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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Nos Seus Olhos

Escrita porAven Lore
Editada por Lelen

CAPÍTULO CINCO

Tempo estimado de leitura: 44 minutos

  %Sunoo%’s POV:

  Nós caminhávamos lado a lado, eu mantive minhas mãos nos bolsos enquanto %Dalny% mantinha as suas sempre a frente do corpo, as mão entrelaçadas uma na outra. Meu coração batia descompassado dentro do peito ainda, como se meu corpo e meu cérebro ainda estivesse processando todo o turbilhão de emoções que eu havia sentido.
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  Eu não conseguia parar de sorrir. Não um sorriso aberto, mostrando os dentes e enchendo o rosto, mas aquele sorriso leve, sem mostrar os dentes, que fica contido no canto dos lábios. O tipo de sorriso que vem quando o coração finalmente respira depois de muito tempo preso.
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  Suncheon ainda era como eu me lembrava, as ruas largas e limpas, com árvores plantadas de forma quase meticulosa ao longo das calçadas. O cheiro leve de terra úmida misturado com o perfume das flores que sempre pareciam estar em algum canto — nos pequenos jardins das casas, nas floreiras penduradas nos postes, ou nas praças que se espalhavam pela cidade como esconderijos de sossego.
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  Os prédios baixos davam espaço para o céu, que parecia maior aqui do que em qualquer outro lugar por onde passei nesses últimos anos. As pessoas andavam devagar, como se o tempo em Suncheon tivesse um ritmo próprio, diferente do resto do mundo.
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  Era o tipo de cidade onde as lojas de esquina ainda fechavam cedo e onde o dono do mercadinho conhecia boa parte dos moradores pelo nome. Onde os vizinhos se cumprimentavam com um aceno de cabeça mesmo que não se falassem todos os dias. Onde voltar para casa a pé à noite não era motivo de preocupação, mas quase um ritual diário.
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  Ao longe, dava pra ver as luzes suaves das cafeterias ainda abertas, com seus letreiros em néon piscando de forma preguiçosa. O som distante de risadas e passos preenchia o ar, misturado ao barulho discreto de carros passando pelas avenidas principais.
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  E, no meio de tudo aquilo, estava %Dalny%. Caminhando ao meu lado como se o tempo não tivesse passado… mas, ao mesmo tempo, como se ele tivesse passado demais.
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  Por um instante, tudo pareceu exatamente igual.
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  E, ao mesmo tempo… absolutamente diferente.
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  — Achei que você já estivesse morando sozinha…Sempre te achei tão independente, tão cheia de atitude. De todos nós, eu sempre achei que você fosse ser exatamente a que fosse se casar primeiro, sair logo da casa dos pais. Me lembro da sua agonia para sair logo de casa, porque seus pais, assim como os meus, te prendiam bastante.
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  Comentei, quebrando o silêncio entre nós dois. Eu queria tentar começar a, quem sabe, recuperar um pouco do tempo perdido. Então precisava falar, conversar, perguntar…
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  %Dalny% soltou um sorriso nostálgico com a minha observação. Olhei de relance para ela, e o sorriso nos meus lábios acabou alargando um pouco mais.
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  — Os meus pais acabaram amolecendo com o tempo, e hoje minha mãe tem Alzheimer.
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  Um golpe. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago. Ou um tapa bem forte na cara. Minhas pernas travaram e eu simplesmente não conseguia mais andar. Parei. Estático, imóvel, encarando o nada.
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  %Dalny% parou também e se virou para me encarar.
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  O mundo pareceu girar uma fração mais lento.
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  Alzheimer.
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  A palavra ecoava na minha cabeça como um zumbido incômodo, difícil de aceitar, difícil de acreditar.
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  Minha mãe... a mãe dela... As nossas mães sempre foram tão parecidas. Protetoras, rígidas, exageradas às vezes… mas sempre presentes. Sempre inteiras.
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  E agora…
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  %Dalny% percebeu minha reação antes mesmo que eu pudesse tentar disfarçar. Quando me virei um pouco para ela, vi o jeito como seus olhos suavizaram.
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  — %Sunoo%… — ela disse baixo, com uma voz tão doce, tão paciente, que parecia capaz de costurar o buraco que se abriu dentro de mim. — Eu tô bem. A gente tá levando um dia de cada vez.
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  Ela se aproximou um passo, hesitante, mas firme, como sempre foi.
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  — Não queria te deixar assim. Só achei… — ela suspirou — que você merecia saber.
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  Engoli em seco, sentindo aquele nó gigante subir pela minha garganta.
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  — Quando? — consegui perguntar, com a voz falha. — Quando ela… quando vocês descobriram?
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  %Dalny% apertou os lábios por um instante, como se também estivesse segurando as próprias emoções.
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  — Um pouco mais de um ano depois que você foi embora. No começo foram só esquecimentos bobos… depois vieram as confusões, os episódios de desorientação… até que veio o diagnóstico.
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  Ela deu um sorriso pequeno, sem humor.
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  — Foi um período difícil… pra caramba. Mas… a gente se adaptou.
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  Passei as mãos no rosto, tentando afastar a angústia que começou a me consumir por dentro.
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  — Eu devia ter estado aqui… — sussurrei. — Eu devia…
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  — %Sunoo%… — ela me interrompeu, e quando ergui os olhos, encontrei o olhar dela preso ao meu. — Não vamos fazer isso agora, tá?
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  A firmeza na voz dela não deixava espaço pra discussão.
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  — Tem muita coisa pra gente colocar em ordem… muita conversa ainda pela frente. Mas hoje… hoje só aceita que você tá de volta.
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  Ela sorriu, um sorriso que parecia mais maduro, mais calejado, mas ainda assim… o sorriso dela.
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  E, por mais que tudo dentro de mim gritasse culpa, só consegui assentir em silêncio.
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  Continuei a caminhar ao lado dela… como se, de algum modo, aquele fosse o primeiro passo de muitos que ainda precisávamos dar.
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  Juntos.
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  Mesmo que com feridas abertas. Mesmo que com o tempo machucando as pontas de tudo.
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  Mas, juntos.
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🩹🩹🩹

  %Sunoo%’s POV:

  A caminhada até a casa dela foi mais silenciosa do que eu esperava. Não um silêncio desconfortável… mas um daqueles silêncios cheios. Cheio de pensamentos, de coisas não ditas, de lembranças que se amontoavam no peito como um filme antigo sendo rebobinado.
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  Quando viramos a última esquina da rua, meu peito apertou de um jeito que eu não sabia explicar.
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  A rua estava mais iluminada do que eu me lembrava. Os postes tinham sido trocados, algumas calçadas estavam repavimentadas… mas o cenário ainda era o mesmo de sempre.
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  E foi impossível não olhar para o outro lado da rua…
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  Minha antiga casa.
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  Por um segundo, meus passos diminuíram. Meus olhos correram pelo terreno onde cresci, onde tantas das minhas memórias com ela, com o %Niki%, com o %Jay%, com a %Mina%… aconteceram.
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  A fachada estava completamente diferente agora. A pintura, as janelas, até o muro… tudo tinha mudado. O portão novo, o jardim refeito… não havia mais nenhum sinal da casa que eu conhecia de olhos fechados.
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  Engoli em seco.
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  Era estranho. Como se o lugar onde parte da minha história começou tivesse sido apagado, substituído por outra coisa. Uma casa nova, com outra família, com outras histórias.
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  Fiquei parado alguns segundos ali, só encarando. As lembranças vieram com força: eu e %Dalny% correndo por aquele quintal, jogando pedras para acertar latas empilhadas, o som da minha mãe chamando do portão, as conversas que eu e %Niki% tínhamos sentados na calçada durante o entardecer…
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  Tudo ali. Mas… ao mesmo tempo, tudo já tinha ido embora.
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  — Mudou, né? — ouvi a voz da %Dalny%, baixa, ao meu lado.
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  Assenti, ainda com o olhar preso na fachada que agora não me pertencia mais.
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  — É como olhar pra uma cicatriz que já fechou, mas ainda dói de vez em quando. — murmurei, sem nem pensar muito antes de dizer.
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  Ela soltou um suspiro curto, mas não respondeu.
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  Segui caminhando ao lado dela, até pararmos em frente à casa dela.
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  E aí… o choque foi outro.
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  Porque a casa da %Dalny%… continuava exatamente igual.
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  A pintura meio desbotada pelo tempo, os vasos de plantas ainda espalhados pela varanda, as cortinas com os mesmos desenhos florais por trás das janelas. Até a plaquinha com o número torto, pendurada de forma improvisada na parede, continuava lá.
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  Uma onda quente e estranha tomou conta de mim. Um misto de saudade e… de alívio.
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  Pelo menos ali… ainda havia algo que o tempo não tinha destruído.
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  — A minha ficou parada no tempo… — ela disse, abrindo o portão com aquele mesmo rangido antigo que eu conhecia tão bem. — Mas… de um jeito bom, sabe?
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  Assenti de novo, com um sorriso pequeno nos lábios.
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  — De um jeito bom. — repeti, quase como um sussurro.
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  Ela virou o rosto para mim, como se ponderasse se dizia mais alguma coisa… mas acabou apenas sorrindo, aquele sorriso discreto que sempre teve o poder de me desmontar por dentro.
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  — Bom… é melhor eu entrar. — disse, parando na porta. — Obrigada por me acompanhar.
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  Eu balancei a cabeça, meio sem saber o que fazer com as mãos.
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  — Eu que agradeço… por… tudo.
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  Ela me lançou um último olhar. E então, entrou.
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  Fiquei parado ali, na calçada, por alguns segundos. Só observando a porta da frente. Sentindo o peso da noite… e de tudo que ainda precisava ser dito.
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  Mas, pela primeira vez em muito tempo…
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  Eu não queria fugir.
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  Eu queria ficar.
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  E descobrir, devagar… como reconstruir o que o tempo e eu mesmo tinha deixado para trás.
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🩹🩹🩹

  %Dalny%’s POV:

  “Quando você chegar em casa, pode me ligar?”
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  A mensagem de %Heeseung% estava lá na tela e eu tremia levemente as mãos. Me sentei na beirada da cama e então respirei fundo.
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  A minha mente girava, girava, e girava outra vez. %Sunoo%… %Heeseung%.
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  O passo e o presente.
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  E o futuro? O que eu faria com o futuro?
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  Liguei então para o meu namorado. Dois toques e ele atendeu, a voz cansada e sonolenta do outro lado.
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  “Já cheguei em casa, viu?”
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  %Heeseung% suspirou baixinho do outro lado e eu fechei os olhos com força.
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  “Quem levou você? %Jay% e %Mina%? O %Niki% foi embora praticamente junto comigo.”
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  Foi a minha vez de suspirar e abrir os olhos, encarando a porta fechada do meu quarto.
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  “O %Sunoo% me trouxe em casa. Nós tivemos uma longa conversa.”
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  “E como foi essa conversa? Como você está se sentindo meu bem?”
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  O tom suave da voz dele fez com que eu fechasse os olhos de novo.
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  Por um instante, me odiei por não conseguir controlar o aperto no peito. Por sentir tanta culpa só de ouvir a preocupação dele… e, ao mesmo tempo, por sentir outra coisa completamente diferente cada vez que pensava no %Sunoo%.
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  Respirei fundo, tentando escolher as palavras com cuidado.
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  “Eu tô…” — comecei, mas logo me corrigi — “Confusa. Muito confusa.”
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  Do outro lado da linha, %Heeseung% permaneceu em silêncio por alguns segundos. Não aquele silêncio desconfortável… mas um silêncio atento. Como se estivesse me dando espaço para continuar.
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  “A conversa foi difícil.” — admiti, encarando o próprio reflexo no espelho da penteadeira. — “A gente falou sobre coisas que ficaram guardadas por muito tempo… sobre a partida dele, sobre… sentimentos. Sobre tudo.”
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  “E você…” — a voz dele veio baixa, hesitante — “…você ainda gosta dele?”
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  Meu coração falhou uma batida.
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  O nó na garganta cresceu, e por um segundo, pensei em mentir. Em dizer que não. Que tudo aquilo era só confusão momentânea. Que eu estava bem. Que ele não tinha com o que se preocupar.
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  Mas eu já tinha feito isso vezes demais. Comigo mesma, principalmente.
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  “Eu…” — a voz falhou. Respirei fundo, os olhos se enchendo de lágrimas que não deixei cair. — “Eu não sei, %Hee%.”
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  O silêncio dele dessa vez foi mais longo. E eu soube que aquilo machucava. Doía em mim também.
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  “Tudo bem.” — ele disse, por fim, com uma calma forçada, mas com ternura genuína. — “Eu só quero que você seja honesta comigo. Mesmo que a resposta doa.”
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  Fechei os olhos, sentindo as lágrimas finalmente escaparem.
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  “Eu prometo que vou ser.”
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  Do outro lado, ouvi sua respiração lenta.
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  “Eu te amo, %Dalny%.” — ele disse. — “E, aconteça o que acontecer, eu quero que você saiba disso.”
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  Minha garganta fechou ainda mais.
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  “Eu também te amo, %Hee%…” — sussurrei. E naquele momento, por mais contraditório que fosse… era verdade.
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  Desliguei a chamada logo depois, abraçando o travesseiro com força, enquanto meu coração batia em um ritmo desigual… dividido entre o que eu tinha, o que eu sentia… e o que ainda não conseguia entender.
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  O futuro parecia um campo minado.
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  E eu estava bem no meio dele.
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🩹🩹🩹

  %Dalny%’s POV:

  Acordei com o rosto amassado e os olhos ardendo, como se a noite tivesse passado por cima de mim como um caminhão desgovernado.
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  O travesseiro ainda estava úmido de tanto chorar. E mesmo com o quarto mergulhado na penumbra da manhã nublada, eu sabia que o dia lá fora já tinha começado. A cidade já estava acordada, os carros passando pela rua, as pessoas seguindo suas rotinas… enquanto eu continuava presa no meio daquele turbilhão.
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  Passei a mão pelo rosto, sentindo o inchaço ao redor dos olhos. Me sentei na cama devagar, tentando organizar os próprios pensamentos, mas era como se cada tentativa de raciocínio batesse numa parede.
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  Me levantei, tropeçando nas cobertas caídas no chão, e fui direto até o banheiro. Quando encarei meu reflexo no espelho, soltei um suspiro longo.
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  — Ótimo… — murmurei para mim mesma, ao ver as olheiras marcadas, os fios de cabelo bagunçados e o olhar… tão perdido.
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  Lavei o rosto com água gelada, na esperança de acordar o resto do corpo junto com a mente. Mas a verdade é que não era cansaço físico.
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  Era emocional.
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  Minha cabeça rodava entre lembranças da noite anterior, as palavras do %Sunoo% ecoando, o som da voz de %Heeseung% dizendo que me amava… e o silêncio que veio depois.
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  Me sentei no chão frio do banheiro, abraçando os joelhos junto ao peito.
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  Por um segundo, pensei em pegar o celular e mandar uma mensagem para alguém… talvez pra %Mina%… talvez pro %Niki%. Mas desisti antes mesmo de desbloquear a tela. Eu precisava de uns minutos só… comigo.
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  Fechei os olhos, respirando fundo.
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  Tentando lembrar como se fazia pra colocar o coração no lugar.
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  E por mais que a resposta não viesse, uma coisa eu sabia:
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  Esse era só o começo de um nó muito maior que eu ainda teria que aprender a desfazer.
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🩹🩹🩹

  %Dalny%’s POV:

  O som da notificação me fez abrir os olhos de repente. Ainda estava sentada no chão do banheiro, com o queixo apoiado nos joelhos, quando me levantei e fui até o quarto, alcançando o celular.
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  O nome dele apareceu iluminado na tela.
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  %Niki%.
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  Suspirei, já sentindo um sorriso pequeno ameaçar surgir, só pelo simples fato de saber que era ele. Arrastei o dedo para desbloquear.
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  “Se você estiver deitada chorando, com cara de zumbi, achando que o mundo vai acabar... desce. Tô aqui na frente da sua casa. Trouxe café e bolinhos de arroz."
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  Meu coração deu um salto involuntário.
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  Revirei os olhos, mesmo sorrindo.
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  Era tão típico dele.
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  Me levantei do chão com dificuldade, peguei um casaco qualquer que estava jogado na cadeira e desci as escadas com os pés ainda descalços.
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  Quando abri o portão, lá estava ele.
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  Encostado no capô do carro do meu pai, que sempre ficava de fora, com uma sacola de confeitaria numa mão e dois copos de café na outra. Usava um moletom enorme, o cabelo bagunçado e aquele sorriso preguiçoso de sempre.
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  — Adivinhei? — ele perguntou, erguendo um dos cafés como quem oferece a solução de todos os meus problemas.
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  — Adivinhou. — respondi, com a voz ainda rouca da noite anterior.
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  Ele me entregou o copo, me estudando por alguns segundos com aqueles olhos atentos.
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  — Nossa… você tá péssima. — disse com um tom debochado, mas cheio de carinho.
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  Soltei uma risada fraca, mas verdadeira.
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  — Obrigada, como sempre, pelo elogio.
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  Ele sorriu mais largo e me entregou a sacola com os bolinhos.
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  — Senta ali comigo. — apontou com o queixo para o degrau da entrada. — A gente pode comer e você pode… sei lá… respirar.
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  Assenti, já sabendo que eu precisava exatamente disso.
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  Dele.
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  Do jeito despretensioso como ele sempre conseguia fazer o mundo parecer menos pesado.
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  E, pela primeira vez naquela manhã, me permiti acreditar que talvez… um pedaço de mim ainda soubesse como seguir em frente.
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  Mesmo que ainda fosse um passo de cada vez.
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  Nos sentamos lado a lado no degrau da entrada, como tantas outras vezes ao longo da vida. O chão estava um pouco frio, mas o calor do café entre minhas mãos ajudava a disfarçar.
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  %Niki% abriu a sacola com os bolinhos e empurrou um na minha direção, como se me alimentar fosse parte do processo de cura.
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  — Vai, come. Senão daqui a pouco você desmaia de estômago vazio e eu vou ter que carregar você até o sofá.
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  Soltei um riso fraco, mordendo o lábio antes de pegar um.
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  — Obrigada… por estar aqui.
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  Ele só deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
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  Por alguns segundos, ficamos em silêncio. O tipo de silêncio que sempre existiu entre nós quando as palavras ainda estavam se organizando na garganta.
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  — Quer me contar o que aconteceu? — ele perguntou, por fim, com a voz baixa, sem forçar, mas deixando claro que estava ali para ouvir.
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  Suspirei fundo. Olhei para o céu, como se pudesse encontrar alguma resposta lá em cima.
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  — Eu… — comecei, mas a voz falhou. Respirei fundo de novo. — Eu falei com ele. Com o %Sunoo%. A gente teve uma conversa longa… pesada. E… ele se abriu comigo. De um jeito que ele nunca tinha feito antes.
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  %Niki% continuava me olhando em silêncio, apenas me ouvindo.
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  — Ele falou sobre os motivos… sobre o medo… sobre… você.
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  Senti o corpo dele enrijecer um pouco ao meu lado, mas ele não disse nada. Apenas baixou o olhar para o café nas próprias mãos.
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  — E? — ele perguntou, num sussurro, quase como se estivesse com medo da resposta.
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  Apertei os olhos com força antes de responder.
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  — E eu… não sei o que fazer com tudo isso, %Niki%. Eu tô com raiva, tô magoada, mas… também tô com saudade. Saudade de uma parte de mim que ficou presa lá atrás, com ele.
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  Ele assentiu devagar, mexendo distraidamente a tampa do copo de café com o dedo.
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  — E o %Heeseung%? — a pergunta veio baixa, cuidadosa.
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  Meu peito apertou de novo.
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  — Eu amo o %Heeseung%. — admiti, com a voz falha. — Ele é tudo o que alguém poderia querer… carinhoso, atencioso, leve… Ele é… seguro. Mas…
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  — Mas não é o %Sunoo%. — %Niki% completou por mim, sem julgamento, apenas constatando o óbvio.
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  As lágrimas voltaram a arder nos meus olhos, e eu as limpei com as costas da mão.
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  — Não é isso… não exatamente. Não quero machucar o %Hee%. Nem você. Nem ninguém. Eu só… só queria entender o que eu sinto antes de machucar qualquer um de vocês.
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  %Niki% soltou um suspiro profundo, e então passou o braço pelos meus ombros, puxando-me pra perto num abraço de lado.
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  — A gente vai dar um jeito, %Dal%. Como sempre. Passo por passo. Do jeito que a gente sabe fazer.
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  Me permiti encostar a cabeça no ombro dele, respirando fundo e me deixando ficar ali por um instante.
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  Com ele.
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  Com meu porto seguro.
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  E, por mais caótico que tudo ainda estivesse… Ter o %Niki% ali… Fez tudo parecer um pouquinho menos assustador.
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🩹🩹🩹

  %Dalny%’s POV:

  Ficamos em silêncio por mais alguns minutos, só ouvindo o som distante dos carros passando na rua e o vento balançando as árvores do outro lado da calçada.
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  %Niki%, do jeito que só ele sabia fazer, foi o primeiro a quebrar o clima pesado.
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  — Sabe… — ele começou, com um tom de falsa seriedade —… você sempre teve um talento especial pra viver em triângulos emocionais, né?
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  Virei o rosto pra encará-lo, arregalando os olhos.
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  — Que?! — soltei, indignada, mesmo sabendo que ele estava apenas provocando.
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  Ele deu um sorriso torto, aquele que sempre usava quando queria me tirar do sério só pra me fazer rir depois.
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  — Triângulo, %Dalny%. Você, o garoto problemático que some e volta cheio de traumas… e o namorado perfeito que merece ser protegido a qualquer custo. — Ele balançou o café na mão, como se brindasse à própria teoria. — Parece até roteiro de filme de domingo.
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  Não consegui evitar uma risada curta, ainda com os olhos marejados.
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  — Idiota. — resmunguei, empurrando o ombro dele de leve.
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  Ele riu também, satisfeito por ter conseguido me fazer sorrir. Mas, antes que eu pudesse retrucar com alguma resposta mais afiada… o celular vibrou de novo nas minhas mãos.
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  Olhei para a tela.
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  %Heeseung%.
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  Meu coração afundou no peito de imediato.
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  Respirei fundo antes de abrir a mensagem.
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  "Bom dia, meu bem. Passei a noite pensando em você. Espero que tenha dormido bem. Sei que seu coração deve estar uma bagunça agora… mas eu tô aqui. No tempo que você precisar. No espaço que você quiser. Só queria que você soubesse disso."
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  Minhas mãos tremiam um pouco enquanto eu segurava o celular.
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  O peso da bondade dele… da paciência dele…
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  Era quase tão sufocante quanto tudo o resto.
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  %Niki% percebeu a mudança na minha expressão e inclinou a cabeça, curioso.
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  — %Heeseung%? — perguntou, sem precisar de confirmação.
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  Assenti, fechando a tela do celular devagar, como se aquilo fosse me dar mais tempo pra respirar.
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  — Ele merece mais do que isso, %Niki%. Mais do que uma namorada confusa que não sabe onde tá pisando.
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  %Niki% apenas suspirou, passando a mão pelos cabelos.
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  — Você merece ter tempo pra entender o que sente, %Dal%. E ele… bom, o %Heeseung% é inteligente. Ele sabe disso também.
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  Permaneci ali, abraçada ao café, com a cabeça encostada de novo no ombro do meu melhor amigo. Sentindo o coração latejar entre a culpa, o carinho e um medo absurdo de machucar quem eu mais amava… de novo.
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  E ali, no meio daquela manhã nublada, com o vento frio passando pela minha pele…
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  Tudo o que eu queria…
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  Era um jeito de sair dessa…
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  Sem quebrar ninguém no processo.
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  Nem eles. Nem eu.
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🩹🩹🩹

  %Niki%’s POV:

  Eu sabia que ela estava remoendo alguma coisa. O jeito como mexia o café com o canudo de papel, como mordia o lábio, como batucava os dedos de leve no próprio joelho… Era o mesmo padrão de sempre: inquieta quando queria perguntar algo, mas não sabia como.
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  Então, quando ela finalmente quebrou o silêncio, eu já esperava.
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  — E você? — ela perguntou de repente, a voz baixa, mas carregada de intenção. — Como foi… vê-lo de novo?
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  Fingi um sorriso, tentando aliviar o peso da pergunta.
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  — Ah… tranquilo. Bem casual, sabe? Tipo esbarrar num conhecido no mercado. — respondi com um sarcasmo leve, levando o café à boca.
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  Ela arqueou uma sobrancelha, claramente não comprando a piada.
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  — Tô falando sério, %Niki%. — insistiu, me olhando de um jeito que só ela sabia fazer. Aquele olhar que me desmontava.
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  Soltei um suspiro longo, largando o copo no degrau ao lado.
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  — Eu não sei, %Dal%. — admiti, encarando um ponto qualquer do chão. — Foi estranho. Foi… pesado. Quando eu vi ele, foi como… sei lá… como se um arquivo que eu passei três anos tentando arquivar na pasta “assuntos não resolvidos” tivesse caído de volta na minha mesa.
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  Ela ficou quieta, só me ouvindo.
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  — Ver ele depois de tudo… depois do que a gente viveu… depois de como ele sumiu… — dei de ombros, soltando uma risada seca — Não vou mentir: foi como levar um soco no estômago.
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  — E os sentimentos? — ela perguntou, com aquele cuidado de quem sabe que tá cutucando uma ferida. — Você ainda… gosta dele?
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  Engoli em seco.
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  Por alguns segundos, pensei em fugir da resposta. Brincar, fazer piada, mudar de assunto.
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  Mas… a essa altura, depois de tudo o que a gente dividiu, eu não tinha mais espaço pra isso.
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  — Eu não sei. — falei, encarando minhas próprias mãos. — Acho que… uma parte de mim sempre vai sentir alguma coisa por ele. Porque ele foi o primeiro. O primeiro cara que me fez questionar tudo. O primeiro que mexeu comigo de um jeito que eu não sabia nem nomear.
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  Levantei o olhar devagar, encontrando o dela.
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  — Mas ao mesmo tempo… tem uma parte de mim que nunca vai esquecer o quanto ele me machucou. O quanto ele deixou a gente pra trás. O quanto eu precisei fingir que tava tudo bem… por mim, por você… por todo mundo.
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  Ela piscou algumas vezes, os olhos marejando de novo, como se minhas palavras também trouxessem de volta as dores dela.
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  — Então eu não sei te dizer se é amor, mágoa… ou só o resto de uma história mal contada.
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  Dei um sorriso fraco.
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  — Mas, sinceramente? Hoje… acho que gosto mais de mim mesmo do que gosto dele. E isso já é um baita progresso.
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  %Dalny% sorriu de leve, ainda com os olhos brilhando, e encostou a cabeça de novo no meu ombro.
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  E naquele instante, mesmo com todo o caos, com toda a confusão… eu soube que, pelo menos com ela…
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  Eu ainda tava exatamente onde devia estar.
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🩹🩹🩹

  %Niki%’s POV:

  Ela permaneceu com a cabeça encostada no meu ombro por mais alguns segundos. O silêncio entre a gente não era pesado dessa vez. Era quase confortável. Como se cada um de nós precisasse desse momento pra organizar os próprios pensamentos.
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  Então, de repente, ela respirou fundo e ergueu o rosto, me olhando com aquele jeito que só ela tinha quando queria ser sincera até o osso.
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  — Obrigada. — disse, com a voz baixa, mas firme.
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  Franzi o cenho, confuso.
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  — Pelo quê?
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  Ela deu um sorriso pequeno, meio triste, mas cheio de verdade.
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  — Por ter sido tão honesto comigo. Por não tentar esconder o que sente. Por… confiar em mim o bastante pra dizer tudo isso.
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  Suspirei, passando a mão pelos cabelos de forma nervosa.
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  — Você é minha melhor amiga, %Dal%. Sempre foi. Eu não sei fazer joguinho com você. Nunca soube.
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  Ela riu baixinho, com aquele riso abafado, de quem ainda estava se recompondo.
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  — E você é o meu porto seguro, %Niki%. Mesmo quando a minha cabeça tá um caos completo… saber que eu posso contar com você… me salva.
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  Ela sorriu mais largo dessa vez e, num gesto rápido, me puxou para um abraço apertado, daqueles que quase esmagam as costelas, mas que eu nunca recusaria vindo dela.
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  Ficamos assim por um tempo. Só abraçados. Como duas pessoas tentando sobreviver ao próprio emocional bagunçado, mas que, de alguma forma, sempre sabiam encontrar abrigo uma na outra.
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  Quando nos separamos, ela respirou fundo e me olhou com um brilho novo nos olhos.
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  — Vamos entrar? — perguntou. — Prometo que tem café fresco lá dentro… e talvez… algum resto de bolo da minha mãe.
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  Dei um sorriso torto, levantando do degrau junto com ela.
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  — Sabe como me convencer… — respondi, já seguindo ela até a porta.
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  E, por mais que o mundo estivesse de cabeça pra baixo… naquele momento, eu soube que ficar ao lado dela era o único lugar onde eu precisava estar.
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  Por enquanto.
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🩹🩹🩹

  %Niki%’s POV:

  Já era quase hora do almoço quando finalmente resolvi sair da casa da %Dalny%. O céu começava a abrir, depois de uma manhã inteira nublada, e a temperatura tinha subido alguns graus — o suficiente pra me fazer tirar o moletom enquanto caminhava de volta pro meu prédio.
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  Estava com a cabeça cheia, claro. Pensando nela, em tudo que conversamos, e inevitavelmente… nele também.
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  Suspirei, enfiando as mãos nos bolsos da calça, querendo acreditar que um banho e uma refeição decente iam ajudar a colocar as ideias no lugar.
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  Mas foi só dobrar a esquina da minha rua… que a vida decidiu me pregar mais uma peça.
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  Lá estava ele.
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  %Sunoo%.
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  Parado bem na porta do meu prédio, conversando com um homem de terno claro e uma prancheta debaixo do braço — provavelmente algum morador ou… sei lá. Não dei muita atenção ao cara. Meus olhos estavam presos nele.
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  Vi quando os dois apertaram as mãos como numa despedida rápida e o tal homem foi embora em direção ao carro estacionado logo adiante.
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  %Sunoo% ficou ali, sozinho, olhando pro celular como se estivesse perdido nas próprias notificações.
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  Meu corpo travou por um segundo. Mas, antes que eu pudesse pensar melhor, minha boca já estava se mexendo.
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  — O que você tá fazendo aqui?
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  A pergunta saiu mais ríspida do que eu queria. Mas, honestamente? Não dava pra exigir muito controle emocional de mim naquele momento.
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  Ele levantou os olhos devagar, visivelmente surpreso em me ver ali.
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  — %Niki%… — murmurou, ajeitando a postura, como se fosse pego no flagra. — Eu… não sabia que você morava aqui.
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  Franzi o cenho, cruzando os braços no mesmo instante.
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  — Como assim não sabia? Tá na porta do meu prédio.
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  %Sunoo% respirou fundo, visivelmente nervoso, mas tentando manter a compostura.
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  — Eu vim ver um apartamento com o corretor. — respondeu, apontando de leve com o queixo na direção por onde o homem tinha acabado de sair. — Eu tô procurando um lugar pra morar.
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  A maneira como ele disse aquilo… tão na defensiva, quase como se já esperasse que eu fosse atacá-lo… me fez baixar um pouco a guarda.
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  Mas só um pouco.
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  — Você… tá querendo se mudar pra cá? — perguntei, ainda processando a ideia.
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  Ele encolheu os ombros, como se não quisesse se comprometer.
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  — Eu tô… avaliando. Nada certo ainda. — disse, empurrando as mãos pros bolsos da calça, o olhar inquieto, os ombros tensos.
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  Ficamos nos encarando por alguns segundos. Nem um de nós parecia saber muito bem o que dizer a seguir.
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  Mas uma coisa era certa… o universo definitivamente não estava planejando me dar um segundo de paz.
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  E, agora… ele poderia acabar sendo meu vizinho.
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  Como se o passado estivesse decidido a se mudar de mala e cuia…
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  Bem pra frente da minha porta.
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  O silêncio entre nós ficou pesado, estagnado ali na calçada como uma terceira pessoa assistindo tudo de camarote.
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  %Sunoo% foi o primeiro a quebrá-lo. Claro que foi.
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  — Você… — ele pigarreou, mexendo o peso de um pé pro outro —… mora aqui há muito tempo?
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  Revirei os olhos, soltando um riso seco.
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  — Sério? Essa é a sua primeira pergunta?
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  Ele franziu o cenho, parecendo um pouco frustrado com a minha resposta.
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  — Eu tô tentando ser educado, %Niki%. — rebateu, num tom baixo, quase como um pedido de paciência.
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  Cruzei os braços, ainda de pé, a poucos metros dele.
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  — Desde o início do ano. — respondi, com a voz firme. — E antes que você pergunte… não, ninguém aqui sabia que você ia aparecer.
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  %Sunoo% soltou um suspiro pesado, encarando o chão por alguns segundos antes de me olhar de novo.
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  — Eu já disse… eu não sabia que você morava aqui. — repetiu, e pela primeira vez, a voz dele soou mais cansada do que defensiva. — Eu só tô tentando… recomeçar.
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  Engoli em seco. A sinceridade nas palavras dele me pegou desprevenido. Mas me recusei a ceder.
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  — Recomeçar? — soltei uma risada amarga. — Justo aqui? Justo… do meu lado?
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  Ele abaixou o olhar de novo, passando a mão pelos cabelos de um jeito nervoso.
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  — Eu nem sei se vou fechar com esse apartamento, tá? — disse, num tom mais irritado, como se também estivesse cansado da situação. — Só achei que… talvez fosse uma boa ideia voltar pra um lugar que me lembrasse de quem eu sou de verdade.
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  Fiquei em silêncio. Porque, por mais que eu quisesse atirar outra frase dura na cara dele… aquela última parte me desmontou um pouco.
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  Ele ergueu o olhar de novo e respirou fundo.
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  — Não quero te incomodar, %Niki%. Nem atrapalhar sua vida. Eu só… tô tentando achar um canto pra chamar de meu.
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  E naquele instante, eu vi. Por trás do orgulho, da defensiva, de toda aquela bagunça emocional que era o %Sunoo%… o garoto que eu conhecia. Aquele que nunca soube muito bem o que fazer com os próprios sentimentos.
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  Suspirei, soltando um riso curto, mas sem humor.
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  — Faz o que você quiser, %Sunoo%. Não é como se eu tivesse direito de impedir.
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  Virei-me para entrar no prédio, sem esperar resposta.
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  Mas antes de empurrar a porta, ouvi a voz dele atrás de mim. Mais baixa, quase como um sussurro:
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  — Mesmo assim… obrigado por não virar as costas.
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  Meus ombros enrijeceram, mas eu segui caminhando. Sem olhar pra trás.
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  Porque, se olhasse…Talvez eu cedesse mais do que deveria.
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  Já estava com a mão na maçaneta da porta de vidro quando ouvi de novo a voz dele, mais alta dessa vez, com um tom que eu não escutava vindo dele há anos.
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  — %Niki%! Espera.
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  Fechei os olhos com força por um segundo, soltando um suspiro impaciente antes de me virar.
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  — O que foi agora?
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  Ele respirou fundo, parecendo reunir toda a coragem que tinha acumulado desde o instante em que me viu.
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  — Você… já almoçou?
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  O tempo pareceu parar por meio segundo.
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  Pisquei, confuso, sem saber se tinha ouvido direito.
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  — O quê?
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  %Sunoo% deu um passo na minha direção, enfiando as mãos nos bolsos, mas dessa vez com um sorriso pequeno, daquele tipo que mistura nervosismo com ousadia.
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  — Tô perguntando se você já almoçou. — repetiu, agora com mais firmeza. — Porque… se não… a gente podia… sei lá… comer alguma coisa. Juntos.
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  Fiquei encarando ele por uns bons segundos, processando a cena surreal que eu tava presenciando.
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  %Sunoo%. Me chamando pra almoçar.
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  Depois de tudo.
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  Depois de três anos.
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  Depois da confusão toda da noite anterior.
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  — Você tá falando sério? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
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  Ele deu de ombros, mas o sorriso torto nos lábios permaneceu.
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  — Talvez. Ou talvez eu só queira prolongar essa tortura pra você um pouco mais.
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  Não consegui evitar. Um riso curto e incrédulo escapou de mim.
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  — Você é inacreditável. — murmurei, balançando a cabeça.
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  Ele deu mais um passo, agora perto o bastante pra eu sentir o cheiro familiar que parecia ter ficado gravado em algum canto da minha memória.
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  — E você sempre gostou de bancar o difícil. — rebateu, com aquele olhar que eu conhecia bem demais.
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  Cruzei os braços, avaliando a situação por um segundo.
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  Parte de mim queria mandar ele ir embora. Parte de mim queria entrar no prédio e fingir que nada disso estava acontecendo.
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  Mas… a outra parte…
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  A parte teimosa e burra que ainda existia… Já estava destrancando a porta de novo.
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  Soltei um suspiro derrotado.
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  — Tem um restaurante decente a duas quadras daqui. — falei, com o tom mais indiferente que consegui forçar.
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  %Sunoo% sorriu. Um sorriso de verdade dessa vez.
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  — Perfeito.
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  E, antes que eu me arrependesse, já estava caminhando ao lado dele.
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  Com o estômago embrulhado. E o coração… um pouco também.
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CAPÍTULO CINCO
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Lelen

Eu já tô sofrendo pelo Heeseung T_T

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