Em Todas As Marés

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 5 • Em todas as marés

  O inverno parecia mais cruel desde que Clara percebeu que o tempo deles podia acabar. Não de um jeito exagerado ou dramático. Era pior que isso. Era silencioso. Estava nos remédios esquecidos ao lado da cama de Daniel, nas pausas discretas entre algumas respirações, no cansaço que às vezes surgia de repente no meio de uma risada. No modo como ele apertava o peito discretamente achando que ela não percebia. Mas Clara percebia tudo. E mesmo assim, os dias ao lado dele se tornaram os mais bonitos da vida dela. Talvez porque Daniel vivesse cada momento como alguém tentando transformar pequenas coisas em eternidade.
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  Os dois passaram a ocupar os mesmos espaços naturalmente. Como se sempre tivesse sido assim. Daniel aparecia na casa dela trazendo café e fitas cassete velhas que insistia em fazê-la ouvir. Clara o obrigava a assistir filmes ruins só para reclamar do roteiro enquanto ele ria dela o tempo inteiro. Caminhavam por Saquarema como um casal antigo demais para parecer recente. E às vezes, no meio de momentos completamente comuns, Clara sentia vontade de chorar porque tudo parecia precioso demais.
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  Numa tarde chuvosa de agosto, Daniel apareceu na casa dela segurando uma caixa de madeira pequena.
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  — Preciso te mostrar uma coisa.
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  Clara abriu espaço para ele entrar enquanto a chuva escorria pelos ombros da jaqueta dele.
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  — Você tá com cara de quem vai me contar que matou alguém.
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  — Talvez seja menos grave.
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  Ela riu, fechando a porta. Daniel colocou a caixa sobre a cama dela com cuidado, dentro havia dezenas de fitas cassete, muito mais antigas que as outras. As mãos dele passaram lentamente sobre elas antes de pegar uma específica. Na etiqueta estava escrito: “Clara.” Ela franziu a testa imediatamente.
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  — Daniel… isso é impossível.
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  — Eu sei.
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  Ele entregou a fita para ela.
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  Os dedos dos dois se tocaram rapidamente.
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  — Gravei isso antes de te conhecer.
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  Clara sentiu um arrepio atravessar o corpo inteiro.
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  — O quê?
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  Daniel sentou devagar na ponta da cama. Parecia nervoso pela primeira vez em muito tempo.
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  — Eu comecei a gravar fitas quando os sonhos ficaram mais frequentes.
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  Ela permaneceu em silêncio.
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  — Eu não sabia quem você era… mas sabia seu nome.
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  O quarto pareceu pequeno demais de repente. A chuva batia contra a janela enquanto Clara encarava aquela fita como se segurasse alguma coisa impossível.
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  — Daniel…
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  — Eu sei como parece.
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  — Não, você não entende. Isso não parece loucura. Isso parece… pior.
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  Ele soltou uma risada baixa.
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  — Pior?
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  Os olhos dela se encheram devagar.
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  — Parece destino.
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  Daniel ficou quieto porque no fundo sentia exatamente o mesmo. Clara colocou a fita no aparelho antigo que ele havia levado junto da caixa. O chiado veio primeiro. Depois a voz dele surgiu. Mais nova, mais insegura, mais triste.
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  “Eu não sei se você existe de verdade.”
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  Clara sentiu o coração apertar imediatamente. A gravação continuou:
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  “Mas eu sonhei com você de novo hoje. Na praia. Como sempre.”
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  Daniel observava o rosto dela em silêncio enquanto a fita rodava.
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  “Às vezes acho que enlouqueci. Porque nos sonhos eu amo você há tanto tempo que chega a doer quando acordo.”
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  Clara levou a mão até a boca sem perceber. A voz dele falhou um pouco antes de continuar:
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  “Se você existir mesmo… espero que me encontre antes que seja tarde.”
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  A fita terminou num chiado baixo.
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  O quarto mergulhou num silêncio diferente depois disso, embora, não pesado. Apenas, íntimo. Clara virou lentamente o rosto para Daniel e percebeu que ele parecia assustado. Como se tivesse acabado de entregar a parte mais vulnerável de si. Ela atravessou o pequeno espaço entre os dois sem pensar, segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou. Não delicadamente daquela vez, mas como alguém tentando convencer o universo a não tirar aquilo dela. Daniel correspondeu imediatamente, envolvendo a cintura dela enquanto a puxava para perto. Havia urgência nos toques, medo, amor e alguma coisa parecida com despedida.
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  Quando se afastaram, Daniel encostou a testa na dela tentando recuperar o ar.
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  — Eu queria ter te encontrado antes.
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  A frase destruiu Clara de um jeito silencioso porque ela queria também. Queria ter conhecido Daniel antes da doença piorar, antes do medo, antes da urgência. Queria uma vida inteira, não migalhas de tempo, mas talvez algumas pessoas nascessem destinadas a se amar intensamente, não longamente.
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  Os meses passaram rápido demais e o verão começou a surgir devagar em Saquarema. Clara percebeu antes de Daniel que ele estava piorando: as mãos mais frias, o cansaço cada vez mais constante, as dores escondidas, a respiração curta depois de coisas simples, todos sintomas conhecidos já, porém, potencializados nos últimos meses. E Daniel continuava vivendo como se tentasse alcançar a própria vida antes que ela acabasse. Levava Clara para ver o mar à noite, comprava flores aleatórias em bancas de rua, gravava fitas novas para ela. Tirava fotografias dela distraída porque dizia que queria lembrar “do jeito exato que ela existia”, apesar de ser ela quem ficaria com as memórias se ele partisse daquela doença. E Clara amava tudo que ele a proporcionava, até os medos, a tristeza. Porque amar Daniel era como amar alguma coisa rara demais para durar.
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  Numa madrugada quente de dezembro, Clara acordou sozinha na cama dele. A luz do banheiro estava acesa. Ela levantou imediatamente, encontrou Daniel sentado no chão frio, tentando respirar em silêncio para não acordá-la. O rosto estava molhado, suor, lágrimas, talvez os dois. Clara ajoelhou na frente dele sem pensar.
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  — Meu amor…
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  Daniel fechou os olhos quando ouviu aquilo. “Meu amor”. Como se ainda não acreditasse que alguém o chamava assim. Ela segurou o rosto dele delicadamente.
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  — Você precisava ter me acordado.
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  Ele tentou sorrir.
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  — Queria deixar você dormir mais um pouco.
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  Clara sentiu o peito partir, até sofrendo ele ainda tentava protegê-la. Naquela noite, Daniel acabou sendo internado e os dias seguintes passaram em fragmentos dolorosos. Hospitais. Luzes brancas. Médicos evitando respostas diretas. Clara segurando a mão dele durante horas, mas o pior não era o medo. Era a sensação cruel de reconhecimento como se uma parte dela soubesse desde o começo que aquilo terminaria assim.
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  Num fim de tarde silencioso, Daniel chamou Clara para perto da cama. Ele parecia cansado demais agora, mas os olhos ainda eram os mesmos: os olhos do garoto da praia vazia.
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  — Tem uma coisa pra você em casa — ele disse baixinho.
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  Clara apertou mais forte a mão dele.
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  — Você mesmo pode me entregar quando sair daqui.
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  Daniel sorriu pequeno, triste.
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  — Clara…
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  Ela já estava chorando antes mesmo dele continuar.
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  — Não faz isso.
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  Ele levou os dedos lentamente até o rosto dela, enxugando uma lágrima.
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  — Em toda vida… eu procuraria você de novo.
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  O coração dela se despedaçou.
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  — Então fica nessa.
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  Daniel fechou os olhos por alguns segundos, como alguém tentando permanecer. Tentando lutar. Tentando voltar. Mas o corpo já parecia distante demais. Quando ele abriu os olhos outra vez, havia paz neles. E amor. Muito amor.
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  — Eu te encontrei, afinal.
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  Foi a última coisa que Daniel disse.
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  Depois do enterro, Clara passou dias sem conseguir entrar no mar. Sem conseguir ouvir música, sem conseguir respirar direito dentro da própria vida. A cidade inteira parecia vazia de novo, como antes de o encontrar. Como se Daniel tivesse levado partes do mundo junto dele. Foi numa manhã cinza de janeiro que ela finalmente criou coragem para voltar à casa dele. A mãe dele a recebeu em silêncio, abraçou Clara forte demais. Eram duas mulheres que entendiam perfeitamente aquele tipo de dor, e depois do abraço, a sogra apontou para a sala.
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  — Ele deixou isso pra você.
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  A caixa de madeira estava sobre a mesa. Dentro dela havia fotografias dos dois, fitas cassete, bilhetes e uma última gravação. Clara colocou a fita para tocar com as mãos tremendo. O chiado veio primeiro, depois a voz de Daniel. Repetitivo e reconhecido… Como tudo o que girava em torno deles. No entanto, diferente da primeira gravação que ela havia escutado dele, nessa, a voz de Daniel era mais baixa, mais cansada.
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  “Oi, amor.”
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  Clara começou a chorar imediatamente.
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  “Se você tá ouvindo isso… então eu fui embora antes de conseguir dizer tudo.”
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  Ela fechou os olhos. A voz dele continuou:
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  “Mas acho que você sempre soube.”
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  Clara apertou a fita contra o peito.
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  “Você foi a coisa mais bonita que já aconteceu comigo.”
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  As lágrimas caíam silenciosas agora.
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  “E eu preciso que você me prometa uma coisa.”
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  Ela respirou fundo.
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  “Volta pra praia às vezes.”
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  Clara sorriu chorando. Claro que ele pediria isso.
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  “Porque em algum lugar do universo… eu ainda vou estar caminhando perto do mar procurando você.”
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  O chiado aumentou por alguns segundos. Depois a última frase veio:
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  “E em toda vida, Clara… eu escolheria você, em todas as marés…”
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  A fita terminou.
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  Meses depois, Clara voltou à praia numa manhã de inverno. O céu estava cinza outra vez, o vento gelado, o mar inquieto. Exatamente como no dia em que conheceu Daniel. Ela caminhou lentamente pela areia segurando a câmera analógica entre os dedos. Então parou perto das pedras. As mesmas pedras. E sorriu ao perceber algo escrito nelas que antes não estava ali.
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  “Se eu não tiver dito, aliás, saiba que eu te reencontrei em todas as vidas.”
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  Clara passou os dedos devagar sobre as palavras. Depois levantou os olhos para o mar e pela primeira vez desde que Daniel partiu… Ela não sentiu ausência. Sentiu encontro. Ela iria encontrá-lo de novo, tinha certeza disso, e orava para que ainda nesta vida, todas as noites, ela pudesse ao menos, sonhar com ele.
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Fim.

Capítulo 5
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