Em Todas As Marés

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 1 • O garoto da praia vazia

  O inverno sempre fazia Clara desaparecer. Não literalmente. Ela ainda respondia mensagens atrasadas, aparecia nos almoços de domingo e fingia prestar atenção quando a mãe falava sobre concursos públicos e estabilidade. Mas, por dentro, alguma coisa nela sumia quando junho chegava. Como se o frio abrisse espaço para um vazio antigo que ela nunca conseguiu explicar.
0
Comente!x

  Naquele ano, o desaparecimento veio pior, talvez porque estivesse cansada demais da própria vida. Cansada da faculdade trancada, do namoro terminado sem drama suficiente para justificar a dor. Das amigas seguindo em frente enquanto ela permanecia parada, observando os dias passarem pela janela do quarto como alguém assistindo à vida de outra pessoa.
0
Comente!x

  Então fez o que sempre fazia quando o mundo parecia insuportável: pegou sua câmera analógica, colocou um casaco grosso por cima do moletom e foi para a praia. Saquarema estava quase deserta naquela manhã. O céu tinha um tom branco acinzentado, pesado, como se a cidade inteira estivesse presa dentro de uma fotografia antiga. O vento vinha forte do mar, cortando a pele e bagunçando tudo pelo caminho. Clara gostava disso. Gostava de praias vazias porque ninguém esperava felicidade de alguém sozinho no inverno.
0
Comente!x

  Ela caminhou devagar pela areia úmida, deixando os tênis allstar afundarem levemente a cada passo. O mar estava agitado naquele dia. As ondas quebravam violentas contra as pedras, espumando como raiva acumulada. Perfeito. Ergueu a câmera e fotografou o horizonte.
0
Comente!x

  Click.
0
Comente!x

  Depois as pedras.
0
Comente!x

  Click.
0
Comente!x

  Depois o mar.
0
Comente!x

  Click.
0
Comente!x

  Gostava de fotografar coisas que pareciam sobreviver mesmo destruídas, já que no fundo, havia em Clara um sentimento natural e melancólico, como de alguém que entendesse aquilo.
0
Comente!x

  Continuou andando até encontrar um ponto mais afastado da praia, perto das pedras escuras onde quase ninguém costumava ficar. Sentou-se ali, abraçando os joelhos por alguns segundos enquanto observava a água avançar e recuar infinitamente. O vento gelado fazia seus olhos arderem, ou talvez fosse só cansaço. Clara estava prestes a levantar quando ouviu música. Baixinha primeiro, distante, quase engolida pelo som do mar. Ela franziu a testa. Era uma melodia antiga, saindo de um rádio portátil cheio de chiados.
0
Comente!x

  Não reconheceu a música de imediato, mas havia alguma coisa estranhamente familiar nela, então Clara começou a procurar a origem do som e virou o rosto na exata direção dele. Um garoto caminhava sozinho pela areia molhada, segurando uma caixinha de som no formato de um rádio antigo, como se tivesse saído de outro tempo. Usava uma jaqueta jeans escura, tênis gastos e os cabelos castanhos bagunçados pelo vento. Ele não parecia sentir frio, apesar da jaqueta e também não parecia pertencer àquele lugar.
0
Comente!x

  Havia algo melancólico nele, não tristeza exatamente. Era mais… distância. Como alguém que estava presente só pela metade, e Clara reconhecia-se naquilo. Ela o observou enquanto ele caminhava sem pressa, olhando o mar como se procurasse alguma coisa perdida entre as ondas. Então, quase sem perceber, levou a câmera até o rosto dele.
0
Comente!x

  Click.
0
Comente!x

  O garoto virou imediatamente. Os olhos dele encontraram os dela, e o ar sumiu dos pulmões de Clara. Foi rápido, dois segundos, talvez menos, mas alguma coisa atravessou seu peito de maneira tão brusca que ela precisou abaixar a câmera. “Reconhecimento”, aquela foi a primeira palavra que apareceu em sua mente, não atração, nem curiosidade. Reconhecimento. Como encontrar uma música que você não ouve há anos, mas ainda sabe cantar inteira e te deixa uma vibe incrível de prazer e calma.
0
Comente!x

  O garoto começou a andar na direção dela, assim que percebeu a foto registrada pela garota, mas sobretudo, quando ela abaixou a câmera revelando seu rosto e o encarando. Clara sentiu o coração acelerar. “Ótimo! Agora ele acha que sou uma psicopata!”, pensou. Quando ele parou diante dela, o vento pareceu ainda mais frio.
0
Comente!x

  De perto, era mais bonito do que ela imaginava. Tinha olhos escuros cansados demais para alguém tão jovem e uma expressão tranquila que dava vontade de continuar olhando.
0
Comente!x

  — Você tirou uma foto minha? — ele perguntou.
0
Comente!x

  A voz era baixa. Rouca na medida certa. Clara abaixou totalmente a câmera rapidamente, quase como se a escondesse.
0
Comente!x

  — Foi sem querer.
0
Comente!x

  Ele arqueou uma sobrancelha.
0
Comente!x

  — Sem querer você apontou a câmera exatamente pra mim?
0
Comente!x

  Ela segurou o riso.
0
Comente!x

  — Talvez eu esteja fotografando o mar.
0
Comente!x

  — E eu tenho cara de oceano?
0
Comente!x

  Pela primeira vez em semanas, Clara sorriu de verdade. Um sorriso pequeno, instintivo, quase involuntário. O garoto percebeu e sorriu também. Aquilo piorou tudo.
0
Comente!x

  — Posso ver? — ele perguntou, apontando para a câmera.
0
Comente!x

  Ela hesitou antes de entregar. O garoto aproximou-se um pouco mais, para observar a fotografia revelada parcialmente no visor, subindo em algumas das pedras que ela estava sentando-se ao lado dela. Clara sentiu o cheiro de chuva e cigarro na roupa dele. E achou o odor estranhamente familiar, estranhamente confortável.
0
Comente!x

  — Ficou boa — ele disse.
0
Comente!x

  — Você nem conseguiu ver direito… Espera. — Ela falou tentando dar um “zoom” na imagem.
0
Comente!x

  — Mas você conseguiu ver direitinho.
0
Comente!x

  Ela franziu a testa.
0
Comente!x

  — O quê?
0
Comente!x

  — Me ver, de um jeito muito único.
0
Comente!x

  Clara sustentou o olhar dele por alguns segundos longos demais. O vento bagunçava os cabelos dos dois enquanto o rádio da caixinha continuava tocando baixinho ao lado deles.
0
Comente!x

  — A fotografia ficou ótima. Qual seu nome? — ele perguntou.
0
Comente!x

  — Clara.
0
Comente!x

  Ele assentiu lentamente, como se estivesse confirmando algo que já sabia.
0
Comente!x

  — Combina com você.
0
Comente!x

  — E o seu?
0
Comente!x

  — Daniel.
0
Comente!x

  O nome caiu estranho dentro dela como uma memória.
0
Comente!x

  Daniel ajeitou-se ao lado dela, apoiando os braços nos joelhos enquanto observava o mar, o que fez os seus corpos se aproximarem mais. E, estranhamente, Clara não se incomodou. Normalmente odiava pessoas invasivas, mas o silêncio dele não era desconfortável, era calmo.
0
Comente!x

  Os dois ficaram alguns segundos olhando as ondas quebrarem.
0
Comente!x

  — Você vem sempre aqui? — Daniel perguntou.
0
Comente!x

  — Só quando quero sumir.
0
Comente!x

  Ele soltou uma risada baixa pelo nariz.
0
Comente!x

  — Então você vem bastante?
0
Comente!x

  Clara olhou para ele de lado.
0
Comente!x

  — E você?
0
Comente!x

  Daniel demorou um pouco antes de responder.
0
Comente!x

  — Eu venho quando quero me lembrar de quem eu realmente sou.
0
Comente!x

  Aquilo ficou entre eles. Eram pouquíssimas as palavras trocadas entre eles desde que iniciaram o diálogo, mas apesar de poucas, tudo o que diziam soava pesado, bonito. E era até, de certa maneira, difícil de entender a sensação de familiaridade entre eles.
0
Comente!x

  O rádio chiou novamente por causa do vento, já que a caixinha de som de Daniel, era mesmo antiga e não parecida como uma tecnologia antiga, tinha até uma antena. Daniel bateu de leve na lateral do aparelho até a música voltar.
0
Comente!x

  — Isso é muito velho — Clara comentou. — Eu achei que fosse uma dessas JBL que imitam um rádio vintage.
0
Comente!x

  — Eu sei, mas eu prefiro as coisas mais autênticas e não as que se parecem autênticas.
0
Comente!x

  Ele deu de ombros.
0
Comente!x

  — Também gosto de coisas que sobrevivem ao tempo.
0
Comente!x

  Ele sentiu um arrepio, porque era exatamente o tipo de coisa que ele pensaria. O mar parecia mais agitado agora. As ondas avançavam cada vez mais perto das pedras. Daniel observava o horizonte como alguém esperando alguma coisa acontecer.
0
Comente!x

  — Isso é… Estranho — ele murmurou.
0
Comente!x

  — O quê?
0
Comente!x

  Os olhos dele encontraram os dela novamente. E ali estava aquela sensação outra vez, como déjà vu. Como saudade. Como se aquele momento estivesse se repetindo.
0
Comente!x

  — Tenho a impressão de que já conheço você — ele disse.
0
Comente!x

  Clara deveria ter achado aquilo ridículo, um tipo de frase pronta, uma cantada ruim, algo clichê, mas não conseguiu porque sentia exatamente o mesmo.
0
Comente!x

  Ela apertou os dedos em volta da câmera.
0
Comente!x

  — Acho que nunca te esqueceria se já tivesse conhecido. — Ela arriscou.
0
Comente!x

  Daniel sustentou o olhar dela por tempo demais. Então sorriu de leve, triste só que de um jeito bonito.
0
Comente!x

  — É estranho que eu simplesmente parei aqui do seu lado assim que olhei nos seus olhos e… É confortável mesmo que a gente só esteja em silêncio a maior parte do tempo.
0
Comente!x

  — E é estranho que eu não tenha ficado desconfortável. Geralmente eu acho invasivo quem se aproxima assim “do nada”. — Ela sorriu.
0
Comente!x

  — É invasivo para mim quem tira foto do meu rosto “do nada” — Daniel brincou arrancando um riso sincero dela. — Você disse que não se esqueceria se a gente tivesse se conhecido, mas talvez você tenha esquecido mesmo assim. Sei lá… É muito certo para mim que a gente já se conhece de algum lugar.
0
Comente!x

  O vento aumentou naquele instante. O rádio chiou de nova, e mais uma vez, as ondas quebraram violentas contra as pedras um pouco distante de onde eles estavam, as mesmas que Clara fotografou primeiro assim que pisou na praia. Uma gaivota atravessou o céu cinza acima deles no mesmo instante que Daniel disse aquilo, como se concordasse com ele, e Clara sentiu, sem entender por quê, que sua vida acabava de mudar. Ela só ainda não sabia quanto.
0
Comente!x

Capítulo 1
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Todos os comentários (0)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x