Em Todas As Marés

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 3 • O que o mar leva?

  Daniel permaneceu olhando o mar depois da pergunta de Clara. O vento movimentava lentamente os fios castanhos do cabelo dele enquanto a música baixa continuava chiando na pequena caixa de som antiga. Por alguns segundos, Clara pensou que ele talvez não fosse responder, mas então Daniel soltou um suspiro quase imperceptível.
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  — Acho que até acredito em coisas que não consigo explicar.
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  Clara manteve os olhos nele.
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  — Isso não responde exatamente a minha pergunta.
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  Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
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  — E você sempre insiste até conseguir respostas?
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  — Só quando sinto que a pessoa tá fugindo delas.
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  Daniel abaixou a cabeça, deixando escapar uma risada baixa pelo nariz.
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  — Justo.
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  O silêncio voltou entre eles por alguns segundos, íntimo, vulnerável como se aos poucos os dois começassem a baixar defesas que nem sabiam que carregavam. Daniel passou os dedos distraidamente pela lateral da caixinha de som antes de voltar a falar:
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  — Quando eu era criança, meu pai dizia que algumas pessoas se encontram várias vezes. Em vidas diferentes.
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  Clara sentiu um arrepio subir lentamente pelos braços.
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  — Ele acreditava nisso?
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  Daniel assentiu.
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  — Muito. Ele dizia que certas conexões são antigas demais pra começarem do nada.
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  O coração dela apertou discretamente, porque aquela frase fazia sentido demais. Daniel finalmente virou o rosto na direção dela. Os olhos escuros pareciam cansados naquele dia. Mais do que antes.
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  — Sinto, desde o início dos meus sonhos, que conheço você de um lugar que não existe mais, e como se a ausência desse lugar ou de você, tivesse sido algo… Trágico. Eu me arrasto pelos dias da minha vida há anos! Começou quando passei a te encontrar nos meus sonhos desde os 15 anos, e piorou depois que o meu pai morreu.
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  Clara prendeu a respiração.
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  — Espera… Sonha comigo desde os seus 15 anos? — Ela perguntou assustada e ele apenas assentiu. — Sabe… Eu nunca havia sonhado com você antes, mas senti uma conexão entre nós desde que te vi na areia. Sonhei pela primeira vez contigo, mas eu também sinto essa familiaridade sobre você… Quero dizer… Eu…. Eu também acho que amei você, porque não tem ninguém ocupando mais o meu pensamento desde ontem.
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  Daniel a encarava fascinado. Mas Clara mordeu os lábios como alguém que não sabia se deveria ter dito aquilo.
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  — Isso assusta você? — ela perguntou baixinho.
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  Ele demorou um pouco antes de responder.
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  — Não. E você?
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  Os olhos dele desceram involuntariamente até a boca dela de novo, só por um segundo, e dessa vez Clara não desviou.
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  — Me assusta o quanto isso parece real.
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  Clara tentou ignorar a maneira como seu coração batia rápido demais, tentou ignorar a proximidade entre os dois, tentou ignorar o fato de que queria continuar ali, muito.
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  — Talvez seu pai estivesse certo — ela murmurou. — Nos últimos dois anos a minha vida têm sido monótona, solitária e eu sempre andei inquieta como se tivesse perdido algo importante no meio do caminho, mas não sabia o quê. E estar do seu lado aqui e agora, me acalma. Uma sensação segura que eu nunca tive com mais ninguém e eu quero tanto acreditar que seu pai estava certo! Porque do contrário, eu seria uma completa insana em querer… — Ela foi falando aos poucos, com receio: — beijar a sua boca desesperadamente… — Clara sussurrou.
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  Daniel sustentou o olhar dela procurando permissão para agir. Mas antes que qualquer um dos dois dissesse mais alguma coisa, o celular de Clara vibrou no bolso do casaco. O som abrupto pareceu quebrar o momento inteiro.
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  Ela se afastou levemente para pegar o aparelho. Mensagem da mãe: “Você vai voltar pra casa hoje ou virou surfista?”. Clara soltou uma risada involuntária. Daniel observou aquilo em silêncio, e sorriu também.
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  — Problemas?
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  — Minha mãe acha que eu tô entrando pra uma seita do litoral.
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  — E tá?
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  Ela olhou para ele de lado.
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  — Ainda tô avaliando o líder da seita.
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  Daniel levou a mão ao peito dramaticamente.
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  — Isso foi ofensivo.
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  Clara riu. Um riso verdadeiro, leve, bonito e que há muito tempo não dava. E Daniel percebeu imediatamente, os olhos dele mudavam quando ela ria, ficavam mais vivos, menos cansados. Como se Clara puxasse Daniel de volta para o presente sem perceber. O problema era que ela começava a sentir o mesmo.
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  Os dois continuaram conversando por horas naquele dia, sobre coisas pequenas primeiro: filmes antigos, músicas melancólicas, fotografia, livros que mudavam pessoas. Depois sobre coisas maiores: medo, solidão, a sensação de estar perdido mesmo rodeado de gente. E, em algum momento entre uma conversa e outra, Clara percebeu que com Daniel, ela não estava escolhendo palavras, não estava tentando parecer interessante, não estava escondendo partes de si. Aquilo raramente acontecia. Com Daniel, porém, parecia impossível mentir.
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  O céu já começava a escurecer quando o vento ficou mais frio, e Daniel levantou primeiro das pedras.
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  — Vem.
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  Clara ergueu os olhos.
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  — Pra onde?
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  Ele apontou para a beira do mar.
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  — Quero te mostrar uma coisa.
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  Ela hesitou por meio segundo antes de segui-lo. Os dois caminharam lentamente pela areia úmida enquanto as ondas avançavam perto dos pés deles. O frio fazia as mãos de Clara doerem um pouco, mas ela não reclamou. Quando chegaram perto de uma formação de pedras mais afastada, ele parou. O mar batia forte ali, espuma branca subindo pelas rochas escuras. Daniel apontou discretamente para uma das pedras maiores. Havia palavras riscadas nela, centenas delas, nomes, datas, frases antigas desgastadas pela maresia. Clara aproximou-se devagar.
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  — As pessoas escrevem aqui há anos — Daniel explicou. — Meu pai me trouxe uma vez quando eu era pequeno.
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  Ela passou os dedos por algumas inscrições apagadas. Então viu uma frase ainda parcialmente legível: “Eu vou te encontrar em qualquer vida, em todas as marés.” Seu coração disparou.
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  — Daniel…
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  — Eu sei.
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  Ela virou rapidamente na direção dele.
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  — Você escreveu isso?
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  Ele balançou a cabeça devagar.
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  — Não.
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  O vento soprou mais forte. Clara encarou a frase outra vez. Aquelas palavras pareceram atravessar alguma coisa dentro dela, como eco, ou memória. Então, sem perceber, ela disse:
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  — Eu sonhei com esse lugar.
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  Daniel ficou imóvel.
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  O rosto perdeu a pouca cor que ainda tinha.
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  — O quê?
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  Clara franziu a testa, tentando entender as próprias lembranças.
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  — Não exatamente assim… mas essas pedras. O mar. Essa sensação.
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  Daniel começou a respirar mais devagar. Como alguém tentando controlar alguma emoção forte demais.
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  — Clara…
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  Ela levantou os olhos para ele e percebeu o quanto Daniel parecia abalado de verdade.
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  — O que foi?
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  Ele passou a mão nervosamente pelos cabelos bagunçados pelo vento.
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  — Eu também. Te encontro muitas vezes nesse lugar, em diferentes marés, em diferentes épocas.
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  O silêncio caiu pesado entre os dois. O som das ondas parecia mais alto, mais agressivo. Clara observava Daniel tentando entender por que aquilo tudo parecia tão impossível e, ao mesmo tempo, tão certo. Então Daniel se aproximou lentamente. Dessa vez sem hesitar, sem recuar. Os olhos dele estavam presos nela de um jeito que fez o ar desaparecer do peito de Clara.
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  — Eu acho que tem alguma coisa acontecendo com a gente — ele disse quase num sussurro.
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  Ela sentiu o coração acelerar violentamente.
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  — Eu também acho.
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  O vento gelado atravessou os dois, mas Clara já não sentia frio. Daniel levantou a mão devagar, tentando não assustá-la. Os dedos dele tocaram seu rosto com delicadeza. E, naquele instante, Clara sentiu a mesma coisa do sonho. Reconhecimento. Não do toque, da alma. Ela fechou os olhos por um segundo. Daniel se aproximou mais. Tão perto agora que ela conseguia sentir sua respiração misturada à dela. Os lábios quase se tocaram. Quase. De repente, Daniel se afastou bruscamente. Levou a mão ao peito, a respiração falhou. Clara arregalou os olhos imediatamente.
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  — Daniel? Pode me beijar, eu… Eu quero.
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  Ele tentou responder, mas não conseguiu. O rosto dele ficou pálido rápido demais, uma dor atravessava sua expressão agora, forte, familiar e assustadora.
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  — Ei… o que aconteceu?
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  Daniel fechou os olhos com força, respirando curto. Então, depois de alguns segundos tensos demais, conseguiu recuperar o ar parcialmente.
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  — Tá tudo bem — mentiu.
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  Clara franziu a testa imediatamente.
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  — Isso claramente… não está tudo bem.
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  Daniel desviou o olhar. E foi exatamente naquele momento que Clara percebeu: ele escondia alguma coisa.
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Capítulo 3
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