Capítulo 06
A manhã chegou sem pedir licença, invadindo as janelas amplas da imensa mansão com uma claridade incômoda que refletia direto nas telas espalhadas pela bancada de Tony Stark. Ele estava acordado há horas. Talvez não tivesse dormido. Sentado com uma xícara de café — morno pela metade — e as pupilas quase fundidas à luz azul da projeção à sua frente, ele deslizava os dedos por manchetes em tempo real, dando zoom em comentários, editoriais, análises econômicas e — o que mais o irritava — colunas de opinião.
"A Nova Stark Expo deixa claro: Tony Stark não está apenas de volta — Ele está reinventando o Século XXI." "O retorno triunfal de uma Era Stark?" "Tecnologia, Carisma e Ego: a trindade de ferro brilha em Long Island." Os olhos dele pararam nessa última. Um riso curto escapou, sem humor. Ele conhecia bem esse tipo de manchete — embebida em admiração dissimulada, mas com a pontinha de veneno disfarçada como ironia estilística. Jornalistas. Sempre precisavam parecer mais espertos que o sujeito na manchete. Ainda assim, não podia negar que a recepção havia sido positiva, muito além do que esperava. Investidores ligaram antes mesmo de o sol nascer completamente, agências do governo demonstraram interesse imediato nas patentes de demonstração, e até mesmo a mídia internacional se curvou ao espetáculo.
Mas nada disso era capaz de suprir aquele vazio interno.
O vazio persistia. Não era falta de reconhecimento, era outra coisa. Algo que nem a avalanche de tecnologia, nem os aplausos do público, nem os sorrisos diplomáticos do alto escalão conseguiam silenciar. Era como se toda a glória da noite passada tivesse sido construída sobre um chão instável — e ele sentia cada rachadura sob seus pés.
A visão da mulher na plateia ainda o assombrava. Os olhos — tão familiares quanto impossíveis — ainda estavam gravados na memória como se fossem projeção no céu noturno. Ele sabia que era impossível. Elena estava morta e enterrada há anos, e mesmo que aquela mulher tivesse algo da postura dela… aquilo não passava de uma coincidência. Um truque da mente de alguém exausto demais, pressionado demais, ferido demais.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto. O aniversário estava se aproximando.
Vinte e quatro anos. Era difícil imaginar a filha que ele perdeu tão cedo alcançando aquela idade. Às vezes, Tony tentava imaginar como ela teria sido: o tom de voz, o senso de humor, os traços herdados. Pensava se ela teria sido genial como ele, ou doce como Elena. Se gostaria de robôs, de arte, ou talvez algo completamente oposto aos dois. Não havia muitas fotos e quase nenhuma lembrança física, mas Tony ainda guardava algumas gravações caseiras em um cofre junto dos documentos importantes, registros congelados de uma existência que foi engolida pelo tempo e pela dor.
Mais uma vez, o trabalho tinha sido sua fuga.
A Expo era o escudo que ele havia construído para suportar a aproximação daquela data maldita. E, ironicamente, a maior vitrine de sua genialidade também era o lembrete mais cruel de tudo que ele havia perdido. Porque, no fim das contas, aquela exposição não era só sobre tecnologia. Era sobre legado, sobre o que ele deixaria para o mundo e o que ele nunca pôde deixar para a única pessoa que talvez importasse de verdade.
Sexta-Feira interrompeu seus devaneios com um alerta sutil.
— Sr. Stark, há solicitações de entrevista da CNN, BBC e do NY Times em sua agenda para hoje. Recomendaria iniciar a triagem.
— Entendido. Algum motivo específico? — A voz dela, ainda que artificial, hesitou antes de continuar.
— Não. Só… estou cansado, Sexta-Feira. É isso, hoje não.
O holograma se dissolveu aos poucos, mas o cansaço permaneceu. Tony levantou-se, apoiando-se na bancada como quem precisava sentir o chão antes de dar o primeiro passo. Ainda havia muita coisa para revisar da Expo — feedbacks, contratos, propostas — mas nada daquilo parecia urgente diante do turbilhão que se formava dentro dele, porque mesmo depois de tudo, mesmo com o brilho dos holofotes, mesmo com a tecnologia mais avançada do mundo nas mãos… ele não conseguia escapar da ausência. Nem do pressentimento de que algo grande, algo perigosamente íntimo, se aproximava.
E ele ainda não fazia ideia do que era.
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A televisão chiava num volume baixo, o suficiente para preencher o silêncio abafado do apartamento com murmúrios de um mundo que ele fingia não pertencer mais. Bucky Barnes estava sentado na beirada da cama, o corpo curvado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. A mão de metal — aquela maldita extensão do passado que ainda parecia pulsar com vida própria — repousava imóvel sobre a coxa. Do lado de fora, a Romênia seguia em seu ritmo lento, como todo outono. Carros antigos passavam com os motores resmungando. Gente apressada, vendendo peixe e pão e cigarro nas esquinas. Um país que não fazia perguntas. Era por isso que ele estava ali.
Mas mesmo ali, longe de tudo e de todos, o passado sempre dava um jeito de encontrá-lo.
Na tela, um jornalista falava em romeno com uma expressão tensa. As imagens que acompanhavam a notícia eram mais eloquentes que qualquer palavra: corredores manchados de sangue, paredes cravejadas de balas, silhuetas cobertas por lençóis brancos e o escudo vermelho da Hydra pichado, borrado, riscado, quase como uma assinatura. Uma assinatura que Bucky reconheceu de imediato. Não pelas letras, mas pelo padrão.
O nome da organização nunca era dito diretamente, claro. Nem mesmo ali, na Europa Oriental, onde as feridas da guerra de Sokovia ainda latejavam de forma constante. Os repórteres usavam eufemismos — “organizações não-governamentais envolvidas em tráfico de armamentos”, “figuras controversas do submundo militar”, “ex-militares com histórico duvidoso”. Mas ele sabia, os olhos sabiam e o corpo sabia. Eram agentes da Hydra, um por um. E alguém estava indo atrás deles.
Bucky estendeu a mão e pegou o controle remoto com um movimento seco. Aumentou o volume e mudou de canal. Outra emissora, mesma notícia, mas agora com imagens mais nítidas. Uma escada tingida de sangue escuro. Um homem com o maxilar arrancado. Uma mulher com os pulsos quebrados em ângulos que o corpo humano não deveria permitir. E todos eles... conhecidos.
Não amigos, nunca amigos. Mas nomes que haviam dividido corredores com ele. Olhares vazios que haviam o assistido ser desmontado e remontado. Cientistas, técnicos, soldados e supervisores. Eles usavam batas e armas, mas todos serviam ao mesmo objetivo: tornar pessoas em máquinas. Bucky lembrava deles, mesmo quando queria esquecer. Mesmo quando passava noites inteiras acordado para garantir que nenhum deles retornasse nos sonhos.
A matéria exibia um gráfico de localização. Áustria. Suíça. Ucrânia. República Tcheca. Bulgária. Agora, Romênia. Os assassinatos estavam se aproximando, como um círculo se fechando.
Ele sentiu a nuca arrepiar.
Com os olhos presos à TV, Bucky se levantou devagar. Foi até a mesa onde mantinha o velho caderno preto — aquele que usava para anotar nomes, datas, memórias de um tempo não tão distante. Fantasmas registrados à caneta. Abriu numa página marcada. Ali estavam três nomes recém-riscados. E outros, agora em destaque nas telas do mundo.
Mas um padrão novo se formava. Era o método, a brutalidade e os locais.
Aquilo não era retaliação comum, era justiça pessoal, mas não vingança cega. Era calculado e implacável, cruelmente familiar. Ele passou a mão pelo rosto. Estava suando, mesmo com o frio do apartamento. Não era medo, era algo pior. Era a sensação de que, em algum lugar lá fora, alguém estava finalizando uma lista que ele também conhecia. Uma lista que talvez tenha sido escrita por mãos diferentes, mas com a mesma tinta que corria nas veias dele: condicionamento.
Talvez fosse um imitador. Um lunático com acesso aos arquivos secretos. Talvez fosse apenas coincidência. Mas Bucky sabia, no fundo do peito, que não era.
E pior — ele suspeitava de quem poderia ser. Ou do quê.
Respirando fundo, ele se afastou da mesa e foi até a janela. A cidade lá fora parecia adormecida, mas ele conhecia bem esse tipo de tranquilidade. Era o silêncio antes da explosão.
As coisas estavam se movendo de novo. E ele sabia, pela forma como o peso em sua coluna aumentava, que o nome dele estava prestes a voltar aos arquivos de alguém. Talvez até estivesse no topo da lista. Ele respirou fundo, então fechou os olhos. Bastou apenas aquele pequeno momento e ele estava lá de novo.
O vidro embaçado da janela mal refletia seu rosto. Havia algo nos olhos dele que parecia mais velho do que o resto do corpo. Como se a idade real não estivesse no corpo, mas no acúmulo de memórias que ele carregava calado. E foi ali, encarando a rua cinzenta, que algo se soltou dentro da cabeça dele — não como um pensamento, mas como uma lembrança que empurrava a realidade para o lado.
Um estalo. Um cheiro metálico e ele já não estava mais no apartamento. Estava de volta ao chão frio de concreto, sob luzes cruas que não piscavam. Não havia relógios e não havia tempo. Apenas o ritmo constante de uma respiração que não era sua.
A arena subterrânea da Hydra se abria ao redor como uma jaula sem grades. Não havia plateia, só câmeras. E do outro lado do círculo, ela.
Pequena, mas firme como aço sob tensão. Rosto limpo, olhar parado. Vestia preto, botas gastas, cabelo preso de modo prático. Era nova — mais jovem do que qualquer um que já tivesse enfrentado ali. Mas algo no jeito como ela ficava de pé, no modo como os olhos passavam por ele como se o peso não intimidasse, já dizia tudo. Não precisava provar nada. Era apenas mais um dia de treinamento, mais uma rodada de combate. Mas não parecia, não quando era com ela.
— Comecem — disse a voz automatizada nas paredes, seca como areia na garganta.
Bucky avançou primeiro. Ela não recuou.
Os passos dela eram leves, mas firmes. Cada movimento era um estudo rápido do terreno, dos pés dele, da respiração, do ombro que carregava mais peso. Ela aprendia enquanto apanhava, e apanhava pouco. Ele tentou uma investida direta, um soco com o braço esquerdo — o de metal — mirando o flanco dela. A garota girou o corpo, desviando por centímetros, e se posicionou atrás dele antes que o impulso terminasse.
Um chute atingiu a parte de trás do joelho dele. Não forte o suficiente para derrubar, apenas para lembrar ele de que ela não tinha medo.
Ele se virou, rápido. A mão tentou agarrá-la, mas ela escapou como se soubesse exatamente onde a pegada falharia. Revidou com um soco no estômago, depois outro na costela. Ela não queria derrubar, queria testar e medir o alcance.
Os sons do embate eram abafados. O couro das luvas contra tecido. A respiração acelerada dele contrastando com a calma fria dela.
Bucky se moveu com mais força. Um chute giratório, uma cotovelada que pegou de raspão a mandíbula dela — só o suficiente para desequilibrar. A garota cambaleou, mas não caiu. Pelo contrário: usou o giro do próprio corpo para deslizar até o chão e, de lá, puxar a perna dele numa rasteira inesperada.
As costas bateram no concreto com força. O impacto ecoou pelas paredes de ferro, mas ele já estava tentando se levantar quando sentiu o peso dela sobre o peito.
A lâmina fria tocou sua garganta.
Ficaram assim, por um segundo que pareceu longo demais. Ele olhou nos olhos dela e constatou que não havia empatia, mas também não havia raiva. Apenas uma calma estranha, quase inquietante. Como se aquilo fosse rotina, como se ela tivesse feito aquilo centenas de vezes. Como se fosse o natural.
Então, sem dizer nada, ela recuou. Levantou-se com a mesma agilidade com que lutava e voltou para a posição original, esperando a próxima ordem. Bucky ficou deitado por mais um instante, ofegante. A garganta ainda sentia o toque da lâmina e a mente girava com uma pergunta que ele nunca teve coragem de fazer: quem diabos ela era?
Mas naquela época, perguntas não eram bem-vindas. Só existia um motivo para estar ali: cumprir ordens. E ele as cumpria, como todos. Como ela.
O apito soou. O fim da sessão.
Ele se sentou, o corpo inteiro latejando. Ela já estava de pé, esperando o próximo oponente. O olhar dela cruzou o dele uma última vez antes de se virar. E por um segundo, um único segundo, ele viu algo. Uma hesitação? Um reflexo de dúvida? Não durou, mas ficou.
A lembrança se dissipou como fumaça quando ele piscou. De volta ao presente, ao frio da Romênia. À luz da manhã que mal atravessava as janelas sujas, mas o gosto daquilo ainda estava na boca dele. Bucky se afastou da janela e foi até a mesa. Abriu o caderno novamente. Na margem de uma das páginas, escreveu algo:
"Ela me derrubou. De novo." Fechou o caderno com força. Ele precisava encontrá-la antes que os outros fizessem isso, antes que ela decidisse que o nome dele também devia estar naquela lista.
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A madrugada se estendia como uma manta encharcada sobre Bucareste, pesada e fria. A chuva não caía em torrentes violentas, mas sim em um ritmo constante e ritmado, como se o céu estivesse lavando a cidade por dentro. Cada gota que escorria pelas janelas do pequeno apartamento parecia fazer parte de uma trilha sonora conhecida — um lamento antigo que Bucky escutava noite após noite sem jamais encontrar consolo. O som da chuva preenchia os espaços que os pesadelos deixavam vazios.
Bucky dormia mal havia semanas. Naquela noite, não foi diferente.
Ele se revirava no colchão estreito, a respiração presa em algum ponto entre o presente e o que vinha antes. O corpo inteiro se contraía em espasmos involuntários, como se o próprio sono fosse um campo de batalha. E, dentro dele, a guerra seguia viva — imagens confusas, ruídos de gritos abafados, o baque seco de corpos no chão. Mãos sujas de sangue, comandos em línguas que ele não queria mais entender. Olhos sem vida. E outros… que ainda o perseguiam.
Ele acordou com um sobressalto, arfando, com o peito ofegante e os olhos arregalados em busca de luz e lógica. Mas ali não havia lógica, apenas o mesmo teto manchado de infiltração, a lâmpada oscilando fraca no corredor, e o gosto amargo na garganta — não de sangue, mas de lembrança. O suor encharcava sua nuca, a camiseta colada ao corpo como se tivesse corrido quilômetros sem sair do lugar. O colchão velho, deformado pelo peso e pelo tempo, rangia sob o movimento brusco. Mas não foi isso que o congelou.
O coração martelava no peito como se fosse sair pela garganta. A respiração ainda era curta e rápida. Os olhos demoraram a se ajustar à penumbra do apartamento mal iluminado — a única luz vinha da rua, filtrada em tons azulados pela cortina encharcada.
Foi quando viu. Ela estava ali.
Sentada na cadeira do outro lado da sala, com as pernas cruzadas, cotovelos apoiados nos braços do móvel, o rosto meio encoberto pelas sombras projetadas pela lâmpada da rua. O corpo permanecia imóvel como se fizesse parte da mobília, como se sempre tivesse estado ali, apenas esperando.
Mas os olhos… os olhos estavam vivos. Fixos nele e tão azuis quanto safiras.
E o pior não foi o susto. Nem o fato de ela ter entrado sem que ele notasse, coisa que o deixaria paranoico por dias. O pior foi o sorriso. Um curvar discreto dos lábios, sinistro, quase impiedoso — como se estivesse se divertindo com a confusão dele, com o terror que se instalava aos poucos no fundo da alma dele.
Ele não se mexeu de imediato. Não porque não podia, mas porque seu corpo ainda não aceitava que aquilo era real. A imagem dela ali, tão concreta, tão absurda quanto inevitável, parecia ter sido arrancada diretamente de seus pesadelos. E ao mesmo tempo… havia uma familiaridade desconcertante naquela figura diante dele. Um vestígio da lembrança anterior. Da garota que lutava como se o mundo fosse um teste eterno de sobrevivência. Ela estava diferente agora. Mais velha, mais fria. Mas os olhos eram os mesmos.
O sorriso aumentou um pouco quando ela percebeu que ele realmente estava acordado.
— Finalmente. — A voz saiu baixa, arrastada, como se estivesse degustando a própria presença ali.
Bucky continuava calado. Observava cada detalhe: a forma como ela mantinha a postura relaxada, como quem não tem pressa alguma; a pistola apoiada no colo, o casaco escuro ainda molhado pelas gotas da chuva que escorriam do capuz para o chão. Ela não se escondia. Não tinha por que esconder.
Ele tentou falar, mas a garganta estava seca. Ela se levantou devagar, sem pressa alguma, os passos macios no chão de madeira.
— Tem tempo que eu queria ver se você ainda acordava com pesadelos. — Ela parou a poucos metros dele. Inclinou levemente a cabeça, como se estivesse tentando ler as emoções no rosto dele. — Parece que sim.
Bucky inspirou fundo, os dedos se contraindo sutilmente em cima do lençol. Ela o estudava, mas não como quem reencontra um velho amigo e sim como quem volta a olhar uma peça defeituosa de laboratório. Algo que conheceu por dentro, algo que um dia foi seu igual.
— Você não vai dizer nada? — ela perguntou com leveza, a ponta do sarcasmo se escondendo atrás do tom calmo. — Estou desapontada.
O maxilar dele se contraiu. Finalmente, a voz saiu, rouca e grave:
— O que você quer com isso?
Ela piscou devagar. O sorriso sumiu lentamente, mas os olhos não perderam o brilho. Não respondeu de imediato, em vez disso, caminhou até a janela, observando a chuva escorrer pelo vidro como linhas de uma carta que só ela sabia ler. Seus ombros pareciam leves, como se aquele encontro não tivesse peso emocional. No entanto, havia algo nos gestos dela que dizia o contrário.
— Isso? — Ela deu um sorriso torto ao encará-lo. — Você vai ter que ser mais específico. É muita coisa.
Ele manteve o olhar firme, mas havia algo nos olhos dele — uma sombra de reconhecimento, um fio de culpa preso no fundo da íris.
— Os assassinatos — disse. — Os rastros. Os corpos. Por que agora?
A expressão dela se fechou sutilmente. As feições endureceram, e o brilho irônico nos olhos desapareceu por um instante. Um silêncio tenso se formou entre eles, mais denso que a chuva lá fora.
— Isso não é sobre agora, achei que tinha sido clara — ela respondeu, seca. — É sobre antes. Sobre o que nunca foi resolvido. Sobre o que foi deixado pra trás por gente como você, como eu.
Ele não desviou o olhar, mas algo dentro dele estremeceu.
Ela soltou um riso curto, abafado. Não havia alegria, era um som oco.
— Vingança? — repetiu, como se experimentasse o gosto da palavra. — Eu quero o que é justo. E às vezes… precisa ser um pouco brutal.
Ela deu um passo para trás, se preparando para sair, mas então parou de novo. Virou o rosto por cima do ombro e falou com a mesma calma inquietante de antes:
— A próxima vez que eu vier… não vai ser pra espiar você.
E com isso, desapareceu pelo corredor, deixando o apartamento mergulhado de novo no som da chuva e na respiração contida de Bucky. Permaneceu ali, imóvel, a respiração presa, o coração ainda descompassado. Cada centímetro da pele formigava. Não era só o susto. Ele não se mexeu por longos minutos. O que acabara de acontecer não era só uma visita. Era um aviso.