Five Years Gone


Escrita porBagi Ferreira
Revisada por Lelen


Capítulo 10

  A noite caía sem fazer alarde. A casa de Tony Stark parecia mais silenciosa do que o habitual, envolta numa penumbra inquieta que se recusava a ser espantada pela tecnologia. As luzes automáticas do corredor piscavam levemente, talvez por falha do sistema, talvez por interferência do clima. Ou talvez por algo mais.
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  Tony estava no escritório, os olhos fundos mergulhados em arquivos digitais espalhados por múltiplas telas. Fotos. Registros médicos. Laudos policiais. A mesma imagem repetida mil vezes: uma menina de dois meses, envolta em uma manta azul, nos braços de uma mulher de olhos azuis como os dela. Mas o olhar não confundia, era exatamente como o dele.
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  Ele suspirou, cansado. Três xícaras de café e nenhuma delas terminada. Estava exausto, mas o corpo não obedecia ao impulso de dormir. Algo dentro dele latejava — uma angústia que não sabia nomear, mas que sabia de onde vinha. O poema. As fotos. As mortes. A ideia de que o segredo mais bem guardado da sua vida estava voltando para cobrar a dívida.
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  Foi então que ouviu.
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  Um leve estalo, nada demais. Um rangido qualquer, típico de uma casa grande. Mas seus olhos se ergueram como se tivessem sido puxados por fios invisíveis. Ele ficou imóvel por alguns segundos, encarando o vão da porta.
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  — Sexta? — chamou, a voz baixa, arrastada. — Tem alguém aqui?
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  A IA não respondeu de imediato. Quando o fez, a voz soou hesitante.
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  — Os sensores não detectam presença estranha, senhor.
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  Tony franziu o cenho. Ficou de pé, com passos lentos até a sala. Nenhum barulho fora do normal, mas… então viu.
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  Sentada na bancada da cozinha, como se tivesse estado ali desde sempre, estava ela. Uma figura magra, envolta em roupas escuras. As pernas cruzadas, uma das mãos segurando uma maçã como se estivesse num piquenique casual. O rosto mal podia ser visto, mas quando o relâmpago cortou o céu e o estrondo se firmou segundos depois, Tony viu.
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  Os olhos — aqueles olhos azuis — cravados nele. Um sorriso quase debochado se formando nos lábios, como se estivesse observando um espetáculo particular e se divertindo com cada segundo. Tony congelou.
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  — ...Elena? — A voz dele saiu como um sussurro sufocado.
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  Ela arqueou levemente a sobrancelha, sem responder.
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  Ele deu um passo hesitante, depois outro. O coração acelerado, uma batida errática que parecia ecoar nos tímpanos. Havia uma parte dele que sabia que aquilo não fazia sentido, que a Elena estava morta. Que a filha deles… bom, também. Não é?
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  — Isso é real? — perguntou, quase sem fôlego.
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  A figura não respondeu de imediato. Apenas deu mais uma mordida na maçã. Crocante e intensa, desnecessariamente provocativa.
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  — Tão real quanto você pode imaginar — ela disse, finalmente. A voz era firme, mas serena. Quase calma demais. — E às vezes, o rosto que você mais teme… é o que você se recusa a reconhecer.
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  Tony engoliu em seco. Os olhos estavam fixos nela, tentando assimilar o que ouvia.
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  — O que você quer?
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  Ela sorriu, mas não havia humor no gesto. Apenas um tipo perverso de entendimento.
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  — Você vai descobrir, Tony.
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  E então ela escorregou da bancada, os pés tocando o chão com a leveza de quem conhecia aquele lugar, deixando a maçã mordida nas mãos dele. Parecia que ela já tinha caminhado por aqueles corredores, como se apenas morasse ali. Ele tentou se aproximar, mas o corpo pesava, como se algo o segurasse no chão.
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  — Espera… — ele disse, quase implorando e derrubando a maçã no chão. — Espera aí. Quem é você?
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  A figura já estava de costas, andando em direção ao corredor.
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  — Não sou uma alucinação, se é isso que você está pensando. Mas se fosse uma… talvez seria mais fácil, não seria?
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  E então desapareceu completamente. Sem drama, sem explosão e sem barulho. Quando Tony passou pela porta da cozinha, não havia ninguém. Nenhuma maçã, nenhum passo, nenhuma sombra sequer. Ele ficou parado ali por um tempo que não soube medir. As mãos tremiam muito e a respiração estava curta. Tentou ativar os sensores da casa.
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  — Sexta… por favor, me diz que isso foi real.
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  A IA hesitou.
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  — Senhor… não houve registro de entrada ou movimentação além da sua.
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  Tony fechou os olhos, respirando fundo. Mais tarde, deitado na cama, sem conseguir dormir, ele ficou encarando o teto. O coração ainda acelerado e os pensamentos girando como um redemoinho sem fim.
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  Aquela voz e aqueles olhos. Aquela sensação de que estava sendo punido — não por algo que fez, mas por algo que deixou de fazer. Algo que deveria ter protegido. Algo que o mundo esqueceu, mas que o lembrava todas as noites. E pela primeira vez, ele desejou que fosse uma alucinação, mas sabia que não era.
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  As horas seguintes foram um borrão. Tony não lembrava quando havia deitado, tampouco quanto tempo passara imóvel, apenas observando o teto como se ele fosse se abrir e lhe dar uma resposta. O rosto daquela mulher — aquela jovem com olhos azuis e presença imponente — permanecia fixado na mente como uma impressão em fogo. Não era possível. Não podia ser real. Mas a voz, o olhar, o modo como se moveu pela casa… aquilo tinha motivo. Tinha que ter.
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  Ele se levantou antes mesmo do alarme tocar. As pálpebras pesadas, a garganta seca, e o peito apertado com aquela sensação incômoda que ele conhecia tão bem: ansiedade. Já havia sentido algo parecido antes, quando Elena desaparecera da vida dele em silêncio, deixando para trás um abismo. Quando a filha recém-nascida sumira de casa e a única coisa que lhe restara foram arquivos selados, registros enterrados e um túmulo simbólico com um nome que ninguém jamais iria conhecer.
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  Desceu as escadas com passos lentos. A casa estava escura, mas ele nem pensou em acender as luzes. Andava como quem esperava dar de cara com alguém a cada esquina, e foi exatamente isso que aconteceu.
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  Ao entrar na cozinha, a mesma bancada de sempre, o mesmo bule de café sobre a pia… e ela estava ali. Sentada, novamente, pernas cruzadas e cotovelos apoiados no balcão e segurando um cigarro entre os dedos, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Tony parou. O coração disparando como uma tempestade interna. Piscou. Uma, duas vezes.
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  — Você… — começou, sem saber exatamente o que dizer. A boca secou e as mãos começaram a tremer.
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  Ela não respondeu de imediato. Apenas tragou o cigarro e soltou a fumaça devagar, os olhos cravados nos dele com uma intensidade inquietante. Os mesmos olhos, os mesmos da mulher que ele amou. Os mesmos que viu por anos em arquivos confidenciais e num retrato emoldurado no fundo de uma gaveta trancada. Mas não era somente isso; a jovem que estava na sua frente era uma cópia muito bem-feita da falecida esposa. E chegava a doer o quão idênticas elas eram.
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  — Dormiu mal de novo? — ela perguntou, com uma entonação leve, quase zombeteira.
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  Tony não respondeu. Ficou parado, encarando a figura. Estava real demais, clara demais. Nítida como o próprio chão debaixo dos seus pés. Ele deu um passo, então outro. E aí ela se levantou.
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  — Você tem andado cansado, Tony — continuou ela, dando a volta na bancada. — Não come e não dorme. Fica o dia inteiro obcecado com velhas histórias. Sabe o que dizem sobre obsessão?
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  Ele engoliu em seco.
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  — Que ela leva você à loucura.
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  A garota sorriu.
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  — Isso mesmo.
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  Tony fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu… nada. Estava sozinho de novo. Virou-se bruscamente, como se esperasse pegá-la fugindo, mas o cômodo estava vazio. Nenhum cigarro, nenhuma marca de sapato, nenhum vestígio. Apenas o cheiro leve de café velho e terra molhada da madrugada.
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  Subiu de novo para o quarto, e lavou o rosto no banheiro. Encostou as mãos na pia e fitou o espelho com o reflexo de um homem que já não se reconhecia. O cabelo bagunçado. As olheiras cada vez mais fundas. O peito arfando ao ponto de doer.
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  — Você tá ficando maluco, Stark — murmurou para si mesmo.
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  Mas havia algo ali, dentro dele, que dizia o contrário. Que aquilo tinha um objetivo e que não era invenção da mente. Era como se alguém estivesse mexendo os fios da realidade bem debaixo do nariz dele. E ele, pela primeira vez em muito tempo, estava começando a perder o controle.
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  Naquela noite, depois de passar o dia inteiro ignorando todos os compromissos que tinha e ficar horas trancado no escritório trabalhando naquele maldito dossiê, Tony dormiu por apenas quarenta minutos. Um sono agitado, pontuado por pesadelos e visões distorcidas da mesma mulher — ora sorrindo, ora chorando, ora o encarando com um ódio tão familiar que fazia os ossos dele doerem. Quando acordou, o lençol estava empapado de suor e o alarme ainda não havia tocado.
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  Desceu novamente, meio trôpego, os olhos ainda ajustando-se à escuridão. E lá estava ela, pela terceira vez. Encostada na poltrona da sala, de braços cruzados.
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  — Tá gostando do jogo? — ela perguntou, com um leve inclinar de cabeça.
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  Tony não respondeu, apenas a fitou. O peito subindo e descendo com força. Era ansiedade, de novo.
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  — Quem é você?
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  A garota arqueou uma sobrancelha.
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  — Achei que você já tivesse entendido, mas tudo bem. Um dia de cada vez, pai.
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  O mundo pareceu congelar.
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  — O quê?
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  Mas ela já havia sumido novamente. Tony caiu de joelhos no chão da sala, sem saber se chorava, se gritava ou se simplesmente aceitava que talvez tivesse perdido completamente a noção da realidade. Talvez estivesse louco.
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  Os dias seguintes pareceram uma tapeçaria costurada por mãos trêmulas. Tudo era desalinhado, fragmentado, desconexo. Tony passava horas diante de telas sem ver nada. Arquivos abertos, códigos inacabados e projeções de tela travadas na mesma sequência. E, em meio a tudo isso, a sombra daquela garota — olhos azuis, cabelo escuro, e aquela expressão que oscilava entre deboche e julgamento.
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  Ela aparecia nos reflexos, na tela do celular. Às vezes num visor de segurança ou no vidro de um carro. E em outras vezes, por uma fração de segundo, ele ouvia passos quando estava sozinho. Ou o arranhar leve de unhas contra a parede, seguido de um riso baixo vindo de outro cômodo. O cheiro súbito de cigarro no corredor e o som do piano na sala que ele não tocava desde o funeral de Elena.
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  Na primeira vez que Happy ouviu Tony gritar com o nada, achou que fosse só estresse. Mas na terceira noite seguida em que o chefe aparecia no laboratório às três da manhã, falando sozinho e se recusando a comer, algo dentro dele apitou. E foi na manhã seguinte, ao ver Tony parado na cozinha, imóvel, com um copo vazio nas mãos e os olhos vermelhos de tanto não dormir, que Happy entendeu que aquilo estava para além do normal.
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  — Senhor Stark? — tentou, com cautela. — A gente precisa conversar.
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  Tony virou o rosto devagar. Os olhos pareciam perdidos em outra frequência.
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  — Ela tava aqui, sentada onde você tá agora. Me chamou de pai.
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  Happy pigarreou, incômodo.
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  — Quem tava aqui?
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  — A garota, a mesma da Expo. Eu vi ela... mais de uma vez.
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  — O senhor… acha que tá vendo alguém?
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  — Não acho. Eu tô. — Ele virou-se bruscamente. — Ela tá rindo de mim. Aparece quando quer e some quando eu viro o rosto. Deixa pistas e me chama de pai.
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  Happy ficou em silêncio por um instante. O peito apertado.
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  — Tony, você precisa de ajuda.
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  Tony deu uma risada que soou entre o incrédulo, seco e amargo.
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  — Isso é novo?
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  — Não. Mas agora é diferente.
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  Happy saiu da cozinha e, com o coração apertado, ligou direto para Fury. Meia hora depois, a porta da frente se abriu e o homem de sobretudo entrou com passos firmes, já sabendo que a situação não era boa. O próprio Happy o recebeu com um aperto de maxilar visível, apontando discretamente para a sala de estar.
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  Tony estava sentado, braços apoiados nos joelhos, cabelo desgrenhado e a barba dando os primeiros indícios de que estava por fazer. Os olhos dele mal se moviam. Pareciam fixos em algo invisível logo à frente, algo que apenas ele podia ver.
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  — Stark — chamou Fury, a voz grave e direta. — O que diabos tá acontecendo com você?
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  Tony não respondeu de imediato. Só depois de alguns segundos ergueu os olhos e disse, num sussurro:
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  — Ela tá aqui.
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  Fury cruzou os braços.
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  — Quem?
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  — A garota. Aquela… cópia da Elena. Ela aparece, fala comigo e some. Deixa sinais. — A respiração dele estava trêmula. — Me chama de pai.
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  — Tony, não tem ninguém aqui além de você, eu e o Happy. Você tem certeza de que tá bem?
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  Tony fez que sim com a cabeça, lentamente.
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  — Não, eu... eu sei o que eu vi. Ela falou comigo, eu sei que isso aconteceu. Ela era a Elena, mas não era a minha Elena...
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  Fury encarou Happy por um segundo e depois voltou para Tony. A situação era realmente preocupante, beirando a psicose.
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  — Você tem dormido?
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  — Não sem ela aparecer.
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  — Comido?
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  — Quando dá.
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  — Tomado algo?
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  Tony o encarou, ríspido:
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  — O quê? Tá achando que eu tô alucinando por que voltei a beber?
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  — Não. Mas tô achando que você tá prestes a perder a linha de vez se continuar sozinho aqui com seus arquivos e fantasmas inventados.
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  — Não são fantasmas — Tony insistiu.
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  Fury respirou fundo, contendo o impulso de falar mais do que devia.
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  — Tony, quem que iria conseguir invadir a sua casa sem que a Sexta-Feira lançasse dezenas de alertas? Ninguém conseguiria fazer isso.
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  Tony hesitou diante da lucidez do comentário.
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  — Eu não sei. Mas… parece real demais.
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  Fury se aproximou devagar.
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  — Você claramente anda muito estressado, Stark. Sempre nessa época do ano, você fica estressado e ansioso... sei que a morte da Elena e da %Mavis% mexe com você até hoje, mas...
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  Tony o interrompeu com um gesto. Os olhos dele estavam marejados.
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  — E se ela não morreu?
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  Fury não respondeu. Tony se levantou, encarando o vidro da janela.
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  — E se ela voltou… e tá se vingando de todo mundo que ferrou com a vida dela? E se… tudo isso que tá acontecendo é por minha culpa?
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  — A gente não tem como saber disso ainda — respondeu Fury, num tom que misturava cuidado com cautela. — Mas se tiver alguma chance de ser ela… eu vou descobrir. E você vai precisar estar são pra lidar com isso, Tony.
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  Tony se virou e deu uma risada amarga de novo.
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  — Eu já não tô são.
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  — Então deixa que eu e a Natasha lidamos com isso por enquanto. Você precisa dormir, comer e respirar um pouco.
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  Tony passou as mãos no rosto, esgotado.
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  — Você não entende. Eu vejo ela toda noite. Sentada na minha cozinha, na sala e no corredor. Não é um sonho, Nick. Ela me chama de pai, me olha com aquele desprezo… é como se me culpasse por tudo. Talvez devesse.
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  Fury apertou os lábios, o olhar mais duro agora.
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  — E se for mesmo ela, Stark… então não é somente você que deveria se sentir culpado.
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  Tony não protestou quando o médico chegou. Estava cansado demais para resistir, com os olhos fundos e a pele pálida, como se fosse uma versão esvaziada de si mesmo. Deixou que aferissem sua pressão, que examinassem seus reflexos, e que finalmente preparassem o sedativo que o deixaria em repouso pela primeira vez em dias. Não disse uma palavra quando a agulha perfurou a veia do braço esquerdo. Não reclamou da ardência. Apenas fechou os olhos devagar, como se estivesse afundando em um lago de areia.
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  Fury observou tudo com os punhos cerrados e a expressão quase indecifrável. Não era assim que esperava ver Tony Stark, não depois de tudo que o homem tinha enfrentado e sobrevivido. Havia nele uma inquietação que não vinha apenas da preocupação com o amigo — era a sensação gritante de que algo estava fora do controle, escapando pelos dedos como água suja de uma represa rachada.
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  Quando o médico saiu, dando instruções a Happy sobre os horários da medicação e o repouso necessário, Fury não disse nada de imediato. Caminhou até a varanda da casa, olhou para o jardim imenso, onde o gramado parecia intocado. O céu estava pesado com nuvens cinzentas e a brisa morna cheirava a terra molhada. Só então, com a voz baixa e o olhar fixo no horizonte, ele falou:
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  — Ele já tinha surtado assim antes?
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  Happy demorou um segundo antes de responder. Estava recostado na moldura da porta, com os ombros caídos e a testa franzida.
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  — Não. O Tony tem crises... disso a gente sabe. Ansiedade, paranoia, culpa. Mas nunca assim, nunca... vendo gente que não tá aqui. Nunca com tanto medo nos olhos. Ele parece perdido, chefe.
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  Fury bufou, apoiando as mãos nos quadris.
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  — Isso não é mais uma das crises dele, Happy. Isso aqui é perigoso demais.
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  — Eu sei.
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  — E ele não tá inventando. Aquele olhar... não é de quem quer atenção. É de quem tá preso em um labirinto, e já se perdeu da realidade.
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  Happy cruzou os braços, inconformado.
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  — É a garota, né? A tal da versão nova da Elena. Aquela que ele disse ter visto.
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  Fury desviou o olhar.
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  — Talvez. Mas isso complica tudo.
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  — Complica? Isso tá uma bagunça, Fury. Eu entrei no escritório e eu vi aquela bagunça que ele fez. O tal do poema, as fichas dos mortos... ele mergulhou de vez nessa loucura. Quem é esse assassino?
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  Fury virou-se para encará-lo.
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  — Não é qualquer um.
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  Happy o fitou por um segundo longo, e então pareceu entender.
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  — Espera… você sabe quem é?
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  Fury balançou a cabeça, lentamente. Ainda doía admitir que não tinha nada a respeito da figura misteriosa responsável pela onda de assassinatos, e isso o deixava extremamente irritado.
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  — Não sei ao certo. Eu tenho algumas hipóteses. Sobre a garota... eu cuidei de tudo 24 anos atrás. Foi o que o Stark me pediu, lembra? Enterrar tudo, apagar os rastros. Proteger o nome dele e proteger a memória dela. Só que agora… não somos mais os únicos que sabemos disso.
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  Happy respirou fundo, engolindo seco.
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  — Então tem mais alguém que sabe sobre ela?
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  — Acha que eu não me pergunto isso desde que os assassinatos começaram? — Fury falou, num tom mais duro. — Desde que a Natasha apareceu machucada e com aquelas fotos nas mãos?
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  — Mas a %Mavis% morreu, não morreu? Eu lembro que enterramos ela.
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  — Desapareceu, na verdade. O enterro era mais simbólico por causa da Elena. E na nossa linha de trabalho… ninguém que desaparece fica assim pra sempre.
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  Houve um longo silêncio entre os dois interrompido apenas pelo som distante de um carro na estrada e o estalar de um galho no jardim. Nada parecia real naquela noite. Ou melhor — real demais. Happy baixou os olhos, a voz rouca.
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  — Ele ainda sonha com ela, sabe? Desde o enterro. Nunca disse em voz alta, mas eu sei. O aniversário dela é amanhã e é difícil quando ele fica desse jeito... é difícil pra ele passar por isso todo ano.
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  Fury desviou o olhar, como se a informação fosse uma faca sendo empurrada mais fundo.
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  — Eu sei.
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  — Então o que a gente faz?
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  Fury passou a mão pela nuca, o semblante pesado.
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  — A gente protege ele, mesmo que seja dele mesmo. E se for alguém que sabe… se for algum justiceiro fazendo isso… — A voz dele vacilou por um segundo, rareza que não passava despercebida. — Então o Tony vai precisar de cada pedaço de apoio que conseguir, porque a dor que vem com isso... não tem armadura no mundo que conserte.
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  Happy assentiu.
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  — Ele é forte, mas não é indestrutível.
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  Fury virou-se para dentro da casa, observando o vulto de Tony deitado na cama, o peito subindo e descendo lentamente sob o efeito da sedação.
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  — Ninguém é.
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Capítulo 10
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Lelen

Gente, até onde é realidade e até onde é o Tony indo de parafuso?
E o que fizeram com a criança pra ela querer se vingar tanto? E por quê? :O

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