CAPÍTULO DEZOITO
%Dalny%’s POV:
Eu não planejei chamar os dois ao mesmo tempo.
A verdade é que eu não planejei nada — só cansei de fugir.
A festa já tinha ficado para trás quando encontrei %Sunoo% encostado no portão lateral da casa, o paletó pendurado no braço, o olhar perdido em algum lugar que não era ali. %Niki% estava alguns passos afastado, como se tivesse dado espaço de propósito, mas atento demais para fingir indiferença.
Quando me viram juntos, os dois, eu soube: era agora.
— A gente precisa conversar. — eu disse, a voz mais firme do que eu me sentia.
Nenhum dos dois discutiu. Isso foi o que mais me assustou.
Sentamos no degrau de pedra do jardim, o mesmo onde %Mina% costumava dizer que as conversas importantes sempre aconteciam. O silêncio se estendeu por alguns segundos longos demais, pesados demais.
— Eu não sei mais o que fazer com o que eu sinto. — confessei. — E tô cansada de fingir que não tá acontecendo nada.
%Sunoo% respirou fundo, como se tivesse prendido o ar por meses.
— %Dalny%… eu nunca quis te machucar. — a voz dele falhou no final. — Eu fui embora porque não sabia lidar comigo mesmo. Não porque deixei de te amar.
Meu peito apertou, mas eu não desviei o olhar.
— E voltou sem saber o que isso faria comigo? — perguntei, sem raiva. Só cansaço.
— Voltei porque fugir não resolveu nada. E porque mentir pra mim mesmo tava me destruindo.
%Niki% passou a mão pelo rosto, inquieto.
— E eu fiquei. — ele disse, finalmente. — Eu fiquei quando tudo desmoronou. Não esperando nada em troca. Mas também não fingindo que não sentia.
— Eu sei. — minha voz saiu mais baixa. — E é isso que me assusta.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era vazio. Era carregado de coisas não ditas.
— Eu não quero ser a causa de uma guerra entre vocês. — falei. — Nem ser escolhida como se isso fosse um jogo. Eu preciso entender… o que é isso que existe aqui.
%Sunoo% me encarou, os olhos marejados.
— Eu não quero competir com o %Niki%.
%Niki% respondeu quase ao mesmo tempo:
Aquilo me desmontou mais do que qualquer discussão possível.
— Então o que a gente faz? — perguntei, sentindo o nó subir pela garganta.
%Sunoo% se aproximou um pouco mais.
— A gente para de mentir. — ele disse. — Mesmo que a verdade seja confusa. Mesmo que dê medo.
— E para de decidir sozinho. — completou. — Seja lá o que for… tem que ser com os três sabendo onde estão pisando.
Meu coração batia forte demais.
Mas, pela primeira vez, eu tinha algo melhor:
verdade dos dois lados. E a certeza de que, depois daquela noite, nada mais seria simples — nem solitário.
🩹🩹🩹
%Sunoo%’s POV:
Eu pensei que falar seria mais fácil depois de começar.
O ar parecia pesado demais no jardim silencioso, e por um instante eu considerei engolir tudo de novo — como sempre fiz. Mas %Dalny% estava ali. Me olhando de verdade. E %Niki% também. Presente. Firme. Como sempre esteve.
— Tem uma coisa… — comecei, a voz mais baixa do que eu pretendia. — Que eu nunca contei pra ninguém.
%Niki% virou o rosto na minha direção imediatamente. %Dalny% não disse nada. Só esperou.
— Quando eu fui embora… não foi só medo de perder você, %Dalny%. — admiti. — Foi medo de mim mesmo. De perceber que o que eu sentia não cabia no lugar que eu tinha criado na minha cabeça.
Meu coração batia forte demais.
— Eu achei que, se eu sumisse, tudo ia se ajeitar. Que vocês iam seguir em frente e eu… ia aprender a ser alguém menos confuso.
%Dalny% se aproximou um pouco mais, os joelhos quase tocando os meus.
— E o %Niki%? — ela perguntou com cuidado. — Onde ele entra nisso tudo?
Engoli seco antes de responder.
— Ele foi a primeira pessoa que me fez sentir que eu não precisava escolher entre ser quem eu era e ser amado. — confessei. — E isso me apavorou.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Foi denso.
%Niki% passou a mão pela nuca, o olhar perdido por um segundo antes de voltar pra mim.
— Você podia ter falado. — disse, sem acusação. — Eu teria ficado do mesmo jeito.
As palavras dele me atingiram em cheio.
— Eu sei. — respondi, a voz falhando. — E é isso que mais dói. Saber que eu fugi de quem nunca soltou minha mão.
%Dalny% respirou fundo, os olhos marejados.
— Vocês dois carregam muita culpa. — ela disse. — E nenhuma delas é só de vocês.
— Eu não quero mais ser alguém que vai embora quando sente demais. — falei. — Mesmo que isso signifique encarar coisas que eu ainda não sei nomear.
%Niki% deu um passo à frente, ficando ao meu lado. Não me tocou. Mas esteve ali.
— Então a gente encara junto. — ele disse. — Sem promessas impossíveis. Só… honestidade.
O coração apertou no peito.
Talvez aquele fosse o momento mais assustador da minha vida.
Mas, pela primeira vez, não parecia que eu estava sozinho nele.
🩹🩹🩹
%Niki%’s POV:
Eu nunca fui bom em falar de mim.
Sempre achei mais fácil ser o apoio, o chão firme, o que segura quando tudo balança. Mas ali, com os dois me olhando como se finalmente fosse minha vez, senti o peso cair de uma vez só.
— Ficar não me fez forte. — eu disse, quebrando o silêncio. — Me fez… cansado.
%Sunoo% virou o rosto na minha direção no mesmo instante. %Dalny% prendeu a respiração.
— Todo mundo acha que eu aguentei bem. — continuei. — Que eu fui o amigo leal, o porto seguro, o que segurou tudo enquanto vocês se quebravam.
Dei uma risada curta, amarga.
— Mas ninguém pergunta o que acontece com o porto quando a tempestade não acaba.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o nó na garganta.
— Eu fiquei porque não sabia ir embora. Porque amar vocês dois virou parte de quem eu sou. — admiti. — Mas ficar significou engolir coisas demais. Fingir que não doía. Fingir que eu não queria mais.
— Eu te vi tentando seguir em frente. Te vi sofrer. Te vi se reconstruir. E eu estive ali… sempre. Não porque eu esperava algo em troca. Mas porque te amar virou hábito. E hábito cansa quando não pode respirar.
%Sunoo% se aproximou um passo, a voz baixa.
— Eu sei. — interrompi, sem dureza. — Isso não é acusação. É verdade.
— O que doeu foi fingir que eu não sentia falta de você. Fingir que o beijo não mudou nada. Fingir que eu não queria mais quando você voltou.
Minha voz falhou pela primeira vez.
— Eu fiquei forte sozinho porque não tive escolha.
%Dalny% se moveu devagar, ficando entre nós dois. Quando falou, a voz dela saiu trêmula — mas firme…
🩹🩹🩹
%Dalny%’s POV:
Ouvir aquilo me atravessou de um jeito que eu não esperava.
Eu sempre tive medo de machucar alguém. Nunca pensei que o medo maior fosse machucar
os dois ao mesmo tempo.
— Eu tenho pavor do que eu sinto. — confessei. — Porque não é confuso do jeito que eu queria que fosse.
Respirei fundo, o peito apertado.
— O que eu sinto por você, %Sunoo%… — olhei pra ele. — É raiz. É passado. É aquela sensação de casa que nunca deixou de existir, mesmo quando você foi embora.
— E o que eu sinto por você, %Niki%… — virei-me para o outro lado. — É escolha diária. É presença. É alguém que ficou quando tudo em mim queria desmoronar.
— Eu tentei transformar isso em coisas separadas. Organizar. Escolher. Mas não funciona assim.
Olhei pros dois, sentindo as lágrimas queimarem.
— Eu tenho medo de amar de dois jeitos diferentes e perder os dois no processo. — sussurrei. — Medo de parecer egoísta. Medo de ser demais. Medo de não caber.
Ninguém falou por alguns segundos.
Então %Sunoo% deu um passo à frente. %Niki% também.
— Amar não devia ser sobre perder. — %Sunoo% disse, com a voz baixa.
— Nem sobre aguentar sozinho. — %Niki% completou.
Talvez a gente ainda não soubesse
o que éramos.
Mas, pela primeira vez, ninguém estava carregando tudo sozinho.
🩹🩹🩹
%Dalny%’s POV:
E, pela primeira vez, o silêncio não doeu.
Eu estava sentada entre eles, sentindo o peso do que tinha sido dito ainda ecoando no peito. Minhas mãos tremiam levemente, não de medo — mas de consciência. Eu sabia demais agora para fingir.
Sem pensar muito, estendi a mão direita e toquei os dedos de %Sunoo%. Ele entrelaçou os nossos com cuidado, como se tivesse medo de quebrar algo frágil demais.
Do outro lado, minha mão esquerda encontrou a de %Niki%. Diferente. Firme. Quente. Presente.
Três pessoas ligadas por um gesto pequeno demais para quem olhasse de fora, mas grande demais para caber em qualquer explicação simples.
Ninguém puxou. Ninguém apertou demais. Ninguém soltou.
O jardim estava quieto, iluminado só pela luz amarela da varanda. O mundo parecia distante, como se tivesse nos dado um intervalo — não para decidir, mas para respirar.
Encostei a cabeça para trás, fechando os olhos por um segundo.
Eu ainda não sabia o que éramos. Não sabia como isso funcionaria. Não sabia se era justo, se era possível, se era seguro.
Eu não estava mais sozinha tentando entender.
Quando abri os olhos, %Sunoo% me observava com aquele cuidado antigo. %Niki% mantinha o olhar fixo à frente, como quem promete ficar mesmo sem garantias.
Talvez amar não fosse escolher um caminho e abandonar o outro.
Talvez fosse aprender a caminhar sem mapas.
E aquela noite — silenciosa, confusa, honesta demais — fosse apenas o começo.