Capítulo 2
A segunda rodada começou com menos hesitação e mais intenção. Não era só sobre ganhar agora. Era sobre provocar. Sobre escavar.
Ela venceu, e %Haechan% respirou fundo, colocando a mão na cintura enquanto caminhava devagar até a rede, os olhos fixos no chão por alguns segundos antes de levantá-los para ela.
%Brígida% não sorriu, mas os olhos dela brilharam por um instante.
Ele suspirou, passou a mão pelo cabelo suado e confessou:
— Eu penso em largar tudo pelo menos uma vez por semana. — Fez uma pausa curta. — Às vezes, penso nisso todos os dias.
Ela engoliu em seco. Ele não parecia um cara que desistia. E ainda assim, ali estava ele, desarmado.
— Por quê? — ela perguntou, antes de se conter.
Ele deu um meio sorriso, cansado.
— Porque ninguém quer saber quem eu sou de verdade. Só o que eu represento.
Ela voltou para a linha de saque sem responder. Mas havia algo diferente no jeito como ela segurava a raquete agora. Menos defesa. Mais conexão.
O jogo seguiu. E ela perdeu o próximo ponto.
Respirou fundo, os dedos apertando a raquete com força antes de soltar:
— Eu nunca amei ninguém de verdade. — A voz saiu baixa, mas firme. — Só me deixei amar.
Fingir que era recíproco era mais fácil do que encarar o fato de que talvez... eu esteja quebrada por dentro.
Dessa vez, ele não teve resposta.
Apenas caminhou até a lateral da quadra e pegou duas garrafinhas de água. Jogou uma para ela.
— Bem-vinda ao clube dos quebrados — murmurou.
Tomaram a água em silêncio.
Depois, voltaram ao jogo.
Mais suor. Mais raiva contida. Mais olhares demorados entre um ponto e outro.
Ele errou. E sabia que ela cobraria o segredo.
%Brígida% se encostou na rede, suada, mas com aquele ar de controle que ele começava a perceber que era só fachada.
Ele passou a língua pelos lábios, pensativo, depois disse:
— Tenho pesadelos com entrevistas. Acordo suando, ouvindo as mesmas perguntas idiotas ecoando na cabeça. Às vezes, acho que nem sei mais como é conversar sem um microfone apontado pra mim.
Ela não riu. Não debochou. Apenas olhou pra ele como se, pela primeira vez, o visse de verdade.
O jogo continuou. Mas algo entre eles já tinha mudado.
Cada ponto agora era uma confissão não dita. Cada saque, um passo mais perto do que nenhum dos dois queria admitir — e muito menos evitar.
O novo saque veio rápido. Preciso. Ela devolveu. Ele contra-atacou, e pela primeira vez, nenhum dos dois errou.
A bola cruzava a quadra como um desafio entre corações que não sabiam se batiam por raiva, por desejo, ou por alívio por finalmente encontrar alguém que entendia. Que sentia…
Minuto após minuto, o som dos tênis contra o piso ecoava no silêncio da madrugada. Só eles. Só a quadra. Só os olhos, que agora pareciam não conseguir desviar mais.
%Brígida% jogava com o cenho levemente franzido, mas não era esforço — era concentração. Cada vez que a bola voltava, ela olhava diretamente para %Haechan%, e ele já havia parado de fingir que não notava.
Havia algo novo ali. Um outro tipo de jogo sendo disputado entre os pontos.
Ele começou a reparar nos detalhes dela que antes pareciam invisíveis: o cabelo preso de qualquer jeito com um elástico desbotado, a forma como a ponta da língua aparecia levemente entre os lábios quando ela se concentrava em um saque, o jeito impaciente como girava a raquete nas mãos entre uma jogada e outra.
Ela também o notava agora.
O formato dos ombros largos sob a camisa úmida, o brilho de suor no pescoço, a forma como ele a olhava sem pressa nenhuma — como se estivesse decifrando aos poucos um enigma que esperou a vida inteira para ser desvendado.
Os golpes se tornavam mais agressivos, mas não pela vontade de vencer — era o contrário. Nenhum dos dois parecia querer que o ponto acabasse. Aquela era a desculpa perfeita para não romper o fio invisível que os conectava naquele instante.
A bola veio na direção dele, mas ele apenas segurou a raquete contra a coxa, respirando fundo.
%Brígida% ficou parada na posição, a testa suada, os olhos colados nos dele.
— Por que parou? — perguntou, a voz baixa, ofegante.
Ele sorriu de lado. Não era um sorriso provocador. Era um sorriso… vulnerável.
— Porque se eu acertasse mais um ponto, ia parecer que eu estava tentando fugir desse momento.
A raquete escorregou devagar da mão dela, até tocar o chão.
Agora o silêncio não era mais tenso. Era denso. Quase palpável.
E nenhum dos dois se moveu.