4 • Destiny
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Derbyshire - Outono de 1833
%Sebastian%:
Eu estava racionando a comida que tinha na trouxa de tecido, não sabia quando iria encontrar alimento novamente. Não podia voltar ao castelo da lady Lewis, não a colocaria contra sua preceptora novamente, não queria que ela fosse castigada por minha causa uma segunda vez.
Continuei caminhando pelas beiras das estradas, nem sabia ao certo em que lugar da Inglaterra me encontrava. Tinha perdido toda noção de tempo e espaço, em alguns momentos até pensava estar andando em círculos quando me aventurava pelos bosques e vales, não poderia ficar muito tempo nas estradas, não queria ser levado novamente para alguma workhouse por ser um órfão.
O pouco que consegui contar das noites que se passaram, desde que olhei lady %Nalla% de costas pela última vez, já tinha se passado dez dias caminhando, poderia ser bem mais que isso. Continuei caminhando pela borda da nascente, que tinha encontrado ao leste daquele colina, era um final de tarde tranquilo, até que comecei a ouvir de longe uma voz cheia de desespero.
Fui seguindo em direção de onde a voz surgia, quando cheguei próximo a uma árvore, avistei uma senhora na ponta do que parecia uma queda d’água. Eu conseguia ver nitidamente que estava chorando, mesmo que suas palavras fosse para o nada, ela agia como se estivesse falando com alguém.
Em um piscar de olhos, aquela senhora abriu seus braços e se jogou, por um breve momento meu corpo congelou, e sem pensar, corri até a ponta e me joguei atrás dela. Mesmo que tudo estivesse mal, não seria certo deixar aquela senhora se matar, mergulhei em meio ao impacto na água, e nadei até ela tentando segurar o máximo de fôlego que conseguia.
Eu tinha nadado apenas uma vez até aquele momento, ou melhor, eu tinha lutado contra a morte para sobreviver, quando o senhor Cooper me jogou no rio, após eu roubar a comida da despensa para dar às crianças mais novas. Esse foi o principal motivo para ter fugido de sua propriedade.
Assim que consegui passar por algumas rochas que apareceram pelo caminho, alcancei a senhora e, a segurando pelo braço, deixei a correnteza nos levar até chegarmos na margem do rio. Com uma certa dificuldade, pois era um pouco robusta, a arrastei até chegarmos em um arbusto e tentei acordá-la, não sabia o que fazer e lutava contra o pânico que estava se formando dentro de mim.
— Hum… — disse ela tossindo um pouco abrindo seus olhos. — Vocês é um anjo?
— Não. — disse num tom baixo me encolhendo.
— Você me salvou. — sussurrou ela erguendo seu corpo e me abraçando. — Meu anjo.
— Senhora, eu não sou um anjo. — repeti, sem saber se deveria ou não retribuir seu abraço.
— É claro que é. — ela sorriu de leve. — Oh, estamos molhados, precisamos nos secar antes que peguemos um resfriado.
— Hum. — eu olhei para minhas roupas, até mesmo a trouxa de tecido que tinha amarrado em minhas costas estava encharcada e vazia.
— Venha, me ajude a levantar. — disse ela pegando em minha mão. — Vamos para casa.
Eu me levantei primeiro e a ajudei a se levantar, estava tentando entender a que casa ela se referia, eu não tinha nenhum lugar para ir. Ela começou a seguir na frente, mas parou e se virou ao perceber que eu tinha permanecido no mesmo lugar.
— Por que não está andando? — perguntou ela.
— Me desculpe, senhora, mas não tenho casa, nem mesmo família, não posso ir para lugar nenhum.
— Mas é claro que pode. — ela abriu um largo sorriso novamente. — Venha comigo, você é meu anjo e minha casa agora é sua também.
Ela estendeu a mão para mim. Seu nobre gesto e suas palavras de conforto fizeram minha memória refletir a face de lady %Nalla%, o olhar doce que me ajudou sem nem perguntar quem eu era. Um gota de lágrima se formou no canto de meus olhos, como minha face ainda estava molhada, facilmente a senhora não notaria que eu estava um pouco emotivo naquele momento.
Segurei, ainda receoso, sua mão e segui com ela, andamos mais algum tempo, sua casa parecia ser longe, pois tínhamos chegado ao anoitecer. Quando entramos, um homem também robusto veio a nosso encontro e abraçou a senhora, sua preocupação resplandecia de forma curiosa.
— Oh, querida. — disse ele. — Estava preocupado e atormentado pelo desespero de não vê-la novamente.
— Eu estou bem agora, graças ao meu anjo. — disse a senhora ao desviar seu olhar para mim.
— Quem é este garoto? — perguntou o senhor me olhando de cara fechada.
— Este é meu anjo. — a senhora se aproximou de mim e colocou sua mão em meu ombro, ela sorriu de leve e olhou novamente para o senhor. — Ele será meu filho agora.
— O quê? — o senhor alterou sua voz. — Como pode dizer tal coisa, mal sabe sobre ele, e se tiver família?
— Ele não tem. — retrucou ela. — Agora somos a família dele, foi graças a esta criança que eu tive uma segunda chance.
A face dela começou a aparentar tristeza.
— Quando me joguei no rio, estava desistindo da minha vida, mas ele me salvou. — ela acariciou meus cabelos com carinho. — Meu anjo, e não aceito que você diga o contrário.
— Mas ele… — o senhor se calou por um momento permanecendo com seu olhar em mim, respirou fundo. — Esta criança não vai substituir todos os bebês que perdemos.
— Eu sei. — ela me abraçou. — Mas tenho certeza que vai preencher o vazio que sinto dentro do meu coração. Já o considero meu filho, e se não fizer o mesmo…
— Tudo bem. — concordou o homem mesmo contrariado. — Qual o seu nome, garoto?
— %Sebastian%, senhor. — disse em sussurro.
— Você tem família? — continuou ele.
— Não, senhor. — respondi.
— A partir de agora, será nosso filho. — o senhor manteve seu olhar em mim. — Eu sou Zachary Winchester e esta senhora que deseja lhe dar o amor de mãe, se chama Poppy.
— E a partir de agora, me chame de mãe. — disse a senhora Poppy com um largo sorriso em seu rosto.
Assenti. Ainda tinha receio, mas no fundo estava feliz por ter encontrado uma família para chamar de minha, o que me fez sentir que aquilo estava relacionado a lady %Nalla%, conhecê-la tinha me dado sorte. A senhora Poppy, ou melhor, minha mãe, pegou em minha mão e me levou para o segundo quarto da casa. Segundo ela, eu precisava de um banho quente para não pegar um resfriado.
— Obrigado. — disse a ela assim que terminei de vestir as roupas novas que tinha me dado.
— Não precisa agradecer por isso, sou sua mãe agora, meu dever é garantir que esteja sempre confortável e sinta-se sempre amado. — ela me abraçou novamente. — Sonhei tanto com este momento, poder abraçar meu filho! Prometa que será para sempre meu anjo, querido %Sebastian%.
— Eu prometo, mamãe. — disse num tom baixo e tímido.
Ela soltou um grito de felicidade, que me fez ficar assustado, mas era reconfortante que aquela senhora que há poucas horas desejava a morte, estivesse feliz por eu ter entrado em sua vida. Entretanto, lá no fundo, era eu que estava agradecido por ela ter entrado em minha vida, eu tinha ganhado uma família e um lar, além da esperança de poder ver lady %Nalla% novamente.
Minha família morava ao sul de Nottinghamshire, e meu novo pai era um açougueiro, o que explicava ele sempre estar cheirando a carne. Mesmo não gostando de mim e disfarçando seu desconforto por uma criança estranha chamá-lo de pai, o senhor Zachary era muito gentil comigo e estava me ensinando tudo sobre sua profissão, ofício que tinha aprendido com seu pai.
Passei dois anos aprendendo o básico com ele, até que finalmente pude acompanhá-lo aos mercados de carnes para vender as poucas peças que tinha. Aparentemente, seu ofício lhe dava mais prejuízo do que lucro, além de alguns clientes que nunca lhe pagavam ou barganhavam a carne dando outras coisas em troca.
— Conseguiu entender? — disse ele ao levantar a mão que estava a faca. — É assim que se corta a carne de javali.
— Por que o senhor só mata alguns machos? — perguntei um pouco curioso.
— Dizem que os javalis estão extintos aqui na Inglaterra desde de mil e setecentos e alguma coisa, porém, atualmente, basicamente sou o único açougueiro da região que ainda vende dessa carne. — explicou ele. — Então para continuar o negócio, preciso ser esperto e inteligente, não mato as fêmeas, pois procriam, deixo alguns machos para o acasalamento.
— Hum. — desviei meu olhar para o animal que estava ali morto em minha frente. — E as pessoas gostam de comer javali?
— É uma das melhores carnes para se ter em um banquete. — ele deu um suspiro de satisfação.
— Se o senhor disse que está extinto na Inglaterra, como pode existir estes? — perguntei confuso.
— Digamos que tenho um amigo sueco que me presenteou com um casal de javalis há alguns anos atrás. — respondeu ele. — Fui criando e hoje, minha pequena criação é o suficiente para vender a alguns nobres, clientes antigos.
— Hum. — me levantei do chão e arrastei a caixa de madeira até ele. — Senhor, o que sabe sobre eles?
— Eles quem? — indagou desviando seu olhar para mim.
— Os nobres, o que sabe sobre os nobres? — repeti a pergunta.
— Ah, o pouco que conheço, posso afirmar que esses aristocratas são esnobes, arrogantes e sempre pensam ser melhor que as pessoas que não tem título. — ele suspirou fraco. — Ah, fique longe deles, ou então pode correr o risco de parar na forca.
— Mas senhor, pensei que seus clientes fossem amigos.
— Ah não, esses aristocratas metidos só nos suportam porque a burguesia é o que movimenta a economia do país, mas um simples açougueiro como eu jamais teria espaço, além do mais, os nobres só socializam com nobres.
— Mas e se alguém da burguesia quisesse ser amigo de um nobre? — perguntei de forma inocente.
Ele começou a rir de mim, como se eu tivesse feito uma piada ou algo do tipo.
— Meu filho, um burguês só consegue ser notado por nobres se for realmente bem sucedido e muito rico. — ele respirou fundo. — Alguém como nós nem chegamos perto dos grandes comerciantes.
Permaneci em silêncio, o observando manipular a carne do javali, comecei a ficar um pouco pensativo sobre nossa conversa. De certa forma, não éramos ricos, a casa da minha nova família era um pouco humilde e pequena, nem se comparava ao castelos de lady %Nalla%, o que me deixou triste no momento, ao me lembrar dela.
Um sentimento de frustração e revolta começou a tomar conta de mim, comecei a perceber que tudo naquele mundo realmente girava em torno de ter ou não ter dinheiro. Eu não tinha, menos ainda minha família, então como eu poderia ser amigo dela? Respirei fundo, engolindo seco e tentei manter minha atenção no que estava aprendendo, aquele javali seria entregue na Morg House, que pertencia a família Morgan.
Os dias se passaram… Cada vez mais meus pensamentos continuava borbulhando sobre meu futuro e como poderia ver lady %Nalla% novamente. Logo à noite, após me recolher em meu quarto, minha mãe veio para me desejar boa noite, uma rotina que tinha criado todas as noites desde que tinha me adotado.
— Mamãe. — disse assim que ela fechou as cortinas da janela.
— Sim, querido? — ela me olhou com suavidade.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro. — ela caminhou até minha cama e se sentou. — O que deseja saber?
— As pessoas só respeitam aqueles que têm títulos de nobreza ou dinheiro? — perguntei, já sabendo vagamente a resposta.
— Infelizmente sim, querido. — ela pegou em minha mão, seu olhar era de curiosidade. — Por que a pergunta?
— Uma vez o papai disse que nobres jamais eram amigos de pessoas que não eram nobres, mas eles respeitavam os grandes comerciantes que tinham muito dinheiro. — expliquei de forma objetiva.
— Sua curiosidade, tem alguma finalidade? Alguém te maltratou no mercado?
— Não. — respondi desviando meu olhar para a janela. — Hum, é sobre outra coisa.
— Que coisa? — perguntou ela — Sou sua mãe, pode dizer.
— Uma garota, me ajudou quando estava com fome. — contei quase em um sussurro. — Queria que ela fosse minha amiga.
— E ela é uma nobre? — perguntou ela como se estivesse decifrando o real motivo de minha pergunta.
— Querido, não fique triste, você ainda é uma criança e a sua vida ainda não está traçada por completo. — disse ela como palavras de ânimo. — A vida de uma pessoa é como um vale cheio de relevos, alto e baixos, ser for seu destino ser amigo dessa pequena dama, tenho certeza que nada e ninguém impedirá isso.
Ela deu um leve beijo em minha testa e se retirou, deixando a porta fechada e a vela ao lado da minha cama acesa. Deitei mais meu corpo e fiquei olhando para o teto, as palavras positivas de minha doce mãe haviam caído em meu coração como sementes férteis, e meus planos para o futuro seriam a água que regaria minhas esperanças.
Minha vida ainda não estava escrita por completo, isso significava que eu não era obrigado a aceitar a vida simples que meus pais tinham, significava que eu tinha o direito de ser rico assim como os comerciantes importantes. O sentimento de mudança estava vivo em meu coração, se ser rico e respeitado pelos nobres significava poder ser amigo de lady %Nalla%.
No futuro, eu seria o homem mais rico de toda a Inglaterra.
"Você é linda, eu sonhei com você,
Eu me apaixonei por você, mesmo antes de saber seu nome."
- Destiny / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)