Capítulo 1
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O som ritmado da bola quicando na quadra vazia cortava o silêncio da madrugada como um relógio insistente.
O impacto da raquete era firme, limpo, quase hipnótico.
A respiração dela era controlada, mas intensa — marcada pelo esforço contido de quem precisava daquilo mais do que qualquer outra coisa.
Ele parou ao lado da grade, os dedos ainda fechados ao redor da alça da mochila. Os olhos fixos nela.
A última pessoa que ele imaginaria encontrar ali. Naquela quadra, àquela hora.
A única outra pessoa, talvez, que entendia por que treinar de madrugada era a única forma de continuar respirando.
Ele não disse nada. Apenas observou.
A forma como ela se movia de um lado ao outro da quadra, com a mesma precisão de sempre — mas carregando algo diferente nos ombros. Algo mais pesado.
E por um instante… ele se perguntou se ela também estava fugindo.
Ele soltou a mochila no chão, o zíper fazendo um som seco que contrastou com o eco da bola. %Brígida% parou o movimento por um segundo. O olhar dela voou em direção ao barulho, e por um instante, os dois ficaram apenas se encarando.
Ela franziu levemente a testa, como se hesitasse em reconhecê-lo. Como se ele fosse uma miragem.
— Você? — a voz dela soou baixa, rouca de esforço e surpresa.
Ele deu de ombros, um leve sorriso puxando o canto da boca.
— E eu achando que era o único insone por aqui.
Ela girou a raquete na mão, relaxando os ombros, mas sem baixar totalmente a guarda. Os olhos ainda o analisavam, atentos.
— A quadra estava livre — disse apenas, como se precisasse justificar sua presença ali.
— A minha desculpa também — respondeu ele, caminhando devagar até a linha de fundo oposta, tirando a jaqueta pelo caminho.
%Brígida% não o impediu. Nem o convidou. Mas ficou. E ele soube, ali mesmo, que aquela noite não seria como as outras.
🎾🎾🎾
Por alguns segundos, tudo voltou a se resumir ao som da bola quicando no chão, agora sob os dedos dele, que testava o peso com a palma da mão. Ela ainda estava parada no mesmo lugar, observando.
O silêncio entre eles não era incômodo. Era denso. Quase íntimo. Como se dissessem mais naquele silêncio do que poderiam com palavras.
%Brígida% respirou fundo, tentando focar os olhos em qualquer ponto da quadra que não fosse ele. Mas era impossível ignorá-lo ali. A figura dele naquele espaço que, até então, era só dela. O lugar onde ela deixava a fama do lado de fora e respirava sem ser julgada. E agora, ele também estava ali, com aquele olhar calmo demais, atento demais.
Ele se abaixou, amarrou os tênis com calma, depois se levantou e a encarou de novo, com um leve inclinar de cabeça.
— Ainda lembra como se joga sem plateia? — %Haechan% perguntou, mas sem ironia. A voz era quase suave.
Ela arqueou uma sobrancelha, firme.
— Você vai descobrir se conseguir me acompanhar.
O canto da boca dele se curvou, mas os olhos não sorriram.
— Toque interessante de arrogância. Combina com você.
Ela girou a raquete mais uma vez nas mãos, o queixo erguido, como se aquele fosse o único escudo que ainda tivesse.
— Não é arrogância — respondeu, firme. — É sobrevivência.
A resposta caiu entre eles como um aviso. Ele a entendeu.
Por fim, sem mais palavras, %Brígida% se posicionou.
Mas o jogo ainda não tinha começado.
Era o silêncio que estava jogando com eles agora.
🎾🎾🎾
Ela lançou a bola para o alto e sacou com precisão. A devolução dele veio rápida, certeira, como se aquele fosse o aquecimento mais sério da vida dos dois.
A bola cruzava a quadra como se carregasse algo além de técnica — como se a raiva, o orgulho e a solidão dos dois estivessem sendo arremessadas com cada golpe.
Depois de alguns minutos trocando bolas sem dizer uma palavra, ele parou o jogo com um gesto da mão.
— Vamos fazer uma aposta — disse, recuperando o fôlego, os olhos fixos nela.
%Brígida% ergueu uma sobrancelha, cautelosa.
— Do tipo que você costuma perder?
Ele riu baixo, e o som foi curto, seco:
— Do tipo que exige coragem. Quem perder o game, revela um segredo. Um de verdade. Nada superficial.
Ela o observou por um segundo longo demais.
— E se eu não quiser saber seus segredos?
— Vai querer — ele respondeu. A confiança no tom não era presunçosa. Era triste.
%Brígida% respirou fundo. Olhou ao redor da quadra vazia. Sentiu o suor na pele, o coração acelerado — e não apenas pela corrida. E então assentiu, sem palavras.
O jogo começou de verdade. Os golpes eram mais rápidos. A tensão, mais visível. Até que ela errou uma bola simples. Não por falta de habilidade, mas porque ele a olhou de um jeito que a desconcentrou por um milésimo de segundo.
Ele segurou a bola com a raquete, caminhando devagar até a rede.
— Sua vez — disse, como se estivesse entregando uma sentença e um convite ao mesmo tempo.
%Brígida% manteve os olhos fixos nos dele.
— Eu odeio ser famosa. Todo mundo acha que é um sonho. Mas às vezes... eu só queria desaparecer.
E os dois sabiam: ainda haveria muitos segredos a serem sacados.