Capítulo 09
A chuva fina batia contra as janelas de vidro da casa isolada, arrastando trilhas lânguidas pelas paredes como se o céu estivesse cansado demais para chorar de verdade. A arquitetura moderna da casa de Tony Stark sempre fora vista como símbolo de genialidade e sucesso, mas por dentro, aquele lar era um mausoléu de lembranças cuidadosamente empilhadas em prateleiras invisíveis. Ali, ele vivia em paz — ou algo que fingia ser paz. Paz interrompida por noites insones, cafeína demais e a chegada inoportuna de Nick Fury em plena manhã nublada.
Tony estava na cozinha, ainda de pijama, a barba feita e os olhos fundos de quem só tinha dormido por obrigação biológica. A caneca de café tremia levemente nos dedos, não por nervosismo, mas pelo acúmulo de exaustão.
Fury entrou sem bater, como sempre fazia, e não precisou de mais que três passos até que Tony percebesse que aquilo não era uma visita banal.
— Se veio me lembrar do dossiê de novo, já te adianto que tenho uma fila enorme de “problemas maiores” — murmurou Tony, sem levantar o olhar.
— Você parece pior do que no enterro do Obadiah. — comentou Fury, quase com deboche, ao ver a expressão do amigo. — Não vim falar de tratado. Vim falar de três fotos.
Tony soltou um riso seco.
— Que bom saber que você ainda sabe fazer piada. De que fotos estamos falando? — Tony indagou, levemente curioso.
Fury largou o envelope sobre o balcão de mármore entre os dois. Tony pegou-o, abriu com os dedos manchados de graxa e café, e retirou o conteúdo. Três fotos.
A primeira, uma bebê enrolada em manta escura, olhos muito abertos, azuis como a mãe. A segunda, Elena — com aquele olhar altivo e elegante que fazia cada ambiente girar em torno dela. A terceira… era ele mesmo, mais novo. Antes da dor. Antes do luto.
Tony ficou parado por um tempo que pareceu mais longo que todos os anos de silêncio que haviam se acumulado desde aquele dia. O envelope ficou pendurado entre seus dedos, mas ele só tinha olhos para as imagens.
— Onde você achou isso? — a voz saiu baixa, como um sussurro preso no meio da garganta.
— Natasha. — Fury respondeu. — Ela foi investigar o rastro de assassinatos e achou um esconderijo. Ou melhor: foi levada a ele. Era uma armadilha.
Tony ergueu os olhos com uma urgência que não se via nele há anos.
— Tá viva. Machucada, mas viva. Antes da mulher ir embora, jogou isso em cima dela, essas fotos. Como se fosse... uma provocação. Um recado. Só que ela não entendeu; mas eu entendi, Tony.
Tony ficou quieto por um tempo. Os olhos presos na imagem da mulher. Elena. O nome era um sussurro esquecido nos cantos mais escuros da memória. A última mulher que ele amou antes de afundar em armaduras, armas e álcool. E a bebê... era impossível ignorar os olhos. Tão azuis quanto os da mãe.
— Não faz sentido. — disse ele, num tom baixo. — Isso foi enterrado. Enterrado fundo. Você mesmo ajudou.
Fury assentiu, ainda calado.
— Fui eu quem fez o arranjo. Você me pediu e eu obedeci. O mundo não soube que você teve uma filha. Nem quando a Elena morreu. Nem quando a criança desapareceu. Oficialmente, nunca existiram.
— Então por que agora? Por que agora isso está vindo à tona? — Tony esfregou o rosto, a mente a mil.
— Porque alguém sabe, Stark. E essa pessoa está brincando com você. Mexendo nas suas feridas. E tem mais.
Ele tirou outra folha dobrada do bolso do casaco. Era uma folha amarelada, com caligrafia torta e irregular. Tony reconheceu o estilo de letra de Natasha — rabiscado, impaciente. Estava transcrita uma parte de um poema infantil antigo, que ela havia encontrado colado na parede do esconderijo.
— “Oito por um desejo, Nove por um beijo, Dez por uma surpresa que você deve ter cuidado para não perder, Onze por saúde, Doze por riqueza, Treze — cuidado, é o próprio diabo.” — Fury recitou devagar. — Contando corvos.
— Você tá dizendo que... isso tem a ver com os assassinatos? — Tony ergueu os olhos.
— Os assassinatos começaram com frequência irregular. Mas agora, com o poema em mãos, temos um padrão de ataque. Um por verso. Oito... nove... dez... já temos treze vítimas. Natasha só tinha identificado quatro, mas agora cruzamos as localizações com os nomes. A maioria com laços antigos — ou com Hydra, ou com algum projeto obscuro que não chegou a ser público. Os arquivos não são claros, mas o número de mortos subiu exponencialmente. E a cada morte, o próximo verso parece se encaixar.
Tony recostou-se na cadeira como se tudo aquilo fosse peso demais pra suportar de pé.
— Isso aqui… — Ele pegou as fotos de novo. — Isso aqui é pessoal. Alguém está mexendo na parte da minha vida que nem eu consegui encarar. Isso aqui não é sobre vingança política, nem terrorismo. É sobre mim. É sobre a Elena. E sobre…
Ele não disse “minha filha”. Não conseguiu.
— Seja lá quem for essa pessoa, ela sabe tudo. E quer que você saiba que ela sabe. — Fury respirou fundo.
Tony ficou em silêncio por longos segundos. Quando voltou a falar, sua voz estava mais contida.
— E se isso for chantagem? E se alguém descobriu o que aconteceu e quer me chantagear? Me fazer pagar?
— É uma possibilidade. Mas a pergunta continua sendo: por que agora? — Fury não descartou a hipótese.
Tony se levantou, finalmente. Pegou a folha do poema, olhou de novo para as fotos e depois foi até uma das janelas. A chuva ainda caía, como se o tempo estivesse num looping melancólico. Ele apoiou a testa no vidro e fechou os olhos por um momento.
— Eu não consigo deixar isso para trás, Nick. Nunca consegui. E agora está voltando... do jeito mais cruel possível.
— A gente vai descobrir. — disse Fury, sério. — Mas você precisa se preparar, Tony, porque se esse jogo está só começando. A última peça pode ser algo que você não quer encarar.
Tony não respondeu. Só ficou ali, imóvel, com a folha do poema em uma mão e a foto da bebê na outra.
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O escritório estava mergulhado em uma penumbra constante, como se o tempo lá dentro tivesse desacelerado. Tony sentava-se sozinho, o rosto parcialmente iluminado pela luz azulada da tela do monitor à sua frente. O resto do cômodo era tomado por silêncio, exceto pelo leve zumbido dos sistemas rodando ao fundo — um tipo de companhia fria, mas familiar.
Havia dias que ele não dormia direito.
O nome da filha, aquele nome que ele não dizia em voz alta há anos, tinha voltado a assombrar os pensamentos como um sussurro que não se dissipava. A conversa recente com Nick Fury não deixava dúvidas: algo estranho estava acontecendo. Alguém estava escavando segredos que ele jurou manter enterrados.
Com um suspiro pesado, ele se inclinou sobre a mesa e ativou o painel lateral, revelando um compartimento de segurança embutido no tampo. Escaneou a digital, inseriu uma senha de acesso e, quando o cofre se abriu com um clique mecânico abafado, puxou uma pequena pasta preta marcada com o símbolo antigo da S.H.I.E.L.D.
Ela era fina, elegante e absolutamente dolorosa.
%Mavis% Rose Stark.
Nascida em 31 de outubro de 1991.
Desaparecida desde 22 de dezembro do mesmo ano.
Na ficha havia uma foto da bebê — olhos claros, vivos, arregalados para a câmera. Parecia estar rindo, ou balbuciando algo com os lábios rosados. Era uma das poucas imagens que ele ainda tinha. E mesmo assim, a encarava como se estivesse vendo um fantasma que nunca quis deixar ir embora. Uma vida que escapou pelas frestas do tempo.
A imagem seguinte mostrava
Elena Hope Stark — sua ex-mulher. Elegante, graciosa, com os mesmos olhos azuis da filha. Tony engoliu seco. Não se permitia pensar nela com frequência. O luto era uma coisa estranha quando você o enterrava sob uma avalanche de trabalho e aço. Ele nunca lidou direito com a morte de Elena. Não que ela culpasse Tony pelo que havia acontecido no dia 22 de dezembro, mas ele sentia que havia falhado. Meses depois do sequestro de %Mavis%, Elena ainda se recusava a aceitar o que tinha acontecido e, naquela fatídica noite, ela se foi de uma forma horrível. Tony estava com seus advogados quando recebeu a ligação do hospital tarde da noite — e por mais que ele tivesse corrido para o hospital, não havia nada que pudessem fazer. Elena tinha apenas 21 anos quando perdeu a vida no acidente de carro. Só sobraram as roupas, as fotos e a dor.
As páginas seguintes eram registros da S.H.I.E.L.D., redigidos por Fury com o cuidado de quem sabia que aquele caso nunca deveria ver a luz do dia.
“Atendendo ao pedido pessoal de Anthony Edward Stark, todas as menções ao desaparecimento e nascimento da criança foram removidas de registros hospitalares, cartórios, bancos de dados e sistemas federais. Investigação interrompida por solicitação do próprio pai.” Tony fechou os olhos por um instante.
Ele se lembrava da noite em que pediu aquilo a Fury. Estava destruído e sem rumo. Ainda sangrando da perda dos pais, e com Elena desmoronando em frente a ele dia após dia. Quando %Mavis% sumiu, foi como se o último fio de esperança tivesse se partido. A ideia de que alguém poderia sequestrar sua filha de dois meses e desaparecer sem deixar rastro... aquilo quase o quebrou. E então, quando Elena morreu — e tudo o que restava era uma lápide sem corpo — ele não aguentou. Mandou Fury encerrar tudo. Enterrar as evidências. Selar o caso.
Mas agora, tudo voltava à tona. Não por vontade dele — e sim pelas mãos de um assassino misterioso, impiedoso, que parecia saber mais do que qualquer um.
Ele pegou a folha de papel que a Natasha encontrara no esconderijo: o poema infantil, rabiscado com uma caligrafia feminina e ligeiramente torta:
Contando Corvos
Um para tristeza,
Dois para alegria,
Três para um funeral,
Quatro para nascimento.
Cinco para prata,
Seis para ouro,
Sete para um segredo que nunca será contado.
Oito por um desejo,
Nove por um beijo,
Dez por uma surpresa que você deve ter cuidado para não perder,
Onze por saúde,
Doze por riqueza,
Treze — cuidado, é o próprio diabo.
Tony passou os dedos pela folha. As mortes recentes... estavam seguindo esse padrão. Era como um jogo de gato e rato. Um ritual. E agora, três fotografias haviam sido deixadas junto ao corpo de Natasha — a mesma foto da bebê, uma de Elena e uma dele.
Como se alguém estivesse zombando, ou pedindo para ser notado.
Tony afastou-se da mesa e esfregou o rosto. Ele não era o mesmo homem de 1991. Já tinha enfrentado alienígenas, robôs assassinos, portais dimensionais. Mas aquilo ali, esse tipo de dor, era diferente. Tinha raízes profundas demais. Porque não se tratava apenas de uma ameaça ao mundo — era para ele. Era para doer.
E ele tinha a impressão de que alguém estava arrancando cada camada que ele construiu para manter essa dor trancada a sete chaves. Ele voltou os olhos para a foto de %Mavis%. Dois meses de vida. Raptada e nunca encontrada.
Ou, pelo menos... até alguém decidir usar a imagem dela para acender um incêndio. Tony apertou a mandíbula, determinado a ir até o fim. Se era isso que aquela pessoa queria — provocar, expor, arrastar o nome da filha de volta à tona — então ela conseguiria, mas da pior maneira possível. Porque ele ia descobrir quem estava por trás disso. E quando descobrisse... não haveria poema suficiente no mundo para impedir o estrago.
Ele fechou a pasta com força, guardou de novo no cofre e selou o compartimento.
— É pessoal agora. — murmurou.
Era tarde. A casa estava mergulhada em um silêncio que não era exatamente reconfortante, mas trazia segurança. O tipo de silêncio que Tony havia aprendido a tolerar com o tempo — desde que aprendera a viver sozinho, desde que se tornara pai e, pouco depois, deixara de ser. Sentado em frente à escrivaninha do andar inferior, ele se via cercado por uma tempestade de papéis, relatórios, imagens, documentos e memorandos com carimbos confidenciais que só ele e Fury podiam acessar. No centro de tudo, havia uma folha que não pertencia à burocracia governamental nem aos arquivos secretos da S.H.I.E.L.D.; um simples pedaço de papel com versos infantis, datilografados com uma máquina antiga e manchados de algo que ele preferiu não identificar. O poema. O maldito poema.
Seus dedos, manchados de grafite, passavam pelas linhas amareladas como se pudessem arrancar alguma verdade escondida nas entrelinhas. Ele conhecia aquelas palavras de cor agora. Cada número. Cada sentença. Cada rima sinistra.
Era como se alguém estivesse usando versos de criança para construir uma obra de terror. Um plano que se desenhava em sangue e ossos. Cada assassinato dos últimos meses — e agora ele tinha a noção da proporção que aquilo havia tomado — seguia um padrão. Um ritmo e um propósito. Não eram mortes aleatórias, nem obra de um lunático qualquer. Havia intenção. E havia método, mesmo que a execução fosse monstruosa.
Tony se levantou da cadeira e começou a andar de um lado para o outro da sala, ainda com o poema nas mãos, sem tirar os olhos da folha, como se ela fosse saltar em chamas a qualquer momento. A verdade é que ele já havia entendido — embora se recusasse a aceitar. A contagem tinha terminado ali, embora os assassinatos não. E os números não mentiam. Treze já estavam mortos, mas talvez a ordem ou a relevância estivesse incorreta. Ou talvez alguns não pertencessem à lista.
Ele se virou para o painel holográfico ao lado da mesa e começou a projetar os dados. As imagens das vítimas surgiram em janelas flutuantes: rostos congelados no tempo, olhos apagados pela violência, contextos diferentes, locais distintos. Mas todos alinhados por algo mais sombrio. Algo que ultrapassava fronteiras e deixava um rastro que nenhuma tecnologia parecia ser capaz de rastrear. Um raciocínio que ainda não tinha sentido... exceto pelo poema.
Tony puxou um dos arquivos especiais. Não era digital, era físico. Trancado há anos em um cofre escondido atrás de uma estante com tecnologia de camuflagem de última geração. Os arquivos do relatório final do acidente que o tornou órfão aos 21. Ou, como ele mesmo nomeara, o início do fim. Era o dossiê da tragédia de 1991. O carro, a estrada. O sangue e os pais. E o desaparecimento que ele jurara manter em segredo até o fim dos seus dias.
O nome dela estava ali. %Mavis% Rose Stark. Duas fotos em preto e branco. Uma, um bebê enrolado em um cobertor com abelhas bordadas. A outra, um atestado de nascimento que havia deixado de ser registrado oficialmente. E por fim, a última peça daquele quebra-cabeça infernal: a certidão de óbito presumido. Datada apenas seis dias depois do assassinato dos seus avós. O caso fora encerrado como desaparecimento. Tony movera mundos e fundos para que ninguém além de Fury soubesse. Nem mesmo Pepper, nem mesmo os Vingadores.
Ele se recostou na bancada, olhos cerrados, a respiração saindo com dificuldade. Estava cansado. Exausto de perseguir fantasmas — mesmo que nunca admitisse que acreditava neles. O mais cruel de tudo era a sensação constante de que tudo isso ainda não terminaria tão cedo. Que, de alguma forma, tudo aquilo apontava para ele.
Foi então que seus olhos retornaram ao poema. Os versos finais.
Dez por uma surpresa que você deve ter cuidado para não perder,
Onze por saúde,
Doze por riqueza,
Treze — cuidado, é o próprio diabo.
Treze já se foram. Teoricamente, a contagem já tinha finalizado, mas... ele tinha a sensação de que esse alguém queria fazer dele a exceção. E aí estava o verso que parecia queimar na sua mente:
"Doze por riqueza." Um arrepio se espalhou por sua coluna. Tony ergueu os olhos para a parede holográfica, onde sua própria imagem aparecia entre os dados dos arquivos da Natasha. A Nat havia dito que as últimas três fotos foram jogadas sobre ela — uma mulher elegante, uma criança de olhos muito azuis... e ele. No centro de tudo.
— Ah, ótimo — murmurou, quase sem som. — Faltava ser sobre mim de novo.
Mas não era ego, era intuição. Alguém queria que ele notasse. Alguém estava conduzindo isso como um maestro leva uma sinfonia ao seu clímax e o ato final estava reservado para ele.
A contagem não era só uma trilha de corpos, era uma história. Uma mensagem. E ele, gostando ou não, era o capítulo final. Tony deixou o papel sobre a bancada, virou-se devagar e ficou ali, encarando o reflexo do próprio rosto nas janelas do escritório. Se era verdade... se ele era a exceção do número doze...
Então precisava se preparar, mesmo que ainda não soubesse do que. O pior é que a inquietude não dava trégua. Tony não dormia havia dois dias.
A casa estava silenciosa, exceto pelos passos apressados dele ecoando nos corredores, pelas luzes acesas em horários indecentes e pelo tilintar constante de caneca contra bancada enquanto doses de café evaporavam diante de sua distração crônica. No escritório, a projeção flutuava no ar: o mural digital das vítimas estava quase completo.
Quase. A contagem havia parado temporariamente quando Anya morreu e ele sabia que era proposital, como uma bomba-relógio invisível, mas o que realmente atormentava Tony era a perfeição da execução. Era isso que o mantinha acordado. Não era medo; era o incômodo de saber que ele era parte daquilo. E ele sabia disso, mesmo que não tivesse coragem ainda de dizer em voz alta.
O poema — a maldita contagem de corvos — aparecia projetado no canto esquerdo da tela. Do um ao treze, cada verso parecia zombar da sua inércia. “Doze, por riqueza”, ele leu de novo, os olhos cansados fixos nas letras tortas que alguém escrevera à mão em uma parede vermelha com algo que a perícia ainda não tinha conseguido identificar. Mas Tony sabia que era sangue. Não havia tinta com aquele brilho denso e opaco. E o mais inquietante era que aquilo não era feito com pressa. A escrita era limpa, ordenada. Quase artística.
Ele ampliou a imagem da última cena do crime. Era brutal. Desnecessariamente brutal, como se o ódio precisasse se tornar estético.
— Isso é arte pra quem não tem mais nada a perder — murmurou, apoiando as mãos na bancada, os ombros curvando sob o peso do próprio raciocínio.
O rosto apareceu refletido na superfície da tela de novo — olhos fundos, a testa franzida como se o tempo tivesse decidido deixar marcas permanentes ali. E foi nesse instante que Happy entrou:
— Tony...? Cara, tá tudo bem?
Tony sequer virou o rosto. Piscou, uma, duas vezes, como se estivesse voltando de um transe. E respondeu:
Happy soltou um suspiro curto. Observou as luzes tremeluzindo, os arquivos abertos no telão, o rastro de copos de café deixados sobre qualquer superfície disponível. A casa parecia um bunker com toque de laboratório improvisado. Nada do que lembrava o lar elegante e clássico que Tony Stark sempre manteve. O caos era só um sintoma.
— Você não sai desse escritório desde terça. Sabe que hoje é sábado, né?
— Eu pedi um calendário funcional pra Sexta-Feira, mas parece que ela acha desnecessário me lembrar que o tempo continua passando — respondeu Tony com a voz seca, irônica, mas sem o costumeiro brilho de provocação.
Happy se aproximou devagar, como quem tenta não assustar um animal ferido. Lançou um olhar ao mural de vítimas e ao poema em destaque.
— Isso tem a ver com aquele lance da Natasha? — perguntou. — Ouvi a conversa do Fury sem querer.
Tony ficou em silêncio. A mão esquerda tamborilava contra o balcão. Os olhos não piscavam. E então ele falou, em um tom baixo, quase num sussurro:
— Fury me deixou três fotos, Happy. A Nat quem as encontrou. %Mavis%, a Elena... e eu. Por que eu? Por que agora?
Happy demorou a responder. Não sabia o que dizer. Só via o amigo e chefe afundando outra vez naquela espiral de obsessão e perda, algo que já tinha presenciado antes. Depois de Nova York, depois de Ultron. Depois da Elena. Além de Fury, Happy era o único que sabia sobre a esposa e a filha.
— Olha... você já considerou que pode ser alguém querendo só mexer contigo?
— Claro que considerei, mas é mais do que isso. — Tony virou-se finalmente, os olhos tão exaustos que pareciam secos. — A contagem ainda não acabou. São treze corvos. Treze mortes para cada verso, mesmo que em ordem diferente. Eu sou o número doze... ou uma exceção.
— Que porra é essa, Tony?
— É a única explicação que faz sentido. Quem fez isso me conhece, sabe tudo. Cada ponto fraco, cada perda, cada buraco que eu deixei sem preencher. Alguém está me punindo, Happy.
— Está surtando, cara. Sério.
— Talvez eu esteja. Mas me diz: e se eu não tiver?
A pergunta ficou suspensa no ar. Happy queria dizer algo, queria argumentar, queria dar uma bronca — qualquer coisa que tirasse aquele olhar do rosto de Tony, mas não tinha como. Porque, no fundo, mesmo sem entender, ele sabia que algo estava errado. Muito errado. E tudo indicava que essa história ainda ia ficar pior antes de melhorar.
Tony voltou-se para o mural e aumentou a imagem de uma das vítimas. Os olhos arregalados, o maxilar quebrado, o sangue formando uma poça que espelhava o próprio horror do rosto.
— Quando o Fury me trouxe isso, eu ignorei e achei que não tinha importância..., mas aí ele me trouxe as fotos e eu soube na hora. Quem fez isso queria a minha atenção... e queria me mandar um recado.
— E você acha que está nessa lista...?
A voz saiu sem tremor, firme, como se já tivesse aceitado. Tony apertou um botão e projetou o penúltimo verso do poema em destaque. “Doze, para riqueza”. O último aviso. O ponto final da contagem. Mas Tony não estava preocupado com a ameaça evidente. O que o corroía era o motivo. E se havia uma resposta, ela estava enterrada junto com segredos que ele jurou nunca mais desenterrar.
Mas agora... ele não tinha escolha.
— Eu vou descobrir quem está fazendo isso — disse, encarando o mural. — Nem que eu tenha que ir até o inferno para descobrir quem sabe sobre a Elena e a %Mavis%.
Happy soltou um resmungo preocupado, mas não disse mais nada. Apenas observou enquanto o amigo voltava a afundar nos arquivos, como um detetive à beira do abismo — ou, talvez, um pai que finalmente começava a juntar as peças de um luto que fingiu não viver.