8 • Black Pearl
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Liverpool - Outono de 1842
%Sebastian%:
Mesmo de longe eu conseguia ver algumas armas que estavam mal escondidas nas mãos de um deles, me mantive escondido atrás de uma das carruagens que estavam estacionadas, respirei fundo desejando que eles não adentrassem aquela enorme casa. Em minha mente, a imagem de lady %Nalla% se firmava de forma intensa, mesmo não sabendo ao certo se era realmente ela.
— Preciso fazer algo. — sussurrei de leve mantendo meu olhar em um dos piratas que parecia comandá-los.
Respirei fundo e, passando por alguns barris que estavam próximo à entrada dos criados, cheguei à cozinha. Pela posição dos piratas, tudo indicava que entrariam pela porta da frente, então só teria um lugar para que eu pudesse entrar. Como todos naquele lugar estavam aparentemente concentrados em seus afazeres, aproveitei para passar silenciosamente pelas beiradas do longo caminho que levava ao grande salão.
Ao chegar próximo de uma grande escultura de mármore, me escondi atrás e fiquei observando, haviam muitas pessoas naquele lugar que deveriam ser importantes. Minha visão passou por cada um daqueles homens que falavam tão cordialmente e baixo, ao contrário dos comerciantes que eu estava acostumado a conviver. Depois, voltei minha atenção para o lado, onde se concentravam as mulheres, todas com seus vestidos monumentais e cheias de joias, eram belas e delicadas.
Porém, uma bela dama que estava mais próxima à escultura; era essa que meus olhos procuravam, seu olhar voltado para o vaso ao lado a fez se aproximar ainda mais do lugar onde eu estava. Foi neste momento que um estouro surgiu bem próximo à porta da frente e logo os piratas adentraram o lugar, não me contive em meu desespero de pensar que algo aconteceria a ela. Peguei na mão de lady %Nalla% em um momento de distração que seus olhos se voltaram para os piratas que adentravam, então a impulsionei para minha direção, a envolvendo em meus braços, abaixando um pouco seu corpo.
— O que está…. — ela se remexeu, mas logo outro barulho, do que seria de uma colt, a fez se encolher um pouco mais para perto de mim.
Meu coração acelerou um pouco com aquilo, ajeitei o capuz que estava em minha cabeça escondendo um pouco mais meu rosto, eu teria que tirá-la de lá o mais rápido possível. Como tinha muitas pessoas além dos diversos empregados, era uma oportunidade, segurei em sua mão de maneira firme, mas que não a machucasse e, tomando impulso, direcionei nossos corpos para um corredor lateral que estava mais escuro. Não sabia para onde nos levaria, mas era nossa oportunidade para sair dali ou nos esconder.
Então chegamos a uma porta, que sem maiores preocupações, abri. Saímos no que parecia um jardim lateral, diferente de todo jardim que eu já havia visto antes, o que foram poucos, eu mantive minha mão segurando a dela e a guiei para longe da porta, até chegarmos em um alto arbusto.
— Espere, por favor. — disse ela de forma insegura. — Quem é você?
Me mantive em silêncio, virando minha face para o lado para que não visse meu rosto.
— Diga-me, por favor, preciso agradecer adequadamente a pessoa que tanto me protege. — insistiu ela com mais afinco.
Logo ouvi vozes perto da porta e então a afastei de mim para que ficasse atrás dos arbustos, foi então que outro tiro soou atrás de mim.
— Ei, você! — gritou um homem com voz rouca. — Pelas vestes, não é um nobre, deve ser a plebe.
— Olha, ele parece não ter língua. — um pouco robusto logo atrás deu dois passos em minha direção. — O que esconde aí?
Balancei minha face negativamente, recuando um pouco.
O homem robusto se aproximou de mim e, antes que segurasse minha capa com força, fiz um sinal com a mão direita para trás, para que lady %Nalla% não fizesse nenhum movimento que a denunciasse. O homem me arrastou por alguns instantes, mesmo debatendo meu corpo e tentando me soltar, era um tanto inútil por seu tamanho.
— Coloque ele para dormir. — disse o homem da voz rouca. — Temos que ir.
— Vou levá-lo comigo. — disse o robusto. — O capitão vai gostar de um mascote.
Aquelas palavras fizeram a espinha do meu corpo estremecer, antes que eu pudesse fazer mais algum movimento, senti um forte impacto em minha nuca, me fazendo perder os sentidos.
- x -
Acordei sentindo um leve enjoo que me fez vomitar assim que abri os olhos, uma estranha sensação de instabilidade tomou conta de mim. Ao olhar em minha volta, estava em um lugar úmido e cheirando a mofo. Ergui meu corpo do chão, colocando-me de pé, e lancei meu olhar para frente, a poucos passos havia uma grade diante de mim, me fazendo presumir que estava em algum tipo de cela.
— Olha só, o mascote acordou. — o homem robusto estava do outro lado, fixei um pouco meu olhar naqueles dentes sujos e podres, que me davam mais ânsia de vômito. — Vou te tirar daí, vamos ver se diante do capitão continua mudo.
Ele deu uma gargalhada estranha e, destrancando a fechadura, abriu a cela e logo veio para cima de mim, me pegando desta vez pela camisa, já que haviam retirado a capa de mim, e me arrastou em direção à proa no navio.
— Vejam só nosso mascote. — aquele homem da voz rouca estava em próximo a escada que subimos. — Torça para o capitão ir com a sua cara.
Mantive minha face mais abaixada, ainda sendo puxado por aquele homem robusto e fedorento.
— Aqui está ele, capitão. — disse o homem me jogando no piso da proa.
— Ora, ora…. — a voz do capitão era áspera e firme, soava um certo sarcasmo. — Vocês me trouxeram uma criança de mascote.
Criança? Eu já estava me aproximando de meus 18 anos e ele me olhava como uma criança, levantei meu corpo daquele chão grudento e respirei fundo, com minha face abaixada meu olhar continuava direcionado para as velhas botas daquele homem.
— Olhe para mim, mascote. — ele aumentou um pouco o tom de sua voz.
Meus olhos foram seguindo cuidadosa e atentamente, das botas, até chegar em seus olhos cheios de mistérios. Engoli seco já imaginando que aquele poderia ser meu último momento em vida. Um aperto logo veio em meu peito, imaginando que não teria nem mesmo sequer uma gota de oportunidade de me aproximar adequadamente de lady %Nalla%. Soltei um suspiro de satisfação, pelo menos ela estava segura e longe de tudo aquilo que me acontecia.
— Você tem nome? — perguntou ele.
Mantive-me em silêncio novamente.
— Ele é mudo, capitão. — comentou o robusto. — Não soltou nenhum som desde o momento em que o vimos.
— Hum…. — ele me olhou de cima para baixo e sorriu de canto. — Acho que você tem sorte criança, bem-vindo ao
Bella Donna.
Disse ele, enfatizando o nome do navio.
Com aquilo, pude respirar mais aliviado, ou melhor, era o que eu pensava até me jogarem na cozinha. Não parecia ao certo uma cozinha e ficava próximo às celas, bem abaixo do convés. Outra sorte minha foi ter aprendido a cozinhar com Oliver, assim, eu não seria um inútil naquele navio e poderia garantir alguns dias a mais de vida, apesar de começar a acreditar que morreria de tanto trabalhar naquele lugar. Algo que fazia voltar a memória meus dias na
workhouse do senhor Cooper, nem mesmo na casa de meus pais eu trabalhava tanto quanto naquela cozinha.
Os meses no mar foram passando, aos poucos consegui me acostumar com o balançar do navio, até mesmo havia feito algum tipo de amizade louca com os dois piratas que arrastaram-me para aquilo tudo. O de voz rouca era chamado de Sid, já o robusto se chamava Gibbs, quanto a mim, fiquei sendo chamado por todos de Mascote, algo que me cansava.
— Mascote, mandei que trouxessem-lhe, pois estou com um novo objetivo em vista. — disse o capitão ao pegar uma maçã verde que estava junto a bandeja de prata com as outras frutas.
Mantive meu olhar observado em suas expressões corporais, no pouco tempo que estava ali, já havia percebido que o capitão era diferente dos outros, mesmo com aquelas vestes sujas e fedorentas de um homem que estava ao mar a anos, ele tinha um porte que lembrava os nojentos nobres da Inglaterra. O que me fazia pensar sobre o passado do capitão, será que ele era da nobreza ou conviveu com eles?
— Sou um homem que dispõe de muito tempo, venho o analisando durante este tempo, percebi que mesmo sendo mudo, és muito observador ou que nos ajudaria muito, e como provaste ser de confiança, irei te ensinar algumas coisas sobre a vida, principalmente sobre as riquezas do mundo. — seu olhar ficou mais intenso, como se estivesse imaginando algo para mim.
Senti-me receoso por isso, entretanto, uma breve palavra que me dissera havia atiçado minha vontade de aceitar seus ensinamentos: riqueza. Era aquilo que eu buscava acumular a muito tempo e não conseguia, mantendo meu olhar no capitão, respirei fundo e assenti com segurança no olhar.
— Muito bem, começaremos agora mesmo, há muito para aprender em pouco tempo. — ele sorriu de canto.
O capitão parecia mesmo muito animado, todos os dias ele me acordava antes do pôr-do-sol, e meu treino se iniciava da forma mais cruel e brutal possível, desde manejar uma espada ou atirar com armas mais modernas como uma colt, a combates físicos contra os outros piratas em pleno sol do meio dia. Comecei a constatar que aqueles treinamentos eram mais cansativos que trabalhar o dia todo limpando o barco e cozinhando para toda a tripulação.
Eu sentia os ossos do meu corpo quererem se partir ao meio, minha carne ardia de dor e todos os dias eu dormia na ponta da proa sob o céu estrelado, sempre amarrado como um castigo por não ganhar nenhuma luta. Eu queria desistir, eu ansiava por algo que me tirasse daquela situação, mas quando me lembrava que o segundo nível do treinamento era conhecimento, sentia meu corpo se fortalecer instantaneamente.
—
Congratulations, mascote, sobreviveu a tudo até agora. — a ironia soava um pouco em seu olhar, batendo algumas palmas para mim.
Assenti mantendo meu olhar voltado para ele.
— Agora vamos para a sua recompensa, vamos ao conhecimento. — ele sorriu com satisfação.
Sim, conhecimento. Era naquele estágio que eu queria chegar, era conhecimento que os nobres tinham e eu queria ter.
— Eu lhe ensinei a ser forte e brutal, agora te ensinarei a ser cordial e cavalheiro. — ele deu alguns passos até o fundo da cabine e alisou algo grande que era coberto por uma capa. — Este é meu segredo, sei que não contará nem mesmo para os marujos, eu não nasci no mar… Eu era… Em uma breve parte de minha vida, fui um nobre.
“
Eu já imaginava, capitão.” Pensei comigo.
— Por que mudei o curso de minha vida? Por amor, o amor nos faz mudar de rota e causar grande destruição, se assim desejar…. — ele suspirou fraco e, pegando na capa, a puxou, mostrando o grande piano que havia debaixo. — Mas minha vida não vêm à situação atual, vamos à sua primeira aula, um verdadeiro cavalheiro deve saber tocar este instrumento e lhe ensinarei.
Assenti novamente deixando meu olhar voltado para o piano, aquilo era muito mais do que eu poderia imaginar aprender, mas estava ansioso para começar. Não somente o piano, mas tinha aulas sobre literatura, economia, ciências, filosofia e outras coisas a mais que o capitão havia estudado em seu passado. De tudo aquilo, o que mais me atraía era sobre economia, entender como funcionava realmente o mundo capitalista.
— Confesso que não sei por quanto tempo mais ficará conosco, entretanto, sinto-me com o dever cumprido. — disse o capitão ao se aproximar de mim na ponta da proa do navio. — Não mais um menino, agora um homem completo.
Mantive meu olhar no mar vendo o brilho da lua tocá-lo, permanecendo debruçado no beiral, ele permaneceu a dois passos de mim.
— Confesso que sempre pensei em ter um filho, para ensiná-lo tudo o que ensinei-lhe, mas acho que posso considerar este jovem à minha frente uma pequena porção do que seria ter um filho. — ele riu. — Acredito que teria sofrido bem mais.
Ele soltou uma gargalhada estranha.
— Enfim — seu suspiro pareceu cansado —, chegamos à parte que realmente deve estar interessado, a riqueza.
Eu ergui meu corpo e voltei meu olhar para ele.
— Agora, sim, após todo o conhecimento e força, apenas te falta uma coisa. — ele olhou para o céu. — Vou te ensinar a forma mais segura e rápida de conseguir.
Riqueza. Finalmente havia chegado nesta fase de todo o treino. Finalmente, depois de quase dois anos, havia conquistado não só a confiança, mas também o respeito e a lealdade do capitão, me deixando assim com boa esperança para o que aconteceria em minha vida daquele momento em diante. Como eu não participava de nenhuma das pilhagens por ordem do capitão, porém ajudava muito em todos os planos, ele tinha um singelo presente para mim, singelo e perigoso ao mesmo tempo.
- x -
— Aqui está. — disse o capitão ao me entregar um velho pedaço de pergaminho. — Seu presente.
Eu o olhei confuso ao pegar o pergaminho.
— Por todo este tempo, você conseguiu chegar a um nível que nenhum desses marujos conseguirão, se considere abençoado por isso, Mascote. — ele sorriu de leve. — Este pedaço de pergaminho é meu maior tesouro, porém, não precisarei dele.
Assenti mantendo meu olhar no capitão.
— Em dois dias vamos atracar no mar da China oriental, próximo a Xangai. Lá, você seguirá seu destino.
Respirei fundo, mantendo meu olhar no pergaminho.
“Eu não preciso de um mapa, meu coração me leva a você,
Mesmo que o caminho seja perigoso, eu não posso parar agora,
Eu nunca me esqueci de você por apenas uma hora,
Se eu só posso vê-la no final do horizonte distante.”
- Black Pearl / EXO