×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Apenas uma Noite – Surpresa

Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Lelen

Capítulo 2

  De tão aturdido, Augusto demorou para a informação ser processada no cérebro. Nunca tivera uma festa de aniversário e durante a maior parte da vida, uma única pessoa se importava com ele — pessoa essa cuja viagem para Pedaço do Céu não era possível há anos devido aos problemas de saúde. Ver a forma como aquele grupo que gradativamente aceitou sua presença e o incluiu nas interações organizou uma festa para si lhe gerou forte impacto emocional. Pela primeira vez sentia como se fosse pertencente a um lugar e a um grupo social. A percepção foi tão intensa que puxou o ar com força para controlar a emoção — o que foi em vão, pois o assombro era evidente na face.
0
Comente!x

  Os trabalhadores da fazenda não contavam. Havia certo nível de cumplicidade, entretanto o ambiente não era propício para formar laços de amizade. Ao se cometer crimes e se envolver em atividades ilícitas, perdia-se a confiança para desenvolver o companheirismo necessário para uma amizade se consolidar. Mais cedo ou mais tarde o jogo poderia se virar contra ele ao menor erro cometido e, para os homens iguais a ele no passado por não terem conhecimento educacional e nem suporte terapêutico, poderia facilmente ser traído quando menos esperasse.
0
Comente!x

  No caso do bar era o total oposto.
0
Comente!x

  Os integrantes do Night Club eram pessoas completamente distintas, com seus defeitos e qualidades. Alguns compartilhavam histórias tristes, outros nem tanto. Havia, sim, picuinhas e pequenos conflitos entre os membros. Afinal, onde não tinha isso? Por outro lado, não corria o risco de alguém pegar numa arma e apontar contra o capataz sem hesitar porque receberia um valor extra além do combinado para exercer o trabalho braçal — valor esse que seria gasto com algo supérfluo como bebida ou mulheres, mas que, naquele momento e para a realidade daquele ser humano, era o melhor a se usufruir por provarem do vislumbre de como seria viver dignamente ao invés de sobreviver. Porém, o mais relevante eles realizaram: mostraram, mesmo sem terem consciência, que Augusto era, sim, importante para o Night Club e que a vida dele merecia, sim, ser comemorada numa agradável reunião de amigos queridos.
0
Comente!x

  — Está tudo bem, Augusto? — Aquiles separou-se dele quando sentiu que o abraço não foi retribuído. Passou a mão pelo rosto fascinado pela emoção.
0
Comente!x

  — Está — balbuciou.
0
Comente!x

  — Vamos. O que mais quer dizer? — O rapaz acariciava a bochecha com o polegar. — Eu sei que tem mais coisa aí.
0
Comente!x

  — É que... Eu... E... — Respirou profundamente e soltou ar pela boca na tentativa de conseguir falar. — Eu não esperava. — Lutava para as lágrimas não caírem enquanto Aquiles secava as que teimavam em escapulir. — Nunca tive isso na vida. Eu... — Engoliu em seco e se esforçou pra voz ser audível apesar do nó na garganta. — O que eu faço? Eu... Eu não sei como agir nem o que fazer.
0
Comente!x

  — Me escuta com atenção, meu lindo. — O mais jovem o segurou pelas laterais do rosto de farta barba negra, o encarando com uma expressão emocionada graças a reação do peão, e alegre por conseguir lhe proporcionar algo tão especial. — Hoje é o seu dia. Esquece seu patrão, esquece o passado e manda os problemas pro inferno. Hoje é dia pra você rir, se divertir, brincar... Fazer o que te deixa feliz. É nisso que tem que se concentrar. Ser feliz.
0
Comente!x

  O sorriso de gratidão se assemelhava ao de um menino que nunca recebeu afeto realizando o sonho de ser abraçado e presenteado pela primeira vez.
0
Comente!x

  — Posso, então, ficar do seu lado? — Augusto crispou os lábios para não soluçar. — Me sinto seguro contigo.
0
Comente!x

  — Claro. Não saio de perto de você se for isso o que quer.
0
Comente!x

  O peão o puxou para um forte abraço, murmurando:
0
Comente!x

  — Obrigado, formosura. Obrigado.
0
Comente!x

  Após guardarem a comida do restaurante na geladeira para não estragar, Augusto se dispersou dos demais. Estava logo atrás de Aquiles numa conversa com Rosa e Lívia, mas a mesa de festa lhe chamou a atenção. Caminhou até ela com curiosidade e tratou de admirá-la sem tocar em nada dali. Era tudo tão bonito — tanto pela beleza visual quanto pelo ato carinhoso — ao ponto de não se atrever a tocar em nada com medo de esbarrar, quebrar ou estragar algo. E principalmente. Foi organizada para a comemoração dele.
0
Comente!x

  As duas mesas eram simples. As dispuseram lado a lado e as cobriram com uma toalha branca perolada de festa cujo brilho era discreto. No centro depositado numa boleira branca, estava o bolo. Era redondo, dividido em três andares — base larga, a do meio em tamanho médio e a do topo menor — e grande o suficiente para cinquenta pessoas comerem e ainda sobrar uma quantidade significativa. As massas eram todas no mesmo tom azul marinho com purpurina discreta graças a pasta americana, porém, na parte inferior de cada uma das camadas, havia uma tira feita de uma prateada pasta americana ao redor. Havia pequenas e minuciosas gotículas prateadas, lembrando ligeiramente um céu estrelado. No topo, havia macarons daquela paleta de cores e velas finas, além de dois palitos espetados com a frase “Feliz Aniversário” impressa entre elas numa bela caligrafia.
0
Comente!x

  Ao redor, tinham docinhos espalhados dos mais diversos sabores: brigadeiro, morango, cajuzinho, casadinho, beijinho e outros que o homem não soube identificar. Havia alguns copinhos transparentes sobre duas estreitas bandejas prateadas em formato retangular depositadas na diagonal com brigadeiro de panela finalizado com granulado colorido e uma pequena colher branca. Nas laterais os varrines de morango e de uva foram depositados em belas taças vinho e transparentes — transparente porque o capataz da família Navarro poderia repudiar a cor, já que era conhecida por ser feminina, apesar de cor não ter gênero. Atrás, preso na parede, havia um enorme arco de bolas de cores azuis e brancas.
0
Comente!x

  O segundo susto num período de vinte minutos se deu graças a Aquiles.
0
Comente!x

  O vendo tão distante, se dirigiu até o homem silenciosamente. O segurou pelos ombros e saltou, pousando ao lado dele enquanto dizia:
0
Comente!x

  — Nada de ficar parado, Augusto! — Estava com o chapeuzinho de festa na cabeça. — Aniversariante também tem seus afazeres.
0
Comente!x

  — Nem hoje posso me descansar? Misericórdia. — Soou cômico, coçando o pescoço.
0
Comente!x

  — É, rapaz. — Deu pequenos tapinhas alternados nos braços do peão. — Você hoje tem seus afazeres e deveres a cumprir.
0
Comente!x

  — Posso saber quais?
0
Comente!x

  O rapaz ergueu o celular na frente dos olhos com um largo sorriso.
0
Comente!x

  — Fotinho. — Virou-se para os demais do bar berrando. — Aê, galera! Bora bater foto porque esse momento histórico precisa ser registrado! Zeca, chega mais! Foi você quem preparou esse bolo lindo que estou me segurando pra não devorar! Tem todo o direito de ser o primeiro.
0
Comente!x

  — E você, viada? — Lívia estava sentada no colo de Yuri, tomando refrigerante. — Não é mais importante, não?
0
Comente!x

  — Minha filha, eu faço questão de ficar por último nessa brincadeira.
0
Comente!x

  — Por que isso, criatura? — Tiago vinha na companhia do cozinheiro com uma latinha de cerveja.
0
Comente!x

  — É simples. Sendo o último o Augusto pode tirar uma casquinha minha. — O abraçou de lado colocando a ponta da língua no lábio superior enquanto era ovacionado, seguido de risadas bem-humoradas.
0
Comente!x

  Pela visão periférica, viu que Augusto o fitava, então o encarou de volta com um sorriso travesso. O olhar cúmplice e intenso fez as borboletas em seu estômago ressuscitarem. Havia algo ali além da amizade e Augusto não estava com medo de expressar. Parecia confortável por não disfarçar seu desejo. A desinibição recém-adquirida foi confirmada quando o homem se deslocou para trás do corpo do mais jovem num movimento suave para, em seguida, passar a grande mão pela sua bunda arrebitada que tanto apreciava. Em seguida entreouviu a barba dele roçar no rosto:
0
Comente!x

  — Só provoca se for terminar o serviço — murmurou com os lábios rentes ao ouvido de Aquiles.
0
Comente!x

  Virou a cabeça para mirá-lo e replicou em voz sedutora e suave:
0
Comente!x

  — Dorme aqui, então, pra finalizarmos esse serviço juntos. — Encostou dois dedos contra os próprios lábios e repousou nos de Augusto por um instante antes de começar a fotografar.
0
Comente!x

  À medida em que o garçom se concentrava na tarefa de registrar o dia tão bonito na vida do peão, foi impossível não perceber algumas mudanças sutis.
0
Comente!x

  O semblante estava suave. Não havia nenhuma sombra de dor do passado e nem mesmo dos medos que o aprisionavam. Com os funcionários do Night Club, ria, se divertia e brincava junto aos demais membros do bar sem grandes inibições. E, embora não tivesse consciência, era como se uma luz no seu âmago desse os primeiros sinais de que algo em si dava indícios que estava sendo curado na comemoração organizada às pressas com a ajuda dos empregados de lá. Não era uma imagem apagada e nem embaçada, mas sim a figura de um homem que permitia que a sua criança interna fosse feliz ao proporcionar-lhe uma coisa que nunca teve meios de acessar. A alegria do pertencimento.
0
Comente!x

  — Agora que bati foto de todo mundo, alguém, vulgo Tiago, poderia fazer o favor? — Entregou o celular para o primo, que foi pego desprevenido e se atrapalhou por estar com as mãos ocupadas. — Obrigado, de nada. — Se encaminhou para detrás da mesa, gesticulando. — E cuidado com meu celular! — berrou ao vê-lo quase o derrubando no chão.
0
Comente!x

  — Ué, priminho! Queria o quê? — Usou o queixo para segurá-lo e limpou a mão engordurada pelos salgadinhos na bermuda preta. — Você simplesmente me entregou do nada. Se não viu, estava segurando a cerveja com uma mão e a outra comendo.
0
Comente!x

  Parado ao lado de Augusto, sentiu-se feliz com os olhos brilhantes encontrando os seus.
0
Comente!x

  — Menos reclamação e mais ação, por favor. — Abraçou o amado e deitou a cabeça no ombro dele. — Capricha porque me nego a não ficar lindíssima nessas fotos!
0
Comente!x

  Tiago bateu diversas fotos deles em ângulos distintos. Aquiles alternava entre as poses. Enquanto em umas transmitia um ar de doçura e felicidade, em outras fazia caretas e colocava a língua pra fora. Augusto se divertia com a cena, o que o incentivou na brincadeira. Por fim, na última, se deu por satisfeito. O peão colocou a mão esquerda nos quadris transparecendo virilidade. Entretanto, a outra estava pousada sob o queixo do amigo. O amante o abraçava de lado, com o corpo virado para ele e levemente inclinado em sua direção, com olhos fechados e os lábios esticados como se fosse beijá-lo.
0
Comente!x

  — Pronto, gente. Já chega. Me recuso a acreditar que nenhuma ficou boa. Estou nessa brincadeira há uns cinco minutos. — Estendeu o aparelho telefônico para o primo. — E olha, tudo bem que sou o único parente aqui, mas saiba que não é bagunça, não — falou pra Augusto. — Se segurar na mão do meu primo vai ter que casar.
0
Comente!x

  Num ato sem um pingo de vergonha, o peão entrelaçou os dedos nos de Aquiles e ergueu as mãos para ser visível a todos. O tom de pele do rosto do rapaz, por sua vez, tornou-se rosado perante a declaração não verbalizada.
0
Comente!x

  Assim que viu Augusto sentado sozinho à mesa apreciando Aquiles dançando junto às demais meninas da boate o funk animado, Lívia não hesitou em puxar a cadeira e se acomodar ao lado do aniversariante.
0
Comente!x

  — Gostando da festa? — Pegou uma coxinha do pratinho branco e a mordiscou. — Não imaginava que seu aniversário estivesse tão próximo.
0
Comente!x

  — É que não costumo comemorar. — Deu de ombros como se não ligasse. — Sou sozinho nesse mundo. Nem lembro qual foi a última vez que comi essas comidas. — Gesticulou para o bar para enfatizar as palavras. — Isso pra mim é luxo.
0
Comente!x

  — Completamente errado não está, mas me obriga a discordar num ponto específico. Você era sozinho nesse mundão, meu bem. Era. Não é mais. E graças ó. — Apontou com o queixo para Aquiles, que rebolava tanto quanto as meninas do Night Club. — Foi ideia dele preparar essa surpresa, sabia? Não se importou se teríamos o valor necessário, se conseguiríamos arcar com os salgadinhos e as ornamentações... Simplesmente mandou os empecilhos pro quinto dos infernos e fez essa festa conosco.
0
Comente!x

  — É. Ele é um bom amigo. — Deu um meio sorriso.
0
Comente!x

  Não viu Lívia revidando os olhos perante a palavra “amigo”.
0
Comente!x

  — Amigo, é? Queria eu ter um amigo assim. — Não passou despercebido para Augusto como a palavra soava com uma pontada de ironia. — Acredita que Aquiles não queria que nós contássemos isso, não? — Mordeu a bolinha de queijo que acabara de apanhar.
0
Comente!x

  — Por quê?
0
Comente!x

  — Falou que não era necessário. Na dúvida, caso você perguntasse, era pra gente responder que ele comentou por alto e a gente se animou para preparar essa festa. — Cruzou as pernas.
0
Comente!x

  — Aquiles é um bom amigo, Lívia.
0
Comente!x

  Irritada, a moça replicou batendo as longas unhas na mesa de madeira:
0
Comente!x

  — Ah, qual é? Alô? Amigo aonde, criatura de Deus? Nem em Pedaço do Céu e nem nos cafundós da China ele é apenas um amigo seu. — Por não estar acostumado a vê-la alterada, Augusto arregalou as pálpebras de tão surpreso. — Que amizade é essa que vive conversando na moita e se tratando como um casal?
0
Comente!x

  — Mas é isso que a gente é, ué!
0
Comente!x

  — Ah, é? — Ergueu uma sobrancelha o desafiando. — Quantos amigos sentem ciúmes do outro só porque alguém, também conhecido como Leandro, lindíssimo por sinal, demonstrou interesse? Aí! — Apontou para o funcionário da família Navarro que ficou visivelmente contrariado à menção do rival e desviou o olhar. — Já até fechou a cara!
0
Comente!x

  — Não me fala dessa praga, não, que me dá urticária. — Tomou o último gole do refrigerante irritado.
0
Comente!x

  — Deve ter pesadelos com o coitado até hoje se deixar. Isso, Augusto, que sentiu, é ciúme porque o Leandro claramente estava atraído pelo Aquiles. Aquele gato não escondia de ninguém isso. Certeza que se você não estivesse na jogada, o garoto teria ficado com ele sem pestanejar.
0
Comente!x

  A imagem dos dois como um casal perturbou a mente de Augusto. Pressionou Lívia se esforçando para conter a irritação:
0
Comente!x

  — Desembucha. O que você veio tratar comigo? Essa conversa já está embaralhando minhas ideias.
0
Comente!x

  — Olha, eu não tenho muito tato pra falar com as pessoas, não, então já me desculpa caso eu seja direta demais. — Cruzou as mãos na mesa e apoiou o queixo nelas, suavizando o tom de voz. — Seja franco comigo. Sabia que é um fardo pesado demais para alguém como o Aquiles, que já passou por tantos problemas nessa vida, ser apaixonado por você e aguardar sua boa vontade de admitir seus verdadeiros sentimentos?
0
Comente!x

  — Do que está falando? — Franziu o cenho numa expressão carregada e séria.
0
Comente!x

  — Não é fácil aguardar a pessoa que a gente ama, não. O Aquiles gosta de você de verdade, só Deus sabe o motivo, porque nem eu que sou vivida sei. Olha o tanto de coisa que você evoluiu graças a ele. Acha que é fácil assim entregar tanto amor pra quem amamos sem recebermos o mínimo de volta? Já cansei de consolá-lo porque você não assume que se apaixonou.
0
Comente!x

  — Ele fica triste por minha causa? — murmurou.
0
Comente!x

  — É óbvio. Quem gosta de chove-não-molha? Ninguém gosta de dúvidas, mas sim de certezas quando se apaixona.
0
Comente!x

  — Nunca foi minha intenção deixá-lo triste — respondeu Augusto em voz baixa abalado pela realidade crua.
0
Comente!x

  — É o preço que se paga quando gostamos de quem não quer nos assumir. — Havia certa infelicidade nas feições da moça, como se fosse tomada pelas lembranças do passado. — Sei que você sente o mesmo por ele. O mundo mudou bastante. Não tem razões pra continuar com essa pose machista.
0
Comente!x

  — Que pose o quê? Eu sou homem.
0
Comente!x

  — Homem esse que está doido pra dar uns belos beijos na boca da sua formosura. Se fosse tão macho assim, não perderia tempo se preocupando com a sua imagem, mas sim aproveitaria de momentos maravilhosos ao lado de quem ama. Tudo nessa vida dá pra recuperar, menos tempo desperdiçado. — Lívia engoliu em seco abrindo uma latinha de cerveja sobre a mesa. — E você já perdeu um bom tempo sem tomar uma atitude significativa. Pensa no quanto poderia ter desfrutado ao lado de quem ama sem essa sua trava louca. É verdade ou não? — Despejou a bebida amarga na boca, tomando longos goles.
0
Comente!x

  O silêncio seguido foi pesado devido a visceral realidade.
0
Comente!x

  Augusto sequer cogitava que suas ações resultassem no sofrimento de seu Aquiles. Imaginá-lo melancólico ou em prantos geraram uma sensação pesarosa de culpa. Ele não merecia passar por isso. Ambos já suportaram o dissabor dos sofrimentos mais profundos da vida. A relação deles deveria trazer alegria, acalento e risos. Não choros — mesmo que não fossem intencionais e a outra parte não soubesse.
0
Comente!x

  — Bem, é isso. Pensa no que eu disse, tá? Nem você e nem ele deveriam passar por essa situação. Até porque os dois se amam, mesmo que você tente esconder.
0
Comente!x

  Levantou-se, mas, antes de dar o segundo passo, parou ao ouvir seu nome.
0
Comente!x

  — Lívia.
0
Comente!x

  Virou-se e se deparou com Augusto a encarando com perspicácia.
0
Comente!x

  — Não me contou tudo isso sem motivo, né? Tem mais alguma coisa aí que está escondendo.
0
Comente!x

  — Não necessariamente, mas já que perguntou... — Voltou a se sentar ao lado dele e foi necessário tomar um gole da cerveja para prosseguir. — Eu vivi isso com alguém.
0
Comente!x

  — Como assim?
0
Comente!x

  — Ah, é história antiga, velho... Antes de eu parar aqui morava numa outra cidade. Há uns anos conheci um cara endinheirado, bem-sucedido e maravilhoso — a mulher relatava num misto de angústia e nostalgia de uma época quando descobriu o prazer e o amor pela primeira vez graças a um homem de bom coração. — Tudo parecia muito lindo e combinávamos em tudo. Só havia um problema imutável. — Apontou para si. — Estou bem longe de ser uma mulher comum. — Havia um toque de ressentimento na voz. Não por ser quem era, mas pela sociedade ser um empecilho que a afastou de alcançar o que realmente desejava. — Por eu ser trans, precisávamos nos encontrar às escondidas. Ninguém podia saber. Até porque ele não era um pé rapado qualquer. Sem ofensa. Era um grande corretor de imóveis e a sociedade a que ele pertencia jamais aceitaria o nosso relacionamento. Em resumo? Fiquei nessa brincadeira por quase três anos. Porém... Quem suporta viver se escondendo? — Terminou a bebida na esperança dela afastar as lembranças da mente. — Acabamos nos separando porque não aguentei. — O sorriso de frustração não chegou aos olhos marejados. — Me mudei numa tentativa de esquecê-lo, e aqui estou.
0
Comente!x

  — E conseguiu superar?
0
Comente!x

  A mulher virou-se para o peão ver o quanto segurava o pranto com afinco. Prometera a si jamais voltar a derramar uma lágrima sequer pelo amor do passado e seguia firme no propósito de sua promessa. Em seguida apanhou o celular guardado entre os seios e mexeu por uns segundos antes de mostrar a foto pra Augusto.
0
Comente!x

  — Pode ir passando as fotos. Observa o semblante dele ao meu lado e agora, junto da esposa.
0
Comente!x

  De fato, a mudança na expressão era visível. Com Lívia, o corretor não só parecia, como também era feliz. Ao lado da esposa, não. O sorriso nunca era genuíno e o rosto trazia sempre seriedade e um ar enfadonho, como se demandasse energia demais para se manter ao lado da mulher.
0
Comente!x

  — Entendeu o drama? — Pegou o celular de volta. — Como se não fosse o suficiente, o Gustavo vive entrando nas minhas redes sociais e curte cada foto postada. Me observa de longe, mesmo que não goste de Instagram e nem de Facebook. Vive puxando assunto comigo, mesmo que eu nunca o responda. Adoraria respondê-lo, mas... Eu sei que ele não vai largar a esposa. Mereço mais do que ser a amante na minha própria história. Ouça as palavras de quem viveu isso na carne, meu amigo. Ninguém suporta aguardar a pessoa, e menos ainda se esconder para amar. Você tem a oportunidade de ter uma história mais feliz comparada a minha. — Bateu o indicador na ponta do nariz do peão. — Faça valer a pena.
0
Comente!x

  O resto do dia correu tudo bem na medida do possível. Augusto conseguiu esconder a culpa após descobrir por meio de Lívia que essa quase relação era um fardo e motivo de tristeza para Aquiles, embora ambos se amassem. Mesmo quando ele estava a alguns passos de distância, não deixava de ser observado pelo amado. Assim como prometeu, não saiu de perto dele. Lhe proporcionou apoio num momento em que obviamente se sentia exposto emocionalmente. O garçom sabia como o amado era discreto em sua vida particular e não era de se surpreender que seria uma experiência totalmente nova aquela onde estaria rodeado de amigos — ou melhor, uma família cuja formação se deu graças aos infortúnios da vida.
0
Comente!x

  Embora não tivesse levantado para dançar junto do rapaz — não por não querer, mas sim por não saber dançar músicas animadas —, isso não os impediu de se divertirem em suas respectivas maneiras.
0
Comente!x

  Aquiles se arriscava na barra de pole dance onde Paloma tanto gostava de se apresentar. Ela, naquele instante, trocava beijos com Fernando num canto discreto da boate, então ele tinha livre acesso ao instrumento enquanto as meninas dançavam pelo bar ao som de Coração Cigano.
0
Comente!x

  Para se movimentar melhor na barra, retirou a blusa, a calça e a sandália, ficando somente com a boxer preta escondendo a nudez. Dançava de frente para Augusto, que estava sentado no acolchoado vermelho em frente a ele. As escuras íris eram tão carregadas de paixão, admiração e luxúria, que Aquiles sentiu a sua alma ser atravessada pelo olhar. Subia na barra e fazia as acrobacias sensuais acompanhando ao ritmo, a melodia ou as vozes dos cantores. Permitiu que o homem tivesse acesso a todas as áreas de seu corpo definido nos ângulos certos. Conhecia de linhas corporais, dança e era expressivo, então não foi difícil deixá-lo a beira da loucura de tanto desejo.
0
Comente!x

  O mais jovem explorava a barra com primor ao ponto de se pendurar de cabeça pra baixo com a força muscular das coxas. Dava giros nela e fazia movimentos similares aos que realizaram quando passou a noite no quarto do peão, rebolando, mexendo os quadris, passando as mãos pelo tronco e jogando a cabeça para trás em movimentos altamente sensuais.
0
Comente!x

  Quando não estava na barra, dançava no chão bem na frente de Augusto, que se recostara no acolchoado com as pernas cruzadas na tentativa infrutífera de esconder o volume presente por debaixo da calça.
0
Comente!x

  Aquiles não era inocente, muito menos santo. Pelo contrário. Aproveitou do estado do outro para atiçá-lo mais ao se deitar no palco do pole dance e fazer uma série de jogo de pernas onde se alternava em levantá-las, abri-las e fechá-las no ar ou girá-las. Quando não era isso, apoiava os pés firmes no chão com os joelhos flexionados e retornava a abrir elas passando a mão em si, inclusive no centro — lugar que Augusto desejava explorar, principalmente porque o próprio já sentia o seu pau duro pulsar tamanha a excitação — ou então sentava-se no chão do pequeno palco de joelhos separados e rebolava encarando Augusto de forma depravada.
0
Comente!x

  O ar malicioso na face do garçom era resultado de ver o homem por quem se apaixonara completamente embriagado pela vontade de colocá-lo de quatro na cama apenas por observá-lo dançar. Se estava naquele estado apenas por apreciá-lo dançando, intimamente desejou descobrir como seria caso estivessem sozinhos e entregues a paixão lasciva.
0
Comente!x

  Por fim, caminhou até o capataz, que descruzou as pernas devido ao incômodo do pau inchado que suplicava por atenção. Estava com o tronco inclinado para frente quase hipnotizado pelo magnetismo alheio.
0
Comente!x

  — Cê sabe que homem nenhum se aguenta de tanta tentação, né, formosura? — sussurrou apoiando a testa na barriga lisa. De olhos fechados, apenas desfrutou da sensação das mãos deles acariciando os cabelos e o encarou lascivo. — Qual é a graça de ver se não posso tocar?
0
Comente!x

  Aquiles segurou-lhe as laterais do rosto o fitando de cima com um leve sorriso.
0
Comente!x

  — Você, querido, pode me tocar sempre que te der na telha e sabe disso. — Inclinou o tronco e murmurou sem piscar. — Só não faz isso porque não quer.
0
Comente!x

  Aproveitando que a cortina que protegia a área do pole dance não estava totalmente aberta e dava certa privacidade para eles, o segurou pela cintura e deslizou a outra mão pelo abdômen de Aquiles para baixo lentamente até encontrar o pau duro, onde desenhou pequenos círculos na grossa glande. O garçom cravou as unhas nos ombros de Augusto sobre a camiseta preta.
0
Comente!x

  — Tem certeza, minha formosura? — Os dedos que envolviam a cintura adentraram poucos centímetros na borda da boxer numa promessa silenciosa. — Vamos ver se eu vou arregar mais tarde.
0
Comente!x

  O karaokê foi liberado a pedido de Bibi três horas depois.
0
Comente!x

  A mulher estava claramente abalada com o afastamento de Osmar Navarro e a bebida não a ajudava a se conter. No decorrer da comemoração tomou mais cerveja do que de costume e sabe-se lá onde encontrou uma garrafa de vinho tinto. Nem se importava em usar um copo. Bebia do gargalo mesmo.
0
Comente!x

  Permaneceu na plateia quando os demais se alternaram na cantoria. Infelizmente, a maioria das canções eram com teor romântico e não a ajudavam em nada. Por fim, após dançar abraçada com o vinho ao som de Marília Mendonça — uma visão um tanto quanto excêntrica e cômica —, deu-se por vencida. Subiu ao palco segurando garrafa de vinho pela metade, para cantar Evidências a plenos pulmões. Berenice cantava bem e tinha uma boa extensão vocal, mas não naquelas condições — bêbada e aos prantos.
0
Comente!x

  — E nessa loucura. De dizer que eu não te quero. — Pegou o microfone do suporte e o ato foi tão abrupto que quase se desequilibrou dos saltos. — Vou negando as aparências. Disfarçando as evidências. Mas pra que viver fingindo? Se eu não posso enganar meu coração. Eu sei que te amo! — o gritou saiu alto e desafinado o suficiente para o público encolher os ombros numa careta. — Chega de mentiras. De negar o meu desejo eu. — Tomou um gole do vinho e continuou a cantar, ou melhor, se esgoelar.
0
Comente!x

  — Gente, pelo amor de Deus e dos nossos tímpanos. Alguém tira ela de lá — Aquiles pediu segurando a risada.
0
Comente!x

  — Tira não. Tira não que isso está cômico demais! — Lívia conseguiu dizer entre risos.
0
Comente!x

  — Isso é entretenimento de qualidade! O que é novela mexicana perto dessa cena? — Yuri secava as lágrimas de tanto rir.
0
Comente!x

  — Novela mexicana? — O aniversariante precisou sentar na cadeira ao lado do rapaz para não desabar de tanto rir.
0
Comente!x

  — Eu gosto! É um prazer culposo. Que posso fazer? — Virou-se para Tiago e disse imitando o diálogo do dramalhão mexicano. — Carlos Daniel, yo soy... La usurpadora.
0
Comente!x

  — Gente, vocês são ecléticos demais pro meu gosto — o primo proferiu sem entender nada. — Como saíram da cantoria da Berenice para A Usurpadora?
0
Comente!x

  — Primo, nem eu sei. Já entreguei pra Deus há muito tempo.
0
Comente!x

  — Osmar. Por que me abandonou, Osmar? — Bibi aparentemente desistiu de cantar e decidiu que era a hora propícia para declarar seu amor. — Você já tinha casado com uma piranha antes. O que custava separar dela pra ficar comigo? Piranha por piranha dá nos cangotes mesmo! Ia só trocar quatro por cinco terços.
0
Comente!x

  — Isso daí faz sentido? — Augusto encarou Aquiles confuso.
0
Comente!x

  — Na cabeça dela deve fazer, Augusto. Eu só aceito e é vida que segue.
0
Comente!x

  — Descobri por que a Bibi não costuma beber. — Tiara comentou aos risos. — A bebida entra e o Português vai embora junto com o juízo.
0
Comente!x

  — Foi só essa praga da Ágatha chegar pra você me abandonar. E quando éramos só nós dois naquela cocheira? E quando éramos só nós dois e a luz do luar pra banhar seu corpinho todo peludinho e gordinho?
0
Comente!x

  — Que visão dos infernos. — Aquiles se benzeu. Afinal, o dito cujo era endinheirado, sim, mas beleza não era o ponto forte da família Navarro.
0
Comente!x

  Com exceção de Candelária por herdar a beleza da mãe.
0
Comente!x

  — Eu já vi gente com mau gosto, mas assim é a primeira vez. — Yuri não se aguentava de tanto rir.
0
Comente!x

  — Amigo, eu tenho que te avisar dos caras por quem se apaixonou, amigo? — Encarou o teto quase numa súplica. — É essa a minha missão, Pai? Devo contar a ele?
0
Comente!x

  — Eles não eram tão feios.
0
Comente!x

  — Yuri... Um deles parecia um narcotraficante colombiano pobre, Yuri...
0
Comente!x

  — É, nesse sentido tenho que concordar.
0
Comente!x

  — Não se preocupa porque todo mundo tem um passado meio sombrio — respondeu Zeca se controlando pras palavras saírem.
0
Comente!x

  — A esse nível aí? — Incrédulo, apontou para a mulher que voltou a dançar abraçada com a garrafa de vinho.
0
Comente!x

  — Tem uns que se destacam por serem piores, né?
0
Comente!x

  — Essa daí entrou no fundo do poço com a Samara e vai ficar por lá por um tempo, pelo visto. — Augusto segurou o braço de Aquiles gostando do momento hilário com sua formosura apesar de não ter pegado a referência do filme e nem compreendido a piada direito.
0
Comente!x

  — Osmar, você foi o primeiro homem que comeu o meu...
0
Comente!x

  — Beatriz! — Aquiles, Augusto e Lívia gritaram juntos.
0
Comente!x

  — E eu gostei! Achei que não fosse gostar, mas gostei porque você sabe fazer direito com o seu pauzinho fino e meio torto!
0
Comente!x

  Desesperado, Zeca subiu ao palco junto a Aquiles para tirá-la de lá.
0
Comente!x

  — É, Bibi, foram lindas as suas palavras carregadas de... — a observou tropeçando nos próprios pés, mesmo andando com o auxílio de Zeca — cachaça nas ideias e amor. Não é uma boa combinação, gente. Não recomendo, e vocês acabaram de ver o motivo com os próprios olhos, não é? Bem, aproveitando o momento, gostaria de cantar uma música mais alegre, então... Fernando, conecta aí pra mim o instrumental da seguinte música.
0
Comente!x

  Quando o instrumental de Olha pra Mim iniciou, Aquiles estava agachado de perfil e cantou os primeiros versos, transmitindo um certo ar de timidez e serenidade encarando Augusto, como se confessasse segredos dos quais jamais revelara antes. Ficou mais confiante ao notar pelo semblante do amado que ele compreendeu o quanto a letra combinava perfeitamente com a história dos dois, onde um sempre deixava claro as suas emoções e intenções e transmitia a mensagem de forma clara do que sentia sem pudor ou vergonha enquanto o outro se continha ao máximo e evitava aprofundar a relação.
0
Comente!x

  Ao ouvir a canção virar e ficar mais animada, levantou-se e tomou uma postura mais altiva e confiante, sem nenhum medo dos julgamentos ou críticas. A presença de palco era nítida e fez as meninas dançarem onde estavam com a batida animada. Algumas subiram nas mesas, outras foram acompanhadas pelos rapazes, e Paloma foi para a barra de pole dance.
0
Comente!x

  Definitivamente cantava para Augusto. A mensagem era clara como água e não podia ser negada. Ele o queria. Queria seu corpo, sua alma, sua paixão, seu amor e todo o resto — e não havia problemas nisso e nem vergonha. Sempre foi verdadeiro com seus sentimentos e jamais se trairia mentindo para si e não sendo sincero consigo mesmo. No passado cometeu esse erro e pagou um preço caro por não permitir ser quem era devido ao pai preconceituoso. Hoje não voltaria a trair sua identidade como homem gay dessa maneira.
0
Comente!x

  Ainda no palco, pegou uma cadeira e a colocou com força no chão para sentar-se nela de pernas cruzadas enquanto cantava:
0
Comente!x

  — Que eu te quero não é mais segredo, todo mundo sabe só falta você. — Apontou para o peão. — Entender que eu não faço o seu tipo, mas se vier comigo eu posso fazer. — Descruzou as pernas e as separou, abrindo-as de forma sensual rebolando. — O seu corpo inteiro tremer quando meu corpo chega pertinho do seu. — Inclinou o tronco num olhar profundo carregado de desejo cuja retribuição foi recíproca. — Eu te faço esquecer de outro beijo. Faço desejar o gostinho do meu.
0
Comente!x

  Levantou da cadeira e deu alguns passos para frente, cheio de atitude, passando a mão pela lateral do tronco. No decorrer da música não se cansava de gesticular, caminhar pelo palco, sorrir e dançar durante a performance. Irradiava poder, animação, paixão e uma sensualidade natural nos gestos. A combinação de todos esses fatores deixava Augusto completamente encantado, principalmente ao ser provocado pela dança — e Aquiles sabia como atiçá-lo. Rebolava sem pudor nenhum e, quando inclinou o corpo com as costas alongadas e apoiou a mão na cadeira, adorou ver como um certo volume surgiu na calça do peão graças a aura envolvente de pura volúpia.
0
Comente!x

  Acomodou-se novamente na cadeira para recitar com voz de criança, numa expressão de inocência e ternura:
0
Comente!x

  — Eu gosto de você. Mas... E se eu te machucar? — Fez um biquinho e mudou a frase seguinte com riso travesso. — Você só vai me machucar se não gostar de mim. Mas eu sei que você me ama.
0
Comente!x

  Foi ovacionado por todos ao descer do palco e se encaminhou para Augusto que estava encostado na parede perto da entrada do bar. Zeca o parou no meio do trajeto e sussurrou algo no ouvido. Aquiles concordou e retomou o caminho, sendo recebido pelo peão o segurando pela cintura.
0
Comente!x

  — Cantou bonito, hein? Estava uma formosura lá em cima.
0
Comente!x

  Ao fundo se ouvia a voz de Lívia e Fernando ao microfone, cantando o dueto de Se Eu Não te Encontrasse numa linda combinação de vozes.
0
Comente!x

  — Gostou, mesmo? — Virou de costas para ele para observar os amigos cantarem e foi puxado até sentir o corpo do peão contra si, principalmente para constatar como o mais velho estava intumescido.
0
Comente!x

  Sussurrou em seu ouvido para somente Aquiles ouvir:
0
Comente!x

  — Por demais. Estava me deixando louco lá em cima. — Augusto deslizou as mãos pela borda da blusa transparente e segurou o mais jovem por debaixo do tecido, onde depositou o apertou desejoso.
0
Comente!x

  — Eu sei. — Precisou morder os lábios para não arfar. — Até porque estou sentindo isso agora. — Remexeu os quadris propositalmente ao som da melodia e adorou ouvir a respiração entrecortada na nuca.
0
Comente!x

  — A gente está em público.
0
Comente!x

  — Dane-se. Tudo que é proibido é mais gostoso, Augusto. — Pendeu a cabeça para encará-lo. — Até parece que não está gostando.
0
Comente!x

  — Safadinho. — Os olhos escureceram carregados de desejo. — Vem. Ou você dança comigo ou te levo pro seu quarto e não sairemos de lá até amanhã.
0
Comente!x

  — Embora eu esteja tentado a aceitar esse convite de ficarmos trancados no meu quarto por tempo indeterminado, eu danço contigo, sim. Desde que me prometa que virá essa noite pra cá.
0
Comente!x

  — Pra ficarmos no seu quarto?
0
Comente!x

  — Claro. Sozinhos.
0
Comente!x

  — Ótimo.
0
Comente!x

  Virou-se para o peão, envolveu os braços no pescoço de Aquiles e encostou a bochecha de olhos fechados no vão entre o pescoço e o ombro definido apreciando a sensação de Augusto segurá-lo pela cintura e a firmeza do corpo do peão tão próximo do seu. Apenas se movimentaram de um lado pro outro completamente entregues a atmosfera de amorosidade e harmonia que os rodeou. Relaxou perante o toque do capataz, que afagava as costas sobre a camisa transparente com os dedos.
0
Comente!x

  Com Augusto descobriu gostar da sensação de pertencer a alguém. Não como se fosse um objeto qualquer cujos atributos físicos valessem para serem aproveitados a bel prazer de outros e todo o resto como bagagem emocional, existência, personalidade e a sua essência em si fossem descartados. Era justamente o contrário. Na companhia do capataz sentia-se protegido e seguro porque, já que havia um amor recíproco e lhe estimava, o conjunto de tudo que definia Aquiles era igualmente valioso. Não era necessário se esconder e nem se arriscar a sofrer agressões só por passarem momentos juntos ao redor das pessoas — o contrário vivenciado pelo garçom no decorrer da vida.
0
Comente!x

  — Aquiles. — Puxou o ar com força e o soltou contra os cabelos. — Por que não queria que eu soubesse que a ideia sobre a festa foi sua?
0
Comente!x

  — Quem contou isso? — Levantou a cabeça para encará-lo de olhos arregalados.
0
Comente!x

  Aquela informação em especial não era para chegar até os ouvidos do peão.
0
Comente!x

  — Lívia.
0
Comente!x

  — Boca grande! — resmungou entre dentes.
0
Comente!x

  — Não briga com ela. Não fez nada de errado.
0
Comente!x

  — Fez, sim. Não era nada pra fofocar.
0
Comente!x

  — Está nervosinho, é? — O meio sorriso demonstrava achar graça da situação.
0
Comente!x

  — Estou, sim. Doido pra pegar aquele cabelo dela e arrancar mecha por mecha pra aprender a não sair cagoetando por aí o que não deve.
0
Comente!x

  — Mas está irritado assim porque ela quebrou um acordo entre vocês ou porque, ao me contar a verdade, Lívia me mostrou o quanto sou importante pra você?
0
Comente!x

  Precisou de alguns segundos para processar a pergunta.
0
Comente!x

  — Você ficou muito perspicaz desde que começou a terapia. — Pestanejou desviando o olhar. — Isso não está sendo tão vantajoso pra mim.
0
Comente!x

  — Ainda não respondeu a minha pergunta. Por que não queria que eu soubesse a verdade sobre a festa?
0
Comente!x

  Aquiles apoiou a testa no ombro de Augusto em silêncio. Tinha medo da reação dele perante a resposta.
0
Comente!x

  O outro o pressionou apertando de leve a cintura.
0
Comente!x

  — Me conta. Sabe que pode confiar em mim.
0
Comente!x

  — É que... — O fitou receoso com os lábios entreabertos. — Eu fiquei com medo.
0
Comente!x

  — De quê? — Franziu o cenho.
0
Comente!x

  — De você se afastar de mim. Estou amando demais esse seu novo posicionamento, mas... Seria capaz de lidar bem com isso ao se dar conta de que você e o seu bem-estar são prioridades pra mim? Você já se afastou antes e não queria que isso se repetisse. Não imagina como fiquei com medo de não voltar a falar comigo na época. — A expressão receosa demonstrava o quanto aquela possibilidade o assombrava.
0
Comente!x

  — Eu nunca mais vou me afastar de ocê. — As palavras foram pronunciadas com tamanha intensidade que foi impossível para Aquiles não acreditar nelas. — Eu gostei de saber o quanto você se importa comigo porque... — Inclinou o corpo até alcançar a orelha do rapaz, cuja pele se arrepiou devido a emoção e expectativa. — Porque eu amo você, minha formosura. Demais.
0
Comente!x

  Precisou segurá-lo ainda mais forte ao ouvir a declaração pela primeira vez. Não imaginava que os caminhos se abririam para finalmente expressar os reais sentimentos. Foi-lhe exigido excessiva paciência dia após dia, semana após semana, mês após mês. Ao escutar as palavras daquela forma, uma confidência íntima de uma alma que, após amar e se sentir amado depois de se anular no decorrer da vida, reconheceu a si como um indivíduo capaz de ter essa troca emocional e se apaixonar — não apenas isso, mas também se declarar —, não soube como reagir. Continuava se movendo de um lado para o outro porque era conduzido. Só notou o choro devido a visão embaçada.
0
Comente!x

  — Você... — Arfou ao sentir o beijo depositado no pescoço antes de Augusto se afastar. — Você disse que...
0
Comente!x

  Gaguejava sem conseguir completar a frase. Os olhos lacrimejavam num doce júbilo que pedia a confirmação de Augusto, que segurou o rosto jovial entre as palmas e murmurou, olhando dentro dos olhos:
0
Comente!x

  — Eu te amo. — Secava as lágrimas de Aquiles com os dedos tão emocionado quanto ele segurando o choro. — Te amo desde a primeira vez que te vi — finalizou com a voz embargada.
0
Comente!x

  Sorriu em meio ao pranto. Colocou o pulso no nariz numa tentativa frustrada de abafar o som dos soluços. O vendo tão emocionado, embora não esperasse o contrário pelo rapaz ser conhecido por chorar facilmente, o puxou para um abraço apertado. Abraço esse onde ambos se sentiram finalmente em casa, pertencentes a um lugar e a alguém — e certamente jamais voltariam a se separar. Tal constatação trouxe paz e tranquilidade no âmago de ambos, como se fossem destinados a um encontro onde, além de descobrirem o amor, teriam a possibilidade de tornarem-se pessoas melhores dentro de seus respectivos modelos de mundo.
0
Comente!x

  Não distinguiram quanto tempo passaram abraçados. Porém, ao ouvirem uma música animada de parabéns tocando ao fundo e as pessoas os cercarem cantando parabéns para Augusto, por sorte já estavam mais serenos. O aniversariante foi na frente com o amado logo atrás, que batia palmas e vibrava.
0
Comente!x

  — Amiga. — Lívia abraçou o menor pelas costas o fazendo parar por um momento. — Está tudo bem? — indagou preocupada pelo estado do amigo.
0
Comente!x

  — Estou ótima. — Aquiles secava o rosto com um sorriso enorme. — Estou feliz, amiga. Feliz!
0
Comente!x

  Compreendendo que, no mínimo, algo de imensa relevância aconteceu entre eles enquanto o casal estava sozinho nos últimos minutos, o abraçou alegre pelo amigo.
0
Comente!x

  — Vamos. — Separou-se dele. — Você merece ficar na frente de todo mundo pro seu boy te ver.
0
Comente!x

  O ajudou a passar pelas pessoas ali presentes até colocá-lo bem de frente para Augusto.
0
Comente!x

  — Discurso! Discurso! Discurso! — Puxou Beatriz bêbada e logo foi acompanhada pelos demais.
0
Comente!x

  — Tá certo, tá certo. — Coçou a barba num misto de alegria e timidez. — Eu não sou muito bom nessas coisas, mas agradeço a todo mundo aqui pela comemoração. E eu sei que não aconteceria sem o Aquiles. — Esticou o braço na direção dele. — Vem pra cá.
0
Comente!x

  A felicidade de Aquiles transparecia em cada músculo facial e marca de expressão no rosto. Ao parar do lado do capataz, o homem tratou de segurar a pequena mão.
0
Comente!x

  — Todos do bar são muito bons e importantes pra mim. — Virou-se para o rapaz. — Principalmente você. — Ergueu as mãos e depositou um beijo rápido nas costas da mão do menor. — Obrigado. — Voltou a atenção para os funcionários do estabelecimento e se deparou com as feições de contentamento deles perante o gesto de carinho. — Obrigado, gente. E é isso.
0
Comente!x

  Zeca não se demorou em acender as velas para cantar parabéns. Augusto parecia ter renascido após se declarar para o garçom, o que deixou o restante da comemoração mais especial e única. E assim passaram os últimos minutos do dia. Juntos e partilhando do mesmo regalo.
0
Comente!x

  No pôr do Sol, Augusto avisou para Aquiles que iria pra casa. O garçom separou em potes diferentes uma parte dos salgadinhos, do bolo e dos docinhos pro peão levar junto com a quentinha do almoço. O acompanhou até a caminhonete onde ele primeiro guardou as coisas antes de se despedir.
0
Comente!x

  — Não se preocupa. — Apoiou a mão na porta da caminhonete, ficando em frente a Aquiles. — Eu não demoro a voltar.
0
Comente!x

  — Não?
0
Comente!x

  — Só vou tomar um banho e organizar algumas coisas. Mais tardar oito da noite chego aqui.
0
Comente!x

  — Está bem, então. — O rapaz abaixou a cabeça, tirando uma mancha de glacê da barra da blusa.
0
Comente!x

  Foi pego desprevenido, então não teve tempo de raciocinar. Como poderia? Aconteceu rápido demais. Num segundo mexia na blusa e no outro Augusto ergueu o queixo dele com um dedo e depositou um selinho estalado antes de entrar na caminhonete. Deu uma piscadela pro menor e começou a dirigir.
0
Comente!x

  Observou o veículo se afastar até sumir de suas vistas. Retornou para o bar quase saltitando de tão animado por tudo o que aconteceu entre eles — e perspectiva do que viria a acontecer durante o decorrer da noite. Ao ver o cozinheiro na cozinha enquanto os demais arrumavam o bar rapidamente para o funcionamento noturno, lembrou-se da previsão das cartas anos atrás.
0
Comente!x

  — Zequinha, Zequinha... — Parou onde serviam as bebidas se apoiando na bancada. — Queria dar uma palavrinha contigo.
0
Comente!x

  — Vai falando. — Guardava as comidas da festa na geladeira.
0
Comente!x

  — Lembra quando abriu jogo pra mim? Foi no dia em que a Candelária me trouxe pra cá.
0
Comente!x

  — Lembro.
0
Comente!x

  — Você me avisou que demoraria, mas um homem chegaria na minha vida. Se referia ao Augusto, né?
0
Comente!x

  — Segura aí. — Fechou a geladeira. — Já volto.
0
Comente!x

  Retornou quinze segundos depois, embaralhando o Baralho Cigano. O assoprou antes de colocá-lo sobre a bancada.
0
Comente!x

  — Corta em três montinhos e escolha um.
0
Comente!x

  Assim Aquiles o fez, escolhendo o montinho do meio.
0
Comente!x

  — Sol. — Zeca abriu um sorriso ao abrir o jogo. — Coração. Aliança. Cigano. Âncora. Árvore. Se eu puxasse cada uma dessas cartas individualmente bastaria porque todas elas responderiam como um sim pra sua pergunta. Não tenha dúvida. Ele foi quem apareceu na tiragem. Aproveite, menino, porque esse cigano aqui — apontou para a lâmina do Cigano — não vai sair da sua vida. Lembra quando falei que não veio pra esse mundo pra ser solteiro? — Puxou mais a última carta, finalizando o jogo com a lâmina da Casa. — Pois é.
0
Comente!x

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Todos os comentários (2)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x