3º Capítulo
%Junsui% bufou quando a caixa ameaçou cair justamente quando ela estava chegando no topo da escada do andar de seu apartamento. Mas ai ele apareceu, como se estivesse saindo exatamente de um filme: os cabelos negros molhados, como se ele tivesse acabado de sair do banho, a calça de moletom cinza nem muito larga, nem muito apertada, a regata da mesma cor marcando os músculos que ele parecia estar começando a moldar na academia…
Não era invasivo, nem descaradamente curioso. Era calmo demais para alguém que acabara de surgir daquele jeito, mas intenso o suficiente para fazê-la esquecer, por um segundo, da caixa ameaçando despencar escada abaixo.
Os olhos dele eram escuros, profundos, semicerrados como se estivesse avaliando a cena com uma atenção preguiçosa, quase distraída — mas nada passava despercebido. Havia algo contemplativo ali, um tipo de interesse silencioso, como quem observa antes de agir.
Não havia pressa. Nem surpresa exagerada. Apenas aquele foco direto nela, firme, seguro… e perigosamente tranquilo.
Um olhar que parecia dizer
eu vi você, sem precisar de palavras.
Ela umedeceu os lábios repentinamente secos pela presença marcante do homem misterioso. O coração deu alguns saltos e ela se concentrou em segurar a caixa com mais firmeza.
— Precisa de ajuda? Posso carregar essa caixa para você, ela parece pesada.
O desconhecido charmoso ergueu os braços na direção da caixa, fazendo menção de pegá-la dos braços de %Junsui%, e bom, ela não recusou a ajuda. Fazer a mudança sozinha estava sendo exaustivo, ela não havia dormido naquela noite, andava para cima e para baixo descendo exatamente 5 vão de escadas da portaria até seu novo apartamento.
Ela quase sorriu de alívio ao sentir o peso sendo retirado de seus braços. O desconhecido pegou a caixa com tanta facilidade que ela quase protestou. Aquilo era injusto!
Respondeu depois de terminar de subir a escada e recuperar um pouco do fôlego. As mãos dela tremiam levemente, assim como os músculos dos braços e pernas, de tanto subir e descer.
— Em frente ao meu. Que coincidência.
— Ah você é meu vizinho da frente? Uau, quem diria que iríamos nos esbarrar bem no meu primeiro dia como moradora.
Um sorriso discreto brotou no canto dos lábios dele e %Junsui% se apresentou.
— Jeong %Junsui%, muito prazer!
— Muito prazer, senhorita Jeong. Sou Park Seonghwa.
Park Seonghwa, uau! Um nome forte para combinar com a presença dele que já havia se mostrado um tanto quanto avassaladora. Pelo menos na opinião de %Junsui%.
Os dois caminharam lado a lado até pararem na porta já aberta do apartamento 23B. Lá dentro já havia um sofá de dois lugares marrom, caixas espalhadas pelo sofá e pelo chão, um painel ainda sem TV, uma mesa de vidro pequena no canto da sala com mais caixas e quadros sobre, um balcão que dividia a sala da cozinha, e claro o corredor que levava aos quartos e banheiro.
As luzes estavam acesas, eram bem claras e Seonghwa sentiu o impacto das mesmas em suas pupilas, fechando rapidamente os olhos para se acostumar com a claridade do local.
— Ah eu odeio luzes amareladas, elas me dão fadiga… — Se justificou %Junsui%, percebendo que o clarão havia o incomodado.
— Ah, tudo bem. Eu entendo, relaxa. Eu só não estava esperando esse clarão todo, mas já me adaptei. Onde eu deixo essa caixa?
— Pode deixar ali em cima do balcão, é onde vou deixar as caixas restantes agora. Faltam poucas, graças a Deus.
%Junsui% suspirou pesadamente e então soltou o cabelo, que estava preso num coque que agora ameaçava se desfazer. Foi então que encontrou o olhar do vizinho sobre si, parecendo um tanto quanto fora de órbita.
Seonghwa observou os cabelos pretos e longos da mulher caírem sobre seus ombros e não conseguiu deixar de pensar no quanto eles pareciam cheirosos e a deixavam ainda mais atraente. Piscou algumas vezes, depois engoliu seco e desviou os olhos.
Não, ele não podia! Caminhou com a caixa para dentro do apartamento e assim o fez: deixou a caixa sobre o balcão super limpo da cozinha, depois colocou as mãos na cintura, encarando a nova vizinha novamente.
— As outras caixas estão lá embaixo também? Precisa de ajuda com mais alguma?
— Você não está ocupado? — %Junsui% sondou, mordendo o lábio.
— Eu estava indo para a academia, mas acho que posso fazer meu
cárdio ajudando você com as caixas… — completou.
Seonghwa inclinou levemente a cabeça para o lado, e um
sorriso lento surgiu em seus lábios — nada escancarado, apenas aquele tipo de sorriso que nasce no canto da boca e entrega mais do que deveria. Os olhos, antes neutros, ganharam um brilho diferente, mais atento, quase provocador.
Ele passou a língua rapidamente pelo lábio inferior, num gesto inconsciente, como quem mede as próprias palavras antes de dizê-las… ou a própria decisão.
— Não vai me matar trocar a esteira por isso. — disse, soltando uma risada baixa, rouca, que vibrou no peito.
E então deu um passo para mais perto da porta, abrindo caminho como quem já tinha decidido ficar.
👾👾👾
Os dois caíram exaustos no sofá. O suor pingava pelo rosto e peito de Seonghwa e %Junsui% se pegou involuntariamente olhando para o caminho que as gotas faziam pelo peito marcado dele na regata. Umedeceu os lábios e sentiu a garganta fechar.
“Maldito vizinho do corpo bonito!” Praguejou novamente enquanto terminava de observar o caminho deixado pelo suor.
— Distraída ai, vizinha? — A voz rouca e baixa dele a trouxe de volta ao planeta Terra.
Com as bochechas ficando vermelhas, ela desviou os olhos para o painel agora com a TV devidamente instalada por Seonghwa.
— Você e eu precisamos de um banho.
Levou uma das mãos até a boca rapidamente se dando conta de aquilo poderia certamente soar como flerte ou como um disparate, ela mal o conhecia!
A risada dele ecoou pelo apartamento e invadiu os ouvidos dela, que não teve coragem de encará-lo de volta.
Só então %Junsui% desviou os olhos da TV para encarar os dele. Alguma coisa brilhava por lá, acendendo uma faísca dentro dela.
Abriu os lábios na tentativa de dizer algo, mas nada saiu. Nenhum mísero som, nada. E ela sabia como aquilo só piorava as coisas.
— Você precisa de ajuda com mais alguma coisa, senhorita Jeong?
Os dois continuaram se encarando em silêncio. %Junsui% engoliu seco, finalmente recuperando a voz e o controle.
— Não senhor Park. Agora eu me ajeito por aqui, muito obrigada pela ajuda e por ter sido tão solícito com sua nova vizinha.
— Pode me chamar de Seonghwa… acho que podemos dispensar formalidades.
— Claro. Seonghwa. — %Junsui% testou o som do nome dele nos lábios, na voz… e gostou de como soou. — Pode me chamar de %Junsui% então.
— Esse nome combina com você. Não me pergunte o porquê…
Deu de ombros e se levantou do sofá.
— Obrigada mais uma vez, Seonghwa. — Ela se levantou também, para acompanhá-lo até a porta.
Em silêncio eles caminharam, com Seonghwa um pouco a frente e ela mais para trás. Abriu a porta e então os dois se encararam antes dele sair.
— Se precisar de açúcar só bater no apartamento da frente.
%Junsui% apoiou o ombro no batente da porta, cruzando os braços, tentando parecer mais tranquila do que realmente estava.
— E se eu precisar de ajuda com outra caixa imaginária? — provocou, antes que pudesse se arrepender.
Seonghwa riu, aquela risada baixa que parecia sempre começar no peito.
— Aí você já está inventando desculpas. — respondeu, se virando de costas. — Mas eu apareço mesmo assim.
A porta do apartamento em frente se fechou segundos depois, deixando o corredor em silêncio outra vez.
%Junsui% encostou a própria porta devagar, trancando-a, e ficou alguns instantes parada, respirando fundo. O apartamento agora estava organizado, as caixas no lugar… mas algo definitivamente fora do eixo.
Passou a mão pelo rosto, sentindo o calor ainda presente nas bochechas.
— Ótimo. — murmurou para si mesma. — Mal me mudei e já tenho um vizinho que parece ter saído de um pecado capital.
Caminhou até o sofá e se deixou cair novamente, encarando o teto branco, agora iluminado demais para alguém que precisava desesperadamente de um banho e de algumas horas de sono.
Mas, por mais que tentasse relaxar, sua mente insistia em voltar para o corredor.
Do outro lado da parede, quase como se sentisse o peso daquele pensamento, Seonghwa encostou as costas na própria porta, fechou os olhos por um segundo mais longo do que deveria… e sorriu.
O primeiro dia dela naquele prédio tinha terminado.
E, para ambos, era apenas o começo.
Nota da autora: Olá queridas, cheguei com mais um casal!