparou, tentando se soltar.
Aquilo atingiu mais fundo do que qualquer golpe.
Jay soltou o braço dela imediatamente, dando dois passos para trás.
— Não confunda as coisas. — a voz dele estava mais baixa agora. — Aqui dentro, eu mando. Você obedece.
%Naryeon% respirava rápido, os olhos faiscando.
— Não se preocupe, professor. — ela ajeitou a guarda outra vez. — Eu não quero nada de você além disso aqui.
Ela apontou para o ringue.
— Mas se você baixar a guarda… eu não vou hesitar.
Jay a encarou por um longo segundo.
Ali, entre socos contidos e palavras afiadas, os dois entenderam a mesma coisa ao mesmo tempo:
Aquilo não era só treino. Era uma guerra anunciada. E nenhum dos dois tinha a menor intenção de recuar.
Nota da autora: Amores o Jake e %Nalya% ficam pro capítulo 5 e vocês vão entender o porque haha. Não se esqueçam de me dizer o que tem achado até aqui <3