Em Todas As Marés

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 2 • Como se eu já tivesse amado você

  Clara voltou para casa com o cheiro do mar preso no casaco e o pouco — e familiar — diálogo com Daniel, impregnado em sua mente. Tentou agir normalmente: deixou os tênis perto da porta, respondeu às perguntas automáticas da mãe com respostas também automáticas e fingiu assistir qualquer coisa na televisão durante o jantar. Mas sua mente continuava naquela praia cinza, naquele vento frio e, principalmente, na maneira como Daniel a olhava como se lembrasse dela. Mesmo sem lembrar.
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  Naquela noite, demorou horas para dormir. Ficou deitada encarando o teto do quarto enquanto a chuva começava a bater devagar contra a janela. Pegou o celular várias vezes, sem saber exatamente o quê procurava. Talvez distração. Talvez silêncio. Talvez ele, mas nem sequer tinham trocado números. Aquilo deveria facilitar as coisas.
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  Deveria transformar Daniel apenas em um encontro estranho de praia, uma memória bonita que desapareceria em alguns dias. Então por que parecia exatamente o contrário? Clara virou o rosto para a câmera analógica em cima da escrivaninha e levantou da cama, em seguida pegou o equipamento nas mãos e abriu a fotografia outra vez: Daniel caminhando perto do mar. A imagem tremida, os tons frios, a jaqueta escura balançando com o vento. Como ele pôde dizer que aquela foto havia “visto ele” se havia ficado com a resolução de centavos? Parecia menos uma foto e mais uma lembrança antiga recuperada por acaso.
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  Clara aproximou o polegar do retrato, e sentiu um arrepio inexplicável, um sentimento apertado no peito, uma angústia parecida com saudade. Mas, não exatamente saudade dele. Saudade de alguma coisa que existia quando estava perto dele.
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  Ela fechou os olhos por alguns segundos, e acabou dormindo assim, com a fotografia entre os dedos. E foi dessa forma que o sonho veio quase imediatamente:
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  O mar estava escuro. Não cinza como naquela manhã, escuro de verdade. O céu parecia enorme acima dela, carregado de nuvens pesadas enquanto o vento agitava violentamente a água. Clara estava descalça. Usava roupas antigas que nunca tinha visto antes, mas que, estranhamente, pareciam familiares em seu corpo. Ela procurava alguém no sonho. Seu coração sabia disso mesmo antes de sua mente entender, então viu Daniel parado perto das ondas. Mais distante do que deveria. O vento fazia o casaco preto dele balançar enquanto observava o horizonte com uma expressão triste demais. Clara tentou correr até ele, mas a areia parecia prendê-la, cada passo ficava mais pesado. Mais lento. Como se o próprio sonho estivesse tentando impedi-la de alcançá-lo.
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  — Daniel! — ela gritou.
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  Ele finalmente virou o rosto e sorriu. Não um sorriso feliz, um sorriso de despedida. O mar avançou violentamente naquele instante, a água atingiu seus pés, depois seus joelhos, depois sua cintura. Clara tentou continuar andando mesmo assim, afinal, precisava alcançá-lo. Precisava!
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  Quando finalmente conseguiu tocar sua mão, Daniel segurou seu rosto delicadamente. Os dedos dele estavam gelados, os olhos fixos nela como se tentasse decorar cada detalhe. Então ele disse alguma coisa, mas o som do mar engoliu suas palavras.
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  E aí, Clara acordou assustada. O peito disparado, a respiração curta, os dedos apertando o lençol. Ainda estava escuro no quarto, por alguns segundos, Clara ficou parada tentando distinguir o que era sonho, do que era memória. Porque aquilo tudo parecia memória. Isso era o pior.
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  Clara passou a mão pelo rosto devagar, e percebeu uma coisa absurda: sentia falta dele. Mesmo tendo conhecido Daniel há menos de um dia.
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  Naquela manhã pós-sonho, ela voltou para a praia e tentou inventar desculpas para si mesma durante todo o caminho. “Eu só quero fotografar um pouco mais”, “na verdade, só estou indo espairecer”, “não, não é isso, só estou entediada!”, eram os seus pensamentos intrusivos. Tudo, na verdade, mentira. O que a Clara queria, era encontrá-lo de novo.
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  O céu permanecia nublado quando chegou, Saquarema não veria o clima veronil tão cedo, e se tratando de inverno, Clara não esperava um cenário diferente. Contudo, o vento estava menos agressivo naquela manhã, embora ainda fizesse o mar parecer inquieto.
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  Ela caminhou devagar pela areia, o coração acelerando discretamente a cada passo. E então o viu. Quase pôde sentir o sobressalto do seu ventrículo esquerdo com o espanto de encontrar Daniel parado como um déjà-vu ali. Ele estava sentado perto das pedras outra vez, o velho radinho ao lado dele. Os braços apoiados nos joelhos, os olhos perdidos no horizonte, como se nunca tivesse saído dali e fizesse parte da paisagem. E, por algum motivo estranho, Clara sentiu alívio.
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  Daniel virou o rosto antes mesmo que ela se aproximasse completamente.
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  — Eu sabia que você voltaria.
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  Ela parou perto dele.
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  — Isso foi uma cantada?
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  Ele sorriu de lado.
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  — Não. Foi só uma observação.
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  Clara tentou esconder o sorriso automático que surgiu em resposta.
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  — Convencido. Você voltou também.
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  Ela sentou-se ao lado dele nas pedras frias. Perto demais, natural demais até mesmo para alguém que havia relatado a ele um dia antes que “sentar perto de alguém do nada era invasivo e incômodo”.
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  — Talvez eu goste da praia — respondeu.
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  Daniel observou seu rosto por alguns segundos longos.
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  — Talvez eu também.
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  O silêncio caiu entre eles outra vez, mas havia alguma coisa perigosa naquele silêncio agora. Ainda não era desconforto, era ainda mais intimidade e reconhecimento. Como se os dois estivessem lentamente reaprendendo a presença um do outro.
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  A música baixa saía da caixinha antiga dele enquanto o vento espalhava o cheiro de maresia ao redor. Clara percebeu olheiras discretas abaixo dos olhos de Daniel e também percebeu que ele parecia cansado. Não fisicamente apenas. Era um cansaço mais profundo de alguém carregando tempo demais dentro do peito.
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  — Você dorme pouco? — Clara perguntou sem cerimônia.
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  Daniel soltou uma risada baixa.
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  — Dá pra perceber?
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  — Seus olhos entregam.
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  Ele ficou em silêncio por alguns segundos e depois respondeu:
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  — É que às vezes eu sonho demais.
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  Clara sentiu o corpo arrepiar imediatamente.
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  — Sonhos ruins?
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  Daniel demorou um pouco antes de responder. Os olhos dele continuavam presos no mar.
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  — Não ruins… só tristes.
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  Ela engoliu seco.
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  — Com o quê você sonha?
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  Daniel virou o rosto lentamente na direção dela. E aquela sensação voltou outra vez. A estranha impressão de repetição, do já famigerado reconhecimento, de alguma coisa atravessando vidas.
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  — Com você.
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  O coração de Clara falhou uma batida. Daniel pareceu perceber o impacto da própria resposta, mas não desviou o olhar.
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  — Isso vai soar estranho — ele continuou —, mas antes de ontem eu nunca tinha visto você na vida. E mesmo assim… eu sonhava com você. Por isso, quando te vi na praia, eu me lembrei exatamente que já te conhecia nos meus sonhos e… Isso não é uma cantada ruim. É só que, eu segui minha intuição e venho nessa praia há anos, desde que comecei a sonhar contigo e de repente… É você na minha frente de verdade!
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  O vento soprou mais forte naquele instante, e outra giavota — ou talvez a mesma do outro dia que parecia ser símbolo de presságios — silvou rompendo o silêncio do vento e dando de novo, confirmação para o que Daniel dizia. Clara sentiu os dedos gelarem.
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  — Como assim?
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  Daniel apoiou os braços nos joelhos novamente, pensativo, e de certo modo receoso de assustá-la e fazê-la sumir.
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  — Sempre o mesmo lugar. Sempre o mar. Às vezes você tava caminhando perto da água… às vezes só olhando pra mim sem dizer nada.
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  Clara tentou rir nervosamente.
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  — Isso é meio assustador.
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  — Eu sei.
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  — E mesmo assim você tá falando disso com muita calma.
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  Daniel sorriu sem humor.
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  — Porque quando eu vi você ontem… pareceu que finalmente alguma coisa fazia sentido.
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  Aquilo atingiu Clara de um jeito perigoso. Fundo demais. Ela desviou o olhar para o mar tentando recuperar o ar.
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  — Eu também sonhei com você.
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  Daniel ficou imóvel.
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  — Essa noite?
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  Ela assentiu lentamente. O rosto dele perdeu um pouco da cor.
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  — O que aconteceu no sonho?
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  Clara hesitou. Não sabia por que aquilo parecia tão íntimo, tão importante.
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  — Você tava longe de mim — respondeu baixinho. — E eu tentava te alcançar.
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  Daniel abaixou os olhos imediatamente, sentia como se aquilo doesse muito. O silêncio voltou, mas dessa vez estava carregado de alguma coisa maior que os dois. A música continuava baixa ao lado deles, chiada, antiga, melancólica. Daniel pegou a caixinha de som e bateu levemente nela quando o áudio falhou. Clara observou o aparelho mais de perto, era antigo de verdade, e não retrô. Não moderno imitando vintage, como já haviam conversado no outro dia. Era autêntico.
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  — Isso era do meu pai — Daniel comentou de repente.
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  Ela levantou os olhos para ele.
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  — Sério?
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  Ele assentiu.
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  — Ele costumava trazer isso pra praia quando eu era criança.
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  — E agora você traz sozinho?
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  Daniel sorriu de leve, tristonho.
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  — Agora eu trago porque algumas coisas fazem a gente se sentir menos perdido.
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  Clara sentiu vontade de perguntar sobre o pai dele, mas alguma coisa dizia para não fazer isso ainda. Em vez disso, levantou a câmera lentamente. Daniel percebeu.
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  — Outra foto?
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  — Talvez.
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  — Você sempre fotografa as mesmas coisas?
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  Clara aproximou a lente do rosto dele.
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  — Só as que eu tenho medo de esquecer.
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  Os olhos dos dois se encontraram mais uma vez, e alguma coisa mudou.
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  — Meu pai morreu há cinco anos e ainda dói muito. Quase tanto quanto dói pensar que eu vou sonhar com você, mas não sei se vou te ver… Depois que você se tornou real, isso dói ainda mais.
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  O vento estava calmo e o som das ondas distante, não realmente, mas porque a voz de Daniel ecoava mais alto nos ouvidos de Clara. Tudo ficou pequeno perto da maneira como Daniel olhava para ela de um jeito que parecia que ele estivesse apaixonado por alguma memória invisível.
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  — Daniel…
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  Ele se inclinou levemente na direção dela instintivamente. Sem perceber. Clara quase prendeu a respiração, os rostos estavam próximos demais agora e ela conseguia sentir o cheiro de chuva na roupa dele outra vez. O coração acelerou violentamente dentro do peito, Daniel baixou os olhos para sua boca por um segundo. Só um. Mas Clara percebeu e ele percebeu que ela percebeu. Então, como se tivesse medo do que aquilo significava, Daniel se afastou devagar. Passou a mão no cabelo bagunçado pelo vento e soltou uma risada baixa, nervosa.
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  — Isso vai parecer loucura…
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  — O quê?
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  Ele encarou o mar novamente antes de responder.
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  — Mas às vezes eu acho que já amei você antes.
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  — Daniel, você acredita nessa coisa de outras vidas?
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