Capítulo Um
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%Yeosang% ajustou a postura enquanto observava a tela do seu celular, a luz fria iluminando seu rosto sério. Ele já sabia o que estava por vir, mas ainda assim não conseguia evitar a sensação de nervosismo que se formava no fundo de seu estômago. O título da matéria de %Mirae% estava lá, como uma sombra pairando sobre ele:
“A Inconsistência de %Yeosang%: Quando o Arco Falha e a Precisão Desaparece”.
A última competição internacional, há dois dias, deveria ter sido apenas mais uma conquista. No entanto, as palavras de %Mirae% pareciam acertá-lo mais do que qualquer erro que ele tivesse cometido naquela manhã quente. Ele sabia que não fora seu melhor desempenho, mas a crítica que ela havia escrito não era apenas sobre suas falhas na prova. Era uma análise profunda, como se ela tivesse se deleitado em dissecação de cada movimento, cada respiração que ele havia tomado.
“...Se o desempenho de %Yeosang% nas eliminatórias foi algo digno de se destacar, a final revelou um atleta longe de seu melhor. Ao invés de ser o arquétipo de precisão e confiança que a Coreia do Sul se orgulha, ele falhou justamente quando mais se esperava dele. O arremesso final, que deveria ser sua consagração, foi uma clara demonstração de que ele ainda luta contra a pressão interna que o cerca, uma pressão que ele não parece conseguir controlar.”, lia %Yeosang%, seus olhos fixos nas palavras de %Mirae%, o desconforto crescendo dentro dele.
Ele passou a mão pelo cabelo, irritado com o próprio reflexo no espelho. Não conseguia parar de pensar nela. Cada crítica, cada comentário dela, parecia que se grudava em sua pele, um peso que ele não sabia como tirar. Não era o fato de ser criticado que o incomodava. Era o fato de que, no fundo, ele sabia que, em parte, ela tinha razão.
Ela tinha esse dom, esse talento inato para perceber a fraqueza das pessoas e expô-las ao mundo. E, apesar de tudo, ele sentia uma atração irresistível por ela, como uma flecha que acertou o alvo errado, mas que ainda assim o atingiu com uma precisão inesperada.
Suspirou profundamente e fechou o celular. Agora não era hora de pensar nela. A competição estava apenas começando de novo para ele. Mas, como sempre, o nome dela o seguia, como uma sombra que ele não podia deixar de enxergar.
%Yeosang% guardou o celular no bolso da jaqueta e respirou fundo, tentando afastar as palavras de %Mirae% que ainda ressoavam em sua mente. O treino estava prestes a começar, e ele sabia que não podia deixar que aquela crítica tomasse conta de sua concentração. Mas, como sempre, era mais fácil falar do que fazer.
O ginásio estava quieto, exceto pelo som do chiado da corda sendo esticada e os ecos suaves dos outros atletas praticando ao fundo. Ele já estava há horas ali, a luz das lâmpadas fluorescentes refletindo em sua pele suada, mas ainda não sentia que tinha acertado o que precisava. Cada flecha que disparava parecia longe do que ele queria, cada movimento não saía como esperado, e o alvo à sua frente parecia zombar dele com cada erro.
Fechou os olhos por um momento, tentando se concentrar. O suor escorria pela testa, e a tensão nos seus ombros era palpável. Ele visualizou o arco e a flecha em sua mente. Tudo deveria ser perfeito: a respiração, o movimento das mãos, a precisão do foco. No entanto, quando abriu os olhos e puxou a corda, o gesto não foi fluido. A flecha voou, mas falhou em atingir o centro do alvo. O som do impacto distante parecia um lembrete de sua própria falha.
“Mais uma vez,” disse para si mesmo, a voz abafada pela frustração.
Ele pegou outra flecha, ajustou a postura e tentou de novo. A respiração ficou mais rápida, mais errática. Seus dedos tremiam ligeiramente, e ele se forçou a manter o foco, mas as palavras de %Mirae% estavam de volta, sua crítica como um eco implacável.
“O arremesso final, que deveria ser sua consagração, foi uma clara demonstração de que ele ainda luta contra a pressão interna…” Era inútil. Ele não conseguia se livrar disso. A pressão, o peso das expectativas... Ela parecia saber exatamente onde acertar. Ele estava mais uma vez sendo o alvo de suas observações, mas desta vez não era a competição que estava em jogo. Era sua própria mente, lutando contra o próprio corpo.
O som de uma flecha caindo no chão fez %Yeosang% esticar a mão para pegá-la, sem olhar para o alvo. Ele respirou fundo mais uma vez, fechando os olhos, tentando recobrar um pouco de sua serenidade. A crítica de %Mirae% ainda estava ali, mas agora ele estava começando a entender algo. Era mais do que simples desdém ou uma tentativa de mostrar sua fraqueza. Havia algo mais, algo que ele não queria reconhecer. O jeito como ela o observava, como ela o analisava, tudo isso mexia com ele mais do que ele gostaria de admitir.
“Concentre-se”, murmurou para si mesmo. A mão firme na corda do arco, o movimento suave, a flecha no alvo. Ele visualizou novamente o movimento, com mais calma desta vez. Quando puxou o arco e disparou, o impacto no centro do alvo foi quase perfeito. %Yeosang% permitiu-se um sorriso discreto, mas logo o afastou. A luta interna ainda não estava vencida.
À medida que o treino continuava, ele percebeu que a frustração estava começando a se dissipar. Talvez a crítica de %Mirae% tivesse mexido com ele de uma forma que ele não conseguia ainda entender completamente. Mas, por agora, ele precisava se concentrar. Precisava se lembrar de quem ele era.
E, por mais que as palavras de %Mirae% o incomodassem, ele sabia que elas também o impulsionavam a ser melhor. Mas isso não significava que ele iria deixar de odiá-la por isso.
🏹🏹🏹
O som dos teclados e o zumbido das impressoras preenchiam a redação enquanto %Mirae% digitava com rapidez, os dedos dançando sobre as teclas em uma precisão quase automática. As palavras vinham com facilidade quando se tratava de seu trabalho, mas a crítica que ela escrevia sobre %Yeosang% era diferente. Algo sobre ele mexia com ela de uma maneira peculiar, algo que ela não conseguia afastar, não importa o quanto tentasse se concentrar.
Ela parou por um momento e olhou pela janela da redação, a vista da cidade de Seul se estendendo à sua frente, mas seus pensamentos estavam longe dali.
"A última crítica foi dura, %Mirae%." Ela sabia disso. A voz de sua mãe ecoava na sua mente, como uma lembrança distante, mas que ainda a assombrava:
"Você ainda carrega aquela decepção, não é?" %Mirae% fechou os olhos por um momento. A memória do seu pai, uma figura de prestígio no mundo do arco e flecha, ainda estava fresca, mas também havia se tornado um peso. Ele havia sido um dos melhores, mas ela... Ela falhou. Quando criança, ela tentou seguir os passos dele, agarrou o arco com a mesma paixão que ele havia demonstrado, mas seu desempenho nunca chegou nem perto do dele. Ela não era boa o suficiente. E, quando finalmente enfrentou a dura realidade de que jamais atingiria o nível dele, a decepção que ele sentiu foi imensa. Ele a afastou, não com palavras, mas com o silêncio, e ela sabia que nunca mais poderia ser vista como algo mais do que uma tentativa frustrada de seguir seus passos.
O pai de %Mirae% nunca falara sobre isso, mas ela sabia que ele via sua falha como um reflexo de sua própria incapacidade de ser a verdadeira sucessora. Ela se afastou, e ele se distanciou. E, desde aquele dia, ela nunca mais teve coragem de se aproximar do arco e da flecha.
Afastando o pensamento, %Mirae% voltou sua atenção para o computador, mas a imagem de %Yeosang% se formou de novo. Ele era tudo o que ela não foi: talentoso, preciso, admirado. Ela o via nas competições, e suas críticas duras a ele não eram apenas sobre seu desempenho nas provas. Elas eram uma forma de exorcizar sua própria frustração, sua própria falha como atleta, sua própria perda.
Ela não podia deixar de ver nele o que poderia ter sido, o que seu pai esperava dela. Era por isso que ela o criticava tão implacavelmente. Era uma forma de lidar com sua própria dor, de se mostrar que, apesar de ter falhado no esporte, ela podia ser uma vencedora de outra maneira.
%Mirae% respirou fundo, voltando-se para o relatório que precisava terminar. Mas, no fundo, ela sabia que suas palavras para %Yeosang%, por mais duras que fossem, também estavam carregadas de uma tristeza silenciosa. Algo mais profundo do que simples crítica. Algo que ela ainda não estava pronta para admitir para si mesma.
%Mirae% sempre foi uma mulher de facetas contraditórias. No trabalho, ela se mostrava implacável, focada e incisiva. Sua carreira como jornalista havia sido construída sobre a base de suas observações afiadas e sua habilidade de expor a verdade sem concessões, fosse sobre atletas, políticos ou celebridades. Para ela, a verdade tinha que ser dura, crua, sem adornos.
"A verdade é a melhor forma de dar um choque de realidade," ela sempre dizia, acreditando profundamente nisso.
No entanto, essa mesma busca pela verdade a tornara, sem querer, uma pessoa mais reservada e distante. Ela não sabia mais como se aproximar das pessoas de forma genuína. Cada sorriso, cada conversa, parecia carregada de desconfiança, como se ela estivesse o tempo todo calculando o que o outro queria ou o que poderia usar contra ele mais tarde. E, na verdade, ela usava essas informações contra si mesma, mantendo os outros a uma distância segura, longe de qualquer possibilidade de frustração ou vulnerabilidade.
Ela sabia que seu jeito crítico e distante havia afastado muitas pessoas, especialmente seus amigos mais próximos. Alguns, no passado, haviam tentado se aproximar, mas sempre se sentiam desconfortáveis diante de sua rigidez. E isso a incomodava, mas ela nunca admitia.
"Não preciso de ninguém para ser feliz," ela dizia para si mesma, embora, no fundo, soubesse que estava mentindo.
O que mais a angustiava era o fato de que, apesar de sua atitude forte e independente, ela ainda se importava. E mais do que com qualquer outra pessoa, ela se importava com o que %Yeosang% pensava. A cada crítica que escrevia sobre ele, ela tentava não mostrar que sua mente estava dividida, entre o profissionalismo e a frustração que sentia ao vê-lo atingir um nível de sucesso que ela nunca conseguira alcançar. Ela o observava nas competições, e havia algo nele que a atraía. Ele representava tudo o que ela não foi – e tudo o que ela poderia ter sido se tivesse seguido o caminho de seu pai.
Por mais que quisesse evitar, havia uma parte dela que se sentia atraída por sua habilidade, sua disciplina e até pela distância silenciosa que ele mantinha. Ela sabia que ele a via como uma inimiga, uma crítica implacável. Mas, por mais que ela tentasse negar, o ódio que ela sentia por ele também era acompanhado de uma atração irresistível.
%Mirae% parou por um momento e olhou para a tela do computador novamente, vendo o artigo que acabara de terminar sobre o desempenho de %Yeosang%. Ela sabia que ele ficaria irritado. Ele sempre ficava. Mas, secretamente, ela queria mais. Queria ver se ele conseguiria provar que ela estava errada, queria ver se ele se tornaria o campeão que ela havia desejado ser um dia.
Mas talvez o que ela realmente quisesse, no fundo, fosse que ele a visse de uma maneira diferente – não apenas como a jornalista que o criticava, mas como alguém que sabia, talvez mais do que ninguém, o peso de falhar quando se tem um legado a cumprir. Ela não queria mais ser aquela que apenas olhava de longe. Queria ser aquela que se arriscava, que se permitia, que acreditava novamente. Mas, para isso, precisaria deixar de lado sua própria fachada de perfeição.