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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Apenas uma Noite – Surpresa

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Capítulo 4

  Candelária não estava de bom-humor há dias e tinha motivos plausíveis para isso. O temperamento da mulher, que já não era muito agradável, tornou-se mais impaciente e ríspido. Estava mais impaciente que o normal para lidar com problemas simples e até Zeca, seu amigo mais íntimo e antigo, preferiu afastar-se para evitar discussões. Ele a conhecia melhor do que todos os demais do bar, então sabia que havia algo por detrás de tamanha chateação cuja origem foi mantida em segredo pela loira. Esse era o único motivo para suportar calado os desaforos — se bem que foi necessário obrigar-se a soltar o cutelo sobre a mesa da cozinha para não varejar na cabeça dela.
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  Por fim, numa tarde de sábado, após o almoço, decidiu resolver o assunto inacabado que lhe gerava uma raiva descomunal. Arrumou-se. Usou seu melhor vestido azul marinho decotado mostrando os fartos seios, o calçado escarpin preto e passou a habitual maquiagem forte — batom vermelho, sombra marrom, lápis preto e rímel. Deixou os cabelos soltos. As unhas eram impecáveis e, devido ao caminhar seguro, com a bolsa de marca debaixo do braço, a postura ereta e ao ar de arrogância e autoritarismo, facilmente poderia se passar por uma dama vinda de uma família, no mínimo, abastada.
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  Entrou na casa de Osmar Navarro sem ser anunciada e ninguém evitou a invasão por, no passado, terem recebido ordens para não a impedir de adentrar ou transitar pela propriedade.
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  Parou na ampla sala vazia olhando pros lados. Retirou os óculos de sol, o guardando na bolsa.
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  — Ué? Cadê os funcionários daqui? Não tem ninguém pra me recepcionar, não? — Bateu palmas irritada, anunciando a sua presença. — Angelina! Deixaram essa mansão vazia ou o quê?
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  A fiel governanta da família chegou de um longo corredor apressada. Ao descobrir quem a chamava, a recebeu com um pequeno sorriso. Não poderia demonstrar genuinamente seu contentamento porque a nova dona da casa a repreenderia caso fosse pega em flagrante por esse deslize.
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  — Candelária! Como é bom ver um rosto amigo depois de todo esse tempo. — Cruzou as mãos frente ao corpo a menos de um metro de distância.
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  — Continua trabalhando pra esse homem desgraçado? — Apesar da fala carregada de censura, havia certa amorosidade nas palavras, como se soubesse que Angelina merecia ser feliz, embora a própria não se ajudasse para alcançar esse objetivo.
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  — Ah, não fale assim. Sempre fui bem tratada nessa fazenda.
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  — Pelos pais dele. Ou melhor, a mãe. Conheci bem a peça, como bem sabe. O pai era um miserável canalha que mereceu o fim que teve, e se tivermos sorte, um dia o Osmar vai pelo mesmo caminho.
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  A voz feminina veio do lado oposto da sala:
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  — Se depender de mim e do meu esposo, é mais fácil o Osmar te enterrar e dançar na sua cova.
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  Ilana parou atrás do sofá, apoiando-se nele com as mãos. A roupa era um pouco menos elegante do que as que usaria anos mais tarde, mas a arrogância predominava as feições da mulher desde que conhecera o fazendeiro quando ainda trabalhava no bar de reputação duvidosa.
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  — Não vai cumprimentar a dona da casa? Pensei que fosse mais educada, Candelária. Deveria ter anunciado a sua visita pra mim, principalmente agora que sou esposa de um homem tão importante quanto o Osmar.
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  — Eu não vejo motivos pra lhe avisar quando venho ou deixo de vir. Afinal, as minhas vindas aqui não precisam ser notificadas com antecedência, minha querida. Até porque pode se pintar do jeito que for, andar por aí com o nariz empinado ou vestir a roupa de grife mais cara desse país. Jamais vai apagar a sua origem pobre, menos ainda com quais homens se deitou para conseguir um trocado extra no meu puteiro. Não vai deixar de ser uma víbora das bem venenosas.
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  — Você me respeite, Candelária! — exigiu, colocando as mãos na cintura, a fulminando com os olhos. — A única pessoa que não presta aqui é você. Conheço algumas histórias do seu passado e estão bem longe de serem motivos de se orgulhar.
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  — E daí? Não tenho a menor vergonha e é de conhecimento geral. Fiz o que tive que fazer e não me arrependo. E ainda está pra nascer nesse mundo de meu Deus quem vai me enfrentar achando que minha história me incomoda. Agora, parando com essa discussão por ser perda de tempo. Não vim falar contigo, não. Angelina. — Virou-se para a governanta, que acompanhava a discussão numa expressão neutra, mas segurava o riso pela loira ter uma língua tão afiada. — Onde está o Osmar?
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  — Numa reunião. — Quem respondeu foi Ilana em tom cortante. — E não quer ser interrompido.
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  — Presumo que a reunião seja aqui. Afinal, aos sábados não costuma trabalhar. Vou ao escritório.
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  Ao vê-la se dirigir mais ainda para o interior da casa, Ilana tentou impedi-la:
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  — Você não pode entrar assim, Candelária.
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  — Não me interessa. — A mulher dava largos passos decisivos metros à frente dela. — Conheço bem o caminho e seria tolice de sua parte atrapalhar.
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  Antes que a senhora da casa conseguisse segurá-la, Candelária abriu a porta do escritório e assenhorou-se, encontrando o homem analisando alguns papéis sentado em sua mesa.
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  — Vim falar contigo e não sairei daqui antes disso.
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  O fazendeiro sabia que um problema acabara de cair em seu colo ao ouvir a voz. Reconheceria aquele timbre presunçoso até mesmo nas profundezas dos infernos.
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  — Candelária. — Sempre que pronunciava o nome, era sinal de que algo o aborrecia e naquela tarde não foi diferente.
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  — Querido. — Ilana e Angelina vinham logo atrás esbaforidas. — Eu tentei evitar, mas ela não me deu ouvidos.
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  O homem a calou com um simples levantar de mão.
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  — Não se preocupe. — Recostou na cadeira confortável colocando o documento na mesa em sinal de que nada o perturbaria, como se fosse capaz de controlar a intromissão em seu ambiente de trabalho. — Resolvo isso rápido.
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  — Deixe-me com ele. — Por não ouvir a porta de madeira ser batida, encarou as duas mulheres ainda na soleira. — A sós.
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  Ilana lançou um olhar raivoso antes de acatar ao pedido.
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  — O que você quer? Meu tempo é escasso e não costumo prestar atenção em bobagens.
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  — Eu também não pretendo me demorar. — A mulher se encaminhou para sentar-se na cadeira em frente a dele. — Afinal, o assunto é simples. — Pôs a bolsa no colo.
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  — E qual é? — O homem cruzou as mãos sobre a mesa, inclinando o corpo na direção da mulher em sinal de curiosidade.
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  — Augusto.
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  O riso de escárnio não foi um som cortês.
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  — Ai, Candelária. Só pode ser piada. Você vem na minha casa, invade o meu escritório e interrompe o meu trabalho pra conversar sobre aquele moleque?
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  — Moleque esse que é responsabilidade sua. — Bateu a longa unha do indicador na mesa produzindo um barulho oco.
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  O deboche tomou lugar do asco.
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  — Vai ao que interessa de uma vez. O que tem ele?
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  — O garoto foi levado ao meu bar há uns dias. Diferente dos outros jovens atendidos por mim e pelas outras meninas, inclusive a sua amada esposinha, o pobre coitado não parecia querer. Só fui descobrir quem era por acaso ao final do atendimento, observando mais atentamente o rosto e calculando quando foi o nascimento dele.
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  Desconfiado, lhe lançou um olhar de esguelha:
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  — E como você sabe que ele não parecia querer?
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  — Porque eu transei com o garoto, Osmar! — rugiu numa mistura de incredulidade e culpa.
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  — Por Deus, Candelária! — Passou as mãos pela cabeça, demonstrando nervosismo e ansiedade. — E fala assim, como se não fosse nada?!
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  — Como nada!? Estive ao ponto de desmaiar quando juntei as peças na cabeça. — Esticou o braço e apanhou uma garrafinha transparente com água para tomar. — Eu deveria ter pedido uísque ou uma bebida mais forte pra Angelina quando cheguei — reclamou em desgosto assim que o líquido transparente desceu pela garganta. — Esse é o tipo de assunto não é pra ser discutido tomando só água ou café. — Depositou o recipiente no lugar de origem.
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  — Você realmente não tem escrúpulos, né?
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  — Olha pra essa família! De todos eu sou a melhorzinha.
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  — Melhorzinha... — debochou. — Só se for em termos de inteligência e na sua capacidade incontestável de manipulação. Integridade não é o seu forte e nem nunca foi. Onde já se viu? Se deitar com parente.
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  — Antes fosse só isso.
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  — E tem como piorar? — O homem apoiou os cotovelos na mesa e segurou a têmpora com medo do que estava por vir.
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  — Sempre tem como piorar.
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  — Como?
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  — Ele foi levado até mim pelos peões da fazenda para perder a virgindade.
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  — Mulher... Isso é pecado, mulher. — Graças ao conteúdo da conversa, Osmar tinha certeza que beberia algo mais forte como vodca ou rum para digerir as informações assim que a loira fosse embora.
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  — E eu lá sabia?! Descobri a identidade de Augusto porque, por acaso, ouvi o Sidney chamá-lo pra retornar pra fazenda Navarro porque teria de trabalhar no dia seguinte. Deus que me perdoe quando Ele me receber dentro de uns anos de morte natural.
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  — Você só vai pro céu quando os demônios estiverem de folga e você escapulir do fogo do inferno.
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  — Já olhou pra nossa família? Ninguém presta! Eu sou a mais tranquila dessa história por nunca ter prejudicado intencionalmente, embora tenha feito algumas confusões e estragado alguns casamentos. É mais fácil realizar uma reunião de família lá embaixo do que outra coisa.
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  — Afinal de contas. E o que eu tenho a ver com um dos atos mais pecaminosos que você cometeu?
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  — Tudo, ué! Deve proteger esse menino de alguma maneira. Não creio que ele goste de mulher como os seus outros peões. Acho que as preferências são outras.
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  — Se é uma bicha, nada posso eu fazer para mudar isso. E não devo nada ao Augusto.
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  — Deve, sim, senhor! — Ultrajada, Candelária deu um tapa firme na mesa. — Deve porque se o garoto veio ao mundo foi por sua causa! — Gesticulou enérgica.
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  — Eu não tenho responsabilidade nenhuma nisso! — Apontou um dedo na direção da loira, que estava igualmente furiosa. — A culpa é daquela maldita mulher que não quis abortar!
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  — E você é um santo, não é? — ironizou numa expressão de desprezo. — Tirou vantagem dela porque sempre esteve apaixonada por você desde que era uma menina. Cresceu nessa casa ouvindo as histórias das suas viagens e, quando pegou corpo de mulher, a seduziu com a falsa promessa de que a transformaria na sua esposa.
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  — Era uma burra. Onde já se viu? Achou, mesmo, que eu iria me casar com ela. Pelo menos a noite foi boa por ser virgem. Só me arrependo por não ter aproveitado mais.
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  Irada, Candelária apanhou a xícara de café morno e jogou o líquido no rosto do homem antes de tacar a porcelana contra a parede, cujos pedaços caíram espalhados pelo chão. Osmar desviou no último segundo para não ser atingido no rosto.
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  — Destruiu a vida da moça a troco de nada! Não mereceu passar por sequer um terço do que sofreu nas mãos daquele marido nojento e você nem sente remorso.
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  — Remorso é destinado pras mulheres. Aliás, mulheres fracas. Eu não quero e nem vou fazer nada pro Augusto. — Retirou as forças do âmago para controlar o temperamento e evitar voar no pescoço da loira. Para afastar a tentação de cometer um ato criminoso dentro de sua residência, se levantou, secando o rosto com o braço e deu alguns passos até ela ficar fora de seu campo de visão.
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  — E você acha que eu queria entregar minha filha pra minha irmã? — Girou a cadeira num leve impulso pra fitar as costas largas dele. — Fiz o que tinha que fazer! Me responsabilizei pela criança e prezei pelo seu bem-estar. Você tem um filho da Ilana agora. Acha mesmo que foi fácil me desfazer da minha única filha? Meu coração sangra até hoje por afastá-la de mim, mas sabia e ainda sei que foi o melhor pra ela. Sofri e sofro até hoje por não poder acompanhar o crescimento da menina, porém todo santo mês envio parte do meu salário pra contribuir com os custos de Safira, mesmo que jamais tenha conhecimento de quem sejam os verdadeiros pais dela. Eu e você. — A frase o obrigou a se virar e a encontrou igualmente em pé. — Creio que nas atuais circunstâncias o ideal seria chamá-la de nossa filha. Até porque é isso o que ela é. Minha e sua. Não é, irmãozinho?
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  Tocar no nome de Safira mexeu com o coração do fazendeiro. No fundo sempre quis ter uma filha forte. Daria do bom e do melhor pra menina caso não tivesse vindo do ventre da meia-irmã por parte de pai.
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  — O que você quer de mim, Candelária?
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  — Um passarinho me contou que você planejava despejar Augusto e a mãe daqui. Desista dessa ideia. Pode não gostar do menino e nem dar afeto, mas é sua obrigação como genitor proteger, alimentar, abrigar, vestir e proporcionar um meio de trabalho para se sustentar.
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  — Não é da sua conta quem eu despejo ou não da minha fazenda.
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  — Não foi isso o que achei quando me ligou no meio da madrugada pra fazer o parto da coitada porque sua reputação seria afetada caso descobrissem a identidade do pai do menino.
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  — Impossível isso acontecer. Só eu, você e ela sabemos dessa história — assegurou convicto.
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  — Tem certeza? Sabe que sou ótima em fazer coisas sem as pessoas perceberem e eu tenho métodos bem interessantes para todos de Pedaço do Céu descobrirem o seu segredinho sujo e ser obrigado a registar o menino e cria-lo.
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  — Se refere às cartas? Ninguém vai acreditar — debochou rindo.
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  — Não. Teste de DNA.
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  — Como é? — As feições de Osmar se tornaram sérias subitamente.
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  — Naquela noite chuvosa, achei que seria de bom tom guardar alguns fios do seu cabelo presentes no casaco e papéis que usou pra limpar a boca ao invés de jogar fora apenas por precaução. Para eu revelar que Augusto é um Navarro cuja paternidade é sua e filho de uma empregada pobre de dezessete anos que sequer tem onde cair morta, é só eu dar um jeito de colher algumas amostras do menino e pronto. O papai do ano vai estampar a capa dos jornais e das revistas da região e tenho certeza de que a fofoca vai rodar no boca a boca do povo assim. — Estalou os dedos na frente do rosto.
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  Em total estado de fúria e sem pensar nas consequências, o homem avançou na direção dela. A agarrou pelo pescoço e a pressionando contra a parede.
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  — Escuta aqui — sussurrou em cólera, com os olhos vidrados e apertando a região. — Ninguém me ameaça e continua vivo por muito tempo. — Os rostos estavam tão próximos que Candelária sentiu o hálito quente contra a pele.
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  Por estar concentrado na face da mulher, não a viu erguer o vestido por trás num movimento discreto para retirar uma arma de cano pequeno, que estava guardada no cós de uma bermuda que usava por baixo.
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  Jamais se atreveria a cometer o mesmo erro pela segunda vez de entrar na fazenda da família desarmada. A lição foi aprendida na primeira vez, e não ousava fazer o contrário por moralidade ou inocência. Era uma questão de pura sobrevivência e se houvesse um Deus nos céus, sem dúvida compreenderia e a perdoaria pelo pecado cometido.
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  Pressionou o cano contra a têmpora do homem com firmeza, o que o fez suavizar um pouco o aperto por estar familiarizado com armas de fogo e distinguir do que aquele objeto frio se tratava.
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  — Pois eu vou viver por muitos mais anos, meu amor. E se não tirar as suas mãos de mim, saiba que vou manchar esse lindo escritório com o que sobrar dos seus miolos. Seria uma pena porque adoraria herdar essa mansão, principalmente pelo bom gosto do nosso pai e da sua mãe.
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  — Não seria capaz.
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  — Paga pra ver. — Embora a situação fosse caótica, o tom de voz sereno fazia o confronto tornar-se mais perigoso graças a sua calma carregada de frieza calculada. — Eu já matei meu pai por tentar pôr as mãos em mim. Por que eu não faria o mesmo contigo? Você presenciou a cena, inclusive. Aliás, caso atente contra a minha vida, me faria um favor. Esqueceu que, caso aconteça um acidente comigo, as autoridades de Pedaço do Céu e das cidades ao redor invadiriam a sua amada casa para prendê-lo. Então, meu amado irmãozinho, continue.
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  Sem ter opção, Osmar a largou.
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  — Maldita mulher! — berrou se afastando dela.
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  — Bem, já conversamos. — Apanhou a bolsa, mas manteve a arma em punho por segurança. — E nem pense em tentar me enganar. Tenho meios para descobrir se me deu ouvidos ou não.
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  Ao sair, Candelária teve dúvidas se precisaria usar de outras artimanhas para o meio-irmão cumprir com seus deveres de genitor.
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  Pai, não.
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  Pai jamais seria, e o conhecia o suficiente para não alimentar essa fantasia. Se atinava nele bem, inclusive a má índole, a tendência para controlar os demais ao redor e o autoritarismo. Perdeu as contas de quantas vezes a fez sair como a errada da história para as pessoas quando, na verdade, ele foi quem havia cometido os próprios erros no passado. Inclusive, era por esse motivo que Candelária trabalhava no Night Club.
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  O que ela não sabia é que, em menos de três meses, as coisas tomariam o rumo que deduzia ser o certo — talvez não da maneira como esperava, mas definitivamente era melhor do que jogar o garoto sem escolaridade na rua para se tornar um indigente.
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  Augusto foi chamado por um dos peões para conversar com Osmar numa manhã de domingo aos 14 anos, poucos meses depois de ter feito aniversário. A princípio pensou que seria designado para realizar algum serviço ou receberia reprimendas, embora não tivesse cometido nenhum erro. Ao se deparar com os dois cavalos e o patrão montado em um deles, a incompreensão tomou conta do rosto. A mando do adulto, subiu no animal e seguiu o responsável pelo seu ínfimo salário e exploração de mão-de-obra.
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  Cavalgaram por alguns minutos calados até chegarem a uma estrada de terra. Observando o homem de costas eretas, queixo erguido e transmitindo sua arrogância característica, sonhava em ter a sua terra para plantar e seus próprios empregados cujo salário, dessa vez, seria digno — ou tão digno quanto imaginasse, já que não sabia qual era o valor do salário-mínimo previsto pela Lei.
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  O estômago embrulhou ao mesmo tempo em que a mente voltou a concentrar-se na estrada devido a criminosa imagem metros à frente. Ao longe, avistou dois corpos jogados no chão. Ambos exibiam sinais de agressões físicas e o sangue fresco denunciava que não haviam sido assassinados há muito tempo. As camisas tinham marcas de tiros, cujas das perfurações escorriam o sangue, molhando a roupa. Obrigou-se a não desviar o olhar porque sabia que estava sendo observado pelo outro e procurou manter a expressão neutra.
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  — É a primeira vez que vê gente morta assim, garoto? — indagou, parando a égua ao lado do cavalo do empregado.
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  — É.
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  — A sua reação não demonstra surpresa. Isso é bom. Sabe por que o trouxe pra cá?
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  — Não, patrão.
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  — Pra você gravar essa imagem no fundo da sua cabeça pra não esquecer. Candelária veio me visitar há algumas semanas. Contou que te fez macho, mas você não parecia querer ir pra cama com ela. Cogitou até que você não gostasse de mulher. Isso é verdade?
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  O silêncio tomou conta do ambiente. O menino não tinha coragem de pronunciar nenhuma palavra.
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  — Quem cala consente. Vou tomar como um sim.
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  — E pro que trouxe eu pra cá, patrão? — O menino segurava as rédeas com força para não evidenciar as mãos trêmulas.
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  — Esses dois foram encontrados juntos no meio da noite, se é que me entende. Os peões não gostaram e deram uma bela sova neles e atiraram pra terem certeza de que não voltariam a cometer tal barbaridade. Me escute com atenção. Não me interessa se é um bicha. O que faz ou deixa de fazer na cama não me interessa. Mas é importante ter consciência de uma coisa se gosta de homem. É perigoso. Pode terminar como esses dois estrupícios. — Apontou para os defuntos vítimas da homofobia. — Finja que gosta de mulher. Faça isso pra não morrer igual esses desgraçados. Durma com elas se puder, inclusive, pra não levantar suspeitas. Trabalhando pra mim eu posso te proteger caso tentem fazer algo contigo, mas não posso estar do seu lado vinte e quatro horas por dia. Longe das minhas vistas é você por você, então tome cuidado. Cumprindo meus serviços as pessoas podem ficar com medo de você por conhecerem a minha fama, embora os miseráveis nunca tenham provado nada. Estamos entendidos?
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  — Sim, senhor.
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  — Então vamos. O recado está dado. Já está chegando o horário de almoço e Ilana está me esperando.
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  Após o forte orgasmo, Augusto e Aquiles deitaram-se na cama, onde se aconchegou no peito do peão se sentindo mais confortável e sabendo que, após a confissão de Candelária, o capataz precisaria de todo o conforto e carinho que pudesse proporcionar. Estavam ofegantes e tentavam se recuperar pelo corpo ainda estar meio sensível ao toque. Antes de se acomodarem, Augusto encontrou um pano na gaveta da mesinha, cuja utilidade serviu para limpar o gozo do outro.
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  — Formosura... É sempre assim?
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  — Quando se tem química e sentimentos de ambas as partes, Augusto... Tudo é possível. — Apoiou o queixo no peito dele pra encará-lo enquanto sentia as mãos nas costas. — E aí? Gostou de transar com quem você ama?
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  — Se eu gostei? Se continuar assim não sairemos desse quarto por uns cinco dias.
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  A resposta despertou uma inesperada gargalhada em Aquiles.
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  — Olha, se prometer vai ter que cumprir. Sabe há quanto tempo estou me segurando por sua causa? Tenho um fogo no rabo desgraçado e não podia fazer nada.
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  — Se você não falasse que é safado, nunca que eu iria adivinhar — ironizou de bom-humor. — Tem tanto tempo assim que não faz nada? — indagou curioso conseguindo disfarçar que a réplica o agradava.
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  — Mais especificamente desde a noite que te vi pela primeira vez aqui. Não é segredo nenhum que eu subia com alguns rapazes pra ganhar um extra, mas parei por sua causa. Pra mim era indiferente porque vendia o prazer deles, não o meu. Nunca pensam se gozamos. Admito que adoraria ter uns trocados a mais, mas... Não adianta. Quando eu amo... Eu amo. E os outros deixam de ser interessantes pra mim, mesmo pra transar. Nem sempre isso é bom porque acabo me fechando pra outras possibilidades, mas acho que dessa vez valeu a pena. — Pendeu a cabeça pro lado acariciando a farta barba negra com as costas dos dedos. — Eu gosto do que a gente está construindo e acho que tem potencial pra termos um futuro bem bonito lá na frente.
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  Os grandes olhos escuros continham o brilho característico de quem se apaixonava até mais do que deveria. Juntando isso com o rosto que parecia ser esculpido ou desenhado? Era uma figura digna de ser contemplada.
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  — Formosura. — Aquiles o puxou para si para beijar os lábios levemente avermelhados. — Eu tenho certeza que será ótimo. — Suspirou pesadamente e logo deduziu sobre quem Augusto iria falar. — Só preciso arrumar umas coisa antes.
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  — Osmar Navarro.
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  — O patrão.
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  Aquiles não gostaria de discutir sobre o assunto naquela noite, mas sabia da necessidade de terem aquela conversa. Embora o amor por Augusto estivesse enraizado em seu coração e tivesse a certeza de que almejava uma vida ao lado do homem rústico, sentia insegurança do futuro. Não concordava com o peão seguir as ordens criminosas do fazendeiro e nem de cometer os assassinatos. Era uma existência incerta demais e temia pela vida do homem tanto quanto o amava. A ideia de perdê-lo para a prisão ou, pior ainda, perdê-lo definitivamente para a morte, o assombrava. Não aguentaria vê-lo afastado de si em nenhuma das duas hipóteses porque sentia certa gratidão do peão. Foi pela proximidade de Augusto que voltou a ter paixão pela vida.
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  Antes de Augusto, se encontrava num lugar meio amargo, até venenoso. Embora fosse conhecido por ser um rapaz divertido e engraçado, as próprias piadas eram carregadas de sarcasmo e tinham um quê de acidez. Esse estado de espírito se devia por começar a se prostituir na época de Candelária. Quem trabalha no ramo — se é que Aquiles podia chamar de trabalho, já que trazia sofrimento — costuma fechar o coração por ser usado como objeto cujo único propósito é proporcionar orgasmos em outra pessoa. O corpo não era exatamente respeitado, e passou por situações em que precisou da ajuda dos demais pela manhã para evitar ser agredido pelos homens com quem se deitava ao despertarem na cama dele nus. Juntando essa realidade com o histórico familiar e os anos passados na rua perambulando abandonado, seria impossível não carregar algumas sequelas, apesar do tratamento com a terapeuta e com o psiquiatra.
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  Quando se deparou com Augusto ao lhe servir bebida no clube, sentia-se sozinho e solitário. Até podia interagir e conversar com os trabalhadores e com os frequentadores do Night Club, mas não entrava em assuntos mais profundos. No máximo se abria com Lívia, em casos bem raros e específicos. Pela sua estadia nas ruas, aprendeu a sondar o ambiente, desenvolveu uma capacidade mais apurada de observação e descobriu que se manter calado quando os assuntos eram temas pessoais e íntimos, principalmente envolvendo seus sentimentos, suas emoções e suas perspectivas, era o mais sábio a fazer, até para se resguardar. Talvez fosse pela solidão, talvez fosse pelas circunstâncias que os uniu ou a insistência de ambas as partes de se manterem próximas, entretanto, a sua trajetória com Augusto trouxe uma visão de mundo mais otimista e bonita.
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  Conhecia já um pouco do passado do homem e não era ingênuo. Sabia no que era envolvido e que o capataz da família Navarro estava longe de ser alguém cujas mãos estavam limpas. Apesar desses fatores, tinha plena consciência que tinha uma alma carregada de escuridão pelas mortes e pelos atos criminosos realizados. Ambos conheciam da importância de companhia humana, de ter alguém ao lado para conversar sinceramente e de amar e ser amado, já que foram privados disso — o peão muito mais comparado ao garçom do bar.
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  Num suspiro pesado, Aquiles deslizou o corpo para o colchão, onde se deitou de lado, de modo que pudesse encará-lo. O outro também mudou a posição do corpanzil e sentiu o coração esquentar quando o outro se aproximou mais dele, entrelaçando as pernas e encostando os peitorais.
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  — O que planeja fazer? — Colocou o braço sob a cabeça enquanto ambos uniam as mãos.
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  — Eu não quero continuar. Tô com isso de ansiedade que você e a psicóloga falaram.
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  — Eu não consigo mais atirar direito. Me dá uns tremeliques esquisitos e passo mal. Depois fico com isso martelando na cabeça.
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  — Eu sei. Estive contigo quando teve o primeiro ataque de pânico.
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  — Uma hora vou ter problema com o patrão porque não consigo dar cabo de mais ninguém.
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  — O que não é de todo ruim, diga-se de passagem.
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  — Já tô vendo a hora dele me despedir por causa disso se me mandar pra fazer um serviço — refletiu preocupado. Não por não conseguir mais assassinar, mas sim porque não teria dinheiro para se sustentar, se alimentar e nem casa.
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  — Você pode morar aqui comigo.
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  Não esperava que a reação do peão fosse negativa. Portanto, se surpreendeu quando o viu se levantando e sentando no colchão com as pernas pra fora da cama, tocando o chão com os pés.
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  — Não. Não seria justo contigo. — Aborrecido, abaixou a cabeça, segurando a nuca com as mãos.
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  Aquiles se sentou também e foi até ele. Percebeu os músculos tensos e logo tratou de ou distribuir beijinhos ou roçar os lábios na região das escápulas e da clavícula para tranquilizá-lo.
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  — Por que não seria justo comigo, amor? — O abraçou por trás, de joelhos, descansando o queixo no ombro direito.
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  — Estou dando trabalho demais pra você. — Relaxou aos poucos, erguendo o tronco, tirando as mãos da nuca e aceitando o abraço, sentindo o conforto necessário pelo toque gentil.
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  — Trabalho como?
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  Após um prolongado silêncio onde era possível ouvir o burburinho das conversas e as músicas tocadas no andar de baixo, o pressionou com gentileza.
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  — Hey. Conversa comigo. Quero entender sobre o que está se referindo.
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  Passaram cinco segundos antes de Augusto murmurar e estava visivelmente envergonhado.
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  — Você já gasta o seu dinheiro comigo pagando a terapia. Mal ganho pra comer direito. Não posso morar aqui contigo e ser sustentado. Não é justo.
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  — Pode trabalhar como segurança do bar sem problema. Vai ter moradia e salário.
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  — Não. — Encostou a bochecha na de Aquiles e afagou os cabelos castanhos. — A sua intenção é boa, mas num quero ser um peso. Quero ter meu trabalho durante o dia e voltar pra você de noite.
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  Quando recebeu vários beijos no rosto onde quer que o rapaz pudesse alcançar, pensou que fosse porque aceitou morar com ele quando tivesse seu emprego e saísse da fazenda, mas não era a única razão. Devido a fala de Augusto, compreendeu que ele estava se responsabilizando pelo rumo da própria vida. A mudança de planos sem dúvida geraria uma modificação total no destino do homem — modificação essa que, talvez, fosse complicada no começo para achar um emprego e se estabilizar. Porém, a médio e longo prazo, traria novo sentido para ele e estabilidade financeira, podendo se manter e equilibrar as contas com o namorado.
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  — Entendo o seu ponto. — Acomodaram-se novamente na posição de antes, lado a lado. — Mas tenha consciência de que não é um fardo pra mim.
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  Fez uma careta erguendo uma sobrancelha o desafiando. Lembrava bem das palavras de Lívia e elas condiziam com a história do casal.
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  — Não é — frisou apertando a ponta do nariz dele. — Nunca foi.
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  — Diz isso porque me ama.
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  Num movimento rápido e fluido, o rapaz sentou na cama segurando o travesseiro. Sem aviso, começou a bater nele com o travesseiro macio, o que provocou audíveis gargalhadas divertidas de Augusto.
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  — Nunca mais cogite em pensar nisso, Augusto — disse entredentes. A cada palavra golpeava o homem com o travesseiro.
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  O rosto de Augusto se iluminou pela brincadeira carinhosa entre eles e, graças ao sonho horas antes, se permitiu aproveitar daquele momento de divertimento inocente. A seu modo, Aquiles tinha a capacidade de trazer luz e leveza para a sua vida que tinha sido tão amarga. Em sua trajetória não costumava sorrir, brincar ou ter momentos simples de descontração como aquele. Era tudo com distintas tonalidades de cinza. Não havia espaço para luminosidade. Isso até a chegada daquele insistente rapaz alegre por quem se apaixonou na primeira vez que o viu.
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  Em dado instante, se cansou de bater no homem com o travesseiro, então começou a fazer cosquinha na lateral do tronco. O peão estava na mesma posição anterior, porém o outro já havia ficado de pé e estava parado em frente a ele, que havia aberto as pernas e o espaço entre elas estava sendo ocupado pelo corpo alheio. Parou as cócegas devagar e fitou os olhos escuros cujo brilho característico de amor genuíno e admiração por Aquiles estava evidente. Passou as mãos pelos cabelos negros e as descansou ali.
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  — Me escuta, amor. Você não é um peso pra mim. Nunca foi. Olhe o que estamos vivendo hoje. Como isso pode ser considerado fardo?
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  O capataz da família Navarro o segurou na cintura ainda o fitando e apertou a região, a demonstração de afeto típico dos dois e que era presente na história de ambos. O abraçou pelo quadril e encostou a testa na barriga lisa. Ficaram nessa posição ouvindo Fernando terminar de cantar Sinônimos. Quando Augusto não encostava a face no abdômen magro, simplesmente o encarava. A troca de olhares era carregada de sentimento que, finalmente, conseguiam expressar um ao outro. Ali, no mundo particular deles, não era necessário falar. Era evidente que as coisas ajeitariam e Augusto era forte o suficiente para se tornar uma pessoa melhor — pessoa essa que já estava se tornando e, tanto ele quanto Aquiles se orgulhavam desse novo homem.
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  Quando a voz de Lívia cantando os primeiros versos de Estrela ecoou pelo quarto, o peão deu um sorrisinho de olhos fechados antes de beijar a região abaixo do umbigo. Ficou de pé e deu alguns passos para se afastar da cama sem afastar os braços da cintura, obrigando Aquiles a recuar, caminhando para trás.
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  — Que foi, Augusto? — O rapaz percebia que não havia nada de errado com o mais velho porque a expressão facial não estava alterada, mas não deixou de demonstrar confusão.
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  Sem falar nada, segurou os braços do garçom e os pôs ao redor do pescoço. Augusto, por sua vez, o segurou pela cintura com mais firmeza. Só compreendeu o que o homem queria quando começaram a dançar no quarto.
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  De fato, Aquiles já havia feito de um tudo no seu quarto quando subia com alguns homens no passado, mas dançar uma música romântica pelado com quem amava, que também não usava roupas, era a primeira vez. Talvez intimidade também significasse isso. Não ter pudor nas horas de prazer e menos pudor ainda para aproveitarem de corpos nus as ocasiões em que não havia nenhuma insinuação ou conotação sexual, apenas a vontade de estarem na companhia um do outro — nesse caso, desfrutando de uma dança.
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  Arriscou-se a explorar o ambiente com Aquiles nos braços e uma ou duas vezes o girou como viu tantas vezes os homens no Night Club fazendo com as mulheres quando dançavam. Aproveitaram cada segundo daqueles belos instantes, onde nada mais no mundo importava além deles e do amor que sentiam e podiam expressar. O jagunço o conduzia com firmeza e prestava atenção para não esbarrarem em nada, mantendo-os sempre no centro do cômodo e fora das vistas das pessoas, já que havia uma pequena sacada cujas portas estavam abertas.
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  Aquiles ficou de costas para ele e, pela espelheira em sua frente na porta do armário, adorou a imagem formada. Um sorridente Augusto o abraçando por trás com o rosto ao lado do seu, que exibia o mesmo sorriso nos lábios.
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  Quis eternizar a imagem tão bonita, então apanhou de dentro do bolso da calça jogada no chão o celular, e tirou algumas fotos deles naquela posição, tomando o cuidado para desfocar o fundo e mostrar somente as faces. O rapaz posava de formas diferentes enquanto Augusto apenas sorria ou o beijava. As que se tornariam as suas preferidas era uma que mostrava os dois de perfil dando um selinho. Na outra, Augusto mordiscava o seu pescoço e o rapaz soltava uma gargalhada espontânea.
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  Viam as fotos na cama minutos depois. Augusto estava com as costas encostadas na cabeceira e havia aberto as pernas para acomodar no espaço Aquiles, que segurava o celular de modo que ambos pudessem enxergar as imagens.
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  — Ah, ficaram bonitinhas. Eu gostei. — Esticou o braço para depositar o aparelho telefônico na mesa de cabeceira.
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  — Eu vi que você gostou. Tá com um sorriso enorme.
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  Aquiles se sentou no colo de Augusto de frente para ele após o peão esticar as pernas no colchão.
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  — É que são as primeiras fotos que batemos juntos, com exceção das do seu aniversário. Mas nelas não estávamos sozinhos, diferente de agora. É importante deixarmos registrado. Hoje aconteceu tanta coisa boa. — Beijou a testa relaxada do homem. — Estou feliz. Muito!
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  — Eu também.
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  O abraçou de maneira terna e assim permaneceram por alguns segundos, apreciando as carícias um do outro. Por fim, indagou:
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  — Formosura, me tira uma dúvida. Quando contou o que aconteceu contigo pra chegar nessa cidade, não explicou como o seu primo veio. Como isso aconteceu?
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  — Ih... É uma história meio doida. — Se separou dele para contar.
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  Já havia recebido alta da terapia e da psiquiatria. A recuperação aconteceu gradativamente, dia após dia. Em consequência de tudo o que passou nos poucos anos de vida, existia uma forte e vasta bagagem de dores e sofrimentos emocionais para lidar e tratar com a terapeuta, que o atendia religiosamente uma vez por semana. Nem ele e nem Candelária se importavam caso estivesse doente ou com mal-estar. Conseguindo falar — o ponto mais importante — e se aguentando em pé — para Aquiles, caso estivesse com algum problema nas pernas ou o corpo estivesse demasiadamente fraco para suportar o seu peso, poderia ser carregado facilmente e isso fazia sentido para ele —, ia para as consultas. Esse esforço para melhorar foi o primordial para se curar do passado tenebroso e surpreendia até a dona do bar, que o acompanhava nas consultas.
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  Até Zeca procurava contribuir de alguma maneira. No retorno de uma sessão mais intensa onde abordava sobre o que passava nas ruas ou as demais agressões, os olhos costumavam ficar mais fragilizados e resignados, embora marejassem. Por causa disso, Zeca buscava preparar algum prato que o outro gostasse para lanchar, como salgadinhos, bolo de chocolate ou pão doce. Era a forma de trazer conforto para o garoto — até porque o próprio Zeca tinha seu passado e sabia na pele como era crescer numa família que não o aceitava.
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  Numa manhã ensolarada, Aquiles estava fazendo compras numa feira localizada na praça central de Pedaço do Céu. Usando o short jeans, a blusa amarela colada e o tênis branco, escolhia os brincos e as gargantilhas que mais gostava. Após efetuar o pagamento e se afastar para retornar para o bar satisfeito com as compras, refletia como aquele dia havia começado bem. Tomou um belo café da manhã, conseguiu uns trocados pelo serviço extra, o homem com quem se deitou não tentou bater nele e estava com a autoestima nas alturas. Tudo corria bem até ouvir uma voz que pensou jamais voltar a ouvir — principalmente chamando o seu nome.
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  O queixo caiu ao ver Tiago se desviando das pessoas para alcançá-lo numa rapidez que geralmente era destinada para as mulheres. Parando em sua frente, o primo o encarava quase como se visse um fantasma — e o garçom precisou retirar os óculos de sol para ter a plena certeza de que aquela não era uma alucinação e nem precisaria ser levado imediatamente de volta para a psiquiatra.
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  — Meu Deus, Aquiles! — O puxou para um forte abraço, A quiles tinha o corpo inerte e cogitou se terapeuta tinha horário disponível naquela semana para atendê-lo, mesmo tendo recebido alta do tratamento psicológico há quase quatro meses. — Onde você estava?! — Separou dele.
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  — Primo... O que está fazendo aqui? — O jovem ajeitou a bolsa no ombro e colocou a alça dos óculos na gola da blusa, o deixando ali.
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  Ficou atordoado com a recepção calorosa. O primo em questão nunca foi dado a sentimentalismos, principalmente quando se referia a Aquiles pelo jovem adulto ser gay. Nunca o tratou mal, mas também sempre se manteve distante e nunca fez questão de conversar com o parente, nem mesmo nas reuniões de família. Enquanto um estava num cômodo, o outro se encontrava no outro aposento.
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  — Como você parou nessa cidade? Sabe há quanto tempo estou te procurando? — Tiago o segurava pelos braços com força.
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  — Que? Quem está me procurando? É a minha mãe?
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  A menção da mulher serviu para diminuir um pouco do aperto e trazer um semblante de pesar nas feições do outro.
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  — Precisamos conversar — falou sério. — Tenho que te entregar uma coisa e te deixar a par de outras. Isso se você quiser, é claro.
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  O rapaz ponderou por uns instantes. Não gostaria de voltar a ter contato com nada e nem ninguém de seu passado por ser uma lembrança viva de todo o martírio que passou com o pai. Por outro lado, mesmo que não tocasse no assunto, tinha a esperança de ter notícias da mãe. A mulher nunca o renegou e sentia falta da presença dela todos os dias. E foi somente em virtude disso que levou o primo para uma sorveteria próxima para conversar e se inteirar dos acontecimentos relacionados a sua figura materna, a única capaz de aliviar um pouco a atmosfera pesada de onde morava.
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  Pediram sorvetes de morango e de chocolate respectivamente.
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  Tiago só voltou a falar quando começou a provar o doce.
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  — O seu desaparecimento foi culpa do seu pai, né?
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  — Foi.
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  — Então a minha tia estava certa. Ela desconfiou dele desde o princípio, mas não tinha provas. O que aconteceu naquele dia, afinal? Nunca descobrimos.
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  — Lembra do Marcos?
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  — O seu amigo de escola?
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  — Então... — Passou a língua entre os lábios antes de produzir o som de estalo característico dele. — Éramos um casal. Namoramos escondidos na época.
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  — E o que tem o seu amigo barra namorado barra ex?
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  — Bem, o levei lá em casa numa tarde. Minha mãe era a única que sabia do nosso relacionamento e, como me aceitava como sou, não achou ruim eu namorar com um menino. Nos deixou sozinhos para ir ao mercado. Adolescente tem o quê? Hormônios a flor da pele. Não demorou pra nós dois aproveitarmos pra transar.
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  — Aquiles... — reclamou devido a imagem mental deles na cama.
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  — Era maravilhoso! — O rapaz se divertiu pela reação de Tiago e achou melhor provocá-lo um pouco. — O garoto era lindo e tinha um belo de um...
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  — Primo! — o outro quase berrou ao ver o gesto que o garçom fazia com as mãos para mostrar o tamanho do pau do ex-namorado.
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  — Enfim! Foi o pior erro que cometi na vida. Não sei como, mas a praga daquele genitor ruim como o demônio entrou no quarto e me pegou pagando um boquete. Aí deu ruim. — Abaixou a blusa, mostrando parte do peitoral com pequenas cicatrizes claras. — Apanhei mais que zabumba. Nem cão sardento é tratado da forma como fui por aquele monstro. — Colocou um pouco de sorvete na boca. — Quando cansou de me espancar, e isso demorou pra caralho, me colocou no carro e saiu dirigindo. Horas depois me jogou numa estrada deserta sem dinheiro e nem documentos.
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  — Nossa... Eu sinto muito. Posso não entender essas coisas direito de homem gostar de homem pela nossa família ser mais conservadora, mas ele não tinha o direito de fazer isso contigo.
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  — Ah, é passado agora. E a minha mãe? Como ela ficou?
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  — Olha... Ela ficou louca atrás de você. O seu pai se fazia de desentendido, mas, sabe-se lá Deus como, a mulher sempre soube que tinha dedo dele no seu sumiço. Contratou detetives pra procurarem por você. Como nenhum tinha nada concreto e ignoravam qualquer menção ao seu nome, estranhou. Afinal de contas, estava pagando um bom valor pelo serviço deles. Depois descobriu que o marido subornava os caras, pagando o dobro para arquivarem o seu caso.
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  — Desgraçado — rugiu com ódio.
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  — Mas ela não deixou barato, não. — Pela primeira vez havia um toque de orgulho na voz, confirmando que aprovava a ação da moça e simultaneamente se surpreendia, como se não imaginasse ou duvidasse da capacidade dela de responder ás provocações veladas do marido à altura. — Não demorou pra dar um golpe nele. Tirou o dinheiro todo do homem sem pestanejar e o abandonou da noite pro dia sem sequer avisar.
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  O rapaz caiu na gargalhada.
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  — Quando ele chegou em casa o lugar estava vazio. Até as lâmpadas e as maçanetas ela levou.
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  — Jura?!
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  — Estou te falando. Ainda o deixou com dívida enorme e sem um puto no bolso porque passou o cartão dele numas comprinhas nem um pouco baratas antes de juntar as coisas dela e voltar a morar com a irmã.
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  — Eu queria ter visto isso. Bem-feito pra ele! E como a minha mãe está?
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  As feições de Tiago foram tomadas de piedade.
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  — Aquiles... — murmurou passando uma mão pela testa e quebrando o contato visual.
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  — O que foi, primo? Fala logo, pelo amor de Deus!
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  — A sua mãe ficou muito triste por não o ter encontrado. Ela já vinha de um estado preocupante desde o seu desaparecimento. Era o único filho e não sabia o paradeiro dele. Pouco tempo depois de retirar o dinheiro do marido, não suportou mais. Sinto muito.
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  A notícia foi um baque. A mãe era a única figura na família que lhe deu afeto e respeito. Mesmo que não a visse há anos e não imaginasse que voltaria a encontrá-la, não gostou de receber a notícia.
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  — Ela sofreu? — O rapaz pestanejou para afastar as lágrimas e se esforçou pra voz sair audível por causa do nó na garganta.
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  — Não. Mas deixou algo pra você.
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  — O quê?
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  — O dinheiro do marido. Ela roubou esse valor pra dar pra você e está guardado comigo. No leito de morte me fez prometer te encontrar e depositar esse dinheiro na sua conta porque era isso o que iria fazer caso estivesse viva.
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  — E o meu pai?
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  — Está vivo, como se isso fosse lá grandes coisas pro estado como se encontra. Não conseguiu se manter no emprego e, com o golpe financeiro, as dívidas, a separação repentina e a morte da minha tia, acabou sendo despejado. A última notícia que tive foi há uns quinze dias. O viram perambulando completamente embriagado pela rua com uma garrafa de cachaça debaixo do braço.
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  — Isso tem nome. Karma o nome, primo. Castigo. Seria injustiça demais passar impune depois de todas as maldades que fez comigo e com a minha mãe. Seria ótimo se eu sentisse pena daquele troço ruim, mas já deixei de ser bonzinho há tempos. E isso graças a ele.
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  — Eu tinha um pouco de dó dele, mas agora que descobri o que ele fez contigo... — Balançou a cabeça com um brilho de raiva no olhar.
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  — Isso porque não te contei um terço do que aconteceu comigo.
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  — Então eram essas economias que se pontificou a me ajudar com a terapia? — indagou Augusto.
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  — Sim.
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  O homem acariciou os cabelos de Aquiles e deu suaves batidinhas no topo da cabeça dele, que começou a rir.
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  — Parece que você está fazendo carinho num cachorro assim — implicou com Augusto, segurando o riso.
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  — Parece, nada.
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  — Parece, sim.
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  — Está bem. — Abaixou as mãos e o outro aproveitou para ajeitar o cabelo. — Como é pra fazer carinho no seu cabelo, então?
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  Aquiles escorregou os dedos pelas mechas do outro e começou a fazer um relaxante cafuné. O peão fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, sinal do quanto a massagem estava agradável.
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  — Isso é bom.
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  — Quer que eu te deixe mais relaxado?
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  Distinguiu o tom mais malicioso e replicou com um meio sorriso.
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  — Deve.
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  Aquiles se inclinou até beijá-lo. E assim ficaram por longos minutos — embora não tivessem demorado a se excitarem no processo.
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  Quando concentrava a atenção no grosso pescoço, Augusto indagou, soando um pouco inseguro:
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  — Se eu pedir uma coisa você faz pra mim? — O peão o apertava contra si com os olhos entreabertos.
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  — O que quiser — murmurou contra a pele sem se afastar da região.
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  — Eu queria te sentir dentro de mim.
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  Demorou cinco segundos para processar a informação. Se afastou o suficiente para fitá-lo.
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  — É o que estou pensando? — O rapaz pendeu a cabeça pro lado com certo ar de ingenuidade, precisando da confirmação por parte do amante.
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  — É.
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  — Jura? — perguntou de forma espontânea.
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  Notou que a sua reação o deixou envergonhado. Obrigou-se a se lembrar que todo aquele processo de descoberta sexual era algo novo para o homem lidar — até mesmo se permitir. Provavelmente era uma vontade antiga, entretanto nunca havia sido realizada. As constatações foram confirmadas quando a expressão do homem ficou carregada de vulnerabilidade, como se internamente estivesse arrependido por ter pedido algo que podia ser considerado errado, pouco viril ou pecaminoso.
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  Para tranquilizá-lo, Aquiles depositou um beijo na ponta do nariz e acenou que sim com a cabeça o segurando pelas bochechas. O gesto trouxe alívio para a face do peão, cujos olhos brilharam por não receber repreendas e por se sentir seguro ao ponto de requisitar algo tão íntimo e ser acolhido.
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  — Tudo bem. Não precisa ficar com aquela carinha fofa de medo, não. Não é errado me pedir isso. E me alegra ter me pedido porque só comprova que se sente confortável comigo.
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  — É que eu sempre tive curiosidade pra saber como é, mas nunca deu pra fazer.
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  — Eu sei.
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  Refletiu por cerca de cinco segundos enquanto, num biquinho e olhando para o lado, remexia os lábios de maneira rápida de um lado pro outro.
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  — Então, Augusto... Como o plug já foi usado em mim, vou fazer umas coisinhas meio diferentes pra você relaxar. Não está acostumado com isso, então o ideal é te proporcionar o máximo de prazer inicialmente. Quanto mais prazer, menos tenso estará. Em consequência, será mais fácil. Só preciso que, na hora que eu entrar em você... — segurou o maxilar escondido pela barba com o dedo indicador e o polegar, pressionando de leve pra baixo — mantenha a boca entreaberta. Está bem?
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  — Tá.
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  Antes de se levantar, o abraçou para transmitir segurança. Em seguida murmurou, provocando um gostoso arrepio na epiderme gerado pela antecipação do que veria a seguir:
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  — Deita na cama de costas, com a cabeça no travesseiro. Serei bem cuidadoso contigo.
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  Foi até o interruptor para apagar a lâmpada. A luz do luar era o suficiente para iluminar o quarto. Facilmente poderia caminhar pelo aposento graças a bela Lua Cheia no céu. O corpo de Augusto deitado na cama era o foco dessa iluminação. Ali, sem roupas, deitado como lhe foi requisitado, era uma bela imagem. Tudo contribuía para terem uma das melhores noites de suas vidas. Até mesmo Fernando, sem ter nenhum conhecimento do que acontecia nos aposentos acima, ajudava a manter o ambiente acolhedor e romântico por começar a focar em cantar músicas românticas, iniciando com Estrela.
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  Aquiles afastou as musculosas pernas esticadas no colchão para se acomodar entre elas de joelhos sem cortar o contato visual.
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  — Quero que se concentre na sua respiração, amor, olhando pra mim — sussurrou numa voz aveludada. — Respira fundo e solte o ar devagar, de modo que se sinta confortável.
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  Devagar, num toque quase imperceptível de tão discreto, começou a percorrer com os dedos a pele firme até a região dos quadris. Tocava a parte superior dos pés, subindo pelos tornozelos, percorrendo as pernas torneadas, deixando pequenos círculos nos joelhos e parava na altura dos quadris, onde fazia o caminho de retorno. Aos poucos a atmosfera entre eles tornou-se mais impetuosa e erótica, acentuada pelo ambiente sem luminosidade artificial e pela conexão que aumentou entre os dois, tornando-se quase palpável de tão pujante. As regiões onde os dedos de Aquiles percorriam tornaram-se mais sensíveis ao tênue toque, gerando um prazer até então desconhecido.
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  Por sua vez, o rapaz observava atentamente as respostas corporais. Percebia que as regiões mais sensíveis eram a parte detrás dos joelhos e a parte interna das coxas porque o homem arfava com mais intensidade ou produzia alguns grunhidos, então aproveitou para dar uma atenção especial a essas áreas. Não demorou para o peão ficar excitado e a imagem lhe deu água na boca.
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  Após minutos intermináveis onde o capataz quase implorava pro toque ser intensificado, principalmente pela ereção ser ignorada pelas carícias, se ajeitou entre uma das coxas para continuar percorrendo a parte superior do corpo. Deslizava a ponta dos dedos pelas mãos, pelos braços, pelos ombros, pelo pescoço e pelo peitoral. Quando o viu se agarrando aos lençóis, sentou-se na cintura do homem para beijá-lo. O beijo foi delicioso, intensificado pelo processo de conexão que estava sendo desenvolvido ali. Aquiles desceu os lábios pelo tronco, demorando-se nas áreas mais sensíveis de Augusto — orelha, pescoço e mamilos — onde chupava, acariciava com a língua ou mordiscava enquanto sentia as mãos do homem sobre ele.
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  Quando finalmente os lábios chegaram ao pau duro, Augusto ficou à beira da loucura por reproduzir movimentos diferentes da punheta que já estava acostumado. Inicialmente o tocou suavemente com as mãos. Aumentava a movimentação e a pressão de uma maneira deliciosamente lenta, o que o fez se contorcer na cama. Quando colocou o membro na boca, agarrou-se ao travesseiro com força — e foi quando a tortura começou.
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  Não o permitia gozar. Aquiles conseguia identificar quando o orgasmo se aproximava, então diminuía a velocidade ou distribuía carícias pelas coxas torneadas para, então, retornar com a exploração, o deixando inteiramente entregue a volúpia. Quando, finalmente, o permitiu ser tomado pela deliciosa sensação, estava tão excitado que arqueou as costas ao gozar e agarrou-se na grade da cabeceira da cama, se derramando em jatos quentes na língua rosada.
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  Quando a respiração dele normalizou, Aquiles pediu para ele virar de costas. Assim que ficou de barriga pra baixo, se posicionou sentado no quadril dele, sentindo a redonda bunda do amante contra a sua. Descansou as mãos ao lado dos ombros do peão e se inclinou para murmurar baixinho:
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  — Amor, eu ainda não vou te penetrar. Quero fazer uma coisa primeiro, mas vai ser meio diferente e você não está acostumado. Prometo que vai ser gostoso. Confia em mim pra isso?
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  — Confio — o capataz da família Navarro replicou num fio de voz.
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  Após a permissão, voltou a percorrer com as pontas dos dedos todo o corpo do peão, adorando ouvir os sons produzidos por ele. Por fim, beijou-lhe e se demorou novamente nos lugares onde detectou serem mais sensíveis, como a nuca, os ombros e as laterais das costas. Ao notá-lo se remexendo, desceu cada vez mais, centímetro por centímetro, em direção a lombar. Com a ponta do nariz na base das costas, respirou fundo e soltou o ar antes de dar mais um beijo e se ajeitar na cama, onde se deitou de barriga pra baixo. Segurou a bunda abundante e roçou os lábios numa preparação do que viria a seguir. Não queria assustá-lo, até porque não sabia dizer se o homem conhecia a prática. Devagar, separou a região, deixando a convidativa entrada exposta. Assim que encostou a ponta da língua, ouviu Augusto urrar em aprovação.
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  Demorou-se por mais tempo ainda ali lhe proporcionando prazer de uma forma que, talvez, o peão jamais tivesse cogitado. Circulava a entrada com a língua de maneira preguiçosa, percebendo o esforço de Augusto para não gemer alto porque usava o travesseiro para abafar os sons.
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  — Meu Deus, formosura. Isso é muito gostoso — soltou um rouco grito contra o travesseiro quando sentiu a ponta da língua adentrar em si.
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  Quando se deu por satisfeito — e isso demorou bastante tempo porque adorava proporcionar prazer para o homem a ponto de deixá-lo quase enlouquecido — e vendo que o peão estava a ponto de rasgar o travesseiro de tanto apertá-lo, sentou-se novamente na cama de joelhos para apanhar o lubrificante. Derramou o lubrificante no próprio pau e em Augusto, quem usou aqueles instantes para recuperar o fôlego puxando o ar com força.
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  Se deitou sobre ele, posicionando o membro na entrada. A outra mão usou para afagar os cabelos.
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  — Agora deixe comigo, meu amor.
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  Ao sentir mais dificuldade que o normal para penetrá-lo, observou o peão e notou que ele mordia o lábio inferior. Com gentileza, passou o indicador no queixo e o pressionou de leve pra baixo, lembrando-o de manter o maxilar relaxado. Assim que acatou ao pedido, voltou para o trabalho.
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  Conseguiu deslizar mais facilmente. O preparou o máximo que pôde para que a experiência fosse o mais prazerosa possível para Augusto. Sabia que precisaria de paciência, cuidado e carinho naquela primeira vez onde o homem fazia sexo anal e, por lembrar que a primeira vez dele foi com Candelária para mostrar a sua virilidade, torcia apagar a lembrança dolorosa com aquela noite tão bonita onde estava, de fato, sendo amado.
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  Pela sensação de invasão ser diferente de tudo o que já havia experimentado, inicialmente contraiu os ombros estranhando a área ser preenchida daquela maneira. Aquiles, completamente atento a ele, segurou a mão que se agarrava ao lençol.
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  Parou de pressionar o pau mais pra dentro dele sem retirá-lo, ainda o mantendo no interior. Distribuiu alguns beijos contra a nuca antes de respirar pesadamente por estar adorando aquela pressão ao redor do membro e disse, em tom carinhoso:
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  — Hei. Olha pra cá.
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  Augusto virou a cabeça e se deparou com as mãos unidas.
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  — Não pensa em mais nada, amor. Só se concentra em mim. Na sua formosura cuidando de você.
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  Assim que assentiu, voltou a deslizar devagar pra dentro dele, até estar totalmente no interior do capataz. Foi quando, então, o viu abrindo a boca pela cabeça do pau ter entrado em contato com aquele ponto específico e desconhecido em seu corpo, fazendo irradiar um terno prazer. E isso o que o estimulou a começar o vai e vem.
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  Os movimentos do rapaz inicialmente eram suaves para Augusto se acostumar a invasão. Aos poucos aumentou o ritmo à medida que as lamúrias se tornaram mais evidentes e exigentes. Aproveitou para beijar e acariciar onde os lábios alcançavam, produzindo arrepios na pele sensível. Augusto, por sua vez, gemia e arfava. Embora se concentrasse no prazer alheio, era impossível o corpo de Aquiles não estar febril e trêmulo de luxúria. Gemia contra a pele firme do homem agarrando-se a ele e cravando as unhas nas costas, que não se importava em ser arranhado. Pelo contrário. Apreciava. Para o peão ter mais contato corporal, passou os braços por debaixo do homem, o segurando pelos ombros enquanto matinha as costas conectadas com o peitoral. Apenas os quadris se mexiam.
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  Preocupado de no dia seguinte amanhecer dolorido por não estar acostumado a ser passivo, diminuiu a velocidade.
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  Se dando conta que pararia de penetrá-lo, o segurou na lombar com uma das mãos, o obrigando a parar dentro dele.
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  — Continua, amor. Por favor.
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  — Augusto, eu não quero que você fique dolorido.
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  — Mas está tão bom — choramingou antes de virar a cabeça para deixar um beijo nas costas da pequena mão. — Continua, vai. Por favor — suplicou.
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  — Está bem — respondeu ofegante. — Deita de lado, de costas para mim.
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  Assim que o fez, com o braço do menor sob a sua cabeça, voltou a ser penetrado. As arfadas evoluíram para gemidos e grunhidos quando, com a outra mão, o rapaz deslizou a mão pelo abdômen até encontrar o pau de Augusto para começar a masturbá-lo. Em momentos alternados, o peão virava a cabeça para observá-lo ou dar um beijo lento nos lábios que tanto adorava. A destra que estava por debaixo do homem o segurava pelo ombro, numa tentativa de mantê-lo no lugar já que se remexia na cama. Gotículas de suor se formaram na testa pelo corpo estar quente graças ao desejo. Com as estocadas mais precisas e rápidas, atingindo o ponto escondido que trazia um prazer até então desconhecido para o capataz, ele não demorou para se derramar na palma de Aquiles num orgasmo violento de tão forte junto ao outro.
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  Se deitaram um de frente ao outro sem deixarem de tocar-se com as mãos, começando a sentir os primeiros sinais de sonolência tomarem conta deles. Cansados, embora satisfeitos, não queriam dormir. Queriam aproveitar cada segundo daquela noite maravilhosa.
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  Augusto foi o primeiro a quebrar o silêncio.
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  — Eu nunca tinha feito nada por medo.
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  — Medo do quê?
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  — Perder você. — Segurou o delicado rosto com uma das mãos. A voz transmitia receio, principalmente no tom baixo.
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  — Como assim?
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  Contou resumidamente o que Osmar Navarro lhe mostrou e falou quando tinha apenas 14 anos.
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  — Eu num posso te perder. Sou capaz de fazer uma loucura com quem te fizer mal — avisou com os olhos marejados.
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  — Hei. Ninguém vai me fazer mal. — Aquiles o consolou secando as lágrimas. — Você não está mais sozinho, meu amor. Tem a mim, ao pessoal do bar, da escola... As coisas não são mais tão violentas como naquela época.
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  — Promete? — Fungou.
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  — Prometo.
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  Se abraçaram naquela noite e não demoraram a dormir de conchinha. Augusto ainda não imaginava como seriam os acontecimentos futuros e nem como contribuiria para colocar Osmar Navarro na cadeia.
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  A filha mais velha da família Navarro assumiria os negócios tendo Caio, o irmão mais novo, como conselheiro para analisar e tocar a empresa familiar.
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  Aquiles e Augusto? Ambos passariam por um período bem nebuloso, já que o capataz sofreria com a fúria de Augusto sendo sequestrado e torturado por vários dias quando Osmar Navarro descobrisse a identidade do traidor. O largaria para morrer na estrada já desfigurado pelos golpes. Quem o encontraria seria Aquiles, que estava desesperado naquele período com o desaparecimento do amante e pela certeza que Osmar era o responsável pelo sumiço dele. Ao todo, seria necessário passar por cirurgias, e Pietra, filha de Osmar, arcaria com os custos do hospital particular após descobrir os crimes do pai.
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  Após se recuperar por completo, demoraria alguns meses até encontrar um emprego. Seria o inspetor da escola durante o período diurno e, de noite, terminaria seus estudos na EJA. Sempre que saía do trabalho retornava para os braços acolhedores e receptivos do namorado.
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  De fato, a previsão de Zeca estava certa. Aquele cigano que apareceu nas cartas não sairia mais do lado de Aquiles e teriam uma relação de casa, simbolizando o relacionamento amoroso dos dois.
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Lelen

Gente, essa família aí é muito cheia das histórias e nem é das boas :O
Dá pra fazer um spin-off só dos integrantes dela (eu aceito).
E agora a gente pode pensar num final feliz pra esse casal? Pelamor de Deus T_T

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