Em Todas As Marés

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 4 • E nesta vida, seremos?

  Daniel passou a mão pelo rosto devagar, exausto, como alguém que tinha acabado de perder forças tentando esconder alguma coisa. O mar continuava agitado atrás deles. Clara observava Daniel com atenção agora, e tudo começou a se encaixar: as olheiras dele, o cansaço constante, a melancolia permanente. O jeito como ele falava sobre tempo como se tivesse pouco. Ela sentou novamente na pedra diante dele, mais perto dessa vez.
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  — Me conta a verdade.
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  Daniel ficou em silêncio por alguns segundos. Longos demais. Quando finalmente levantou os olhos para ela, Clara sentiu alguma coisa apertar violentamente dentro do peito.
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  — Meu coração nasceu doente — ele disse baixo.
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  Clara sentiu o ar desaparecer dos pulmões. Daniel sustentou o olhar dela enquanto continuava:
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  — Descobriram quando eu era criança. Passei muito tempo em hospital. Cirurgias, remédios, acompanhamento… essas coisas.
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  Ele falava com uma calma absurda. Como alguém acostumado demais com a própria dor. Aquilo destruiu Clara mais do que qualquer dramatização teria destruído.
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  — E agora? — ela perguntou quase num sussurro.
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  Daniel desviou os olhos para o mar.
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  — Agora… piorou um pouco.
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  “Um pouco.” Ela odiou imediatamente aquela maneira de minimizar algo tão sério.
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  — O que significa “piorou um pouco”?
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  Daniel soltou uma risada baixa e cansada.
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  — Significa que meu corpo resolveu parar de colaborar comigo.
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  — Daniel.
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  — Eu tô tentando ser honesto sem estragar tudo.
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  Aquilo atingiu Clara em cheio, porque ela percebeu: ele estava tentando proteger aquele momento em que se encontraram ou reencontraram. Mesmo agora, mesmo doendo. Clara passou a mão fria pelo rosto.
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  — Você sabia desde o começo que ia me contar isso?
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  — Não.
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  — Então quando pretendia?
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  Daniel demorou antes de responder.
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  — Talvez nunca.
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  Ela franziu a testa imediatamente.
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  — Por quê?
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  Daniel finalmente olhou para ela de novo e havia tanta vulnerabilidade naquele olhar que Clara sentiu vontade de abraçá-lo antes mesmo dele responder.
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  — Porque eu passei anos sonhando com você… e quando finalmente te encontrei, não queria que me olhasse como alguém prestes a desaparecer.
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  O peito dela apertou tão forte que chegou a doer. Daniel abaixou os olhos para as próprias mãos.
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  — Passei muito tempo da minha vida esperando alguma coisa acontecer. Como se meu corpo tivesse me colocado numa contagem regressiva invisível. E então você apareceu naquela praia…
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  Ele soltou uma pequena risada sem humor.
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  — Pela primeira vez em anos eu quis desesperadamente ficar.
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  Clara sentiu os olhos arderem, mas não de tristeza apenas. Havia alguma coisa muito pior crescendo dentro dela. A sensação absurda de que Daniel já era importante demais, mesmo tão recente. Mesmo impossível. Ela aproximou-se mais devagar.
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  — Olha pra mim.
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  Daniel ergueu os olhos.
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  — Eu não tô indo embora.
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  A expressão dele vacilou pela primeira vez, como se aquela frase tivesse atravessado alguma defesa importante. O vento bagunçou os cabelos dos dois enquanto permaneciam ali, perto demais agora. Daniel observava Clara de um jeito silencioso, quase incrédulo.
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  — Isso devia assustar você.
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  Clara soltou uma risada nervosa.
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  — Assusta.
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  Ele pareceu surpreso com a sinceridade.
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  — Mas não do jeito que você pensa.
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  Daniel franziu levemente a testa. E Clara respirou fundo antes de continuar:
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  — O que me assusta é sentir tudo isso tão rápido.
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  Ela percebeu o olhar dele mudar devagar, mais atento e vulnerável. Então continuou, mesmo nervosa:
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  — Eu te conheço há dois dias e parece que meu corpo inteiro reconhece você há anos. Como se eu tivesse passado muito tempo procurando alguma coisa sem saber exatamente o quê… e agora simplesmente encontrei.
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  Daniel ficou imóvel. Clara sentiu o coração bater forte demais enquanto falava:
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  — E o pior é que nada disso parece errado.
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  As ondas quebraram contra as pedras violentamente, mas o mundo inteiro parecia distante. Daniel levantou a mão devagar até o rosto dela, pela terceira vez. Os dedos tocaram sua pele com uma delicadeza quase dolorosa de um jeito que fazia parecer que Clara era algo raro ou frágil. Ela fechou os olhos por um segundo involuntariamente e quando abriu, Daniel estava ainda mais perto, com os olhos presos nela. Sem fugir daquela vez, sem recuar.
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  — Clara…
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  A voz dele saiu baixa e rouca, honesta demais.
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  — Acho que eu amaria você em qualquer vida.
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  Aquilo destruiu o resto das defesas dela, Clara segurou a jaqueta dele entre os dedos antes mesmo de perceber o movimento e Daniel finalmente a  beijou. Dessa vez de verdade. Lento no começo, cuidadoso, como alguém que esperou tempo demais por aquele instante. Os lábios dele eram quentes apesar do frio ao redor, e Clara sentiu o corpo inteiro estremecer quando Daniel aprofundou o beijo delicadamente, como se tivesse medo de assustá-la ainda mais, mesmo agora. Contudo, não havia medo nela. Só aquela sensação absurda de pertencimento, de alguém que havia voltado para algum lugar antigo.
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  Quando se afastaram, os dois continuaram próximos. Respirando o mesmo ar. Daniel encostou a testa na dela e soltou uma risada baixa, ainda sem abrir os olhos.
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  — Isso foi muito melhor que nos sonhos.
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  Clara acabou rindo também.
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  — Você é completamente maluco.
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  — Você gostou.
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  Ela sorriu pela primeira vez sem tentar esconder.
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  — Muito.
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  Naquela noite Clara demorou horas para dormir depois de voltar para casa, mesmo depois do banho quente e mesmo tentando fingir normalidade durante o  jantar. Daniel continuava inteiro dentro dela. A maneira como beijava, como a olhava, como falava sobre o tempo como alguém tentando segurá-lo nas mãos. E principalmente: a dor escondida nele.
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  Clara ficou sentada no chão do quarto observando a fotografia que havia tirado dele no primeiro dia. Parecia impossível que tudo tivesse começado ali, naquela imagem tremida. Naquele garoto caminhando sozinho perto do mar. Ela levou os dedos até o retrato lentamente e sentiu medo. Porque estava começando a entender que amar Daniel provavelmente significava sofrer. Mas ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, Clara não queria fugir.
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  Clara e Daniel não eram nada racionais com seus sentimentos. Depois daqueles dias na praia, os dois se aproximaram mais, saíram mais vezes, beijavam-se sempre e inclusive, apresentaram-se para as famílias um do outro. Passado um tempo curto demais para que seus pais ou qualquer pessoa acreditasse na versão deles, — passavam a mentir dizendo que eram amigos de longa data e só agora se envolveram, porque quem acreditaria em “amor à primeira vista e atemporal”, não é mesmo? — Clara e Daniel se envolveram como se namorassem há uma vida inteira.
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  Certo dia, ela foi para a casa dele. Daniel abriu o portão antes mesmo dela bater como se estivesse esperando desde cedo. Usava uma camisa escura de mangas compridas e segurava uma caneca de café nas mãos. O cabelo bagunçado fazia parecer que tinha acabado de acordar. E ainda assim Clara achou ele absurdamente bonito.
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  Daniel sorriu no instante em que a viu. Daquele jeito pequeno, quase desacreditado porque estava amando e sendo amado pela mulher dos seus sonhos.
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  — Você voltou mesmo.
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  — Você fala isso como se eu fosse desaparecer.
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  Ele apoiou o corpo no portão observando ela por alguns segundos.
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  — Acho que ainda tô tentando acreditar que você existe fora dos sonhos.
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  O coração dela falhou uma batida, Daniel deu passagem para ela entrar. A casa parecia diferente, mais íntima e mais viva. O cheiro de café recém-passado misturava-se ao de livros antigos e maresia entrando pelas janelas abertas. Clara caminhou devagar observando os detalhes que não tinha conseguido perceber antes. Discos empilhados perto da estante, fotografias antigas espalhadas pelas paredes, pilhas de livros gastos, plantas esquecidas perto da varanda. E dezenas de fitas cassete organizadas cuidadosamente dentro de caixas de madeira. Ela aproximou-se delas.
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  — Isso tudo é seu?
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  Daniel apareceu ao lado dela segurando duas canecas.
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  — Metade minha. Metade do meu pai.
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  Clara pegou uma das fitas. Havia frases escritas à mão nas etiquetas. “Para ouvir em dias de chuva.” “Pra quando o mundo parecer longe.” “Agosto de 1998.” “Não esquecer.” Aquilo apertou algo dentro dela.
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  — Seu pai gravava músicas?
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  Daniel sorriu de leve.
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  — Gravava memórias.
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  A resposta veio tão simples que Clara levantou os olhos imediatamente para ele. Daniel colocou as canecas sobre a mesa antes de pegar uma das fitas cuidadosamente.
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  — Ele tinha mania de registrar tudo. Vozes, músicas, conversas aleatórias… dizia que a gente esquece rápido demais das coisas importantes.
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  Ele colocou a fita num aparelho antigo perto da estante. O chiado suave preencheu a sala. Depois uma voz masculina surgiu na gravação. “Se você estiver ouvindo isso, provavelmente teve um dia ruim.” Clara olhou imediatamente para Daniel. O rosto dele tinha mudado completamente. Havia saudade em cada detalhe da expressão. A gravação continuou: “Então leva o rádio pra praia. O mar sempre devolve as coisas pro lugar.”
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  Daniel abaixou os olhos sorrindo pequeno.
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  — Ele falava isso o tempo todo.
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  Clara observou o modo como Daniel segurava a fita, com cuidado demais. Como alguém segurando um pedaço vivo de alguém que perdeu, e então entendeu que Daniel não colecionava objetos antigos. Colecionava permanências.
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  Mais tarde, os dois acabaram sentados no chão da sala ouvindo músicas velhas enquanto dividiam café requentado e biscoitos quase murchos que Daniel encontrou no armário. Conversaram sobre coisas pequenas dessa vez. Infância, filmes ruins, professores insuportáveis, o primeiro show que cada um foi, e pela primeira vez Clara viu Daniel rir sem tristeza escondida atrás. Um riso leve, bonito e jovem tal qual o tipo de riso que ele havia devolvido a ela.
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  Aquilo destruiu ela silenciosamente porque agora conseguia enxergar não apenas o garoto melancólico da praia, mas tudo que Daniel ainda poderia ter sido. No fim da tarde, Clara observava ele rebobinar distraidamente uma fita cassete usando uma caneta enquanto cantarolava baixinho uma música antiga. O sol atravessava parcialmente a janela da sala iluminando o rosto dele. E naquele instante veio a certeza devastadora e inevitável: ela estava se apaixonando por alguém que parecia ter atravessado vidas para encontrá-la.
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  E pela primeira vez desde que conheceu Daniel, Clara teve medo de que o amor deles tivesse começado exatamente quando o tempo estava acabando.
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Capítulo 4
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