1º Capítulo
Nada estava sendo fácil. Nem as amigas conseguiam ajudar %Daya% quando o assunto era Choi San. Desde o término, %Daya% mal saia de casa, até os conteúdos na internet estavam pausados e a agência dela já começava a entrar em desespero. A mulher cogitou inclusive abandonar tudo e voltar para o Brasil, quem sabe isso apagaria tudo?
As luzes da cafeteria certamente dariam uma foto linda para ela postar nos s
tories do Instagram, mas ela se sentia apagada, sem brilho, como se a luzinha interna que ela tinha desde pequena tivesse se apagado. Precisava sair dessa, ela pensou enquanto apertava a xícara de café entre as mãos, sentindo o quente do café nas palmas.
Eunbin chegou logo em seguida e procurou por ela na cafeteria lotada. %Daya% levantou um dos braços e começou a acenar para o agente, rapidamente, esperando que ele a visse, assim ela não precisaria pegar o telefone na bolsa, e ver a foto de San, que ainda era seu papel de parede.
Por sorte, Eunbin a encontrou com rapidez e caminhou a passos largos e rápidos na direção da mesa dela. Ao chegar, depositou um beijo rápido na bochecha da brasileira e puxou uma cadeira para se sentar.
— Tenho uma novidade incrível, e uma notícia não tão boa assim. Péssima na verdade. — Os olhos de Eunbin e %Daya% se encontraram.
— A agência quer rescindir o contrato? É isso? — Os olhos de %Daya% se arregalaram, saltando levemente para fora.
O coração também deu um salto dentro do peito.
— %Daya%, você precisa reagir, sabe disso não sabe? Os seus contratantes têm reclamado da falta de conteúdo, seus seguidores já notaram que tem algo de errado. O San também sumiu, e os fãs estão começando a ligar os pontos.
— Acho que fazer qualquer pronunciamento sobre nosso término vai tornar tudo muito real para mim mesma, e por isso não falei nada publicamente ainda.
— E nem precisa… — Eunbin pigarreou.
O homem abriu a pasta e colocou os papéis na frente de Eunbin, que colocou a xícara branca de lado para pegar os mesmos. As mãos dela tremiam um pouco.
Passou os olhos pelo contrato, lendo cada linha com atenção, sentindo o coração bater mais forte a cada palavra.
O título do documento parecia brilhar em negrito, como se zombasse dela:
“Contrato de Campanha – Fragrância Dual ‘Éternel’ – Vigência: 12 meses.” Logo no início, um item já fez o estômago de %Daya% se revirar.
Cláusula 2 – Representação da Marca: A contratada, influencer %Daya% Alves, e o contratado, artista Choi San, atuarão como dupla oficial de divulgação da fragrância Éternel, nas versões masculina e feminina, por um período de 12 (doze) meses a contar da assinatura deste documento. Os olhos dela correram pela página. O texto era nítido, direto, impossível de ignorar.
Cláusula 3 – Imagem e Presença Obrigatória: Ambas as partes deverão comparecer juntas a todas as ações presenciais de marketing, incluindo: sessão de fotos, filmagens, eventos públicos, entrevistas e lançamento oficial. A química entre o casal é essencial para a narrativa da campanha, sendo parte intrínseca da estratégia de branding aprovada pelo presidente da marca. A respiração de %Daya% falhou.
Cláusula 4 – Narrativa Oficial: Durante o período da campanha, a marca solicita manutenção da imagem pública do casal, uma vez que estratégias de marketing já foram previamente alinhadas ao relacionamento dos contratados. O não cumprimento poderá acarretar rescisão contratual por quebra de imagem e multa estipulada no item 9.1. A última frase parecia pesar toneladas.
Cláusula 5 – Motivo da Contratação: O presidente da marca ‘Éternel Fragrances’ reforça seu apreço pelo casal Choi San & %Daya%, considerando-os símbolo perfeito da dualidade da fragrância. Acredita-se, inclusive, que preservar a narrativa romântica entre ambos potencializará significativamente os resultados da campanha na Ásia e na América Latina. %Daya% sentiu o mundo girar.
— Tá brincando com a minha cara, Eunbin? Isso aqui não vai ser assinado nem sob meu cadáver. Eu e o San, numa campanha juntos? Por um ano inteiro?
Eunbin umedeceu os lábios, visivelmente nervoso.
— Ai que tá o problema %Daya%, o San já assinou o contrato dele.
— O que? Que porra é essa? Ele tá maluco de assinar um bagulho desses sem falar comigo?
Eunbin suspirou pesadamente, provavelmente já prevendo a minha reação.
— O San foi estratégico %Daya%, você viu o valor do contrato por uma campanha tão simples como essa?
— Simples, Eunbin? Simples é o meu pau.
— Fala baixo %Daya%! — Ele sussurrou, olhando ao redor. — Estamos em público, deixe para usar sua boca suja quando encontrar o San. Você não tem outra opção a não ser assinar esse contrato. Vai ser fácil fingir, vocês foram namorados por anos, e nem tem tanto tempo assim que estão separados.
— Eunbin! — Minha voz se elevou algumas dezenas. — Fácil? É fácil fingir ser namorada do San quando eu ainda to na fossa? Meu Deus!
%Daya% esfregou os olhos e depois levou a xícara de café aos lábios.
— O que acontece se eu não assinar essa porra?
Eunbin respirou fundo, como se estivesse prestes a pisar em um campo minado.
— Se você não assinar… — Ele ajeitou os óculos, claramente desconfortável. — A marca rescinde o acordo
com você, mas mantém o do San, porque ele já está comprometido. E aí, além de perder o contrato, você perde três campanhas futuras que estão atreladas a esse acordo.
%Daya% arregalou os olhos.
— E tem mais… — Ele engoliu seco. — Sua agência já avisou que não vai conseguir segurar a pressão dos patrocinadores se você recusar. Vai parecer instabilidade emocional. E nesse meio… — ele fez um gesto vago com a mão — você sabe, qualquer rumor vira uma avalanche.
— Então é isso? — %Daya% deu uma risada amarga, sem humor. — Além de ter que fingir que não quero enfiar o pé no cu do San, eu ainda tenho que fazer pose romântica do lado dele por um ano inteiro senão eu perco tudo?
— Basicamente… sim. — Eunbin deu um sorriso tímido, quase culpado. — E você sabe que San é… profissional. Ele vai levar isso como trabalho. Ele
sabe que vocês não precisam se amar pra fazer fotos bonitas.
%Daya% bateu a xícara na mesa com força suficiente para Eunbin pular na cadeira.
— A gente não faz fotos bonitas, Eunbin, a gente faz fotos que parecem capa da porra de um romance! — Ela esfregou o rosto com as duas mãos. — Meu coração ainda parece purê de batata e você quer que eu faça caras e bocas abraçada no ex que me fez chorar por semanas?
— %Daya%… — Eunbin colocou a mão sobre a dela, baixinho. — Se isso consola… o San perguntou de você quando assinou.
— Só… se você estava bem.
Por um segundo, %Daya% odiou o fato de isso ainda mexer com ela.
— Foda-se ele. — murmurou, virando o café goela abaixo. — Fala logo. O que acontece
exatamente se eu não assinar?
Eunbin soltou o ar devagar, como quem entrega a sentença final.
— Você perde o contrato, perde três campanhas futuras, perde a estabilidade com a agência… e provavelmente perde metade dos seus patrocinadores nos próximos três meses. — Ele deu de ombros, quase pedindo desculpas. — E a mídia vai inventar mil teorias sobre você estar “descontrolada” depois do término.
Barulhos de xícaras, pessoas conversando ao fundo, música baixa na cafeteria… tudo pareceu longe demais.
Até que %Daya% afundou na cadeira, os olhos fixos no papel.
— Um. Ano. — Ela sussurrou para si mesma, incrédula. — Fingindo que não estou quebrada.