CAPÍTULO QUATORZE
%Sunoo%’s POV:
Eu não planejava encontrá-lo. Estava voltando para casa, a cabeça cheia demais depois da conversa com a %Dalny%, quando vi %Niki% sentado no banco da pequena praça perto da avenida. O mesmo lugar onde costumávamos matar aula, falar sobre tudo e fingir que o futuro não chegaria tão rápido.
Ele me viu ao mesmo tempo.
Por um segundo, pensei em seguir em frente. Fingir que não vi. Fingir que ainda precisávamos de distância.
— Ei — ele disse, se levantando.
Ficamos ali, alguns passos de distância, como se ainda existisse algo proibido entre nós. O silêncio não era desconfortável — era carregado de coisas não ditas que agora finalmente podiam vir à tona.
— Você tá bem? — ele perguntou.
— Melhor do que antes. Pior do que eu gostaria.
%Niki% soltou uma risada curta, compreensiva.
Sentamos lado a lado no banco. Não encostamos. Ainda não.
— %Dalny% falou com a gente… — ele disse, não como pergunta.
Respirei fundo antes de continuar.
— E pela primeira vez… eu não sinto que tô correndo atrás de algo que não existe mais.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu também — admitiu. — Acho que a pior parte sempre foi esconder.
Olhei para ele então. De verdade.
O %Niki% que sempre esteve ali — comigo também.
— A gente nunca falou sobre aquilo… — murmurei.
— Não — ele respondeu. — Mas a gente também nunca esqueceu.
%Niki% se virou um pouco na minha direção, o olhar mais aberto, menos defensivo do que eu estava acostumado a ver. Eu fiz o mesmo.
— Se isso ainda te confunde… — comecei.
— Não confunde mais — ele me interrompeu, baixo. — Só assusta.
Ficamos próximos demais. Não por acidente.
Quando ele tocou minha mão, foi simples. Um gesto pequeno, quase cuidadoso. Meu coração acelerou do mesmo jeito que anos atrás — só que agora não tinha culpa misturada.
— %Sunoo%… — ele chamou, como se estivesse pedindo permissão.
Eu não respondi com palavras.
O beijo aconteceu devagar, mas com mais firmeza do que da última vez. Não tinha pressa, mas também não tinha medo. Foi um beijo consciente, carregado de tudo que a gente evitou por tempo demais.
%Niki% correspondeu na mesma medida. A mão dele subiu com cuidado pela minha lateral, como se estivesse me pedindo permissão em cada centímetro, até repousar na minha cintura. O toque era quente, real, e fez meu corpo responder antes mesmo de qualquer pensamento.
Nossos lábios se encaixaram melhor, mais seguros. Não havia urgência, só a necessidade silenciosa de sentir, de confirmar que aquilo era mesmo real. O beijo aprofundou aos poucos, suave no começo, depois mais intenso — não agressivo, mas cheio de intenção. Era como se cada movimento dissesse
“eu estou aqui”.
Afastei minimamente o rosto apenas para respirar, mas %Niki% não se afastou de verdade. A testa dele encostou na minha, os narizes se tocando, nossas respirações misturadas num ritmo descompassado. Ele sorriu de leve, quase imperceptível, antes de voltar a me beijar, dessa vez com um carinho que apertou o peito.
Era um beijo que não precisava provar nada. Ele só existia. E isso, por si só, já dizia tudo.
Quando nos afastamos, ficamos próximos, respirando o mesmo ar.
— Isso não muda o que a %Dalny% sente. — Eu disse.
— Eu sei! — ele respondeu. — Mas muda o que
a gente sente.
Mais curto dessa vez. Mais íntimo.
Não era sobre decidir nada ali.
E pela primeira vez desde que tudo começou a se quebrar, eu senti que não estava mais tentando ser alguém que não era.
Porque, ali, com ele, sem segredos…
Eu finalmente estava inteiro. 🩹🩹🩹
%Niki%’s POV:
Eu ainda sentia o gosto dele quando nos afastamos.
%Sunoo% ficou ali, perto demais pra ser só coincidência, longe demais pra ser confortável. O tipo de distância que só existe quando duas pessoas sabem exatamente o que estão fazendo —
e o que isso significa. — Você sumiu — eu disse, quebrando o silêncio.
Não era acusação. Era cansaço acumulado.
— Eu sei. — A voz dele saiu baixa. — E eu odiei cada segundo disso.
Inclinei o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Olhar pra ele enquanto falava daquilo era mais difícil do que qualquer briga que eu já tivesse comprado.
— Você sabe o que foi ficar, né? — continuei. — Todo mundo perguntando de você. A %Dalny% quebrando aos poucos. E eu ali… fingindo que tava tudo sob controle.
— Eu achei que indo embora eu ia resolver tudo. — Confessou. — Mas só levei o caos comigo.
Olhei pra ele então. De verdade.
— E eu fiquei… — falei. — E não foi porque eu era forte. Foi porque eu não sabia ir embora.
O silêncio que se seguiu não foi só vazio. Foi pesado.
— Eu senti sua falta todos os dias! — Ele disse. — Mas sentia medo demais pra admitir o porquê.
Minha risada saiu curta, sem humor.
— Engraçado… eu também. — Levantei o olhar pra ele. — Medo de que, se eu dissesse em voz alta, não tivesse mais como fingir.
%Sunoo% se virou totalmente pra mim agora. Os joelhos quase se tocando.
— E agora? — ele perguntou.
— Agora eu cansei de fingir.
Não teve delicadeza dessa vez.
Quando puxei %Sunoo% pelo moletom, foi direto, urgente — como se tudo que eu segurei por anos estivesse finalmente exigindo espaço. O beijo veio forte, intenso, carregado de tudo que nunca coube em palavras.
Ele arfou contra minha boca, surpreso por meio segundo… e então respondeu com a mesma força.
O beijo tinha peso. Tinha raiva antiga. Tinha saudade demais. Minhas mãos seguraram o rosto dele com firmeza, como se eu precisasse ter certeza de que aquilo era real. Que ele não ia desaparecer de novo se eu soltasse.
%Sunoo% retribuiu do mesmo jeito — próximo, quente, sem hesitação.
Quando nos afastamos, as testas ficaram encostadas.
— Eu não tô confuso agora… — ele murmurou. — Eu tô com medo.
— Eu também. — Admiti. — Mas dessa vez… você não vai fugir.
O olhar dele suavizou. Não feliz. Não resolvido.
E isso, naquele momento, era tudo.
Ficamos ali, lado a lado de novo, mãos ainda entrelaçadas, sabendo que nada estava simples — mas que, pela primeira vez, nada estava escondido.
E talvez fosse assim que as coisas realmente começassem.