Capítulo 3
%Brígida% recuperou a raquete com um movimento rápido, quase defensivo. Como se aquilo fosse o que a impedia de se desfazer inteira.
%Haechan% caminhou de volta para a base. Não disse nada. Mas seus olhos diziam o suficiente. Estavam mais escuros agora. Mais intensos.
— Vamos continuar? — ela perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
Ele apenas assentiu com a cabeça. E o jogo recomeçou.
Dessa vez, não estavam tentando vencer.
Estavam tentando resistir.
Encostou na rede, as mãos nos quadris, o peito arfando — não só pela corrida. Havia uma urgência acumulada no corpo. Uma inquietação que até o momento só ele havia conseguido provocar…
— Mais um segredo — ele disse, sem arrogância.
%Brígida% fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, encarou-o sem desviar.
— Às vezes eu finjo que estou bem só pra não preocupar minha irmã. Ela é mais nova. Não merece carregar meu peso também.
%Haechan% não esboçou nenhuma reação imediata. Apenas baixou os olhos por um momento, como se o peso daquilo tivesse pousado sobre ele também.
— Você é do tipo que esconde bem. Eu nunca saberia.
— Ninguém nunca sabe — ela respondeu. — Esse é o truque.
Silêncio. A quadra parecia conter a respiração.
Então ele sacou. Ela devolveu.O jogo seguiu. E %Haechan% perdeu o ponto dessa vez.
%Brígida% o observou caminhar até a rede devagar, limpando o suor da testa com a manga da camisa.
— Sua vez — ela disse, com um tom que parecia mais suave que antes. Quase cúmplice.
Ele passou a mão pela nuca e soltou, sem olhar pra ela:
— Meu pai acha que eu sou um desperdício de talento. Que eu deveria ser mais frio, mais técnico. Menos... emocional.
%Haechan% finalmente ergueu os olhos.
— Eu acho que talvez ele esteja certo. E é isso que mais me assusta.
Ela não respondeu. Não com palavras.
Apenas deu um passo em direção à rede. Só um. Mas suficiente para que ele sentisse.
O jogo continuou. Mais pontos. Mais verdades. Ela contou que tem medo de parar um dia e perceber que não construiu nada que dure fora das quadras.
Ele confessou que já pensou em sumir sem avisar ninguém, só pra ver quem realmente sentiria sua falta.
Ela admitiu que tem pesadelos com o barulho de flashes e gritos de fãs.
Ele contou que nunca foi beijado sem que alguém soubesse seu nome primeiro.
Eles já não estavam mais jogando por vitória.
Estavam jogando para permanecer ali. Naquele espaço onde, finalmente, podiam ser reais.
🎾🎾🎾
Não porque alguém venceu, mas porque o silêncio se tornou mais interessante que os pontos.
%Brígida% sentou-se primeiro no banco de madeira ao lado da quadra, deixando a raquete escorregar até o chão. %Haechan% a seguiu logo depois, jogando a própria mochila de qualquer jeito no chão antes de se sentar ao lado dela — perto o bastante para que os ombros quase se encostassem.
Ela tomou um gole da água, passou o antebraço pela testa suada e suspirou fundo.
— Nunca imaginei que ia acabar dividindo segredos com você — murmurou, sem olhá-lo.
— Nem eu — ele respondeu, encarando o chão. — Mas é mais fácil assim... com alguém que entende.
Ela virou o rosto devagar.
— Você me entende, %Haechan%?
Ele ergueu os olhos devagar, encontrando os dela.
— Acho que... sim. Mais do que deveria. Nós dois temos os mesmos medos… os mesmos sentimentos. Mesmo que em circunstâncias de vida diferentes. Sua irmã, meu pai… mas temos a mesma aversão á toda essa fama, esse mundo que todo mundo acha ser perfeito.
Os segundos seguintes foram silenciosos.
O som da respiração deles. O jeito como os olhares hesitavam, depois se encontravam de novo. A tensão entre os joelhos que quase se tocavam…
O calor nos ombros, onde a pele parecia querer encostar.
— Isso aqui... — ela começou, mas a frase morreu no meio do caminho.
— Eu sei — ele respondeu, como se entendesse o que ela não conseguiu dizer.
Ela virou um pouco o corpo em direção a ele. E ele fez o mesmo.
Os olhos dela desceram para a boca dele — um movimento involuntário. E quando os olhares voltaram a se encontrar... foi impossível disfarçar.
Ele inclinou um pouco o rosto. Ela não se afastou. As respirações se misturaram.
Os lábios estavam a um suspiro de distância…
Mas então ela desviou. Baixou os olhos. Soltou um meio sorriso, nervoso.
— Se a gente cruzar essa linha, %Haechan%...
— Eu sei — ele repetiu, mais baixo dessa vez. Quase como um segredo.
Ela pegou a garrafa de água novamente, tentando se recompor, enquanto ele soltava o ar com força e recostava a cabeça no banco.
Mas a vontade permaneceu no ar, latejando entre os dois.
Como mais um ponto que ninguém quis vencer.