4º Capítulo
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%Kylie% Chapman, muito prazer! — Deram as mãos e %Kylie% reparou que ele não parava de sorrir um minuto sequer.
Ela se perguntou até que ponto aquilo era espontâneo, da personalidade dele mesmo, e onde aquilo começava a ser apenas a imagem de idol sendo zelada e imposta por uma empresa
fria e rígida por trás da carreira daquele homem.
Havia estado na indústria Coreana e internacional anos o suficiente para saber que as empresas eram implacáveis e sugam a alma de artistas como Song Mingi. Ele era um rapper bem conhecido e requisitado para milhares de
featurings, era parte da realeza do hip-hop dentro do k-pop. Mas %Kylie% sabia que o preço que ele pagava para fazer parte disso tudo, talvez fosse alto demais.
Já fazia alguns anos desde o acidente, provavelmente dois ou três, ela nunca contou direito. Mas ela sabia muito bem que voltar ali para aquele mundo, mesmo que fosse só nos bastidores, também lhe custaria caro.
O acidente havia feito %Kylie% abandonar o mundo da dança para sempre, ela não confiava em si mesma mais e muito menos no próprio corpo. E a sua falta na indústria do k-pop e pop em geral era sentida até hoje.
Ela era conhecida por suas coreografias ousadas, cheias de identidade, linhas fortes e uma presença de palco que não precisava de exageros para ser lembrada. %Kylie% Chapman não seguia tendências — ela criava.
E isso era apreciado por inúmeras gravadoras, especialmente as de k-pop. E lá estava ela de volta como apoio do coreógrafo principal, sem dançar na frente de milhares de pessoas, é óbvio. Na verdade nem na frente de Mingi ela queria dançar.
Ficaria monitorando pelo monitor mesmo e dizendo ao coreógrafo principal o que deveria ser corrigido, melhorado, adaptado e etc.
— Eu nem acredito que vou trabalhar com você para o meu comeback. Isso é surreal!
%Kylie% sorriu sem mostrar os dentes, e sentiu as bochechas enrubescer. Realmente era surreal que ela tivesse voltado a trabalhar com dança…
— O prazer é todo meu Mingi. Espero que possamos fazer um bom trabalho juntos.
— O seu trabalho é um dos mais bem falados da Coreia, %Kylie%. Eu de verdade, nem acredito que você topou voltar para o mundo das coreografias com um trabalho meu… assisti a todos os seus videos na internet, me preparando para esse encontro.
O sorriso bonito dele se alargou pelo rosto e %Kylie% percebeu que era verdade o que diziam:
ele seduzia todo mundo de forma praticamente automática.
— Imagino que só coisas boas tenham sobrevivido à edição da internet. — respondeu, com um meio sorriso irônico.
Ele riu, dessa vez de forma ainda mais aberta e sedutora.
— Algumas lendas aumentam com o tempo. — apoiou os cotovelos na mesa. — Mas as boas… ficam.
O comentário a pegou desprevenida. Por um instante, ela sentiu aquele velho aperto no peito, a lembrança do palco, das luzes, do corpo respondendo sem medo. A memória veio rápida demais — e foi embora do mesmo jeito.
— Eu não estou aqui para voltar aos palcos. — disse, firme, antes que ele criasse expectativas. — Estou aqui porque sei construir coisas
atrás deles.
Mingi assentiu devagar, como se tivesse esperado exatamente por aquilo.
— É por isso que eu quis te conhecer pessoalmente. — o sorriso dele suavizou. — Eu não preciso que você dance pra mim, %Kylie%. Preciso que você me ajude a contar uma história que ainda não sei como contar sozinho.
Ela sustentou o olhar dele. Não havia pena ali. Nem curiosidade invasiva. Apenas respeito.
E isso, mais do que qualquer convite formal, a desarmou.
— Você sabe que trabalhar comigo vai levantar perguntas. — ela alertou. — Comparações. Expectativas. Gente esperando que eu volte a ser quem eu era.
— E você não precisa ser. — Mingi respondeu, sem hesitar. — Só precisa ser quem você é agora.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso. Cheio de possibilidades.
%Kylie% respirou fundo, sentindo aquele mundo antigo bater à porta outra vez — não com violência, mas com insistência.
Talvez voltar não significasse repetir o passado. Talvez significasse reescrevê-lo.
Ela estendeu a mão sobre a mesa.
— Então vamos deixar isso claro desde o começo, Song Mingi. — disse, com os olhos firmes. — Se eu entrar nisso, vai ser do meu jeito.
O sorriso dele se abriu, genuíno dessa vez.
— É exatamente por isso que eu quero você.
E, naquele instante, %Kylie% percebeu que aquele encontro não era sobre dança, nem sobre música.
Era sobre cicatrizes que ainda doíam… e histórias que mereciam um novo ritmo.
👾👾👾
— Bom, então o álbum vai ser lançado daqui três meses, certo? — %Kylie% tomou um gole do café.
— Isso mesmo, daqui três meses praticamente. — Mingi confirmou com o manager ao lado, assentindo.
— Precisamos de coreografia para as sete músicas do álbum e que você assista aos vídeos de show, performances e etc das outras músicas que iremos incluir na turnê. Isso é ok para você? O tempo é suficiente?
O manager de Mingi levou o croissant até a boca, mordendo um pedaço generoso.
— Tempo suficiente. — Respondeu %Kylie% com firmeza, encarando os dois homens.
%Kylie% estava mais do que acostumada com os prazos malucos da indústria, então nada novo sob o sol para ela,
trabalhar sob pressão? Tudo ok, vamos nessa!
— Sabia! — Mingi sorriu outra vez, enquanto olhava diretamente para ela. — Você é das minhas. Nada como trabalhar sob pressão.
Os três gargalharam e %Kylie% levou á xícara aos lábios outra vez.
— Então hoje eu vou poder passar o dia aqui na empresa, ouvindo o álbum?
— Isso! — Respondeu o manager de Mingi. — Hoje você vai ter o dia todo para sentar com o Mingi no estúdio e ouvir o álbum todo. Privilegiada, poucas pessoas ouviram esse álbum.
— E modéstia parte? Tá incrível.
O sorriso voltou no canto dos lábios dele.
Se %Kylie% pudesse ser honesta diria que, não, ela nunca havia ouvido nenhuma música do Mingi, mesmo que ele fosse uma lenda do hip-hop coreano. A praia dela eram os grupos, especialmente os
girl groups como
Twice, Loona, Mamamoo e etc. Havia trabalhado com poucos homens durante a carreira, e a maioria grupos, como
Shinee, BTS, EXO… com solistas nunca. Especialmente os solistas do gênero de Mingi. Mais uma desafio.
— Eu não dúvido nada disso. — E ela havia sido sincera na sentença. — Vamos ver quais coreografias podemos trabalhar. Você é mais intenso ou prefere as coreografias mais calmas?
— Intenso. Bem intenso. — Mingi respondeu sem desviar os olhos dos dela.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor — foi
carregado.
%Kylie% sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário, como quem mede não só a resposta, mas o que vinha junto com ela.
Intenso podia significar muita coisa na indústria. Excesso. Ego. Falta de limites. Ou… verdade.
Ela apoiou a xícara no pires com calma.
— Intenso como? — perguntou, profissional. — Intenso de presença? De energia física? Ou intenso emocionalmente?
O manager pigarreou, sentindo que aquela parte da conversa já não era exatamente com ele.
Mingi inclinou levemente o corpo para frente, apoiando os antebraços na mesa.
— Intenso de verdade. — disse, sem sorrir dessa vez. — Do tipo que cansa, que exige controle. Não gosto de movimentos vazios. Se for pra dançar, tem que significar alguma coisa.
Aquilo… chamou a atenção dela.
%Kylie% assentiu devagar, sentindo uma engrenagem antiga girar dentro do peito.
— Então esquece contagem fácil e refrão bonito. — respondeu. — Se for intenso, vai ter pausa desconfortável, vai ter quebra de eixo, vai ter movimento que parece errado antes de fazer sentido.
Um canto do lábio dele se ergueu.
— É disso que eu tô falando.
O manager olhou de um para o outro, terminando o café.
— Vou deixar vocês no estúdio principal. — disse, já se levantando. — Qualquer coisa, estarei por perto.
Assim que ficaram sozinhos, o ambiente pareceu mudar de temperatura.
Mingi levantou primeiro, fazendo um gesto para que ela o acompanhasse pelo corredor. Enquanto caminhavam, %Kylie% reparou em algo sutil: ele diminuou o passo para andar ao lado dela, não à frente. Pequeno detalhe. Grande significado.
Dentro do estúdio, as luzes eram baixas, o sofá largo, os equipamentos impecáveis. Mingi conectou o celular ao sistema de som e se virou para ela.
— Quer ouvir tudo de uma vez ou faixa por faixa?
%Kylie% largou a bolsa no sofá, respirou fundo.
— Faixa por faixa. — respondeu. — Quero entender quem você é em cada música.
Ele a observou por um instante. Não como idol. Não como artista sendo avaliado.
Como alguém que, pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava sendo realmente
visto.
— Então senta. — disse, apertando o play. — Essa é a primeira.
Quando os primeiros beats preencheram o estúdio, %Kylie% fechou os olhos por reflexo. O corpo ainda não se movia — mas a mente já trabalhava, desenhando linhas invisíveis no ar.
Talvez aquele projeto fosse só trabalho.
Talvez fosse só mais um álbum.
Ou talvez… fosse o começo de algo que nenhum dos dois estava pronto pra nomear ainda.
Nota da autora: Cheguei com o Mingi para vocês! Gostaram desse casal?