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Nottinghamshire - Inverno de 1837
%Sebastian%:
Havia passado alguns anos e recentemente nossa casa havia recebido mais um hóspede, Aidan era sobrinho dos meus pais, devido a uma fatalidade acontecida com seus pais, que vieram a falecer em um desastre, sua única opção além de um orfanato foi morar em nossa casa. Ele era um pouco mais novo que eu, porém nem sua pouca idade impediu meu pai de lhe ensinar o ofício da família, claro que eu seria responsável por Aidan.
— Estou com fome. — disse aquela pequena criança pela quinta vez, ao se sentar no chão.
— Não podemos comer agora. — abaixei a faca que estava em minha mão e o olhei. — Ainda estamos trabalhando, meu pai deixou tudo isso para fazermos.
— Mas estou com fome. — ele suspirou fraco me olhando como um cachorro abandonado.
— Hum, tudo bem, pode ir comer, eu termino de fazer isso. — assenti voltando meu olhar para os cortes do porco que estavam em minha frente.
— Obrigado, %Sebastian%. — ele se levantou mais que depressa e saiu correndo em direção à casa.
Respirei fundo e voltei ao trabalho, a parte boa de finalmente aprender todos o segredos daquele ofício, foi aprender também o básico sobre negócios, o que me levou a perceber que meu pai era um tanto ruim neste quesito. Além de não anotar todas as dívidas dos seus clientes, ele também não sabia negociar e nem cobrar o que lhe deviam, o resultado era a nossa vida precária e miserável. Eu sentia, lá no fundo, que deveria fazer algo a respeito, mas não sabia o quê, ninguém daria ouvidos a uma criança.
Porém, mesmo assim já estava determinado a mudar meu destino, uma vida de pobreza não estava nos meus planos para o futuro, principalmente por causa do meu propósito inicial, que é me aproximar da lady %Nalla%. Continuei meu trabalho em silêncio, fazendo minha mente funcionar constantemente arquitetando soluções, a primeira delas me veio juntamente com um brilho no olhar.
Mesmo que inicialmente meu pai não quisesse seguir, eu estava decidido a insistir, então assim que terminei de colocar todos os cortes dos porcos em seu lugar para conserva, corri para casa para compartilhar a ideia com minha mãe.
— Oh, anjo, pensei que não viria comer também. — minha mãe me olhou com aquele doce sorriso em seu rosto, que sempre me fazia sentir acolhido.
— Estava terminando meus afazeres, mas confesso que estou mesmo com fome. — desviei meu olhar para o chão, colocando a mão na barriga, a sentindo fazer alguns barulhos estranhos.
— Ah, estou percebendo, você se dedica muito a este ofício, estou orgulhosa que esteja ajudando seu pai. — ela manteve aquele sorriso no rosto. — Olha, lave as mãos e venha comer.
Assenti e corri até o balde com água que estava em cima de uma cadeira ao lado da porta, lavei minhas mãos rapidamente e me voltei para a mesa.
— Estaríamos muito melhor se o papai conseguisse receber dos seus clientes. — comentei.
— O que está falando de mim? — logo sua voz soou vindo da porta, assim como eu, sua roupa estava suja de sangue.
— Nosso filho só está falando a verdade. — consentiu minha mãe. — Os clientes do açougue são nobres, deveriam pagar pelo que compram.
— Não devemos reclamar…. — ele suspirou com um ar de cansado, sua face parecia mesmo cansada, ele estava trabalhando nas entregas desde a primeira hora do dia. — Temos cliente e isso já é uma benção.
— Clientes que não pagam, e quando fazem, são somente restos de seus castelos. — mantive meu olhar para o prato, me sentindo frustrado.
— E o que você sabe sobre isso, ainda é uma criança. — ele levantou seu tom de voz. — Acha que consegue fazer melhor que eu?
— Não senhor. — sussurrei.
— Deixemos de discutir, a hora do almoço é sagrada, então vamos nos sentar e agradecer a Deus pelo que temos. — minha mãe sentou na cadeira ao meu lado. — Tenho certeza que mesmo sendo uma criança, quer fazer o melhor pela nossa família, isso me deixa ainda mais feliz.
Dei um sorriso fraco, por dentro me sentia incapaz de tudo por ser uma criança, queria ser um adulto e poder resolver tudo no lugar deles. Para mim aquele almoço foi amargo, ainda mais por todos os defeitos que meu pai ainda apontava em tudo que eu fazia, talvez ele estivesse chateado por minha reclamação, mas eu estava certo, não seríamos pobres se ele fosse um bom comerciante. Passei o resto do dia pensando sobre como eu poderia ajudar minha família, minha única solução foi a mais perigosa.
Sem o menor remorso, eu teria que aprender longe de casa, precisava crescer não somente fisicamente, mas também mentalmente, e não conseguiria fazer isso perto da minha família, meu pai era um bom homem, mas tinha medo da nobreza. Eu não conseguiria aprender o que é ser respeitado ou temido com ele, precisava aprender com alguém que não tinha receio nenhum de enfrentar aquele nobres. Eu precisava me tornar um homem forte e respeitado.
No meio da madrugada, me levantei da cama, já havia deixado uma trouxa de tecido com alguns suprimentos escondida debaixo da minha cama, respirei fundo ao pegá-la tentando não fazer muito barulho. Não queria acordar ninguém, pois daria uma enorme confusão.
— %Sebastian%? — disse Aidan se remexendo na cama. — Onde está indo?
— Na cozinha, pegar um pouco de água. — sussurrei ao olhar para ele. — Volte a dormir.
O cobri mais um pouco e me afastei de sua cama, olhei novamente para minha cama, fixando meu olhar no pequeno bilhete, meu coração estava apertado, pois a segunda pessoa que mais amava choraria com meus atos. Minha mãe ficaria triste sem seu anjo, mas faria isso por ela também, de alguma forma beneficiaria a minha família. Respirei fundo pela última vez deixando aquele quarto, aquela casa, aquela família; eu voltaria, não como uma criança, mas como um homem de respeito.
Segui pela estrada secundária do condado, até que avistei algumas tropas da nobreza e me escondi no meio dos grandes arbustos. Já havia ouvido sobre a visita de um de um grão-duque ao condado de Nottinghamshire, primo de terceiro grau do príncipe, que vagamente se lembravam que estava na linha de sucessão, mas com um título de nobreza tão alto, já era o bastante para ser bajulado por toda a população.
— Odeio os aristocratas. — sussurrei vigiando a passagem das tropas.
Todos com sua impecável postura de cavaleiros da realeza, com o brasão britânico serigrafado em suas armaduras e o estandarte logo a frente guiando os demais, tive que continuar meu caminho pelos arbustos, pois a comitiva parecia grande. Aproveitei aquele momento para comer uma das frutas que estavam na trouxa, além de descansar também. Demorou vários dias, até que consegui chegar em Nottingham, considerado o centro administrativo do condado.
Para mim, aquela cidade poderia representar uma oportunidade para mim, comecei aproveitando a estadia do tal nobre, para oferecer meus serviços a um mercador que precisava de mais funcionários. Apesar de ser uma criança, mostrei a ele o quanto poderia ser útil no esforço físico, aproveitando, observaria como seu comércio funcionava e como ele comercializava seus produtos diante da nobreza. Aquele homem era um mercador de peles de animais, era conhecido como Jones das peles, e parecia ser muito famoso entre os outros comerciantes, principalmente alfaiates e costureiras.
Segundo o senhor Jones, suas peles eram as mais raras que as pessoas encontrariam, o que fazia seus produtos ficarem mais caros, já que todos procuravam. Esta foi a primeira coisa que aprendi longe de casa, um comerciante deve sempre valorizar seus produtos e fazê-los ser mais raros e preciosos aos olhos dos clientes. Isso me lembrava das criações de javali que meu pai tinha, eram raras e ele não as valorizava, já que estavam extintos em nosso país.
— Ei, garoto, vais ficar parado aí? — gritou o senhor Jones. — Se apresse e coloque as peles no baú.
— Sim, senhor. — corri até a carroça onde estavam as peles e peguei as duas que o homem tinha comprado e levei até onde estava o baú, em sua carruagem.
Passei toda aquela temporada aprendendo sobre peles com o senhor Jones e principalmente como conservá-las, aprendi também algumas coisas sobre como negociar com os clientes, aquilo havia me deixado maravilhado. Continuei trabalhando com o senhor Jones durante alguns anos, indo de condado em condado até que chegamos à grande capital Londres. Meus olhos até brilharam com todas aquelas construções monumentais e luxuosas.
Fiquei ainda mais tentado a passar algum tempo naquele lugar para aprender um pouco mais como aquela desigual sociedade funcionava, foi neste momento que comecei a trabalhar na mais famosa padaria da cidade.
— Tem certeza que conseguirá fazer todas estas tarefas ao dia? — perguntou novamente a senhora Hill.
— Sim senhora, eu consigo fazer muitas tarefas ao mesmo tempo, tenho muito conhecimentos em conservar mercadorias. — assenti me encolhendo um pouco.
A senhora Hill era uma mulher robusta e suas expressões faciais eram de causar medo, mulheres independentes como ela eram consideradas pela sociedade má influência às damas da nobreza, porém, mesmo assim todos faziam diversas encomendas em sua padaria. O segredo do seu sucesso eram os famosos pães de mel, que fazia toda a cidade reverenciar e aplaudir aquela padaria, mas tinha que admitir que eram realmente gostosos, principalmente por serem feitos com puro mel de abelha das colmeias que ela cultivava no jardim dos fundos da padaria.
— Você já trabalhou em açougue, com mercador de peles, sabe que o tipo de alimento que eu produzo não é algo para se conservar. — ela se levantou de sua cadeira, com aquele olhar sério, que fazia minha espinha tremer. — Todos os pães, bolos, croissants, biscoitos que existem nessa padaria são feitos e vendidos diariamente, não guardamos nada.
— Então, o que a senhora faz como o que sobra? — perguntei confuso.
— Vendemos para um senhor, para alimentar seus porcos. — respondeu ela com um leve ar de superioridade, como se estivesse fazendo um bom negócio.
— Mesmo assim, senhora, tenho certeza que conseguirei fazer todas estas tarefas. — afirmei com confiança.
— Muito bem, lhe darei uma chance, se falhar no primeiro dia, te enxotarei daqui. — assegurou ela com aquele tom intimidador.
Assenti pensando se aquilo era um bom negócio, pois havia visto alguns pães dormidos semelhantes aos da sua padaria sendo vendidos mais barato, o que me levou a acreditar que não eram porcos que comiam. Felizmente consegui sobreviver o primeiro mês, tinha certeza que minha motivação estava nas duas pessoas que mais amava na vida, minha mãe e lady %Nalla%, a cada amanhecer, eu mantinha meus pensamentos nela para aguentar mais um dia.
— %Sebastian%, já limpou toda a área pública da padaria? — perguntou Oliver ao se aproximar de mim, ele era o filho único da senhora Hill, que apesar desse grau de parentesco era tratado da mesma forma que os demais funcionários, pela mãe.
— Sim, é o primeiro lugar que eu limpo, sei que a padaria abre para o público na primeira hora da manhã. — confirmei minha tarefa inicial do dia, que me fazia acordar de madrugada. — Precisa de mais algo?
— Sim, que limpe o escritório, a senhora Hill irá receber um cliente especial. — pediu ele dando demonstrações de estar cansado.
— Está tudo bem, senhor? — perguntei preocupado.
— Não muito, estamos com problemas de sobra, como se as pessoas estivessem parando de comprar em nossa padaria. — explicou ele.
— Acho que sei a causa. — eu estava guardando aquilo para mim, pois a senhora Hill jamais daria ouvidos a um subalterno como eu, mas seu filho, talvez. — Eu acabei presenciando uma cena bastante curiosa, já vem acontecendo desde que comecei a trabalhar aqui.
— O que seria? — ele parecia curioso por minha informação.
Contei a ele sobre as vendas de produtos semelhantes ao da padaria. Oliver, por incrível que pareça, acreditou em mim de imediato e pediu para que eu comprasse um desses produtos para servir de prova. Eu o ajudaria a convencer sua mãe a acreditar e experimentar uma ideia que ele havia tido tempos atrás, em troca ele me daria uma recompensa além do salário que eu ganhava ao trabalhar lá.
Assim que apresentamos a prova à senhora Hill, e Oliver propôs novamente a solução de reutilizar as sobras como outros produtos, ela ficou um tempo em silêncio olhando para aquele pães dormidos.
— Você acha que minha padaria deveria fazer isso? Somos seletos em nossos pães e derivados, como poderíamos vender algo passado? — ela parecia confusa e furiosa ao mesmo tempo.
— Senhora, tenho certeza que dará certo, pelo menos da forma que desejo fazer. — argumentou seu filho. — Dê-me esta chance que eu lhe mostrarei resultados positivos.
— O que este funcionário está fazendo aqui?
— Ele está me ajudando senhora, foi ele quem me contou sobre as vendas falsas. — explicou Oliver.
— Darei somente uma oportunidade, se falharem, já conhecem o caminho da porta. — anunciou ela.
Um frio gelado passou por meu corpo. A senhora Hill teria mesmo coragem de expulsar o próprio filho?
Foi trabalhoso para Oliver conseguir colocar em prática suas ideias, porém, após cinco noites em claro de testes e mais testes, conseguimos chegar ao resultado esperado. Ele havia finalmente provado para sua mãe que seria o melhor padeiro de Londres e eu finalmente tinha aprendido todo o ofício deles, além de como funcionava a cozinha de uma padaria. O que resultou na segunda coisa que aprendi longe de casa, jamais se contentar com o que está fazendo e sempre se superar. Oliver superou todas as expectativas com os pães dormidos, transformando eles em coisas melhores e mais saborosas, finalmente a padaria voltaria a sua fama e riqueza inicial.
Mais anos foram passando, quando finalmente o glamour de Londres começou a me deixar entediado. Além da padaria, trabalhei em quase todos os comércios da cidades, sempre adquirindo mais conhecimento e experiência. Porém, um mercador de peixes do porto cruzou o meu caminho, me deixando ainda mais curioso para ser como funcionava o comércio marítimo, algo que estava gerando muito lucro atualmente.
Logo, me ofereci para trabalhar com ele, e graças a toda minha experiência com os burgueses da cidade, ele me contratou sem o menor problema, felizmente naquele trabalho eu ganharia bem mais. O que me fazia lembrar que tinha que ser mais cuidadoso com minha pequena fortuna, como não tinha despesas e sempre comia as sobras, guardava cada moeda de prata que recebia de pagamento.
Foi no porto de Liverpool no condado de Merseyside, que a coisa mais imprevisível aconteceu comigo, eu a vi ao longe, lady %Nalla% também estava naquela cidade. Por um breve momento, mas tinha certeza que era ela, estava linda como da primeira vez que a vi, segui sua carruagem ao longe, até chegarem a casa do governador. Fui me aproximando aos poucos, até que percebi uma movimentação suspeita aos arredores da casa.
Pela primeira vez, me deparei com piratas, os mesmos das histórias que minha mãe me contava.
— Lady %Nalla%. — sussurrei, já me preocupando com ela.
“Os golpes da bandeira ao vento, minha visão se torna mais escura
Eu serei capaz de ver o meu destino
O vento agitava a bandeira, os meus passos estão perdidos ao longo da frente
Eu seria capaz de chegar ao meu destino”
- Destination / SHINee